quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Vida (des)confortável



No início de um ano, de há muito assinalado como um marco nas transformações globais, lembramos os conselhos de Spencer Johnson sobre como superar a inércia. O desafio de liberar os velhos padrões de percepção e acção e não só conseguir gerir como liderar a mudança contado através de dois personagens principais.

Texto Dina Cristo

Uns resistem, outros adaptam-se. São estas as duas principais reacções à mudança. Os Pigarros, por pressupostos negativos de que a transformação piorará a situação, os Gaguinhos, pelo pensamento positivo de que as alterações os irão beneficiar. Uns focam-se na perda do que até ali era estável, familiar e funcional, outros no ganho de novas oportunidades, experiências e aprendizagens.

Os Pigarros, com medo do desconhecido, mantêm-se instalados, mas assustados, no mesmo lugar. Ignoram ou negam a situação esperando que as coisas mudem e tudo volte a ser como até ali, seguro e confortável. Analisam exageradamente a falta de “queijo” - aquilo de que se necessita ou deseja - e paralisam. Revoltam-se e exigem que se reponha a justiça, que a situação anterior se restabeleça. Apegados ao passado, lamentam-se, deprimem-se e enfraquecem e, nervosos, desvitalizam-se.

Os pensamentos negativos de preocupação, de que voltar ao labirinto - o local onde se procura satisfazer as necessidades - é perigoso, de que pode perder-se e não conseguir encontrar outros “queijos”, aumentam o seu conservadorismo, insegurança e indecisão. Irritado, Pigarro rejeita até provar novo alimento, mesmo que lhe é oferecido. Permanece triste e é cada vez mais ultrapassado. O medo de ter de continuar sozinho só precipita precisamente o isolamento e a solidão.

Ultrapassagem Os Gaguinhos, mais atentos, reconhecem, aceitam, enfrentam e adaptam-se à situação, de forma mais rápida. Mais optimistas, pensam de forma positiva, acreditam que irão encontrar novos e melhores queijos e, mais flexíveis, preparam-se para os procurar. Imaginarem-se a deliciar-se com o novo alimento estimula-os a lançarem-se na aventura de o perseguir e dá-lhes coragem para prosseguir na sua perseguição, apesar da dor de deixar para trás os Pigarros. As suas investidas não só os fortalecem como os entusiasma, mesmo antes da gratificação dos seus desejos: «Por que razão me sinto tão bem? (…) Não tenho Queijo, nem sei para onde vou»(1).

A própria decisão, e depois a mudança em si, trouxe-lhe bem-estar, auto-estima e confiança. A volta ao labirinto tornou-se menos desconfortável e até mais agradável e divertida do que previra. A própria atitude de abertura - à descoberta, à experimentação e à aprendizagem - para além da própria sensação de liberdade, conduziu a um efectivo progresso, melhoramento e desenvolvimento. A concentração nos benefícios e oportunidades do confronto com a novidade tornou o que antes parecia um malefício e uma perda num real ganho.

Com desapego em relação ao passado e confiança no futuro, a mudança torna-se desafiante. O inicial desconsolo provocado pelas alterações traduz-se num regozijo, a instabilidade passa a ser vivida como renovação e as modificações a ser encaradas como um reinício. A mudança é enfrentada como um acontecimento natural e um processo transformador, fonte de comportamentos inovadores. O queijo deixa de ser visto como um direito adquirido, mas algo que, mais tarde ou mais cedo, será certamente deslocado.

O melhor será ficar atento aos sinais disfuncionais e preparar-se, para evitar voltar a permanecer num beco sem saída ou ser surpreendido por novas mexidas. Rir-se de si próprio e dos erros cometidos será um bom recomeço, mas o factor fundamental é ter “vontade própria”, como bem demonstra a história, publicada em 1998, da qual também fazem parte os ratos Fungadela, que sente o cheiro a mudança à distância, e o Correria, que corre imediatamente à procura de uma nova oportunidade.

(1) JOHNSON, Spencer - Quem mexeu no meu queijo? Como lidar com a mudança no seu trabalho e na sua vida. Gestão Plus. 2ª ed., 2010, pág. 49.

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