quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Centenário regional



Dia 10 de Outubro o jornal "O Concelho D´Estarreja" faz 110 anos. No seu aniversário publicamos um artigo, escrito em Maio de 2009, sobre a censura nos seus primeiros anos.

Texto e fotografia Myriam Mesquita Lopes

O que sabemos nós de censura? Quando nos referimos a ela hoje, é como se tratasse de algo distante e como se não nos atingisse. Determinar essa força é como procurar a verdade.

A forma como descomprometidamente dizemos, que "já vivemos na censura", torna-a distante e desactualizada. Aquilo que acontece diverge bastante desta ideia acomodada de quem não a vê, pois agora tem contornos e estratégias diferentes. Desde a Inquisição do século XVII, ao exame prévio do século XX temos o mesmo, para o mesmo, isto é, repressão à livre expressão. Agora curioso será pensar-se que tudo o que julgávamos extinto permanece connosco mas com uma cara diferente e com a força a que nos, já, habituámos. A censura acompanha a imprensa há séculos, mas retemo-la no nosso pensamento de forma confortável e limitada. Remontamo-la para um passado recente de revolução liderada pela “Ala Liberal” que alegou ter conseguido a extinção da censura, e na qual ainda temos esperança que seja uma realidade.

A sua dimensão é perturbadora, estando sempre associada ao poder e, portanto, a sua influência é indiscutível. A censura é perene, sofre apenas avanços e recuos. Ao mesmo tempo, a censura foi muito importante porque provocou o desacordo, a crise, e isso foi só mais uma arma para a combater. É facto que a Oposição se foi aproveitando das suas fragilidades, como o poder absoluto e a política silenciadora.

Uma investigação elaborada recentemente a um jornal de Município, “O Concelho D´Estarreja” permitiu perceber como funcionou a acção da censura numa fase anterior ao Estado Novo, no período entre 1901-1931, que foi lançando as sementes do novo conceito de restrição à liberdade de expressão e à opinião pública. Os jornalistas que compunham os artigos deste jornal tentaram permanentemente contorná-la e a sua acção foi mais forte sempre que relacionada a acontecimentos histórico – sociais marcantes do país e do mundo. Assim estes tornaram-se cada vez mais hábeis pois deixar de escrever: não queriam e não podiam. Se escrevessem livremente eram de imediato censurados. Assim, entenderam que lhe teriam de fugir, auto-censurando-se. Perceba-se, no entanto, que esta auto-censura não actuava de forma completamente negativa, pois mesmo pouco explícitos, continuavam a informar, mas com outras palavras, alicerçados de sabedoria e artimanha. O seu público era uma elite e logo “agarraram” a descodificação dos artigos. Os editoriais eram o espaço reservado às maiores críticas e como consequência fortemente censurados.

O jornal “O Concelho D´Estarreja” tem hoje 108 anos e é um resistente. Sobrevive aos primeiros 30 anos com um carácter extremamente conservador, com um cariz político muito vincado. Um exemplar do Jornalismo Romântico e de Emigração com uma ideologia Republicana explícita. O Partido Progressista e o seu líder Dr. Egas Moniz deram a oportunidade de nascer um novo jornal, mesmo que como uma “arma política”. As suas páginas eram talhadas à mão, letra a letra. Os artigos abarcavam uma carga opinativa e critica implacáveis, promovendo aquela que foi a queda do Regime Monárquico e na maior divulgação da ideologia defensora dos princípios liberais, onde as palavras de revolta eram a ordem e progresso.

Durante o período de 1901 a 1916, correspondente ao antes e depois da Instauração da República, a censura esteve pouco explícita e, “(…) dizia-se que a censura era para não permitir que se atropelassem os direitos dos republicanos” , como sublinhou Manuel Ismaelino, neto de Agostinho Ferreira de Matos.

A verdadeira crise do jornal, dá-se quando Portugal começa a sentir as consequências da 1ª Grande Guerra de 1916 a 1922.

Assim, para além do luto, os “jornalistas” encontraram um meio de dar dimensão ao desacordo em relação às decisões tomadas pelo regime. Mais fortes e com tom de revolta, as palavras ganharam uma expressiva intensidade, tornando-se um alvo fácil à censura. Como consequência, o jornal foi suspenso a 19 de Dezembro de 1916 e a publicação de dois números consecutivos, nas duas semanas que lhe sucederam, foi expressamente proibida. No início do ano seguinte “O Concelho D´Estarreja” sofre novamente a mão severa da censura, e “quando um artigo era cortado era substituído ou então seguia assim mesmo, com espaços em branco”, acrescentou Manuel Ismaelino, como aconteceu a dois editoriais do jornal, onde escrevera o seu avô.

O período que se seguiu, de 1923 a 1931, promoveu uma espécie de rescaldo, “Mas quando por alguma razão sentia que um artigo iria ser cortado (…)”, como refere Manuel Ismaelino  com nostalgia dos tempos de fundação do jornal: “Eu levava-o pessoalmente (…) e quando lhe punham o carimbo respirava de alívio”. E continua, “o meu avô, Agostinho Ferreira de Matos, editor e administrador (1926) escreve as suas últimas disposições a 3 de Abril de 1943: Facilidades a todos os assuntos que representem progresso local, - material ou individual visando os fins e condenando os meios, quando ferindo susceptibilidades e direitos adquiridos nos meandros da Justiça e da Igualdade – a Cézar o que é de Cézar e ao homem o que é do homem”.

A censura abranda durante alguns anos com o final da Guerra, mas toma lugar num ou noutro artigo, onde se sente reserva e ao mesmo tempo revolta, nas entrelinhas dos principais editoriais do jornal, como foi o “Duas Palavras” de Agostinho F. Matos, onde se podia ler: “Um rosário de circunstâncias, poderosas e inevitáveis, levam-nos, embora provisoriamente, a recolher às linhas de reserva”..

Apesar de todo o calvário que o jornal sofreu durante todos estes anos de instabilidade de 1901 a 1931, sobreviveu e muito graças à forma como se percebe a compreensão da existência permanente da censura e do compromisso que o jornal transmite, em desafiá-la, naquela data e no futuro.

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