quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Arriscar


Às portas da comemoração dos 170 anos do nascimento de Teófilo Braga, presidente da República que se dedicou ao estudo da literatura, focamo-nos num livro* de contos.
Texto Dina Cristo
Era uma vez um mocho, que não conseguia dizer “who”, um pato que não sabia dizer “quac”, um pássaro que havia sempre tentado ser outro, uma borboleta e Dina, uma delicada cadela, habituada ao aconchego mas também às limitações da sua dona, preocupada e insegura.
Um certo dia a cadelinha sai do quarto, onde normalmente vivia, e, bem longe dali, depara-se com um mundo novo, pleno de novas experiências; a borboleta decide desfrutar da vida intensamente; o pássaro percebe o quanto era bonito, especial e único como cuco e o mocho e o pato, que haviam sido expulsos da sua comunidade, descobrem que não eram as palavras desejadas que os faziam ser quem eram.
Os contos sugerem a importância de ultrapassar o medo, a dúvida, a preocupação, a submissão ao julgamento (próprio e alheio) que dificulta a mudança em direcção à confiança, ao amor, à auto-estima e à liberdade de expressão. Para encetar este círculo virtuoso é necessário saber arriscar o suficiente e atrever a fazer ou dizer algo novo, inovador ou diferente do habitual.
O ser humano é como uma garrafa, que se enche de amor ou se preenche de medo. Quanto mais espaço ocupar a emoção receosa, o ter e fazer coisas, menos espaço sobra para o sentimento amoroso, menos disponível está para ser e amar-se a si mesmo e aos outros, já que “quando alguém se ama plenamente a si próprio, também pode amar toda a gente”.
Para cada um se encher de amor e gostar de si mesmo, começar a confiar no seu ser mais profundo e na sua grandeza interior, assimilar a realidade também com o coração e se realizar, pode começar por perguntar-se sobre o que é o pior que lhe pod(er)ia acontecer. Superar o medo aumenta a estima, a preciação e a valorização - é o esforço necessário para se vencer, conquistar a si mesmo e vislumbrar o reino amoroso.
Em vez de fugir, evadir-se ou escapar-se, através da inconsciência, por exemplo, é fundamental enfrentar e, assim, aprender com a experiência e crescer. A pessoa pode, então, acreditar que, se em alguma altura do percurso se perder, a voz interior indicará (um)a saída e, assim, começar a descobrir que, além do medo e da dúvida, a alegria também faz parte da vida; viver é, além de "fazer" e "ter", também "ser" e o medo é nada mais do que o avesso do amor.
* FISHER, Robert; KELLY, Beth – O mocho que não conseguia piar. Pergaminho. 2004.

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