Literatura portuguesa IV
Nesta quarta parte evocamos as influências das correntes humanistas europeias em Portugal. Em destaque, o papel de Sá de Miranda.
Texto e desenho Dina Cristo
Texto e desenho Dina Cristo
A medilha velha caracteriza-se por redondilhas (versos curtos de cinco ou sete sílabas) e moldes peninsulares quatrocentistas (vilancete, cantiga) constituídos por um mote e respectiva glosa. Mas desde o séc.XIII praticava-se em Itália um novo estilo: outro tipo de verso e composição poética – de dez sílabas. Este verso decassílabo é mais longo, mais flexível – presta-se a um maior número de combinações e dá maior liberdade ao poeta; adapta-se a uma maior variedade de tons e temas; é uma poesia que tem possibilidade de ser individualizada.
Petrarca seleccionou algumas combinações de versos, construções estróficas já cultivadas pelos provençais: a canção, a composição em tercetos, em oitavas dão azo a largos desenvolvimentos de conteúdo, em contraste com o molde rígido dos géneros de quatrocentos. O soneto e a sextina – devido ao sistema obrigatório de rimas - estão mais próximos do formalismo da poesia medieval, obrigam a uma condensação do pensamento ainda comparável às impostas pelas composições com mote e glosa.
Além destas formas, os italianos assimilaram também géneros líricos (características das literaturas grega e latina): écloga – quadro geralmente dialogado de tipos populares, sobretudo pastoris; elegia – poema de tonalidade melancólica ou sentenciosa; ode – quer laudatória quer lírica; epístola – carta em verso; epigrama – composição curta de conteúdo geralmente satírico; epitalâmio – composição congratulatória.
A forma nova correspondia a um conceito diferente de poesia. O “poeta” quer ser mais do que um artífice do verso. Ele atribui-se o destino de revelar o mundo íntimo do amor e apontar o caminho por onde devem seguir os grandes do mundo. A poesia tem para os poetas humanistas uma função doutrinária e edificante. A poesia lírica, só por si, comporta além do amor, os assuntos mais diversos tais como elogios de heróis, conselhos epistolares sobre o bem público ou ensinamentos.
A influência italiana na lírica peninsular manifesta-se já na primeira metade do séc.XV.
Em Portugal a consagração do novo estilo deveu-se em grande parte a Francisco de Sá de Miranda (1481-1558) que nunca repudiou a “medida velha” - reconheceu aliás o interesse das antigas formas de trovar.
Na primeira fase da sua carreira, ainda anterior à sua campanha pelo novo estilo, Sá de Miranda cultiva exclusivamente a poesia amorosa. Refere a contradição entre a razão e a inclinação amorosa. Os seus versos testemunham um espírito torturado e tenso, com melancolia, expressão condensada.
Na fase seguinte, em campanha pela introdução em Portugal das formas italianas, enriquece e varia consideravelmente o seu material literário. Por exemplo, nas éclogas exibe erudição, reconta histórias célebres da antiguidade e alude a lugares comuns clássicos. São mais variadas do que as de Bernardim Ribeiro, mas mais convencionais como expressão de estados psíquicos. Toca certos tópicos característicos da literatura renascentista como desdém pela vulgaridade, superioridade do culto das letras, necessidade de renovação pelo estudo dos modelos estrangeiros, exortação à composição de poemas heróicos de assunto português.
Singularidade
A parte mais original da obra poética de Sá de Miranda é a écloga “Basto” e as cartas onde o autor expõe o que pensa do mundo que o rodeia, fala do contraste entre a vida rural e a urbana e palaciana. Sá de Miranda combina o elogio da simplicidade rústica (tema característico da Antiguidade clássica) com a crítica social. Na sua origem está talvez um certo sentimento de liberdade pessoal. A personalidade tem direito a não se conformar com as novas correntes. Considerava-se que todo o Ser Humano que vivia no seio da civilização urbana alienou a liberdade. A humanidade apenas seria livre conformando-se com a mãe natureza.
Sá de Miranda condena a faina agrícola, tráfego marítimo, ofício das minas. Os temas gratos são a expansão ultramarina, a crítica da Corte como centro de governo, todo o sistema de exploração em proveito de um grupo dirigente; a corrupção da justiça. Contra estes males, Sá de Miranda vê o remédio num poder real justamente exercido, ao serviço do povo (idealização típica do Renascimento).
Estas últimas ideias exprimem-se num tom nostálgico, evoca costumes e reis antigos portugueses. Para ele - que conservou construções e vocábulos arcaicos como que acentuando o carácter arcaizante do seu pensamento - o mundo está em decadência.
Mas o arcaísmo, próprio da medida velha, combina-se com uma acentuada originalidade. Ele foge à expressão convencional, evita verbos de encher, reduz ao mínimo a parte formal para evidenciar o que é significativo, pelo que a sua expressão é bastante condensada. Prefere os termos concretos às generalidades, enquanto as imagens vêm do mundo familiar. As tendências fogem ao carácter que está na essência do classicismo; ele orienta-se por uma expressão engenhosa. Por isso, Sá de Miranda está na corrente que conduz ao barroco peninsular e torna-se um dos precursores do conceptismo seiscentista.
A eliminação das redundâncias, conjunções, multiplicação de exemplos singulares e metáforas explica-se por uma tensão dirigida às referências práticas, concretas e não ao jogo conceptista. Os mais belos sonetos de amor ou de angústia incompreendida deixam uma profunda impressão de autenticidade devido ao esforço na acumulação de encavalgamentos rítmicos, contrastes, hipérbato, verbos intransitivos, nas mudanças bruscas (saltos de tempo, de lugar, realidade exterior ou íntima, tom monologal ou dialogal).
Deve-se a Sá de Miranda, além dos primeiros versos na medida nova, “Estrangeiros”, a sua primeira comédia em prosa, onde as regras do classicismo estão presentes: acção concentra-se num troço de rua onde se desenrolam os interesses em conflito. Esta, tal como a comédia Vilhalpandos, dá expressão a um ideário humanista renascentista: crítica da escolástica, da remissão pecuniária dos pecados, exaltação da paz e das letras humanas clássicas.
Etiquetas: Dina Cristo, Literatura portuguesa IV, Livros
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