quarta-feira, 20 de agosto de 2008

Jornalismo (e) audiovisual VI

Após uma interrupção, devida ao artigo contínuo sobre IS, retomamos hoje o ensaio com o filme, central na investigação, que nos coloca perante uma escolha: o espectáculo, superficialidade, encenação e igorância ou a cultura, profundidade, rigor e a ética.

Texto Dina Cristo

O que “Broadcast News” nos diz é que, para se ser bem sucedido no mundo da televisão, basta dominar as técnicas televisivas, apresentar as notícias muito profissionalmente e ter uma cara bonita. Inteligência é característica da qual se pode prescindir para ser vedeta.
É o cinema, mais uma vez, a reflectir e a ser, ao mesmo tempo, um reflexo do tempo e do espaço onde é realizado… No caso concreto, os Estados Unidos e o final da década de 80. Um contexto que se pode alargar a uma vasta área geográfica, onde as mesmas preocupações (a informação transformada em espectáculo sujeito às tabelas de audiência e o carisma do locutor a sobrepor-se à pertinência das notícias) se colocam, nomeadamente em Portugal.
Retrato dos personagens
Tom, Aaron eJane desempenham três dos serviços fundamentais em televisão: a apresentação, a reportagem e a produção. Complementares nas suas funções diferentes, demonstram enquanto crianças as características que os distinguirão mais tarde como profissionais.
Tom, com dificuldades em termos de percepção e assimilação de conhecimentos, vai contar com dois factores coadjuvantes: a beleza e a sua determinação. Posteriormente, revela-se um indivíduo sem conteúdo, que não entende o que lê, mas que, por mera sorte, vai subindo até atingir o estrelato. Ele próprio se auto-retrata: não é educado, quase não tem experiência, não escreve e, no entanto, foi admitido na estação televisiva, ganhando uma fortuna.
Bastante diferente, Aaron possui uma cultura geral profunda (terminou o liceu aos 15 anos, com distinção), mas uma fisionomia que pouco o favorece. Forte conhecedor da actualidade, dominando-as como ninguém, será um repórter experiente, capaz de redigir textos belíssimos, mas muito pouco eficaz na utilização das mais elementares técnicas da linguagem televisiva.
Jane mostra-se uma pessoa de carácter forte, seguro e inteligente, características que farão dela uma produtora rigorosa, perspicaz e enérgica. Empenhada na qualidade poucas, lutará para que a ética profissional seja permanentemente respeitada – orientação da qual nunca se desviará um milímetro – atitude que lhe trará algumas amarguras.
«O noticiário passa a espectáculo oferecido aos espectadores por uma “estrela”, ao mesmo tempo que as verdadeiras notícias (…) passam ao lado»[1]. Eis, em resumo, duas concepções que vão estar na base de todo o conflito entre Tom – adepto da promoção do espectacular – e Aaron – a favor da valorização do conteúdo informativo. Entre ambos está Jane, defensora permanente da ética e eficácia televisiva. São diferentes formas de conceber e praticar jornalismo, que vão reflectir-se, necessariamente, no trabalho de cada um.
Trabalho da estação
Durante a elaboração do apontamento final sobre o soldado que regressa aos EUA, Jane e Aaron dão um bom exemplo de como o profissionalismo a nível individual pode contribuir para um bom trabalho de equipa. Jane conhece bem a peça (tanto que a memorizou) e, apesar dos escassos 14 minutos de que dispõe, teima em incluir na montagem o “homecoming” de Norman Rockwell. Uma relação de trabalho que se complementa de forma excelente, como prova o pequeno diálogo na redacção: “Queres o comentário?”; “Sim, de 15 segundos”. O resultado é um texto que explica as imagens e não estas que ilustram o texto.
Graças ao alto sentido de responsabilidade, com a preparação a ser feita com a devida antecedência, as exigências sobre um operador de câmara que filma mesmo sem luz, e a competência de Aaron, a reportagem da Nicarágua revela-se um êxito. No exacto momento em que começa o bombardeamento, Aaron faz um improviso no qual demonstra estar por dentro de toda a situação: «Os primeiros tiros soaram há 10 segundos. Os “contras” estão em minoria. São uma unidade pequena. Apesar disso, defendem as suas posições com armas que enervam e não disparam. Só receberão novo fornecimento de armas amanhã. Hoje, tudo o que têm são as suas botas». E mal as luzes se apagam, ainda em pleno tiroteio, a maior preocupação de Aaron é saber se há imagens das botas.
Numa coerência total entre o que defende e o que pratica, Jane, perante o pedido do operador de câmara para que um soldado calce as botas, grita: “Pára! Não estamos aqui para criar notícias. Façam o que têm a fazer. As decisões são vossas” – uma frase arrebatadora para uma luta nem sempre fácil entre a verdade e o pseudo-acontecimento.
De qualquer forma, enquanto Jane estiver presente, não dará tréguas aos que investem na fabricação e encenação de imagens. Com a produtora por perto, tudo se pautará pelo maior respeito pelos factos, pelo que efectivamente acontece, e não por atitudes solicitadas, sugeridas ou mesmo provocadas.
Autor de um bom texto e com um conhecimento perfeito da actualidade, Aaron vem a revelar-se no jornal de fim-de-semana, um total fracasso televisivo. À falta de uma imagem atraente e uma presença forte, junta-se-lhe uma insegurança, um ataque de transpiração e uma incapacidade de domínio das técnicas audiovisuais perante a câmara a dificultarem a exteriorização da sua credibilidade.
Uma situação totalmente oposta a esta é como se pode caracterizar a apresentação das reportagens sobre o avião líbio. Sem compreender o assunto que apresentava, mas descontraído, na posse de uma imagem persuasiva, de um contacto com a câmara convincente e de um texto (inclusive perguntas e ‘dicas’) a cargo de Jane e até de Aaron, Tom, que mais não fez do que dar a cara, transmitia a imagem de um profissional credível.
Bem reveladora da forma como Tom encara a profissão, é a reportagem sobre violações em que decide, após o seu terminus, fabricar a sua reacção, provocando algumas lágrimas com uma cebola. Uma encenação de emoções que vai aprofundar o fosso com Jane, entre o que é quotidianamente rentável e o que é eticamente correcto.
Questões éticas
Tom, ao encenar a sua reacção com a queda de lágrimas, põe em causa uma das principais “bandeiras” agitadas por Jane – o respeito pelos factos, a exigência de se captar apenas aquilo que acontece sem forçar ou provocar voluntariamente qualquer atitude ou comportamento. Exactamente ao contrário, Tom fez parecer autênticas lágrimas que, na verdade e apesar da ligeira perturbação que sentiu, não chegaram a cair, além de que, após acontecerem, já não seriam reais, mas sim reconstituídas.
Condenada por toda a gente e ao mesmo tempo por todos aceite como praticamente inevitável, a visão comercial da informação e a sede de vedetismo, protagonizada por Tom, constituem igualmente dois dos temas mais abordados.
Encaradas as notícias como meros produtos de que o jornalista é o vendedor por excelência, Tom é o protótipo do apresentador eficaz nesta sua “missão” de promotor. Assim, além dos requisitos necessários do produto (ser sedutor e atractivo), o seu agente de comercialização não se deverá negar, se necessário for, à venda da sua própria imagem. Para tal, monta-se toda uma estratégia de marketing, preocupada com o consumo efectivo do produto (a audiência do programa) e sacrificando, se preciso for, um conteúdo consistente por uma embalagem tão bela quanto falsa.
Apesar da sua confessada incapacidade para dominar a actualidade (e não só), Tom assume gradativamente o papel de grande vedeta. Requisitado primeiro, reconhecido depois, promovido mais tarde e aclamado no final – são as suas reportagens e “discursos” que obtêm aprovação por parte do público que parece preferir a forma ao conteúdo.
Uma opção que parece satisfeita pela própria estação de televisão. Ao apostar em Tom em detrimento da já comprovada capacidade, conhecimento e experiência de Aaron, aquela “network” ajuda a consolidar a primazia do superficial sobre o profundo. Uma questão vital para Jane: “Sei que é divertido. Eu gosto de me divertir. Só que isto não são notícias”, refere-se no congresso, a propósito de um apontamento sobre animais, apresentado em detrimento de uma mudança política importante e relacionada com o desarmamento nuclear.
Jane e Aaron, sempre críticos e atentos, constituem uma reserva de bom senso numa redacção que, apesar disso, opta pela via de acesso directo ao lucro (através dos “itens” que lhe permitem as grandes audiências) terminando por premiar o carisma do locutor em prejuízo do conteúdo das notícias. Inserida no mercado competitivo, a estação relega os valores e oferece ao público o que este gosta. Tom, com a sua capacidade de sedução e telegenia, faz parecer que a cultura, nesta profissão, é uma condição de somenos importância e que os atropelos à ética, passíveis de repreensão, são afinal, um belo “trampolim” para o mundo das estrelas.
No final, Aaron transfere-se para uma estação local enquanto Tom é promovido com a atribuição de um lugar para Londres. Moral da história: melhor esteve quem trocou a responsabilidade pela excitação e se preocupou mais em escolher a cor da camisa do que em preparar um bom texto. Como afirma Marie Christine, da revista Séquence, “Broadcast News” «mostra que o jornalista bem sucedido não é aquele que tem o sentido da notícia, mas sim o sentido do espectáculo».
Pode, então, dizer-se que estamos do domínio da ficção pura? Não são estas personagens protótipos dos actuais profissionais e não é aquela redacção uma ‘bela’ amostra do que se passa em muitas estações de televisão?
Veremos, nos artigos seguintes, como “Broadcast News” se aproxima da vida real.

[1] LOURENÇO, Frederico – Broadcast News/1987.

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