sábado, 21 de maio de 2011

Rádiotelefonia de sessenta I



Festejamos o Dia Mundial da Comunicação com a publicação da segunda parte de um ensaio, escrito há 14 anos, sobre a telefonia portuguesa. Depois da primeira parte, introdutória, sobre 1961, eis o retrato radiofónico de toda a década de sessenta.

Texto Dina Cristo

Enfrentando um novo e poderoso concorrente, a televisão, para onde se começou a canalizar parte da publicidade, a produção radiofónica ressentiu-se primeiro, renovando-se, depois.
Durante o decénio 1958-1968, transmitiu alguns dos programas de grande êxito vindos dos anos anteriores, como os folhetins radiofónicos, os programas de discos pedidos, os serões para trabalhadores, o humor dos Parodiantes de Lisboa, os relatos de futebol, as transmissões de fados e guitarradas, e a rádio comercial, estrategicamente baseada nos lucros publicitários.
A rádio absorveu o passado e inovou. As novas condições técnicas, como o desenvolvimento da Frequência Modulada (FM), do rádio portátil, do auto-rádio, da estereofonia, criaram condições para a sua modernização. Alterou-se o conteúdo, a forma e captaram-se novos ouvintes. Apareceram os primeiros indícios de uma nova forma de fazer rádio, mais jovem, mais dinâmica e mais arejada.
A pouco e pouco, a rádio deixou cada vez menos de falar, substituindo os diálogos entre os locutores pela música gravada em disco. Por sinal, maioritariamente de artistas internacionais. A rádio abriu a porta à música pop, à audiência juvenil, e deixou-se entrar pela noite dentro. Dali em diante, a rádio e a madrugada caminharam juntas, cada vez mais acompanhadas pelo crescente interesse pela cobertura dos acontecimentos anódinos. O seu discurso, umas vezes por outra, tornou-se mais dinâmico e ritmado.
Rádio ganha vida
Alguns noticiaristas destacaram-se. Luís Filipe Costa, no programa “Meia-Noite”, no RCP, inaugurou o jornalismo radiofónico. Num apontamento de “Radiocrítica”, Jorge Guerra, fazendo uma análise geral dos serviços de informação das principais estações, anotou: «Nos noticiários são francamente animadores os sintomas de uma maior síntese e tratamento das notícias. Começa-se a pensar em termos radiofónicos quando se redige uma notícia recebida por telex das agências noticiosas, o que não deixa de ser consolador nos tempos que correm»(1).
Mais adequados à linguagem radiofónica, e em maior número – em 1966, a EN, Lisboa 1, disponibilizava diariamente 11 serviços noticiosos, e o RCP, emissor da Parede, 17 (2) – a cobertura informativa ganhou terreno nos próprios programas, como o “Diário do Ar” ou o “PBX”.
Durante este período, passaram pela presidência da Direcção da EN António D´Eça de Queiroz (até 1959), Jaime Ferreira (até 1963) e Sollari Allegro (até 1969). Em 1968, «Há muito menos entraves ao trabalho dos jornalistas na nossa estação oficial do que noutros emissores particulares, nomeadamente no Rádio Clube Português, onde todas as declarações de funcionários e colaboradores têm de ser submetidas a aprovação superior da empresa. A Emissora Nacional, ao contrário, tem confiança nos seus funcionários e deixa-os falar sem peias nem medos»(3), escrevia o repórter da “Rádio & Televisão” (R&T).
Não admirava, já que a maior parte dos funcionários da EN vinham de concursos da Secretariado Nacional da Informação. Por outro lado, nas emissoras particulares, em especial no RCP, verificou-se, no final dos anos 60, uma dança de cadeiras em vários programas, diversas demissões, despedimentos e algumas denúncias. «São as limitações da própria estação. Por lá mesmo que se pretenda fazer qualquer coisa, digamos, arejada ou mais ou menos diferente, não se consegue. Por lá só é possível, actualmente, fazer rádio, “com visto”»(4), denunciava Manuel Seleiro à R&T.
Ao longo da década de 60 o país desenvolveu as suas infra-estruturas radiofónicas. Assim, as 57 estações emissoras existentes em 1968 passaram para 67 um ano depois (em 1969) atingindo as 73, já em 1970. Quanto aos 62 emissores que existiam em 1961 (representando uma potência total de 1732 kw), aumentaram para os 106, em 1968, alcançaram os 142, em 1969, chegando a 1970 com 151 postos emissores. A duração mensal das emissões estatais (com apenas uma estação emissora, a EN) era de 366 horas, em 1968, e de 380, um ano mais tarde, em 1969.
Ao longo dos anos, o número de receptores licenciados também evolui. De 848 mil registados em 1961 (equivalente a 95 por mil habitantes) existiam, sete anos mais tarde, em 1968, 1397 mi aparelhos (147 por mil habitantes) alcançando os 1405,6 mil em 1969, embora descesse algumas décimas, em 1970, para 1405,1 mil (163 por mil habitantes).
Quanto ao preço de um aparelho de rádio, um modelo “Fidélio” (para todas as ondas e FM, em caixa de madeira) atingia, em 1960, 2.950$00. Em 1965, um modelo “Parati” (portátil a pilhas, com ondas curtas, médias, longas e marítimas) custava 1.690$00.

*(1) Rádio & Televisão (R&T) 21/12/1968, pág.15. (2) Idem, 21/05/1966, pág.10. (3) Idem, 20/07/1968, pág. 4. (4) Idem, 4/3/1967, pág.41.

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