quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Os dias da rádio



No dia do III Congresso da Rádio evocamo-la através do filme que Woody Allen realizou há 25 anos, num momento em que se exibe nas salas de cinema a última película do cineasta.

Texto Tiago Mota fotografia Dina Cristo


Se, hoje, ao entrarmos no nosso veículo, automaticamente ligamos a rádio e sintonizamos numa estação que habitualmente transmite música agradável ao nosso refinado ouvido, apenas como forma de falsa companhia e distracção, outrora a coisa foi diferente, note-se, bastante diferente.


Imaginemo-nos nascidos há mais de meio século atrás, numa era em que possuir algo que hoje nos é tão banal como um rádio – aqueles aparelhozinhos que, por vezes, acompanham os produtos alimentares em forma de brinde – era, então, um luxo. As donas de casa, essas, tinham o privilégio de poder ouvir, durante todo o dia, as galanteadoras vozes que apresentavam as canções românticas e que as deixavam suspirantes e apaixonadas, seguidas das dramáticas novelas, que julgavam prováveis de elas próprias vivenciar. Os homens, pilares da família que diziam trabalhar que nem cães, ansiavam por chegar a casa e sentar-se no seu viril cadeirão, pegar no tardio jornal do dia e escutar a telefonia. Já os catraios, depois de um contrariado dia de aulas, não podiam ver a hora de largar a mochila no tapete da sala de jantar e ajoelhar-se frente ao grande e requintado aparelho, ouvindo serem relatadas as mais recentes aventuras dos bravos super-heróis e dos cowboys do oeste, nas suas épicas cavalgadas recreadas com cocos num estúdio de rádio.


A música sempre foi uma das componentes mais poderosas da rádio, se não a mais. Tudo nos conquistava, fossem as agradáveis baladas de fácil audição, fossem os orelhudos jingles. E a fórmula era tão eficaz que ainda hoje se repete e repete e repete. Mas tínhamos de ser selectivos, não nos chegasse aos ouvidos aquela música do demónio, recheada de mensagens subliminares, que os estrangeiros para cá trouxeram em jeito de rebelião.

Éramos gente ingénua e facilmente impressionável. Não sentíamos a necessidade de confirmar a veracidade do que se dizia e era dito, do que se escondia por detrás de tais amigáveis vozes. Conhecer uma destas grandes estrelas da rádio era quase como conhecer uma alma pura e divina, por mais ridícula que fosse, por menos cintilante que uma estrela devesse, de facto, ser. E o mais estranho é que, apesar de tudo, ainda hoje assim somos, por muito que o tentemos negar. Mas sabíamos também que ouvir a telefonia era quase como ouvir o que o demónio tinha para falar, e esse sentimento de culpa tornava o desafio ainda mais aliciante. Ouvir a rádio nessa época era um pouco como fumar e beber nos nossos dias, sabemos que nos faz mal, por isso consumimo-lo só de vez em quando.


É fácil apelidar a rádio como a banda sonora das nossas vidas, mas o certo é que outrora assim foi. E porque o Homem de extremos se faz, houve um tempo em que nos reuníamos em família para o ritual de ouvir a telefonia, enquanto que, hoje, apenas recorremos à rádio quando a solidão nos assombra, lembrando-nos que há quem esteja lá por nós, vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana, à distância de uma simples vontade.

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