quarta-feira, 21 de maio de 2008

Silenci(ament)o


No Dia Mundial da Comunicação, falamos de silêncio, a condição para a sua existência. Partimos de algumas ideias presentes em “Silêncio e Comunicação”, um livro de Tito Cardoso e Cunha editado, em 2005, pela Livros Horizonte.

Texto Dina Cristo

O silêncio é não só uma condição ao processo (e sua eficácia), como uma forma de comunicação, com sentido denso, relevante e interpretável. Sem este elemento paralinguístico não existiria o espaço de escuta, necessário à reciprocidade de uma verdadeira conversação, memória e interrogação acerca do que fora dito. É a mais sublime forma de organização sonora.

Há dois tipos de silêncio muito distintos: o silenciamento, o “tacere” (informativo), o calar-se, a privação súbita da fala, que se retém; o querer expressar-se mas não se poder ou dever por medo, obediência, submissão, censura, repressão, recalcamento, rigidez. Trata-se de uma opacidade, desde a ignorância (ditatorial) à superficialidade (democrática), que oculta a verdade dolorosa que, por isso, se pretende evitar, esconder, resistir, recusar, desprezar ou dissimular, numa atitude de hostilidade ou reforço do poder autoritário, como um instrumento de hierarquia, que nega o direito do outrem a saber, ou de ignorância do “outro”, a verdade pessoal ou social assim “esquecida”.

Bem diferente é o silêncio, o “scilere” (comunicativo), o estar silencioso, sem falar (porque nada há de relevante para dizer), o estar calado, ma(i)s disposto a ouvir, que indica sabedoria, profundidade, tranquilidade, paz, verdade. Trata-se de um silêncio ecológico: pode expressar-se, mas opta-se livremente pela contenção da palavra a fim de a poupar e proteger de um uso excessivo. É assim que na sociedade tradicional, onde o silêncio é de ouro, é tido como um bem escasso que urge reter e economizar, sobretudo ao nível dos nomes. Temos o caso dos Espartanos (na Grécia prestava-se culto a Muda, a deusa do silêncio), Apaches e Nórdicos.

O silêncio no sentido geral é uma espécie de ponto morto, um tempo de espera (para o qual é preciso ter prudência e paciência), uma pausa, suspensão, prelúdio, um espaço (de questionamento e escuta que permite a conversação e o aprofundamento da interacção) de autenticidade, verdade, não só inaudível mas também invisível, associado à leitura e ao olhar. É também o que escapa ao discurso, o que fica por dizer, devido às limitações das palavras, da linguagem verbal - o inefável, o que haveria para dizer mas não se consegue exprimir. O silêncio, ao contrário da fala, do som, da linguagem, da palavra, do logos, que indicam separação e diferenciação, permite-nos a fusão e indiferenciação, a união, o caos inicial que é a suprema harmonia; é eminentemente humano, implica consentimento, aceitação, respeito, solidão e neutralidade. É considerado uma actividade com diferentes gradações e funções (como a activa, afectiva, cognitiva e comunicativa).

Espiral de ruído

Nas sociedades contemporâneas, depois dos silenciamentos devidos às imposições, perseguições e manipulações políticas, religiosas e comerciais, há hoje uma tendência para à dor da censura contrapor o prazer da verborreia, incontinência verbal vivida com(o) um certo erotismo oral. Prolifera, assim, a tagarelice, insignificante, redundante, imoderada, inautêntica, monólogo imposto que diminui a possibilidade da troca, numa verbosidade facilitada pela individuação. «A tagarelice não é dita para ser ouvida, o que ela revela é o facto de poder dizer-se. Daí que tenda a ser acolhida, não pelo silêncio, mas por uma igual intensidade tagarela numa espiral de ruído por fim mutuamente ensurdecedora».

O discurso é inerente à natureza da relação social, que é ela própria uma violação do silêncio. Ora a sua obliteração é ainda mais favorecida pela vida democrática, que exige publicidade, transparência, sendo no contexto político, considerado o silêncio um luxo, ilegítimo e autoritário. «Para um político, o que hoje em dia se torna verdadeiramente difícil é permanecer em silêncio sobre o que quer que seja (…) o que se quer silenciar tem de se ocultar sob o manto discursivo desviante da atenção (…) Para que um silêncio seja, mesmo assim sustentável, haverá que invocar algum dos princípios inatingíveis e suficientemente intimidatórios como por exemplo o “segredo de justiça” ou então o “interesse nacional”».

Também o individualismo concorre para eliminar o silêncio. «Numa sociedade em que a tendência é a de todos falarem, e falarem obsessivamente de si, só o profissional tecnicamente treinado para a escuta consegue manter o silêncio (…)».

Há como que um esforço colectivo para anular o silêncio (considerando-o anti-natural), facilitado pela tecnologia e fomentado pela indústria dos “media”, consumida como ruído de fundo e mera companhia virtual. «Porque se tem intensificado tanto, nas nossas sociedades, essa angústia do silêncio, provavelmente ela foi gerada pela própria expansão e evolução dos media cuja natureza ou lógica ou economia é incompatível com o silêncio (…). A abolição do silêncio, o seu impedimento compulsivo, resulta da estridência que é a razão de ser dos media num contexto de concorrência e tem por consequência o imediatismo irreflectido e reduzido à sua pura dimensão instintual».

Comunicação empobrecida

Na agenda, mediática, política e pública, reina o ruído em que se perdem dados, acelera informação irrelevante, num fluxo redundante, que perturba, diminui, impede e enfraquece a comunicação. «Tal como o urânio empobrecido das armas as torna mais eficazes na sua acção mortífera, assim também uma comunicação empobrecida a torna mais eficaz como arma de dominação ou manipulação».

A alternativa passa pois por ultrapassar primeiro este ruído (o externo, de que a Lei do Ruído é um incentivo, e o interno, nomeadamente o mental), depois o silenciamento (da dor, deixando-a exprimir-se até se dissipar) até atingir primeiro o silêncio e a paz que vem da dissolução natural do sofrimento, originada pela aceitação em vez da sua ocultação, até ao Silêncio Divino, as Trevas e o Caos, que são o verdadeiro Discurso total, Luz, Ordem e Som porque o «(…) homem cala-se, mas o silêncio é de Deus».

Ao silêncio dedicou a revista Cais o seu número 100, em Julho/Agosto de 2005, onde é elogiado: «Há que redescobrir pois a subtil comunhão e eloquência do silêncio. Como terapia também dos tempos que correm, onde a invenção da solidão e da distância nunca originou tantos frustrados meios de a tentar vencer, aumentando-a afinal. Onde nunca se investiu tanto na comunicação por incapacidade de comungar (…) esse espaço interior do silêncio onde a verdadeira comunicação, que dispensa pensamentos e palavras, se processa naturalmente. Sem o estorvo do ruído mental, materializado na logorreia mediática. Porque, como disse Agostinho da Silva: “[…] o que se tem de importante a participar, ou a comunicar, sempre as duas palavras no seu significado etimológico de fazer do outro uma parte de nós ou um comungante do que somos, isso se faz chegar e a nós volta, mais rico, muito mais pelo silêncio do que pela palavra, escrita ou falada”».

[1]. Crêem nesta atitude, que reforça no entanto o vínculo social, os atenienses (daí o êxito da oratória), meridionais e europeus.[2].[3]. Actualmente, é mais o discurso que visa a todo o custo evitar o temido silêncio do que o inverso. Um investimento, individual e colectivo, na negação ou recusa do silenciamento. E quanto mais discurso existir mais conflito haverá, numa espiral de ruído, desentendimento, frustração e incompreensão.[4]. Sobretudo os “media” audiovisuais vêm o silêncio como uma falha técnica, por isso eliminam as pausas, aceleram o ritmo, aumentando o ruído até ser ensurdecedor e anestesiar as sensações, emoções, cognições e aspirações, não sem o conteúdo ser reduzido a um discurso inessencial.[5]. Profundamente anti-comunicativo, o ruído, que é hoje permanente devido aos “backups”, confunde a mente e atordoa os sentidos, numa tentativa desesperada de evitar a dor da verdade que, assim, se pretende ilusoriamente mascarar. É, pois, uma resistência, um “charivari” social, numa encenação do caos, enquanto desorganização sonora.[6].[7][1] CUNHA, Tito Cardoso – Silêncio e Comunicação. Livros Horizonte. 2005, pág. 35. [2] Idem, pág. 61. [3] Idem, pág. 32. [4] Idem, pág. 47/48. [5] Idem, pág. 44. [6] Idem, pág. 42. [7] BORGES, Paulo – O silêncio do despertar in CAIS, Julho/Agosto, 2005, pág. 90/91.


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quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Voz do céu


Este Domingo fará cem anos que nasceu Omraam Aivanhov. Por isso, hoje recuperamos uma das suas obras, dedicada ao poder, natureza e formas de ouvir o silêncio.

Texto Dina Cristo

O silêncio é um lugar - imenso, profundo e intenso, habitado por seres celestiais que falam, cantam e revelam (soluções) - de onde o Universo saiu e para onde um dia regressará. É uma região de luz (cósmica) e vida (abundante), para além das sensações físicas, dos sentimentos e pensamentos vulgares.
Vivo e vibrante, o silêncio é, na verdade, a voz da alma que fala baixo e, docemente, avisa, aconselha, protege e dirige, de forma terna e melodiosa, breve, contínua, mas sem insistir. Expressão da essência divina, manifesta-se pela sensação de liberdade, expansão e vontade desinteressada. É sinal de bom funcionamento (a própria dor é um ruído) e aperfeiçoamento: «quanto mais evoluído se é, mais necessidade se tem do silêncio»[1] .
Princípio feminino, estado receptivo por excelência, um esvaziar (do supérfluo, complexo e periférico) – característico da via da renúncia também descrita por Carlos Cardoso Aveline – é capaz de colocar em funcionamento os centros subtis, através dos quais se entra em contacto com o mundo espiritual.
Apesar das suas potencialidades, o silêncio é muitas vezes rejeitado por uma grande parte dos seres humanos: «(...) o silêncio físico obriga-as a tomar consciência das suas dissonâncias e das suas desordens interiores, e é por isso que elas têm tanto medo»[2]. O mais comum é encobrir os demónios interiores com barulho. E então fala-se como forma de afirmação da personalidade ou atracção da atenção.
Outras vezes o silêncio é sentido como vazio ou solidão - um equívoco que Omraam Aivanhov desfaz: «Se não quiserdes ser pobres nem estar sós, procurai o silêncio»[3]. Na verdade, a voz interior não só «(...) é, por vezes, mais eloquente do que a palavra»[4], como é a própria «(...) expressão da paz, da harmonia, da perfeição»[5].


Escutar o silêncio
O verdadeiro silêncio, o interior, não se atinge sem esforço. «O essencial», dizia Omraam aos seus discípulos, «é a vossa decisão de entrar nesta via e de nela perseverardes»[6]. Para conseguir ouvir a voz do silêncio é necessário, antes de tudo, eliminar o ruído; primeiro o externo, depois o interno, que advém dos conflitos entre as vontades da mente e os desejos físicos, passando pelos anseios do coração. «Enquanto continuardes a alimentar as necessidades comuns, não conseguirás libertar-vos»[7].
Estas agitações, desordens e dissonâncias, próprias da paixão, interesse, intolerância e carência humana, provocam desafinações (desalinhamentos), que só agoniam, destroem, intoxicam e conduzem ao erro. Com tal algazarra dentro de si, o ser humano não passa da experiência meramente formal, superficial, opressiva, independente e exclusiva, que se limita à palavra, ao intelecto, ao conhecimento, à interpretação e ao medo. Uma vivência da personalidade desatenta, densa, contraída, estranha, pessoal e particular – uma via lunar, de ambição desmedida.
Para conseguir a pacificação, a ordem, a consonância - própria do Amor, desinteresse, tolerância e abundância humana, que produz afinação, alivia, nutre e conduz, construtivamente, à correcção - é necessária preparação. Com uma tal tranquilidade dentro de si, o ser humano ultrapassará os distúrbios corporais e poderá então chegar a experiênciar uma vida anímica, substantiva, profunda, centrada, livre, interdependente e inclusiva, ao nível Verbal (inaudível), do pensamento, sabedoria, compreensão e coragem. Uma vivência do seu Ser mais íntimo, subtil, atento, impessoal, forte, íntegro, expansivo e Comum.

Qualidade de vida interior
Para além da indispensável harmonia dos diferentes deuses e deusas nos homens e mulheres, da pacificação entre os diferentes padrões psicológicos, é necessário ouvir aquela que é, no fundo, a voz de Deus, e trilhar o caminho solar, da renúncia, do Vazio, desenvolver o auto-domínio, ser capaz de controlar as palavras, as reacções e os gestos. Omraam Mikhael Aivanhov aconselha a aplicar os exercícios à mesa, quando se deve comer no máximo silêncio, incluindo o dos próprios talheres.
Na ajuda ao desapego, à distanciação em relação aos desgostos (do passado) e às preocupações (com o futuro) é útil fazer um retiro de alguns dias, para repousar e descansar. A libertação das inquietações prosaicas, o afastamento em relação às solicitações e agressões do mundo exterior, sempre foi, aliás, praticado por eremitas e sábios, que se isolaram em grutas, desertos ou montanhas. Contudo, não se resgata o pensamento nem se concentra no bem comum sem se jejuar e respirar adequadamente, sem oração, meditação e contemplação (nomeadamente das estrelas), que possibilite o abandono dos estímulos externos e permita uma vida profunda, centrada no sol interior.
Difícil de atingir, o silêncio traz inúmeros benefícios. Força, magnetismo, energia, serenidade, delicadeza, flexibilidade, clareza, lucidez, atenção e concentração são alguns exemplos: «Se estivésseis mais atentos, se tivésseis mais discernimento, sentiríeis que, antes de cada empreendimento importante da vossa vida (uma viagem, um trabalho, uma decisão a tomar), há uma voz suave que vos aconselha»[8]. Além da purificação, sublimação, libertação, organização, integração e expansão que promove, a voz do céu franqueia a passagem à certeza, à paz, ao amor, ao bem-estar, à felicidade, à plenitude e a uma vida correcta.
A «(...) maioria dos humanos vive a maior parte do tempo à periferia do seu ser»[9], ensinava o mestre búlgaro, discípulo de Peter Deunov. O silêncio, ao submeter a personalidade ao Eu Superior, que doravante nele se expressa e o comanda, permite desenvolver o terceiro ouvido e escutar a voz do Senhor, o Silencioso: «(...) fazer o silêncio é, de algum modo, fazer em nós o vazio, e é nesse vazio que recebemos a plenitude»[10].

[1] AIVANHOV, Omraam Mikhael – A via do silêncio, Edições Prosveta, Colecção Izvor, 2000, p.13. [2] Idem, p.16 [3] Idem, p. 143 [4] Idem, 14 [5] Idem, 16 [6] Idem, p.163. [7] Idem, p.22. [8] Idem, p.143. [9] Idem, p.159 [10] Idem, p.161

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quarta-feira, 4 de maio de 2011

Criticar ou compreender?


Numa altura crucial para Portugal, publicamos um conto sobre a liberdade de escolher o caminho. De um jovem autor português a história alerta para a responsabilidade de aumentar o que mais se estimular: o conflito ou a elevação.

Texto Elton Rodrigues Malta fotografia Dina Cristo

Num belo parque, onde o Sol penetrava as folhas das árvores que dançavam com o vento, a água do lago brilhava com o reflexo da magnífica luz solar, e as aves voavam com infinita liberdade, encontravam-se três amigos bem diferentes.
Hélio, contemplava e absorvia aquela beleza, fundindo-se com a magia da natureza e enriquecendo-se com aquela energia. Repousava em silêncio, contagiando ao seu redor. Era firme, constante, compreensivo, respeitador e dado.
A segunda era Gaia, sempre muito influenciável pelo que a rodeava, sem opinião firme aquando de troca de ideias. O que defendia num momento rapidamente era esquecido, bastava ser confrontada ou não ser apoiada.
Por último encontrava-se Selene. Sentada no banco em posição rígida e sentindo-se perturbada, batia continuamente o pé enquanto agarrava em ramos e os partia em mil pedaços. Apesar de pouco reflexiva, tinha tendência a defender fanaticamente a primeira opinião que expressasse. Fechada sobre si mesma, recusava-se a ver mais além, o que a tornava agressiva. Dominada pelo instinto, desejosa de controlar tudo, e aborrecida com a impossibilidade de o fazer, alternava continuamente o alvo do seu olhar, mas ainda assim qualquer alvo era incomodativo.
Após algum tempo de silenciamento externo, Selene não resistiu mais e com revolta começou a atacar os pombos que ali passeavam:
- Olhem que animais tão parvos… Não param de comer. Nem sequer guardam um pouco para se mais tarde precisarem!
Hélio manteve-se no seu reflexivo silêncio, enquanto Gaia concordou e ainda acrescentou:
- É verdade, parece que comem para passar o tempo.
Depois de ouvir isto Selene sentiu-se apoiada, e com mais confiança continuou num ataque repartido com Gaia:
- Para onde voa um vão todos atrás! Vão para onde está a comida e não fazem nenhum esforço para a conseguir...
- Pois é, e ainda roubam a comida uns aos outros!
- Como se isto não fosse suficiente, limitam-se a um campo reduzidíssimo, não vão além deste curto espaço onde se habituaram a viver...
- São comodistas! Preferem o que é garantido em vez do esforço de crescer e arriscar.
- No fundo eles nem escolhem o seu caminho individualmente…
- Mas depois acabam por ser ainda mais individualistas! Não achas Hélio?
Hélio concorda, e em tom brando e assertivo responde calmamente:
- Sim, isso é um facto. Funcionam cada um por si, guerreiam para chegar primeiro e o que se safa vai logo embora...
Então Selene e Gaia, entusiasmadas, intensificaram o ataque:
- Já viram que quando eles querem acasalar andam às voltas sobre si mesmos para impressionar?
- Sim é verdade… e ainda por cima estão constantemente a fugir, azulam até de quem lhes dá alimento. Vivem completamente amedrontados... Mais rápido se acobardam do que enfrentam o perigo!
- Então e já repararam que não aproveitam a sua leveza, e optam por caminhar de forma mais pesada, sobre as suas finas patas, esforçando-as excessivamente?
- Sem dúvida, movem-se muito mais lentamente do que aquilo que conseguem, e preferem estar aqui a andar enquanto podem voar livremente.
E é quando Selene e Gaia, em coro, rematam:
- Ainda por cima estão sempre a fazer porcaria.
Após este ataque, Selene silenciou a voz, enquanto, sentindo-se tão superior àqueles animais, pensava que nem deviam partilhar o mesmo espaço. Foi durante esta pausa que anunciava o fim do ataque, que Hélio quebrou o seu profundo silêncio.
- Estive a ouvir-vos atentamente, e reflectindo sobre as vossas palavras concordo com tudo o que disseram. Mas vocês já repararam que estavam a falar de nós? Tudo o que disseram encaixa perfeitamente no Homem...
Indignada, Selene responde:
- Achas mesmo? Os pombos nem merecem estar no mesmo espaço que nós. Eles são inúteis, além de não construirem nada que nos seja benéfico ainda conseguem destruir o que está à sua volta. Ainda por cima sujam tudo, não respeitam o espaço do Homem.
- Exacto, continuas a dar-me razão. Só quando deixarmos de ter essas características que lhes apontaram é que eles deixarão de nos incomodar. Indo um pouco mais longe, só aí é que nós deixaremos de os incomodar a eles. Só teremos paz quando passarmos a viver presentes na nossa vida. Se criticamos nos outros, é porque nos sentimos incomodados, e isso só acontece porque também temos essas mesmas características, eles apenas nos mostram o que somos.
Hélio entra novamente no seu característico silêncio meditativo durante cerca de sete segundos e retoma o seu raciocínio:
- Só aí chegaremos ao seu nível, ou seja, não teremos este fel. Lutando para vencer estes defeitos mais básicos fortalecemos a força de vontade. Aí acreditaremos nas nossas capacidades e voaremos sem limite, com a possibilidade de realizar todos os nossos sonhos, porque nós somos o que acreditamos. Nós somos o que alimentamos. Tornamo-nos naquilo em que nos focamos, os nutrientes aos quais abrimos as portas psíquicas passam a integrar o nosso organismo, transformando o que somos. Aí deixaremos de viver num grupo pré-programado e cada um voará livre no seu próprio caminho. A ignorância é mãe da incompreensão e avó da revolta, e desta última nasce a frustração. A ignorância é a única prisão. Da liberdade nasce a felicidade e a realização.
Nós temos os genes de Gaia, não lhe podemos ser indiferentes. Mas temos o livre arbítrio para optar por dar mais espaço aos conflitos mentais ou à compreensão do coração, à escuridão ou à luz. E o que alimentamos cresce. Mas temos de nos lembrar que podemos ver sempre mais fundo do que nos parece à primeira vista. Podemos sempre ver as coisas por nós próprios. Só precisamos de luz.

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quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Vida espiritual



Em época natalícia folheamos um dos Tratados inseridos no “Livro dos Preceitos de Ouro”, escrito em Sânscrito, e editado no final do Séc.XIX em Inglaterra.


Texto Dina Cristo

Entre os principais ensinamentos estão matar a ambição, a fome de crescimento, todo o sentido de separação, o desejo de sensação, de conforto e o próprio desejo de viver. «O Caminho e a verdade vêm em primeiro lugar, em seguida vem a vida», indica Mabel Collins neste livro, um clássico da literatura espiritual oriental, editado em Londres em 1885.

«Cada homem é para si próprio absolutamente o caminho, a verdade e a vida», depois de ter dominado a personalidade. «Uma vez que tenha passado pela tormenta e atingido a paz, então é sempre possível aprender», afirma a autora que aconselha: «Procura pela flor que desabrocha durante o silêncio que se segue à tormenta (…)», altura em que a percepção desperta.

A autora britânica ensina a desejar somente o que está dentro e além de cada um e é inalcançável. Fixar os sentidos no invisível e no inaudível é a única cura para o desejo, assegura. Mabel Collins orienta a desejar ardentemente o poder e fervorosamente a paz e quanto a posses que estas sejam acima de tudo para o Eu, a Alma Pura. «Deseja apenas plantar a semente do fruto que alimentará o mundo», afirma.

Dos ensinamentos fazem parte a observação de tudo ao redor de cada um, incluindo as sensações. Há que ter confiança, abrir a alma, auxiliar os outros, ajudar as pessoas que fazem o bem (em vez de censurar ou afastar-se do mal), controlar e usar o eu, a personalidade, um instrumento de experiência e experimentação sujeito ao erro.

Há que combinar um pouco de leitura ou de escuta com muita meditação, cientes de que a voz mental apenas é ouvida no plano em que a mente actua, que ao conservar os olhos fixos na pequena luz ela crescerá, que é no centro, na Alma, que reside a esperança e o amor e que é no silêncio que se encontra um momento de satisfação, de paz e de força.

Entre as verdades essenciais, como a alma e o princípio que dá a vida ser imortal – demonstrado por Immnuel Kant – cada pessoa é o seu próprio legislador. E um dos conselhos deixados pela autora, inspirada por Hilarion, que pertenceu ao movimento gnóstico e neoplatónico, é mesmo estudar as leis, entre as quais a da Graça.

Entre as regras transmitidas está procurar o Caminho, recolhendo-se para o interior e avançando ousadamente para o exterior, sabendo que para cada temperamento há uma estrada (mais) adequada. Depois de iniciada não há mais que ceder às seduções dos sentidos ou então experimentar até não mais ser afectado por elas.

É a dor, em primeiro lugar, e depois a sua superação que leva os seres humanos a ouvir a alma, a fazer silêncio e a encontrar a paz. «Assim como o indivíduo tem voz, aquilo em que ele existe também tem voz. A própria vida tem uma fala e nunca está silenciosa», escreveu a autora desta obra cuja segunda parte é dedicada apenas a discípulos.

Carlos Cardoso Aveline, teósofo, faz, no seu website uma análise e interpretação do Tratado para se ler com os olhos do espírito: « “Luz no Caminho” [1] tem um estilo paradoxal, e fala mais à alma que ao cérebro. Contém palavras, mas está livre delas. Leva o leitor a um plano da realidade em que a compreensão está além da linguagem verbal e transcende as suas limitações. A obra fala aos dois hemisférios do cérebro humano, o lógico e o intuitivo. Dá conselhos aparentemente contraditórios, mas isto se deve ao fato de que a natureza do ser humano é, realmente, dual».

(1) “Luz no Caminho”, Mabel Collins, edição de bolso com 110 pp., Editora Teosófica, Brasília, 1999. Há uma edição da Editora Pensamento, com 85 pp.

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quarta-feira, 10 de abril de 2013

Trindade


Num mês em que o Centro Lusitano de Unificação Cultural faz anos que pela primeira vez editou um livro (há 25), organizou um ritual (há 20) e publicou uma revista (há 14) - a “Biosofia”, vencedora do Prémio Informação Solidária este ano - relemos uma das suas obras.
Texto Dina Cristo

No livro, publicado em 2000 e assinado por Trasgo, pode ler-se: «O que vemos depende do olho, não do que há para ser visto, não da Luz; o que ouvimos depende do ouvido, não do que há para ser escutado, não do Som»[1]. «A Voz do Espaço-Tempo expressa muita coisa; porém o Silêncio permanece ainda além»[2]. Nele se aborda o pólo feminino, o masculino e a sua síntese.
O espaço corresponde à matéria, à mãe, ao Espírito Santo, à luz oculta. É o pólo material que se expressa através da criatividade. Está associado à forma e sons externos, à melodia, e à quarta dimensão, a percepção tetradimensional que inclui, além do nível tridimensional (altura, largura e comprimento), a capacidade de consciencializar vários espaços coincidentes ou sobrepostos.
O tempo corresponde ao espírito, à luz maior. É o pólo espiritual que se expressa através da síntese. Está associado ao silêncio, à vida, à vontade, ao impulso e à quinta dimensão, a percepção pentadimensional que inclui, além da tetradimensional, a possibilidade de consciencializar, em simultâneo, vários tempos; está igualmente relacionado com o karma, a ordem e o nome.
Desta relação, resulta o filho, o espaço-tempo, a luz da consciência exteriorizada, a alma mediadora e o ponto de unidade entre o padrão vibratório essencial e perene, o pólo masculino, e os sons externos de cada forma, o pólo feminino; corresponde ao verbo que permite a coesão e a animação da forma.

[1] CLUC – No domínio do espaço-tempo, 2000, pág. 104. [2] Idem, pág. 95.

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domingo, 21 de abril de 2013

A Comunicação Oculta VI



Nesta sexta parte, esclarecemos o processo de Comunicação, circular, de aproximação sucessiva, através da Evocação e da Invocação.

Texto e desenho* Dina Cristo

No encontro entre o feed-back, a resposta, a capacidade de recepção, e a emissão, assim, re-nutrida, acontece a Comunicação - o espaço e otempo de troca, identidade, união, aproximação, fusão, expansão, movimento e transcendência entre ambos os interlocutores, o pólo activo e masculino, e o pólo passivo e feminino, que conduz à ampliação da consciência, à iluminação e à compreensão.
Ela pode efectuar-se a nível horizontal, indirecto, mais distante, desagregador e mediatizado, como no caso dos “media”, que promove a involução, ou a nível vertical, directo, íntimo e imediato, como no caso de uma revelação, qual escada de Jacob, que une e promove a evolução. Pode também ter uma direcção mais ascendente, espiritual, unificadora, impressiva e subjectiva, ou descendente, material, multiplicadora, expressiva e objectiva.
Contudo, é sobretudo ao nível interno, subtil e profundo, da Alma, mais do que ao nível externo, perceptível e superficial, da personalidade, quer no contexto Macro quer Microcósmico, que o t(r)ocar acontece, que a relação e a ligação entre os seres se efectua ou, mais propriamente, se aprofunda, dado o elo pré-existente.
É o caso dos Campos Mórficos e da Teoria da Ressonância, defendida por RupertSheldrake do modelo implícito de David Bohm, como da Biologia Quântica, por exemplo: «As células vivas parece poderem comunicar umas com as outras e essa comunicação não é afectada pela distância. É um campo energético algures», refere Cody Johnson[1].
Segundo Dion Fortune «A alma humana é como um lago que se comunica com o mar por meio de um canal submerso; embora aparentemente o lago esteja cercado por terra, o seu nível de água baixa ou se eleva com as marés, por obra dessa conexão oculta. Ocorre o mesmo com a consciência humana: existe uma conexão subterrânea entre as almas individuais e a alma do mundo, e essa comunicação se processa profundamente, confinada nos escaninhos mais primitivos da consciência»[2].
Como também explica Liliana Ferreira, Física: «Todas as coisas, seres, fenómenos são parte de uma grande rede de interconexão universal»[3]. Eckhart Tolle sublinha essas correntes psicológicas, que ligam os indivíduos, para além das electroquímicas, que juntam os átomos, através da força eléctrica coesiva: «(…) não existem fronteiras absolutas entre o corpo/ego e a totalidade da existência»[4].
Trata-se de uma espécie de co-ligação orgânica e universal prévia, comum e interior: «É através desses corredores e coordenadas cosmodésicas que vos comunicais, directamente e por via interna, com todos os comprimentos de onda de todos os Seres (…) A verdadeira comunicação, directa e não desvirtuada, só pode, pois, processar-se por via interna”[5].
«A dissemelhança existe – é absolutamente necessária – neste universo em que os contrastes geram consciência; mas estas assimetrias vivem dentro de grandes Simetrias, cujo acorde, lenta mas inexoravelmente, as conduz, as afina, as eleva a patamares superiores de consciência comungante, a novas identidades comuns» esclarece Isabel Governo[6], por isso, acrescenta a mesma autora outro artigo «Tudo se repercute, tudo se comunica no Universo»[7].

A (des)poluição do canal

A Comunicação Integra(l), holística, cuja Fonte e Destino é anímico, é frequentemente bloqueada, obstruída, embargada, barrada, perturbada e interrompida pelos vícios da personalidade, quer ao nível físico, com os químicos, toxinas, isolantes e analgésicos, quer ao nível emocional, com a resistência e tensão, e mental, com pensamentos densos e pesados.

A palavra, já de si insuficiente para traduzir e por trair o pensamento original, quando icorrectamente usada ou abusada - como no caso das banalidades, calúnias, injúrias, lamentações, mentiras, obscenidades ou a incontinência verbal - degrada a esfera comunicacional já por si sujeita à entropia: «Dos genuínos Conhecimento e Sabedoria provenientes dos níveis suprafísicos – ao atravessar os vários planos e suas inerentes resistências – algo como que se fragmenta e se perde»[8].

Um campo psicológico e fisiológico fechado, interessado, com inclinações, como diria Kant, poluído e desorganizado impede e dificulta a livre circulação, a fidelidade comunicativa, a fluidez, a sintonia junto do ecran, os sentidos do corpo físico, que permita captar o Silêncio. «Quem renega essa Presença, em regra, introduz um ruído interno tão grande que a apaga enchendo-a de dependências Temporais – apetites, sensualidade, música, arte com ênfase no sexo, etc., ou gera bloqueios que a calam»[9].

A desobstrução e a abertura dos canais faz-se através da sua purificação – física (água, [essenciais] vegetais – que franqueiam o contacto com os outros reinos, planos e níveis de consciência -, pausas, respiração, ritmo e sacrifício), emocional (amor, desapego, calma e simpatia) e mental (palavra amável, clara, exacta, prudente, sagrada, verdadeira e útil); quando a identificação com posições, preconceitos e hábitos mentais está fora do caminho, começa então a verdadeira comunicação[10].

Para a Comunicação instantânea (Nirvichâra), com o âmago da Natureza e o íntimo dos seres e dos fenómenos, é, assim, fundamental a limpidez dos canais - a concentração mental, a serenidade emocional e a descontração física. A aspiração à elevação pode, por sua vez, ser facilitada designadamente através do Silêncio, da Meditação (o Agora), do Yoga, da Alquimia, da Sexualidade, como de Mantras ou de Invocações.

* Anos 70

[1] Portugal Teosófico, nº87, p.6. [2] Citado por GOVERNO, Isabel N. – Como somos feitos… in Biosofia, n.º 29, Outubro 2006, p.16. [3] FERREIRA, Liliana - Caos e complexidade – a flecha do tempo in Biosofia nº29, Outubro 2006, p.43 [4] TOLLE, Eckhart – O poder do Agora, Editora Pergaminho, 2003, pág. 15. [5] CLUC - No Templo do Espírito Santo, Centro Lusitano de Unificação Cultural, 1992, p.20. [6] GOVERNO, Isabel – O Som e o Número, Biosofia, Inverno 2007/2008, nº32, p.26 [7] GOVERNO, Isabel N. – Como somos feitos… in Biosofia, Outubro 2006, n.º 29, p.16. [8] CLUC - No Templo do Espírito Santo, CLUC, 1992, p.74, [9] HAC – Lei da Graça – Lei das Analogias – Assim na terra como no céu. STP, p.32. [10] TOLLE, Eckhart – A prática do poder do Agora, p.109 e MARQUES, Tomás – O Advaitismo, Biosofia, nº24, Primavera 2005, p.20.

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quarta-feira, 19 de junho de 2013

O Caminho do Yoga

Wikipédia
Antes do Dia Mundial do Yoga, publicamos um artigo originalmente editado na revista "Biosofia", no ano 2000[1]. Nele o autor, diácono da Igreja Católica Liberal, explica quais são os principais tipos e princípios do Yoga.

Texto João Gomes 

Olhamos à nossa volta, e sentimo-nos insatisfeitos com as respostas que encontramos nas várias áreas do conhecimento e da chamada fé. Percebemos, no âmago do nosso ser, que chegou a altura de desvendarmos os mistérios e os véus que cobrem a vida. É ai, num pedaço de milagre, surge o início da resposta, vinda muitas vezes por “acaso”, numa conversa, num livro ou num filme.
Para muita gente, o yoga é a resposta para essas quatro questões fundamentais. [Quem sou eu? O que faço aqui? Donde venho? Para onde vou?]. Infelizmente, também para alguns, ele é a teia que os sufoca e os ilude.

O que é o yoga?

Uns dirão que é uma espécie de ginástica, de acrobacia oriental; outros, mais perto da verdade, afirmarão que é uma filosofia de vida; outros ainda, que é uma forma de atingir a paz e a libertação da roda dos nascimentos. A resposta a esta questão, encontra-se na raiz etimológica do termo. O vocábulo yoga é uma palavra do sânscrito e deriva do termo yug, que quer dizer união, unir. No yoga, o aspirante pretende unir o seu eu inferior (a personalidade, o anjo lunar, o quaternário, o subconsciente e o consciente) ao seu Eu Superior (o Cristo Interno, a alma espiritual, o Ego, a tríade, o anjo solar, atma, purusha, o supraconsciente). Assim, o yoga faculta-nos os meios, as técnicas e os instrumentos, para chegarmos a este fim.
Será interessante fazermos aqui um pequeno parêntesis e compararmos a psicanálise ao yoga. Na primeira, temos uma metodologia que nos permite “descer” ao subconsciente e analisar e conhecer o seu conteúdo; no segundo, apresenta-nos uma técnica que nos permite “subir” ao supraconsciente e contactar com o seu mundo.

O folclore da pseudo-espiritualidade

São muitos, infelizmente, os falsos gurus, os falsos mestres, que pululam por aí. Com um ar mais ou menos oriental, com os olhos mais ou menos em bico, com uma conta mais ou menos choruda, estes vendedores de sonhos apresentam-se como salvadores, avatares encarnados, que apenas com um olhar, são capazes de ministrar as mais altas iniciações. E o ocidental, guloso por algo diferente, ansioso por poderes psíquicos e sensações místicas e ocultas, aspirando à paz enlatada do pseudo-nirvana, corre, com o olhar húmido e a bolsa aberta, para os braços do seu exótico e sorridente guruzinho, o papá espiritual.
Poucos são os Instrutores que, com a humildade da experiência e do conhecimento, sabem que eles não são mais do que alunos no meio de alunos; auxiliares no processo de descoberta, que o estudante fará no seu percurso espiritual, do seu Mestre Interno (o Cristo Interno). É precisamente esse mestre interno, que apresentará o discípulo ao seu (verdadeiro) Mestre, esse Ser Excepcional, flor rara das altas montanhas, que obviamente, não frequenta ginásios da Nova Era, grupos “esotéricos e iniciáticos” (que, de esotérico só têm o chapéu e, de iniciático, o avental) e ashrams poeirentos e anandicos.
Desculpem os leitores, se causticamente desanco certo folclore ligado ao yoga e a movimentos afins. Estar calado é ser cúmplice. Amo demasiado o yoga e a filosofia oculta, para suportar, sem gritar e sem protestar contra, o modo como certos gurupitecos usam e abusam da Doutrina Sagrada. Nada tenho contra aqueles que, competente e honestamente, vivem em exclusivo para o ocultismo, cobrando o seu justo salário. Lá porque se é espiritualista, não quer dizer que o indivíduo não tem o direito, e o dever mesmo, de viver com dignidade. Todavia, o que eu não posso de modo nenhum concordar e entender são: os luxos, a baba vaidosa e matreira; os excessos; o culto das personalidades; os “segredos de Polichinelo”; a ignorância primária; a exaltação do vulgar e da ocultite; a exploração da aspiração sincera e legítima; o fanatismo sectário – e os negócios chorudos que florescem à volta do sagrado. Quem o faz desconhece a regra, quem o faz “marimba-se” para o espiritual.
Quando despertamos para a espiritualidade, uma das primeiras questões que se coloca na nossa mente, é a de sabermos qual o tipo de yoga que devemos seguir. A resposta a esta dúvida encontra-se na auto-análise prévia, que devemos efectuar. O tipo de yoga a escolher vai depender de três ou quatro factores essenciais: a idade; a raça (no sentido oculto); as polarizações; e o temperamento do praticante ou raio predominante.

Os sete sistemas de yoga

De um modo geral, consideram-se sete grandes yogas:

O Hatha Yoga, método indicado para adultos polarizados no seu corpo físico (tipo lemuriano) e nos chakras inferiores (raiz ou sacro), imaturos emocional, mental e animicamente; crianças (quando devidamente adaptado); e, predominantemente, pessoas de temperamento do 1º raio (tipo voluntarioso e determinado), 4º raio (tipo artístico, com grande sensibilidade para a estética, beleza e harmonia) e 7º raio (organizado fisicamente, valorizando os detalhes e os pormenores). O praticante deste sistema utiliza os exercícios físicos (asanas) e os exercícios respiratórios (pranayama) para atingir os seus fins. Segundo esta metodologia, a mente (vritti) é governada e dirigida pelo prana (energia vital), ou seja, o princípio inferior governa o superior. Este yoga é o mais antigo de todos, e tem as suas raízes na Lemuria e na 3ª raça, quando a humanidade atravessava o estágio infantil. Acrescente-se ainda que os Mestres e os grandes iniciados desaprovam a prática deste sistema, argumentando que: o nível evolutivo actual e médio da raça; os excessos circenses e acrobáticos desta disciplina, e algumas práticas de recuperação do controlo consciente de certos órgãos internos, que naturalmente, ao longo do processo evolutivo, passaram para a direcção do inconsciente – são tudo razões que desaconselham, claramente, a prática deste marga. Acrescentamos por fim, que a espiritualidade não é, nem pode ser, um circo, um espectáculo!
O Karma Yoga, metodologia de tipo generalista recomendado a todos os tipos de yoguis. Este sistema é um dos mais seguros e eficientes, exigindo do praticante uma personalidade (corpos mental, emocional e físico) equilibrada e bem desenvolvida, alinhada com a alma ou o Eu Superior. Os Chakras inferiores (raiz, sacro e solar) direcionam-se para o chakra cardíaco, e funcionam em sintonia com ele. Este é o yoga da acção inspirada, do serviço, da entrega. Se tivermos em conta que iniciamos um ciclo regido pelo 7º raio (vector que governa o plano físico) e que, encarnados, temos o dever de utilizar o corpo mais denso no serviço ao plano divino, então percebemos a afirmação inicial de que este yoga é do tipo generalista. Os discípulos do 3º raio (inteligentemente activos e adaptáveis), do 7º raio e do 1º, sentem-se especialmente atraídos por este caminho. O Senhor Cristo Maitreya, Gandhi, Annie Besant e Madre Teresa de Calcutá podem ser considerados exemplos superiores deste tipo de percurso.
O Laya Yoga é um sistema utilizado pelos iniciados (do 2º grau, preparando-se para a 3ª iniciação) sob a direcção do seu Mestre. Neste sistema, o discípulo medita e reflecte nas características e natureza dos chakras elevando, nas últimas etapas, a energia de Kundalini até ao último centro, o chakra coronal. Num breve parêntesis, esclareço aqui que esta metodologia não tem nada a ver com qualquer tipo de exercício tântrico ou sexual. Se assim fosse, não faltaria por aí grandes iluminados. Esta prática exige que o iniciado tenha já algum desenvolvimento do princípio atmico ou espiritual e um certo alinhamento, ainda que mínimo, com a mónada. Este é um dos yogas mais perigosos, e que provoca um grande fascínio nos aspirantes. Contudo, nunca é demais repetir que são a consciência, a meditação, autodisciplina, o serviço e a maturação espiritual que devem levar ao despertar dos chakras e não o contrário.
O Bhakti Yoga é o marga do devoto, o caminho do coração, a via do místico, recomendado a todos aqueles que estão polarizados no seu corpo emotivo e no chakra do plexo solar (tipo atlante). É também o método indicado para os adolescentes e jovens quando devidamente adaptado na sua linguagem e técnica. O devoto, através de cânticos, mantras, orações e cultos, dedica todo o seu amor à sua divindade tutelar, ao seu Mestre, procurando unir-se misticamente ao seu objecto de adoração. É minha opinião que este yoga deveria ser adaptado para servir o homem de hoje. Provavelmente deveria incluir-se nele o amor à natureza, o amor ao próximo e o amor às hierarquias espirituais e angélicas. Isto permitiria ao grosso da humanidade direcionar as suas energias emotivas e afectivas, que predominam na estrutura psico-espiritual da maior parte de género humano, para fins e causas superiores. A médio e longo prazo, permitiria a solução do problema ecológico (a questão ambiental é não apenas uma problemática da informação e de vontades política e económica mas, sobretudo, o resultado da falta de amor, da falta de integração do homem nos reinos naturais, da perda do sentido da sacralidade da vida e da reverência pela Terra). Daí a urgência de um yoga verde, agente integrador do homem e da natureza, de um yoga humanista, que permita a fusão do ser humano no corpo maior da humanidade; e de um yoga angélico (não quero com este conceito alimentar certas práticas tão habituais nos tempos de hoje, que mais parecem negócios com o céu) que facilite o contacto do homem com os reinos angélicos e dévicos. Importa esclarecer que não se tratariam de três yogas diferentes mas de três ramos do mesmo sistema, o yoga do amor, o bhakti marga. Os temperamentos do 6º raio (tipo devoto, dedicado e idealista) e do 2º raio (características amorosas e sábias) sentem-se profundamente tocados por este yoga. Exemplos superiores deste caminho terão sido S. Francisco de Assis, S. João Apóstolo e Ramakrishna.
O Jnana Yoga ou o marga do conhecimento, da sabedoria e da iluminação. Nele, o discípulo procura unir-se à divindade através do conhecimento espiritual. As suas disciplinas compreendem o domínio dos sentidos, o controlo da mente, o estudo e a meditação no Espírito Omnisciente (a Mente Universal), de modo a que, com a prática, o yogui atinja a iluminação, transformando o conhecimento em sabedoria. Este é o caminho adequado a todos aqueles que estejam polarizados no corpo mental e no chakra laríngeo (tipo da 5ª Raça-Raíz): os intelectuais e os estudiosos. Os discípulos do 2º, 3º e 5º (tipo científico) raios sentem-se especialmente atraídos por este sistema. Exemplos típicos e elevados deste yoga terão sido o Senhor Buda Gautama, Helena Blavatsky, Teilhard de Chardin, Alice Bailey, Pietro Ubaldi e I.K. Taimni.
O Raja. Este é o caminho real (raja). É o marga que sintetiza todos os outros – não nas práticas, mas nos resultados. A prática essencial deste caminho baseia-se na meditação. O discípulo, ao longo de oito passos, vai aprimorando o seu carácter; rectificando a sua postura; dirigindo a sua energia vital; controlando os seus sentidos, aprendendo a pensar e a meditar; e, por fim, no último estágio, mergulha no seu Eu Superior, identificando-se gradualmente com a sua essência espiritual. Recomenda-se este yoga a todos os discípulos que têm já o seu quaternário inferior (a personalidade) razoavelmente coordenados e estão polarizados no chakra frontal (tipo superior da 5ª Raça-Raíz). Os estudantes dos 5º e 1º raios sentem-se sintonizados com este método.
O Agni Yoga. Muito pouco se sabe deste percurso espiritual. Conhece-se apenas que ele será o yoga da próxima raça, a Sexta. O discípulo deste yoga tem já o seu corpo búdico e intuitivo razoavelmente desenvolvido e encontra-se polarizado no chakra cardíaco e no centro correspondente da cabeça. Este é a via dos discípulos avançados e dos iniciados. Muito sinteticamente, poder-se-á dizer que ele é o caminho da vida, da síntese espiritual, do fogo, da intuição e do sacrifício. O 2º e o 4º raios regem este percurso.

Os primeiros passos

Entende-se no sistema preconizado por Pantajali, o sistematizador da Filosofia Yoga, que este caminho espiritual deva ser percorrido ao longo de oito passos, ramos, partes ou angas. Não deixa de ser curioso que, também o sistema budista de libertação ou emancipação espiritual – O Nobre Caminho Óctuplo – seja composto por oito passos, e que, os raios que governam a 5ª Raça-raiz, o actual tipo evolutivo liderante, sejam o 3º e o 5º, que somados perfazem oito. Aliás, os oito passos do yoga estão divididos em dois grupos: o yoga externo, que constitui os cinco primeiros passos, e o yoga interno, os três últimos. Coincidências?
Os primeiros dois passos, yama e niyama, consistem numa série de disciplinas ou valores de carácter moral, que perfazem o total de dez, tal como acontece nos mandamentos da tradição judaico-cristã. Os objectivos destes princípios são o de preparar o yogui para, de uma forma bem estruturada eticamente, poder enfrentar os desafios que a prática mais profunda da meditação lhe vai colocar no seu caminho. Para além disso, estes valores promovem: o desenvolvimento das correctas relações com o homem, com a natureza e com Deus; a cristificação da aura; a purificação dos chakras inferiores e dos corpos da personalidade; a elevação das forças dos centros inferiores, para os chakras superiores.

Os cinco Mandamentos

Yama«Há apenas um caminho para a senda, e só bem no seu final se pode ouvir a “A Voz do Silêncio”. A escada pela qual ascende o candidato é formada de degraus de sofrimento e de dor, que só podem ser aplacados pela voz da virtude. Ai de ti, discípulo, se restar um só vício que não tenhas deixado para trás. Pois então a escada cederá e deitar-te-á abaixo; as suas pernas estão apoiadas no profundo lodo dos teus pecados e falhas e antes que possas tentar atravessar este largo abismo de matéria, tens de lavar os teus pés nas “águas da renúncia”»[2].
Ahimsa – Inofensividade ou Não Violência. Todo o yoga se fundamenta, se enraíza no valor, no voto da Inofensividade. O yogui deverá praticar a não violência em todos os pensamentos, palavras e actos. Este é o mandamento básico do Yoga. Ahimsa baseia-se no conhecimento, que o yogui tem, da unidade essencial, da sacralidade de toda a vida e de todo o Cosmos. Para o yogui, todo o Universo é o corpo, é o organismo da divindade, de Ishvara.[3] Por isso, ele deve pôr em todos os seus gestos, em todas as suas acções, o amor que lhe vai na alma e reparti-lo por toda a criação. Amando o Criador ele ama as criaturas. Esta é a Lei máxima de todo o yoga.
Disse Gandhi: «A não violência é uma força da Ordem Superior. É a força espiritual, o poder de Deus em nós. Participamos da divindade na medida em que manifestamos a não violência».
Brahmacarya – Controlo Sexual, Criatividade Mental. Este, devido à nossa incapacidade de perceber o lado interno da vida, é talvez um dos votos mais difíceis de entender. Brahmacarya não nos pede exactamente, como tradicionalmente se afirma, que deixemos de ter actividade sexual mas que apliquemos principalmente a energia reprodutiva, em acções de criatividade mental. Quando o yogui é criativo no modo como se veste, no modo como cozinha, na maneira como fala e se expressa, na sua profissão, enfim, no modo como vive e se manifesta, a sua actividade e necessidade sexual diminuem naturalmente. A energia criativa, que até aí se expressava essencialmente ao nível da libido, ao nível sexual (chakra sacro), passa de modo gradual a expressar-se ao nível mental (centro laríngeo).
Asteya – Honestidade, não roubar. A honestidade não significa, apenas, não roubar (no sentido legal do termo); quer dizer, sobretudo, não nos apropriarmos daquilo que não nos pertence. O discípulo não afirma ter escrito, dito ou feito aquilo que não realizou; não aceita uma recompensa por ter cumprido o seu dever; não aceita privilégios que não lhe são devidos.
Deixo aqui uma afirmação de Gandhi para meditação: «Todo aquele que possui coisas de que não precisa é um ladrão».
Aparigraha – Desapego. Ausência de Desejos. Sobriedade, Simplicidade. Todos os grandes yoguis, iniciados e iluminados, foram simples. Foram simples na forma como viveram, foram simples na forma como transmitiram os seus ensinamentos (o que não quer dizer que as suas doutrinas fossem simplistas!). Foram sóbrios nas suas posses, foram sóbrios nos seus desejos pessoais. Este mandamento, aparigraha, continua o anterior. O yogui não só é honesto, como também é sóbrio. Deseja ele apenas o necessário para a sua sobrevivência e dos seus, e o estritamente indispensável para o cumprimento da sua missão.
Satya – Veracidade, Sinceridade. Também aqui deverá entender este mandamento de uma forma mais abrangente do que o simples não mentir. Satya implica a abstenção de exageros e equívocos no pensamento, palavra e acção; o yogui deverá, consequentemente, ser verdadeiro e rigoroso nestas três áreas. Ele não deve pretender ser aquilo que não é; não deve pretender fazer aquilo que não pode ou não deve realizar.

As cinco regras; Niyama

TapasAutodisciplina. Quando abordamos esta regra e meditamos nela, percebemos que tem pelo menos três níveis de interpretação. A primeira, tradicional, resume-se à prática de austeridades, tão em voga nos regimes monásticos da Idade Média no Ocidente e nos Sinyasins da Índia durante a Idade de Peixes. Vemos assim grandes figuras do Oriente e do Ocidente dedicarem-se a este tipo de práticas, que tinham como objectivo o desenvolvimento da vontade e que, porém, levavam muitas vezes ao prejuízo do corpo físico. Trata-se de um tipo de disciplina pisciana, com raízes na Lemúria, e que já não tem nenhum sentido no tipo médio do yogui actual.
O segundo nível manifesta-se como autodisciplina(s) que, normalmente, são aquelas de que gostamos menos. É nestes sectores que o yogui deve autodisciplinar-se e desenvolver a sua vontade. Passarei a dar alguns exemplos: se o yogui tem dificuldades em se levantar da cama pela manhã, deverá desenvolver a sua vontade ou, dito de outro modo, deverá assumir como tapas erguer-se da cama ao primeiro toque do despertador; de uma tarefa doméstica lhe é extremamente desagradável, como tapas deverá efectuá-la com afinco e brio, se tem uma dificuldade enorme em chegar a tempo aos seus compromissos, como tapa fará um esforço para chegar 15 minutos antes. O “truque” de tapas está na concentração ou focalização da mente na tarefa disciplinadora. Se a mente focalizada ocupar todo o espaço da nossa consciência, não daremos espaço ao nosso corpo emocional para interferir e dizer: “Que seca! Que tarefa mais maçadora” Se, pelo contrário, deixarmos a mente solta, permitiremos ao nosso “amigo” emocional interferir na actividade, protestando constantemente, até nos convencer que, de facto, a tarefa em mãos é uma “chatice” e que o melhor é adiá-la para depois. Voltamos a repetir: a chave de tapas reside na concentração da mente. Se habituarmos a mente a identificar-se com uma determinada actividade, chegará o tempo em que a tarefa, que era absolutamente “intragável”, passará a ter o seu quê de interessante.
A forma superior de tapas denomina-se vontade para ou do bem. Esta energia poderosíssima tem a sua raiz na mónada ou Eu Divino e no corpo átmico ou espiritual, seguidamente, expressa-se no lótus egóico, ao nível das pétalas do sacrifício; e finalmente ancora no duplo etérico através do chakra coronal, via corpo mental. Só um iluminado com a terceira ou mais iniciações tem a capacidade de expressar a verdadeira vontade do bem. Talvez uma das fórmulas espirituais que mais revelem o mistério desta força esteja contida numa oração que se encontra no livro "Folhas do Jardim de Morya I” e que reza assim: «Ó Senhor, dá força ao meu coração, e poder ao meu braço, porque sou Teu servo. Nos Teus raios, aprenderei a verdade eterna do Ser. Na Tua voz, escutarei a harmonia do Mundo. Entrego-Te, ó Senhor, o meu coração, sacrifica-o em favor do Mundo».[4]
Svadhyaya – Estudo. Também esta regra espiritual tem vários aspectos. Tradicionalmente, considera-se que uma das regras a observar pelo yogui consiste no estudo das obras que abordam o tema do yoga e da espiritualidade. E assim é. Se, de facto, o yogui não estudar os grandes autores e Instrutores da espiritualidade, como poderá ele querer fazer um trabalho sério nesta área? É como pretender tocar superiormente piano, sem estudar os grandes compositores; ou pintar para a posteridade, sem se embrenhar nos grandes criadores; ou querer exercer medicina, sem frequentar uma boa Universidade e estudar Anatomia, Fisiologia ou Patologia. Não obstante, há alguns aspirantes que pensam que podem praticar yoga ou tornarem-se ocultistas ou esoteristas sem meditarem nas grandes obras da espiritualidade. Dizem eles, ocamente, sem qualquer tipo de consciência do que estão a dizer, que a sabedoria tem de vir de dentro. De duas uma: ou deveras vem de dentro, e então pergunta-se “onde é que ela está?”; ou, então, se não vem de dentro, como realmente acontece, que humildemente se pegue nos livros e se estude! Não nos coloquemos em bicos de pés; só os Grandes Iniciados podem afirmar que a sabedoria lhes vem de dentro. E tal apenas é possível porque durante muitas vidas passaram muito tempo aprendendo directamente com os Mestres da Sabedoria e da Compaixão e os seus discípulos, ou investigando e reflectindo nas grandes obras da espiritualidade.
Outro aspecto de svadhyaya consiste no estudo e na análise da sabedoria e da cultura do tempo onde o yogui está inserido. O yogui é um discípulo que se está a treinar para vir a ser um Mestre da Sabedoria e da Compaixão, um Jivanmukta. Para isso, ele precisará de ter uma cultura superior, devendo conhecer com algum pormenor todas as grandes correntes de pensamento do seu tempo e da história. Como poderá ele ser um posto avançado dos Grandes Mestres e da Doutrina Sagrada, se não conseguir conversar e comunicar, pelo menos ao mesmo nível, com os grandes intelectuais e líderes do seu tempo? É por isso que todos os Iniciados e iluminados foram homens e mulheres de superior cultura. Assim aconteceu com Blavatsky, Annie Besant, Steiner, Alice Bailey, Pietro Ubaldi e tantos outros.
O terceiro aspecto tem a ver com o estudo e a meditação nos símbolos. Para o yogui, o mundo e os acontecimentos da vida são os efeitos de um mundo interior, são símbolos dos mundos superiores. Interessa-lhe sobretudo perceber as forças e as energias que estão por trás de um acontecimento – mais do que, propriamente o acontecimento em si. Ele procura diariamente penetrar, cada vez mais, no mundo das causas, nos planos dos arquétipos.
Por fim, svadhyaya também se expressa como auto-estudo, autoconhecimento, análise das motivações, impulsos, forças e energias que nos fazem mover. Esse autoconhecimento manifesta-se essencialmente pela auto-observação que realizamos no dia-a-dia, e em especial à noite, no exame de consciência.
Isvara-pranidhana – Amor Crístico. Este amor, ao contrário do desejo e do amor pessoal, não está condicionado, sendo absolutamente altruísta e fraternal. O expoente máximo deste amor na história foi o Cristo, o Avatar ou o Senhor do Amor. Na sua vida, Ele expressou de uma forma única o sentido, a grandeza e a entrega do amor espiritual.
Isvara-pranidhana não é apenas um sentimento; ele é também serviço, acção e auto-sacrifício. É serviço prestado altruisticamente à humanidade, é serviço sacrificial prestado ao planeta, é serviço manifestado incondicionalmente ao próximo, é serviço doado impessoalmente ao Plano Divino e é serviço entregue abnegadamente à Hierarquia Oculta, aos Mestres.
Sauca – Pureza. A propósito de sauca passo a citar Taimni. «Antes que sejamos capazes de compreender como podemos purificar a nossa natureza devemos clarificar as nossas ideias acerca da pureza. O que é a pureza? De acordo com a filosofia do yoga todo o Universo, visível e invisível, é uma manifestação da Vida Divina e é impregnado pela Consciência Logóica. Para o sábio iluminado ou santo, que desenvolveu a sua visão espiritual, tudo, desde o átomo até a Ishvara de Brahmanda (O Logos Cósmico ou Solar), é um veículo da Vida Divina e, por isso, puro e sagrado. Assim, em termos absolutos, nada pode ser considerado impuro… Deste modo, purificação quer dizer a eliminação de todos aqueles elementos e condições que impedem os veículos de exercer as suas funções e atingir os seus objectivos. Para o yogui, o propósito é a autorrealização através da união da sua consciência individual com a consciência do Supremo ou a realização de Kaivalya (Libertação, Unificação), tal como a apresenta os Yoga Sutras. Para o yogui, Purificação significa assim, especificamente, a transformação de veículo, de modo a que ele possa servir crescentemente como instrumento para esta unificação…
Todos os veículos inferiores de Jivatma estão constantemente a mudar e a purificação consiste na substituição gradual e sistemática do material comparativamente grosseiro por um tipo mais refinado de matéria. No caso do corpo físico, é comparativamente simples e pode ser efectuada fornecendo ao corpo a matéria adequada na forma de comida e bebida… A carne, o álcool e muitos outros acessórios da dieta moderna tornam o corpo físico completamente inútil para a vida yóguica e, se o aspirante embruteceu o seu corpo através do uso destes alimentos e bebidas, deve sujeitar-se a um período prolongado de uma dieta cuidadosa, para se ver livre do material indesejável e tornar o seu corpo suficientemente refinado.
A purificação dos veículos subtis, que servem de instrumentos para a expressão dos pensamentos e emoções, é conseguida através de um processo diferente e mais complicado. Neste caso, as tendências vibratórias (inferiores) são gradualmente modificadas pela exclusão de pensamentos e emoções indesejáveis substituindo-os constantemente e persistentemente por pensamentos e emoções de natureza superior. À medida que as tendências vibratórias destes veículos mudam, a matéria dos corpos também muda “pari passu” e, depois de algum tempo, se o esforço é continuado, os veículos estão adequadamente purificados. O teste de uma purificação real é fornecido pela tendência vibratória normal que encontramos no veículo. Fácil e naturalmente uma mente pura reflecte pensamentos puros e sente emoções puras, e torna-se difícil para ela entreter-se com pensamentos e emoções indesejáveis; tal como, do mesmo modo, para uma mente impura é difícil produzir pensamentos e emoções superiores e nobres»[5].
A purificação espiritual envolve, assim, três tipos de disciplinas: uma, material, que implica uma dieta tendencialmente vegetariana, a supressão de tóxicos (tabaco, álcool, drogas) e um contacto íntimo com os elementos[6]; outra, psíquica, envolve todo um trabalho de vigilância dos pensamentos e das emoções, de modo a que o yogui não deixe penetrar e habitar na sua mente qualquer sentimento indigno do seu “Cristo Interno”.
Samtosa – Alegria. Como já deve ter percebido, a verdadeira alegria não tem a ver com as condições que nos rodeiam: ela desenvolve-se e cresce apesar das circunstâncias e dos condicionamentos que nos envolvem. Contrariamente, a felicidade depende das circunstâncias exteriores, sobretudo da satisafação ou não dos nossos desejos. Memorize esta chave da alegria, apesar de… Alice Bailey escreveu, a propósito de samtosa, o seguinte: «O contentamento produz uma condição psíquica que promove a paz mental, é baseado no reconhecimento das leis que governam a vida e fundamentalmente na Lei do Karma. Ele produz um estado mental onde todas as condições são aceites como correctas e justas, e como aquelas nas quais o aspirante pode melhor realizar e alcançar o propósito (superior) da sua vida. Isto não implica qualquer tipo de acomodação ou submissão mas, sim, o reconhecimento das condições do momento, uma avaliação das oportunidades, de modo a que formem a fundação e a base de todo o progresso futuro»[7]
*Diácono da Igreja Católica Liberal; Coordenador da Unidade de Serviço Aquarius, inspirada predominantemente na Boa Vontade Mundial.
Bibliografia:
BAILEY, Alice – The light of the soul. Lucis Press Ltd.
BLAVATSKY, Helena – Glossário Teosófico. Ed. Ground.
CLUC – O Tempo das Multidões. Centro Lusitano de Unificação Cultural.
GOMES, João – Curso de Raja Yoga – 1º Grau. Policopiado.




[1] . GOMES, João – Yoga – O Caminho Sagrado da Vida in Biosofia, nº5, Primavera de 2000, pág. 57-59  e nº6,Verão de 2000, pág.31-34. [2] BLAVATSKY, Helena – A Voz do Silêncio. Editora Pensamento, pág.69. [3] Helena Blavatsky escreveu o seguinte no Proémio da Doutrina Secreta: «A Doutrina Secreta ensina a identidade fundamental de todas as almas com a Alma Suprema Universal, sendo esta última em aspecto da Raiz Desconhecida… Por isso dizem os hindus que o Universo é Brahman e Brahmâ; porque Brahman está em todo o átomo do Universo, sendo os seis princípios da natureza a expressão ou os aspectos vários e diferenciados do Sétimo e Uno, a Realidade única do Universo, seja (ele) cósmico ou micrcósmico…» [4] Convido os leitores, com um conhecimento mais profundo do ocultismo, a fazerem o seguinte exercício: substituam na fórmula o termo Senhor por mónada, coração por lótus egóico; braço por personalidade; raios por antahkarana; e voz por corpo búdico ou intuitivo – e uma nova luz poderá brotar sobre este assunto. [5] TAIMNI, I.K. – The Science of Yoga, Quest Book, pág. 221-224. [6] Para alguns ocidentais, poderá parecer algo radical e tipicamente oriental este tipo de visão a propósito das disciplinas de purificação. Devo dizer contudo, que estas disciplinas eram e são tão comuns quer no Oriente, quer no Ocidente. Jesus, no «Evangelho da Paz» (Texto Apócrifo do Séc.I da nossa era) apresenta o mesmo tipo de soluções. [7] BAILEY, Alice – The Light of The Soul, Lucis Press Ltd. , pág. 189.

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