sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Rádiotelefonia de sessenta V



Nesta quinta parte, publicamos alguns excertos dos "Editoriais e notas do dia" de João Patrício aos microfones da Emissora Nacional, numa altura de crescentes contestações, nas colónias, academias ou oposição.




Texto e fotografia Dina Cristo



Após a tomada de posse de Marcello Caetano, João Patrício abordou o seu discurso-programa, no Ministério das Corporações, na Assembleia Nacional, em S. Bento, bem como os ecos da sua alocução sobre Salazar na imprensa estrangeira; a tomada de posse do novo chefe do distrito de Beja, de Braga, do Secretário de Estado da Informação, do Governador Civil de Lisboa; o discurso de Franco Nogueira na NATO, no Palácio das Necessidades, a deslocação de Américo Tomás ao Porto, o seu aniversário natalício, para além das homenagens e da questão ultramarina.



No dia cinco de Novembro, um comentário, com o título “Discussão vã”, contestava a hipótese de abandono das colónias: “Se não tivesse surgido a guerra no Ultramar viveríamos melhor? De acordo. Mas existindo essa insofismável realidade – “factor dominante de todos os problemas” -, realidade imposta pela maldade e pela cobiça alheias, pior viveríamos se lhe voltássemos as costas. Perderíamos a honra, que é património moral inalienável de nossos avós, de nossos filhos e de nossos netos; perderíamos a fazenda que nos fugiria da mão, e abandonaríamos as populações de além-mar, que são tão portuguesas como as da Metrópole”1.



A propósito da carta enviada por Paulo VI à IV Assembleia Nacional da União da Imprensa Católica Italiana, sobre a verdade, a isenção e também os limites de liberdade de imprensa, João Patrício comentou aos microfones da EN: “Seja em que plano for, quem servir a verdade – que um alto espírito disse um dia ter esta apenas vergonha de se ver oculta – nunca terá de arrepender-se moralmente. Moralmente, no foro íntimo, porque o serviço de verdade como qualquer outro, não é de graça: paga-se, e quantas vezes a um preço de usura. Mas que bendito, que inapreciável preço, esse, o de servir a verdade! Também a mentira, ao invés, apresenta a sua conta a quem optar por colaborar com ela. Simplesmente, o preço aqui é duplamente onerado com os juros do mal que provoca, por um lado, e, cedo ou tarde, com o desmascarar do seu embuste e com o rebate de consciência pelos prejuízos causados, por outro lado”2.



Contestação



Sobre a comunicação de Marcello Caetano na Assembleia Nacional, João Patrício referiu: “(…) Em linhas gerais, a comunicação do Presidente do Conselho ressalva e reforça as realidades em que se enquadra a política portuguesa: realidade da defesa intransigente do nosso ultramar; realidade da defesa vigilante da Nação perante o perigo comum do Comunismo, perigo situado dentro e fora das fronteiras do espaço plurigeográfico nacional; realidade da manutenção da estabilidade financeira e da estabilidade da ordem pública e da paz social, que nos governam há quarenta anos (…)”3.



No final do ano, João Patrício assinou um editorial sob o nome “ser estudante”, tendo como assunto subjacente a contestação universitária: “Hoje, paralelamente ou para lá da sua formação intelectual, o estudante, contestando por tudo e por nada, por palavras e actos de violência, a autoridade e a disciplina académicas, tornou-se no Mundo uma força social e política de choque que adultera por completo a sua real finalidade, que é a de estudar, a de se preparar cultural e moralmente para a vida, para se tornar, de hoje para amanhã, o amparo, o guia e o exemplo de filhos e de netos e um útil elemento da sociedade e do seu país (…)”4.



Sobre a preparação do congresso dos líderes nacionalistas africanos, disse: «Esse ignominioso congresso, intencionalmente iniciado no Dia de Goa, efectuar-se-á em Pangim e dele fazem parte delegados dos terroristas que combatem contra as províncias ultramarinas de Angola, de Moçambique e da Guiné, e um destacado representante, na União Indiana, do Congresso Nacional Africano. Tratar-se-á, segundo comunicados dos organizadores, de convenção preparatória de uma conferência internacional a favor dos “povos combatentes do Sul da África”, a realizar em Cartum, no próximo mês de Janeiro. No anunciado congresso, a linguagem empregada será a do ódio, e as canetas, com que se escreverão as sinistras resoluções, a espingarda e a metralhadora. Lá estará presente também, na sala das sessões, a sombra condenatória de Portugal secular de todas as latitudes e de todas as raças, a apontar à consciência mundial a sua repulsa pelos cavilosos propósitos de tão insólito e desprezível congresso. Neste Dia de Goa, os Portugueses, do Minho a Timor, estarão em Pangim para gritar, nesse nefasto congresso, que a terra de Goa é e será sempre portuguesa”5.



Continuidade



Três dias antes do Natal de 1968, João Patrício, a propósito do novo presidente da Comissão Executiva da União Nacional, enunciou: “(…) Sim, todos não somos, de facto, demais; mas, precisamente, porque queremos a Revolução legada por Salazar viva e actuante e não caída no imobilismo e na inércia, é que a renovação em curso se tornou não somente uma necessidade como um imperativo de consciência nacional e uma homenagem ao seu Fundador. Continuidade na renovação, continuidade na evolução, eis, pois, os dois parâmetros em que se move o pensamento político do novo presidente da Comissão Executiva da União Nacional (…)"6.



No dia 12 de Fevereiro de 1969, João Patrício assinou uma “nota do dia”, titulando-a “os limites do risco”, a qual terminava afirmando: “E reportando-se ao caso português, acrescentaria que não podemos arriscarmo-nos a um abalo social que nos atire para a guerra civil e destrua toda a obra que se construiu na ordem e na paz, sob a falaz promessa de lhe suceder uma utópica sociedade”7.



No último ano da década, a crise académica, em Coimbra, e o II Congresso Republicano de Aveiro marcaram as actividades oposicionistas, logo seguidas pela chegada do Ser Humano à lua. A EN relatou em directo a alunagem, na Apolo 11. Eurico Fonseca comentava: “O homem pousou na Lua. O módulo lunar pousou na Lua. Pela primeira vez na história, dois homens chegaram à Lua: Armstrong e Aldwin. Ainda não saíram, mas, tripulando uma nave espacial, o homem conseguiu chegar à Lua. Momento alto este da história da humanidade. A humanidade agora não se contém já no seu mundo”8.



Seguiram-se as ‘eleições’ legislativas. Marcello Caetano ponderou. “É preciso que cá dentro e lá fora fique bem claro se o povo é pelo abandono do Ultramar ou se está com o governo na sua política de desenvolvimento e crescente autonomia das províncias ultramarinas, se o povo português prefere um clima de ordem pública e de paz social, em que as reformas necessárias ao fomento do país, à promoção social e ao bem-estar dos portugueses, vão sendo feitas com resolução e com firmeza, mas com segurança também, ou a turbulência revolucionária de que não se pode esperar mais do que violência, despotismo, confusão e, afinal, miséria e fome”9.

(1) -Editoriais e notas do dia – das realidades aos mitos”, pág. 26. (2) - Idem, pág.68. (3) -Idem, pág. 83. (4) - Idem, pág. 97. (5) - Idem, pág. 105/106. (6) - Idem, pág. 110. (7) -Idem, pág. 24. (8) - A.H. RDP. EN 21/06/1969. AHD 2394. Faixa 57. (9) - A.H. RDP. EN 1969. AHD 2394. Faixa 55.


Etiquetas: , ,