quarta-feira, 25 de maio de 2011

O Comércio do Porto


Fonte: http://coleccionar-collectus.blogspot.com/


Na próxima semana faz 155 anos que foi fundado um dos primeiros jornais industriais em Portugal. Nasceu na cidade invicta. Uma viragem na imprensa que passa a valorizar a economia em detrimento da política.


Texto Carla Moura

Em 2 de Junho de 1854 apareceu ao público um novo periódico na cidade do Porto. Primeiramente chamava-se «O Commercio» mas um ano depois do seu início, o seu nome foi alterado para «O Comércio do Porto», de modo a prender a estima dos habitantes da cidade do Porto.
Por esse tempo, publicavam-se no Porto dez jornais, entre os quais o «Jornal do Povo» (1848) e «O Nacional» (1846). No entanto, salvo algumas excepções, como é o caso do «Periódico dos Pobres» (1834) que se publicou durante 24 anos, todos estes jornais tiveram uma curta duração.
Inicialmente «O Commercio» publicava-se três vezes por semana: às Segundas, Quartas e Sextas-Feiras. Mas como este jornal tinha uma extraordinária aceitação por parte do público, a 2 de Janeiro de 1855 o jornal passa a sair diariamente devido ao êxito inesperado que teve, e até algumas personalidades dessa época, como Ramalho anotava nas suas «Farpas» o seguinte: «foi neste momento que na Ferraria de Baixo veio à luz o primeiro jornal sério da cidade, o grave, o conspícuo, o sacerdotal “O Comércio do Porto”».
Todavia «O Comércio do Porto» apesar de ter passado por muitas dificuldades sempre manteve os princípios dos seus fundadores, Manuel de Sousa Carqueja e Henrique Carlos de Miranda, que quiseram formar uma publicação que apoiasse o Comércio, a Indústria e a Agricultura.
Visto que o jornal surgiu num tempo em que as «gazetas» eram, na sua maioria, “as alavancas do poder ou os basiliscos que o derrubavam”. No «Comércio do Porto” naturalmente a política teria de ser tratada, no entanto, sem relevo de maior, ou seja, sem expressar uma posição crítica determinada.
O que os seus fundadores pretendiam era que o «Comércio do Porto» lhes falasse sobre o que diariamente os “afligia”: «as quebras da praça, a subida ou descida do ágio, os vapores que chegavam ou partiam para toda a parte onde se mercadejava e, sobre tudo o mais, a palavra lisa, correcta e despolitizada (..)».
Um jornal, como Alberto Bessa disse, no seu livro «Esboço histórico da origem do jornalismo até aos nossos dias»: «(…) próspero e com o mesmo progresso de austeridade e independência que se traçou, O Comércio do Porto (…) pode ufanar-se e ter correspondido, pontual e admiravelmente, à missão que se impôs com uma largueza de vistas, e imparcialidade de crítica, que desde muito cedo lhe conquistaram um lugar no primeiro plano do jornalismo português».
É admirável ver um jornal que apesar de ter atravessado várias convulsões políticas e sociais, que abalaram profundamente as estruturas da nação portuguesa, conseguiu manter-se no panorama jornalístico com os mesmos ideais que sustentavam, desde a sua fundação – verdade, correcção e independência – mesmo que tivessem de sofrer algumas represálias, devido ao seu não acatamento do fácil e do acomodante.

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