quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Rito amoroso


A dois passos do Dia dos Namorados, lembramos Patrick Traube e a defesa* da boa distância, com tempo para si mesmo - a via do meio para uma relação nutritiva e gratificante, entre a solidão gelada, com demasiada separação, e a fusão aniquiladora, excessivamente próxima.

Texto Dina Cristo


O espaço ideal numa ligação humana e amorosa dá direito à reserva de tempo e área privada, a pedir com precisão e a convidar o outro a solicitar também, a não responder (imediatamente) ou justificar a nossa resposta e conduta, quando tal não nos é solicitado.

A relação destruidora é vazia, doentia, manipuladora e entediante. É um ritual, em que o gesto convencional está vazio de sentido e de valor pessoal; contém jogos manipulatórios, com estratégias para extorquir algo de alguém, destruindo a pessoa. É um passatempo com pouco sentido pessoal, uma actividade, um labor, trabalho alienante. É uma simbiose, o apogeu do jogo neurótico, a apropriação exigente, fusão aniquiladora, devoramento e dependência máxima, canibalismo amoroso, em que alguém se alimenta do outro. Implica uma retirada, medrosa e egoísta, uma rejeição.

Uma relação criativa é, pelo contrário, um rito, um ritual repleto de sentido e valor subjectivo, vivido plena, intensa, consciente e totalmente em que o tempo é saboreado. É um jogo lúdico que dá prazer e emoção. É uma operação, uma acção que produz uma obra, numa relação estreita entre o ser e o fazer e que tem o fim em si mesma. Aqui há intimidade, solicitude, atenção, respeito, tacto – capacidade de tocar o outro – e ter prazer na sua presença. Implica um retiro, uma proximidade sem medo consigo próprio, recentrando-se e revitalizando-se.


*TRAUBE, Patrick – Intimidade. Ed. Sempre-em-pé. 2004.








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