quarta-feira, 26 de maio de 2010

França Morte

Antes do Dia do Pescador, na Segunda-Feira, editamos o perfil de um dos homens mais empreendedores da indústria pesqueira, publicado há 15 anos na edição nº589 do semanário "Vida Económica"

Texto e fotografia Dina Cristo

Navios. Desenhar, construir, transformá-los. É a sua paixão. Foi ao longo da sua vida. O primeiro “empreendimento” começou teria França Morte uns 16 anos. Juntou-se aos amigos e pôs de pé um barco de vela latina. Durante três anos, a obra fez a travessia entre o Barreiro, sua terra natal, e Lisboa. Foram tempos de passeios. “Andávamos a valer”, recorda.

Depois desta experiência, entra na Escola Náutica. Começa a sentir gosto pelos navios e a valorizá-los. A sério. Aos livros, presta uma atenção até então não dispensada. Faz o curso com “bastante gosto” e agarra a vida activa “com bastante interesse”. Paralelamente às lições, trabalha como desenhador de navios. É o início de uma relação profissional que permanece até agora, aos 72 anos, numa altura em que fez, na Miradouro, 25 lançamentos de navios.

De empregado a empresário

Durante seis anos, até 51, embarca como oficial maquinista. Faz o acompanhamento da construção de navios, inclusive na Inglaterra. Durante os dois anos seguintes é responsável técnico de vapor e energia na montagem de uma fábrica de celulose, no âmbito da qual faz um estágio de seis meses nos Estados Unidos. De volta aos navios, entra na Empresa de Pesca de Aveiro, onde transforma navios de guerra noutros para pesca do atum. É director técnico, projecta uma frota e dirige a sua concepção técnica. Até 65.

Com 42 anos toma a decisão, a partir daqui sucessiva, de ir mais longe. Neste caso, de criar a sua própria empresa. Decide baseado na sua capacidade de projectar navios e na exigência da actividade piscatória. A pesca, para ter êxito, afirma, necessita de pelo menos duas condições: uma concepção técnica, arquitectónica e económica adequada ao fim a que se destina o navio e uma manutenção técnica bem feita.

Tudo o que tinha era 400 contos. Primeiro auscultou amigos e banca. Ficou a saber que o apoiariam e assim se lançou na construção do primeiro e depois segundo navio costeiro. Passado o primeiro obstáculo, o interesse passou a ser a entrada na chamada grande pesca. Para ultrapassar as dificuldades de penetração neste tipo de actividade comprou dois navios (18 mil contos cada) já licenciados. Conseguido o crédito, transformou-os em congeladores e com eles foi para a Mauritânia.

Estávamos em 1967. Injectou capital na sociedade, abrindo portas à entrada de outros sócios, empenhou a camisa, como afirma, e assim começou a fazer as primeiras cargas e descargas de peixe congelado em Portugal. As primeiras reacções não foram as mais amistosas. “Fui muito perseguido pela equipa que orientava as pescas em Lisboa”, afirma, recordando as negações à descarga na Docapesca lisboeta e a montagem de um sistema alternativo entre camionetas e armazéns.

Antever e vencer

Repleto de contratempos e, ao mesmo tempo, de força para prosseguir caminho. Sabia que tinha a razão do seu lado, e a certeza, assegura, de que tecnicamente estava correcto. Ganhava dinheiro e, como diz, ia marchando. Pelo contrário, a quantidade de peixe fresco inutilizado atingia os 20%. Até que se tornou “evidente em Lisboa, que tinha razão”. Os mais directos opositores tornaram-se os seus mais fiéis apoiantes e, em 67, a imposição nos congelados estava conseguida.

Obtém uma ajuda de 12 mil contos do então Fundo de Renovação para a Indústria de Pesca. Um empréstimo referente à transformação dos navios, a uma taxa de juro de 3%. Estava resolvida mais uma etapa. E agora, ‘despachada’ a questão da Mauritânia, o pensamento de França Morte foi ‘só’ um: “vou andar mais para a frente”.

Comprou dois barcos que Portugal havia adquirido à Mauritânia (como exigência para o estabelecimento de quotas de pesca), inactivos. Motivo: a sofisticação da aparelhagem técnica. Sem receios ou medos de qualquer espécie, França Morte levou-os até Aveiro. Seis meses depois estavam prontos a iniciar a faina da pescada na África do Sul. Depois, também na Namíbia.

De navio em navio, o número ia crescendo e em 74 eram nove. Depois da revolução, França Morte ainda trabalha na congelação de peixe no Brasil, mas volta a Portugal para fazer crescer o império marítimo que havia iniciado. Durante a década de 80, constroem-se mais sete, de tal modo que hoje soma 16 navios. São embarcações que fazem parte da frota longínqua portuguesa, para a qual vai faltando quota de pesca

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