quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Vida espiritual



Em época natalícia folheamos um dos Tratados inseridos no “Livro dos Preceitos de Ouro”, escrito em Sânscrito, e editado no final do Séc.XIX em Inglaterra.


Texto Dina Cristo

Entre os principais ensinamentos estão matar a ambição, a fome de crescimento, todo o sentido de separação, o desejo de sensação, de conforto e o próprio desejo de viver. «O Caminho e a verdade vêm em primeiro lugar, em seguida vem a vida», indica Mabel Collins neste livro, um clássico da literatura espiritual oriental, editado em Londres em 1885.

«Cada homem é para si próprio absolutamente o caminho, a verdade e a vida», depois de ter dominado a personalidade. «Uma vez que tenha passado pela tormenta e atingido a paz, então é sempre possível aprender», afirma a autora que aconselha: «Procura pela flor que desabrocha durante o silêncio que se segue à tormenta (…)», altura em que a percepção desperta.

A autora britânica ensina a desejar somente o que está dentro e além de cada um e é inalcançável. Fixar os sentidos no invisível e no inaudível é a única cura para o desejo, assegura. Mabel Collins orienta a desejar ardentemente o poder e fervorosamente a paz e quanto a posses que estas sejam acima de tudo para o Eu, a Alma Pura. «Deseja apenas plantar a semente do fruto que alimentará o mundo», afirma.

Dos ensinamentos fazem parte a observação de tudo ao redor de cada um, incluindo as sensações. Há que ter confiança, abrir a alma, auxiliar os outros, ajudar as pessoas que fazem o bem (em vez de censurar ou afastar-se do mal), controlar e usar o eu, a personalidade, um instrumento de experiência e experimentação sujeito ao erro.

Há que combinar um pouco de leitura ou de escuta com muita meditação, cientes de que a voz mental apenas é ouvida no plano em que a mente actua, que ao conservar os olhos fixos na pequena luz ela crescerá, que é no centro, na Alma, que reside a esperança e o amor e que é no silêncio que se encontra um momento de satisfação, de paz e de força.

Entre as verdades essenciais, como a alma e o princípio que dá a vida ser imortal – demonstrado por Immnuel Kant – cada pessoa é o seu próprio legislador. E um dos conselhos deixados pela autora, inspirada por Hilarion, que pertenceu ao movimento gnóstico e neoplatónico, é mesmo estudar as leis, entre as quais a da Graça.

Entre as regras transmitidas está procurar o Caminho, recolhendo-se para o interior e avançando ousadamente para o exterior, sabendo que para cada temperamento há uma estrada (mais) adequada. Depois de iniciada não há mais que ceder às seduções dos sentidos ou então experimentar até não mais ser afectado por elas.

É a dor, em primeiro lugar, e depois a sua superação que leva os seres humanos a ouvir a alma, a fazer silêncio e a encontrar a paz. «Assim como o indivíduo tem voz, aquilo em que ele existe também tem voz. A própria vida tem uma fala e nunca está silenciosa», escreveu a autora desta obra cuja segunda parte é dedicada apenas a discípulos.

Carlos Cardoso Aveline, teósofo, faz, no seu website uma análise e interpretação do Tratado para se ler com os olhos do espírito: « “Luz no Caminho” [1] tem um estilo paradoxal, e fala mais à alma que ao cérebro. Contém palavras, mas está livre delas. Leva o leitor a um plano da realidade em que a compreensão está além da linguagem verbal e transcende as suas limitações. A obra fala aos dois hemisférios do cérebro humano, o lógico e o intuitivo. Dá conselhos aparentemente contraditórios, mas isto se deve ao fato de que a natureza do ser humano é, realmente, dual».

(1) “Luz no Caminho”, Mabel Collins, edição de bolso com 110 pp., Editora Teosófica, Brasília, 1999. Há uma edição da Editora Pensamento, com 85 pp.

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