quarta-feira, 11 de julho de 2012

Revolução científica


Foi editada, há 25 anos, a oração de sapiência de Boaventura de Sousa Santos, na abertura do ano lectivo, em Coimbra*. Nela, o sociólogo apresenta a ordem da ciência pós-moderna, holística, que resgata o sujeito e supera o materialismo. Vamos lembrá-la



Texto Dina Cristo

A crise do paradigma dominante e hegemónico da ciência, nomeadamente o positivismo e o mecanicismo, é não só profunda como irreversível. A noção do mundo enquanto máquina, por um lado, e de que só é possível conhecer o que a experiência e observação podem verificar, por outro, estão em fim de ciclo. Por seu lado, emerge uma nova ordem de síntese, designadamente entre as ciências naturais e sociais.

O paradigma dominante assenta no conhecimento da natureza, com fins utilitaristas: para melhor a prever, dominar, manipular e explorar. Da sua análise geométrica decorre o lugar central da matemática, da quantificação, do rigor, da legalidade e da regularidade. Desta sobressai a importância do conhecimento explicativo (de como funciona) e nomotético, que atingiu as próprias ciências sociais, como quando se tentaram descobrir as leis da “física social”.

Com este modelo funcional e activo, para transformação da natureza, objectivo e distante, com a intenção de lhe determinar as causas, a ciência não só restringiu os objectos como os dividiu e se especializou excessivamente. Ao espartilhar a realidade, fragmentar as disciplinas, parcelarizar o conhecimento e policiar as suas fronteiras limitou a tal ponto a “árvore” que o resultado foi a ignorância (especializada, ao nível dos cientistas, e generalizada, ao nível do cidadão comum), o desconhecimento.

A ciência moderna operacionalizou-se, uniformizou-se, industrializou-se, estratificou-se, proletarizou os cientistas e comprometeu-se com o poder, que lhe define as prioridades. À procura da quantidade, perdeu informação, dadas as partes extirpadas em laboratório, e empobreceu, dada a entropia. O essencial, a captação das relações entre os objectos, as perguntas simples, a virtude e o contributo para a felicidade humana, escapou-lhe. Limitou-se aos conceitos de “espaço”, “tempo”, “matéria” e “número”.

De tal forma orientada unicamente para o objecto que se fechou, alienou e, preconceituosa e arrogante, se tornou idealista, no pior sentido, dualista, determinista, isolada, distorcida, despersonalizada e intolerante. A ciência moderna tornou-se «(…) um conhecimento mínimo que fecha as portas a muitos outros saberes sobre o mundo» . Segundo o autor, ela não é a única nem sequer a melhor explicação da realidade, pois há outras diferentes, como a metafísica, a religião, a astrologia, a arte ou a poesia. Pressupostos metafísicos, sistemas de crenças e juízos de valor que, correm, entretanto, nos não-ditos dos trabalhos científicos.

Contudo, há sinais de que quer o sujeito quer mesmo o divino estão de regresso. A mecânica quântica provou que é impossível observar ou medir sem que o sujeito interfira ou altere o objecto, que o acto de conhecer e o seu resultado são inseparáveis. A teoria da “ordem implicada” de David Bohm e o Tao da Física de Fritjof Capra são dois entre diversos exemplos dados pelo autor da emergência de um novo paradigma.

Na teoria da “ordem implícita” está presente o paradigma da auto-organização, auto-determinação ou auto-consciência, o que enfatiza a interdependência entre mente e matéria, reflexos um dos outro, «(…) duas projecções, mutuamente envolventes, de uma realidade mais alta que não é nem matéria nem consciência» . É o (re)surgimento da importância da consciência ao nível do conhecimento e mesmo do objecto.

Este reaparecimento do sujeito (também na veste do próprio objecto) está presente na dimensão psíquica da natureza, nas noções de uma mente imanente e colectiva, mais ampla, de que a humana é apenas uma parte, que a alonga para fora do sujeito (com o interesse pelo “inconsciente colectivo” de Jung), depois de Freud a ter aprofundado para dentro. Uma vocação integral e sintética, presente no encontro entre a física contemporânea e o misticismo oriental, de Fritjof Capra, por exemplo.

Não só os novos conceitos de “consciência” e “liberdade” mas também de “sistema”, “estrutura”, “modelo” ou “processo” passam a ter relevância. Entende-se que há outras formas de rigor, alternativo, que a totalidade do real não se reduz à soma das suas partes, num conhecimento mais holístico, que supera a dicotomia, por exemplo, entre ciências naturais e sociais. Ao mesmo tempo que as ciências naturais se aproximam das sociais (os fenómenos naturais são estudados como se fossem sociais) estas também se reconciliam com as ciências humanas, como a Filosofia, a História ou a Teologia.

A ciência pós-moderna não só coloca a pessoa no centro do conhecimento como põe a natureza no centro da pessoa (nomeadamente com pressupostos biológicos do comportamento humano) e, numa era digital, é analógica – vê o mundo-mente, também como uma autobiografia, um texto, um palco ou um jogo. A ciência pós-moderna promove a “situação comunicativa” - o encontro, a união, a fusão, o diálogo, a (inter)relação - a interdependência. Ela amplia o seu objecto, à procura de novas “interfaces”, traduz e importa conceitos e teorias, concebe através da imaginação e tolera a diversidade e a fusão de estilos discursivos, uma maior personalização e uma pluralidade de métodos.

Ela é total, não no sentido da imposição, mas do universalismo, receptividade e indivisibilidade; a sua fragmentação é apenas temática. Este novo conhecimento científico coloca a ênfase no agente (quem) e na finalidade (para quê), em vez do como (funciona). É um conhecimento compreensivo, estético e íntimo, cuja qualidade se afere pela satisfação pessoal que dá a quem o partilha ou a quem a ele acede; qualidade que lhe restitui riqueza informativa, a captação do silêncio entre cada pergunta.

Em vez de pretender controlar o mundo, como o faz a ciência moderna, a pós-moderna contempla- o e enquanto resultado da sua própria criação científica; restitui à natureza propriedades expropriadas pelo materialismo, dá-lhe dignidade e ensina a viver, com prudência, (uma das principais virtudes, segundo Emanuel Kant) traduzindo num senso comum, transparente, que capta a profundidade horizontal das relações entre as pessoas (e as coisas).

Depois das mudanças científicas do séc.XVI, da ideia de progresso do séc. XVIII e da emergência das ciências sociais com a euforia cientista do séc.XIX, eis a nova revolução científica: do positivismo, símbolo da aversão à reflexão filosófica, para o negativismo, tolerante à metafísica dos valores humanos e religiosos. Um momento de reunir o que antes se separou, sujeito e objecto, aproximar o que se distanciou, consciência e matéria, relacionando, integrando e reabilitando sobretudo a matéria negra, negativa, subjectiva e invisível da realidade.

Ao restaurar a unidade do orgânico e inorgânico, da alma e do corpo, a ciência pós-moderna unifica o que a ciência moderna uniformizou e é ao reconfigurar todas as formas de conhecimento que atinge a verdadeira racionalidade

*Oração de sapiência na abertura solene das aulas na Universidade de Coimbra, no ano lectivo de 1985/6. (1) SANTOS, Boaventura Sousa – Um discurso sobre as ciências. Edições Afrontamento. 16ª ed. 2010. (2) Idem, pág. 39.

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