quarta-feira, 15 de junho de 2011

Tributo



Quando José Saramago foi homenageado, aos 80 anos, em Santa Maria da Feira, estava na sala um dos seus leitores. Fernando Pinto Basto relata o evento, num texto editado, em 2005, no livro “Por ti e para ti”. Publicamo-lo, autorizados, a um ano do escritor nos ter deixado e a quase sete do desaparecimento do jovem cinéfilo.


Texto Fernando J. Pinto Basto fotografia Dina Cristo


O tempo estava impiedoso de chuva e vento, convidativo ao aconchego do lar e ainda três dias antes a cidade tinha sido assolada por um temporal que causou os inevitáveis prejuízos próprios dos temporais. Mesmo assim, apesar das condicionantes climatéricas, e desafiando a intempérie, o velhinho cine-teatro estava quase cheio e era mesmo aí que iria ter lugar o recital de homenagem ao agora octagenário Autor, homem de parágrafo longo, pontuação escassa e palavra justa. No palco estariam três mulheres de nacionalidades diferentes mas unidas pelo mesmo sentimento: o tributo aos livros escritos pelo Autor das inesquecíveis personagens Blimunda, Maria Magdala e A Mulher do Médico. Os inevitáveis contratempos que estes acontecimentos têm como propriedade, fizeram com que só uma hora depois do previsto se desse início ao referido tributo, mas como era noite de aniversário ninguém quis abandonar a cerimónia mais cedo; a juntar a este facto acresce ainda o outro de chover como no dilúvio e o recinto estar assim provisoriamente transformado em arca de Noé, embora o Autor já com idade bíblica não estivesse certamente à espera de encontrar um casal de cada espécie lá dentro. O que ele esperava nunca o saberemos, mas o que ele poderá ter visto não deve ter sido muito diferente do que aqui e agora se dá conta.
Entraram primeiro em palco os dois músicos que iriam fazer os breves interlúdios às leituras dos textos escolhidos. Após uns acordes singelos, surgem Laura Morante, Maria de Medeiros e Marisa Paredes, as tributárias. A primeira a usar a voz é a espanhola e, apesar de um providencial ecrã onde surgem traduzidas as palavras do Ensaio prefiro ver as expressões e auditivamente absorver o texto em castelhano, não assim tão longe de nós como confirmaria Blimunda mais tarde, através de emocionada voz, quando o Memorial se fez ouvir num português irrepreensível. Faltava ainda ouvir a musa italiana, naquela que seria a interpretação mais teatral da noite e voltar-se-ia aos cegos e ao convento por diversas vezes, mas a declamação final pertenceria a uma mulher proscrita no seu amor pelo filho de um homem, e cujo pecado foi amar tão terrenamente o que estava destinado aos céus.
Com o Evangelho segundo o Autor se finalizou a sessão, onde torrentes de emoções andaram à solta numa demonstração de que a palavra é o elemento primordial da humanidade e afinal não estamos assim tão longe daqueles tempos onde nos reuníamos ao redor de uma fogueira a ouvir as estórias que alguém mais imaginativo inventava para nos aconchegar num mundo de sombras. Agora a caverna é um pouco maior mas o ritual repetiu-se nessa noite celebratória à qual não faltaram os desejos de parabéns e muitos anos de vida a quem a leva tão cheia de tudo. Conta-nos mais coisas, José.

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