quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Saber amar-se


Nasce da auto-consciência e conduz-nos até à confiança. É a auto-estima, o milagre da aceitação, a âncora segura nos momentos difíceis.





Texto e desenho* Dina Cristo



No livro “Goste de si”(1), Luís Martins Simões afirma que a falta de amor é a origem de todos os sintomas. É sabido que só depois de alguém ser capaz de se amar a si próprio é capaz de amar os outros. Enquanto gostar é um sentimento positivo e doce em relação às forças de alguém, o seu lado solar, amar “é olhar para o outro e aceitá-lo como ele é, nas suas fragilidades e nas suas forças”, ou seja, “amar é não julgar”, é aceitar-se a si mesmo e aos outros, só possível com auto-estima. Bem diferente é o narcisismo que é gostar apenas do nosso lado mais brilhante.

A auto-estima é amar, aceitar as nossas forças como as nossas fragilidades, o nosso lado lunar, aquilo de que não gostamos (em nós e nos outros), como se fora uma planta daninha. “Ter auto-estima é aceitar-se no caminho da evolução e não procurar a perfeição”, afirma o autor; enquanto o critério perfeccionista culpa pelo passado, no evolucionista há uma superação contínua e voluntária.

Ter auto-estima é fazer as coisas de acordo com os nossos valores, aquilo em que cremos ser verdade, (dever) ser bom e melhor para nós. É, portanto, decidir por nós próprios e para nós, de acordo com aquilo em que acreditamos e pelo sentimento que temos e não em função do que os outros irão pensar ou mesmo sentir. É viver e não ser vivido pelos outros. É fazer um balanço e decidir pelo que será mais agradável para nós, é sermos fiéis à nossa essência e individualidade. É decidir livre, voluntária e autonomamente: “Só devemos fazer o que achamos que é bom para nós. O que é pensado por nós e não inculcado pelos outros”. É descobrir aquilo que faz sentido para nós. É realizarmos e vivermos o nosso próprio filme. Só a nós temos de prestar contas.

É ser livre, é estar desapegado, é ser independente e desfrutar; é ter como pressuposto que a liberdade dos outros acaba onde começa a nossa; é ter o canal limpo, permitindo a fluidez, ou seja, receber coisas e pessoas boas. O apego vem da falta de amor, da carência, que provoca o medo de perder o amor do outro, o que nos torna dependentes, escravizados e stressados, a proteger as “nossas” coisas e pessoas; tal torna-se posse e adultera a nossa liberdade: pedinchamos que gostem de nós, que nos aprovem.

O amor por nós próprios, diz o autor, é também, o princípio de tudo. Há que tratar, primeiro, de nós e pode começar-se pelo auto-perdão. Se não perdoarmos, estamos a resistir, focalizamos e as fragilidades crescem; pelo contrário, se as aceitamos, como os sentimentos infelizes que nos magoam, elas “desaparecem”, diminuem. Há, assim, que aceitar a tristeza, o conflito, a morte, o desequilíbrio, o medo, por um lado, e saber desfrutar os sentimentos felizes, por outro. Há, enfim, que amar o que pensamos e sentimos.

A humildade é amar-se integralmente, é reconhecer-se que se está a evoluir ao seu próprio ritmo e não reclamar a perfeição. “Ser humilde é decidir seguir um caminho sem o querer impor aos outros”. Implica, por isso, respeito pela autoridade, que é a habilidade de se fazer crescer a si mesmo. Um autor com autoridade, por exemplo, produz por amor. Quem tem pouca autoridade esconde-se atrás do poder.

A auto-estima é o princípio de tudo. A falta de amor próprio, o fim. Entretanto, o sexo compensa a falta de amor e, avisa o autor, há quem continue a comer malaguetas mesmo depois de saber que não são bombons.


Vera Faria Leal, no seu livrinho(2), explica  que a auto-estima é ter direito a escolher e preferir o melhor para nós (viver a nossa melhor versão), ser a nossa prioridade (o protagonista do nosso filme) e íntimos de nós mesmos, cuidar e estar disponíveis para nós próprios. É estar inteiro, consciente e (atento ao) presente, celebrar o aqui e agora, entregar à vida, investir nela, desfrutá-la e vivê-la intensamente, dar o nosso melhor, escutar os sinais exteriores, ser receptivo à mudança e aceitar os (re)fluxos.

Para nos estimarmos há que não ter medo de errar, aprender com os erros, corrigir os necessários; há que nos aceitar, agradecer, perdoar, aprovar, respeitar, confiar, honrar e sermos nós mesmos. A auto-estima passa por ser assertivo, expressar o que se pensa/sente, dizer “não” (quando todo o nosso ser o diz), pedir, ceder, partilhar, ter pensamentos e ideias positivas (de gratidão e confiança) e valorizar os bons acontecimentos.

Para desenvolver a auto-estima, há que silenciar, meditar, respirar fundo, relaxar, equilibrar a actividade e o repouso, não adiar as actividades, gostar do que fazemos, exercitar e escutar o nosso corpo e, por fim, cultivar o humor, os nossos projectos… os sonhos.

* Anos 70
(1) SIMÕES, Luís Martins - Goste de si, Ed. Pergaminho, 7ª impressão, 2005. (2) LEAL, Vera Faria - Livrinho da auto-estima, Arteplural, 2006.

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