quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Jornalismo de interesse público



Na véspera da litúrgia relativa ao patrono dos Jornalistas, S. Francisco de Sales, recuperamos o conceito de jornalismo público*, a assinalar vinte anos.

Texto e fotografia Dina Cristo
No jornalismo tradicional os profissionais controlavam todo o processo de produção de informação, desde a recolha à sua publicação. Aos receptores era dada apenas a possibilidade de reagirem, escrevendo, “a posteriori”, uma carta ao director. Perante o afastamento dos leitores e a crise de imprensa, nasceu nos EUA, em 1993, uma nova proposta de exercício do jornalismo: o jornalismo público que passa a liderar a mudança de relacionamento entre profissionais e audiência.
Com o objectivo de promover o aumento de vendas e recuperar a ligação com os leitores, o jornalismo público visa sobretudo envolvê-los nos assuntos públicos. Já que a internet havia retirado efectivamente o privilégio do fabrico do produto informativo aos profissionais, estes aceitaram oferecer aos leitores, telespectadores, ouvintes e usuários um papel na participação na elaboração dos conteúdos das notícias. Desde então o jornalismo público tem vindo a experimentar parcerias privadas na recolha e produção de notícias, embora reserve para si a publicação.
São três os seus principais objectivos. Ligar-se aos problemas das pessoas (comuns), dando-lhes a possibilidade de se expressarem sobre assuntos públicos, o que implica a noção de pertença, partilha de experiências, interacção, vínculo e espaço social, ultrapassando o lugar geográfico - a comunidade. Envolver as pessoas na contribuição para os assuntos públicos, mantendo-se informadas sobre a agenda pública e política, assumindo-se enquanto cidadãos, o que implica vontade, respeito, informação e igualdade de oportunidades de expressão - a cidadania. Debater e discutir os temas, opções, perspectivas, posições e informações em agenda, procurar soluções e decidir de forma inteligente - a deliberação.
Esta reconexão com o público tem-se concretizado sobretudo em três modelos: o jornalismo interactivo, em que o público pode participar mas apenas após a publicação, ao nível informativo, no conteúdo – através de uma leitura não linear e de uma escolha mais complexa – e ao nível comunicativo, na relação interpessoal – através do uso de correio electrónico, espaços de debate,  discussão e comentário. O jornalismo participativo em que os usuários recolhem e enviam conteúdos noticiosos, sobretudo fotografias, ao nível hiperlocal e de forma voluntária, como ocorreu no âmbito do Tsunami, em 2004. O jornalismo de cidadão em que os cidadãos realizam todo o processo produtivo, desde a recolha à publicação, passando pela produção e selecção, desde as fontes ao enquadramento noticioso. É o mais envolvente de todos, o que mais se liga às comunidades de leitores e o que melhor se tem desenvolvido. Geralmente exercido através de blogues, os primeiros a reportar, necessitam dos “media” tradicionais para exercerem a sua influencia e se tornarem (re)conhecidos, afirma Joyce Nip. São uma forma de jornalismo legítima desde que contenham entrevistas originais, reportagens e análise de acontecimentos públicos. Um dos maiores e melhores exemplos é o Indymedia, do Independent Media Center.
Mas até que ponto, questiona a autora, estes modelos de jornalismo têm contribuído para os fins do jornalismo público? No caso do jornalismo on line, por exemplo, as potencialidades, como a interactividade, não têm sido suficientemente aplicadas, pelo contrário a reprodução de produtos existentes nos media off line revelou-se frequente.
Desaproveitamento
Não bastam existir canais de comunicação com o público, caso dos endereços electrónicos, links, comentários a posts, é preciso que sejam usados, o que não se verifica em número suficiente, como no caso da falta de respostas aos @mails por parte dos profissionais. No caso dos arquivos, notícias personalizadas, sondagens e hiperligações facilitam o engajamento do público nos assuntos comunitários, contudo a sua optimização está aquém do necessário. Para o estímulo à conversação, com comunicação (a)síncrona, é imprescindível a administração e o agendamento dos assuntos para debate.
Apesar das finalidades de estreitamento da relação com o público, o jornalismo público, na prática, tem-se mostrado débil. Os blogues com mais sucesso reportam sobretudo as preocupações da elite; os dos jornalistas são os mais credíveis e confiáveis pelos “media” de mainstream que os citam e publicam e com os quais os próprios profissionais se relacionam; as hiperligações para websites oficias são menos comuns tal como é rara a oportunidade de conversação entre participantes; nos chats a tendência é convidar pessoas já conhecidas; a ligação entre as comunidades on line e off line está por fazer e a esfera pública on line, principal plataforma da prática dos modelos interactivo, participativo e de cidadão, não só também exclui como o faz de forma ainda mais extrema.
Para além das dificuldades de recursos (financeiros) e literacia (tecnológica) de vários membros das comunidades acresce o excessivo controlo administrativo, incluindo a pré-censura, e uma forma selectiva dos temas em debate insuficientemente democrática para o nível de deliberação pública pretendido.
Se a Web trouxe ferramentas inovadoras e forneceu novas oportunidades de concretização dos objectivos do jornalismo público também aumentou a complexidade das tarefas. Ainda assim, os seus princípios no âmbito do fornecimento de uma informação completa e na representação de todos os pontos de vista, na aceitação de formas diferentes de construir histórias, incluindo composições, enquadramentos e acções alternativas, com vista à compreensão dos temas, a ênfase nas possibilidades de soluções e na agenda pública, para além da estritamente política e mediática, são valiosos contributos para o desenvolvimento da actividade jornalística. 
De uma audiência tradicionalmente ignorada, onde apenas eram ouvidas as fontes especializadas ou governamentais, esta passou a integrar o próprio processo de fabrico, em diferentes graus de participação e actividade. Entrámos na segunda fase do jornalismo público, com a audiência a tomar a iniciativa e a ultrapassar as acções dos próprios meios de comunicação social.
Apesar das potencialidades da Web estarem sub-aproveitadas, a verdade é que com a facilidade da auto-publicação e a popularização dos blogues, a maior parte dos profissionais acredita que o futuro da imprensa depende da interactividade com o público ao que o autor acrescenta vantagens de um trabalho em rede que beneficiaria ambos, cidadãos e profissionais.
O envolvimento das comunidades, previsto e pretendido pelo jornalismo público há duas décadas, foi superado pela própria dinâmica tecnológica e motivação do público, cada vez mais envolvido na procura, realização e discussão dos assuntos comunitários. O objectivo de ir para além da mera informação, os dados, e atingir a comunicação, a relação com os receptores, foi promovido pelas próprias circunstâncias e condições técnicas.
Contudo, ainda assim, de uma forma geral, é o profissional que exerce o “gatekeeping”, é ele que tem o poder de escolher, editar e publicar os conteúdos informativos. Talvez esta resistência a perder o controlo do monopólio da (definição da) informação explique a actual controvérsia e enfraquecimento do jornalismo público, com a anterior directora do Pew Center for Civic Journalism, Jan Schaffer, a fundar projectos no âmbito da cidadania.

* Seguimos o artigo de NIP, Joyce – Exploring the second phase of public journalism in Journalism Studies, vol.7, nº2, 2006, pág.212-236.

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