quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Vi(d)a livre

Oito anos após o primeiro Dia Europeu Sem Carros (DESC) aí estão iniciativas alternativas mais saudáveis à vida urbana sustentável. Alguns dias, até Segunda-Feira, para abrandar, descontrair, despoluir e socializar nesta Semana Europeia da Mobilidade (SEM).

Texto e fotografia Dina Cristo

Quando foi criada, a máquina de quatro rodas parecia trazer consigo uma promessa de vida mais desocupada e mais tempo livre para o lazer. Cem anos após a saída do primeiro modelo T, de Henry Ford, a democratização do automóvel transformou-o de um veículo de mobilidade em, muitas vezes, ao contrário do sonhado, em quase imobilidade que nos faz perder tempo, dinheiro e saúde.
Tornou-se factor mais de limitação e desumanização do que de movimento e liberdade. Com um benefício mínimo numa viagem curta, «Muitas das jornadas que fazemos de carro poderiam ser feitas facilmente – e muitas vezes, ainda mais facilmente – a pé”, como escreve Carl Honoré
[1], usado, muitas vezes, mais por hábito do que por necessidade, o carro representa hoje, para o Ser Humano, mais uma dependência do que autonomia.
As cidades em Portugal têm sido, e continuam, desenhadas para os automóveis e não para os cidadãos, como lembrou Rogério Lopes Soares, da Associação de Cidadãos Auto-Mobilizados (ACAM), no programa Sociedade Civil sobre eventuais portagens urbanas. É preciso, acrescentou Manuel Ferreira dos Santos, da LPN e Geota, reabilitar os centros urbanos e deixar de centrifugar os habitantes, nos seus movimentos triangulares entre o descanso – trabalho – lazer. Para tal, sugeriu, há que, por exemplo, “taxar” os estacionamentos (privados e comerciais) e criar mais espaços reservados para os transportes públicos, que devem ser devidamente articulados.
O trânsito, insustentável, está a atingir a saturação psicológica, fisiológica, ecológica e económica. Esta consciência tem originado movimentos que questionam cada vez mais o (ab)uso dos automóveis, desde campanhas populares anti-velocidade, como a iniciada por Sherry Williams, “Compromisso de Abrandar”, Programas de Andamento nos Bairros, de Aceleradores Anónimos e de Consciencialização da Velocidade.
Para além da defesa do uso do transporte público, rodoviário, ferroviário, fluvial e (inter)urbano, um pouco por todo o lado se encetam “novos” modos de movimentação dos peões. O aumento dos combustíveis ajuda a encontrar alternativas criativas que podem ir desde a boleia à partilha de veículos, das motorizadas aos patins, passando por andar a pé ou… pedalar. Naturalmente, ou com a ajuda das duas rodas, cada vez mais cidadãos encontram assim a forma de se deslocar de/para ou nas zonas metropolitanas.
Desde o primeiro ano do Dia Europeu Sem Carros, em 2000, que os ciclistas têm aumentado. As bicicletas, antes pontuais, começam a tornar-se um hábito. Em Portugal, às 18h da última Sexta-Feira de cada mês pedala-se em Aveiro (com encontro na Praça Melo Freitas), Coimbra (no Largo da Portagem), Lisboa (no Marquês de Pombal), em Portimão (no Tribunal) ou no Porto (na Praça dos Leões). A próxima está marcada para dia 26.
A massa crítica aumenta. Após a implementação das Bugas em Aveiro, e do projecto "Freebikes", em Vila Real, é agora a vez da Bute, Bicicleta de Utilização Estudantil, a circular, graciosamente, em vários pólos académicos. Depois de 70 voltas a Portugal, e ainda com a memória de Joaquim Agostinho, os mais jovens parecem dar o exemplo de como encontrar uma solução económica, saudável e relaxante. No Brasil, a bicicletada tem vindo a aumentar de ano para ano.

Cidades Lentas

A procura da libertação do automóvel, a ânsia de escapar à via rápida (cada vez mais congestionada e a passo de caracol), a redescoberta do culto pelo ar livre, a tranquilidade, o contacto mais directo com outros seres vivos e humanos deu lugar, um pouco por todo o mundo, ao(re)nascimento de cidades lentas, autênticos refúgios para o mundo moderno. Os seus princípios assentam no prazer antes do lucro, nos seres humanos acima do chefe, na lentidão em vez da velocidade.
As cidades lentas, com menos de 50 mil habitantes, prescindiram dos automóveis e devolveram a vida aos seus habitantes. Apostam nos espaços verdes (mais parques públicos, esplanadas, árvores, arbustos e flores), em zonas pedestres ou domésticas, como na Grã-Bretanha, com baixos limites de velocidade, redução de parques de estacionamento e aumento de áreas de recreio e arvoredo, num convite ao passeio e ao convívio social.
Nas cidades desocupadas privilegia-se o comércio tradicional e produtos regionais. A italiana Bra, por exemplo, proibiu cadeias de supermercados e anúncios luminosos; a câmara subsidia a reabilitação de edifícios que usam a cobertura de telha típicos da região; as cantinas (escolares e hospitalares) servem pratos tradicionais. Além de estimular a ligação às pessoas, em vez da corrida em áreas alienantes, ajuda a evitar o desemprego, a dar vida à economia e atrai turistas.
No caso de Kenlands, onde se caminha até à rua principal em cinco minutos, as crianças vão a pé para a escola, as ruas enchem-se de pessoas e a taxa de crime é baixa. Com uma vida mais calma e comunidade mais forte e solidária, entrou num ciclo virtuoso de tranquilidade: «O bairro está solidamente unido à moda antiga. Os pais olham pelos filhos uns dos outros nas ruas. A criminalidade é tão baixa – quando toda a gente conhece toda a gente, os intrusos são facilmente reconhecidos – que alguns residentes nem fecham as portas à chave. As informações também circulam facilmente»
[2].
Diminui o "apetite" pelo tráfego, o ruído, os subúrbios e aumenta a "caça" aos estacionamentos, o desejo de viver em centros urbanos rejuvenescidos, com bairros favoráveis a peões, onde se fazem as compras e se confraterniza a pé. Mais tempo para as pessoas, menos espaço para os veículos: “Com esse fim, muitas cidades, por todo o lado, estão a transformar ruas em zonas pedestres, a abrir vias para bicicletas, a proibir o estacionamento, a aplicar portagens e a proibir mesmo o trânsito»
[3]. O Novo Urbanismo já arquitecta bairros com edifícios próximos, ruas estreitas - com passeios largos e arborizados - onde se pode andar a pé, generosos espaços públicos e garagens escondidas. Como disse Rogério Soares, é já tempo de devolver ao peão o uso do espaço comum, deixando de se limitar aos passeios e passar a ter toda a prioridade, mesmo nas estradas.

[1] HONORÉ, Carl - “O movimento slow”, Estrela Polar, 2006. [2] Idem, pág. 107 [3] Idem, pág. 101

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