quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Saúde à mesa

Na véspera do Dia Mundial da Alimentação (DMA) recorrermos a uma autoridade para saber como retirar dos alimentos uma óptima nutrição.

Texto Dina Cristo

Entre o grupo dos nutrientes estão os macro - essenciais (e) em grandes quantidades diárias, como as proteínas, os hidratos de carbono e as gorduras - e os micro-nutrientes - necessários em menores quantidades, como as vitaminas e os sais minerais.
Entre os macro-nutrientes, as proteínas constituem o material básico de todas as células, são como blocos de construção do corpo - conjunto de núcelos altamente organizado, composto por 66% de água, 96% de carbono, hidrogénio, oxigénio e azoto e 4% de minerais – que se renova a cada sete anos e tem uma enorme capacidade de resistência. Há 25 aminoácidos: oito são básicos, aqueles a partir dos quais se formam os restantes 17.
Os hidratos de carbono são o principal combustível do corpo humano. Existem os de libertação rápida – que elevam depressa os níveis de açúcar no sangue e alimentam micro-organismos indesejáveis - e os de libertação lenta – uma "gasolina" menos poluente.
Quanto às gorduras, há as saturadas (mais negativas), as mono-instauradas (neutras) e as polinsaturadas (mais positivas). As essenciais, como a Ómega três permite o fabrico do ácido alfa-linolénico e Ómega seis o ácido linoleico, que por sua vez produz o ácido gama linolénico, dando origem ao ácido di-homogama-linolénico que cria, então, as prostaglandinas.
Entre os micro-nutrientes, as vitaminas auxiliam a transformação dos alimentos em energia. Outras são antioxidantes (semi) essenciais. A vitamina C, por exemplo, além de evitar a oxidação, é antiviral, antibacteriana e anticancerígena.
Os sais minerais ajudam a adormecer. Há macro-minerais – necessários em grandes quantidades, como o cálcio (que mantém o equilíbrio entre o ácido e o alcalino), o magnésio, o sódio, o fósforo, o potássio - e os micro-minerais – como o ferro, manganésio, cobre, crómio ou selénio.
Anti-nutrientes


As toxinas são oxidantes, radicais livres que ao acumularem-se provocam uma lesão e dores. Quando o oxigénio, que liberta a energia dos alimentos, oxida as moléculas vizinhas, torna-se num equivalente orgânico aos resíduos nucleares. São produzidos durante uma infecção (quer pelos parasitas, bactérias, fungos, vírus quer pelo sistema imunitário) causando danos ao ADN das células. Pode ajudar-se a eliminá-los através da massagem linfática. São exemplos de toxinas o chumbo na gasolina, os aditivos alimentares, os poluentes na água ou os fritos.
Os antibióticos eliminam todas as bactérias do corpo, as más e as boas, como é o caso das intestinais saudáveis, abrindo caminho à multiplicação das prejudiciais. Além disso, há os supermicróbios – os agentes infecciosos que lhes são resistentes.
O stress pode ser físico, emocional (raiva, preocupações, medos ocultos), que causa artrite, ou mental: começa na mente – eleva o nível de açúcar no sangue, o que leva o organismo a libertar maior quantidade de hormonas (como a insulina – que ajuda a transportar a glucose do sangue para as células) para o controlar, quando não é necessário; trata-se de substâncias bioquímicas que estão no sangue, produzidas por determinadas glândulas, que dão instruções às células.
O stress é um estimulante que coloca as células em estado de tensão, consumindo os nutrientes (como o magnésio, o zinco) e a energia. Tornamo-nos como um automóvel em velocidade excessiva gastando os seus componentes. Isso leva à infertilidade, à depressão, ao isolamento social, à indigestão – processamento inadequado da matéria orgânica, devido à falta ou excesso de ácido no estômago, o que provoca gases; acontece no Síndroma Geral de Adaptação. A prazo, conduz ao esgotamento da glândula supra-renal DHEA.
O açúcar leva à perda de energia e ao stress. É importante ter níveis de glucose em circulação no sangue equilibrados; a sua diminuição causa fadiga mental, irritação, agressividade, depressão e dores de cabeça.
Conselhos
Tendo em conta que, no conceito de Patrick Holford, a saúde corresponde a um rendimento físico, um equilíbrio emocional e uma vivacidade intelectual (e a duração da vida depende da herança genética e das circunstâncias, tais como a exposição a vírus) os conselhos (alimentares) são os seguintes: preferir alimentos biológicos, locais, da estação, frescos, crus ou pouco cozinhado, variados, protegidos da luz e do ar; só comer quando se tiver fome e o que necessitamos; beber dois litros de água por dia; tomar o pequeno-almoço cerca de uma hora depois de acordar e duas horas, pelo menos, antes do deitar; diluir água nos sumos; adoçar os cereais com fruta e usar neles sementes moídas; manter-se activo, fazer ginástica aeróbica e relaxar os músculos, evitar o tráfego, a luz solar forte e preferir salteados a fritos, embalagens de vidro a plástico.
Ficam ainda outros conselhos como a necessidade de ter as hormonas de estrogénio (estimula a libertação do osso velho e diminui na menopausa) e progesterona (estimula as células que constroem os ossos novos; é fabricada no saco que contém o óvulo e desaparece na menopausa) em equilíbrio. O predomínio de estrogénio bem como a substituição hormonal aumentam o risco de cancro da mama.
Entre as muitas informações de que o livro está repleto, encontra-se a imunidade. Esta é dada por células no sangue, as B, T e os macrófagos, que impedem os vírus de entrar nas células. É estimulada pelo exercício físico calmante, meditação, alimentação e danificado pelo stress, depressão/luto e excesso de proteínas (que causa acidez). É apropriado para o seu fortalecimento sumo de melancia, sopa de cenoura, grande salada, chá de unha de gato, o zinco, a vitamina C e E.
O autor aconselha a comer fruta fresca: maçã, pêra, limão, melancia, melão, cereja, papaia, ameixa, ananás, morangos, amoras, uvas, manga, toranja, kiwi, laranja, alperce. Legumes, hortaliças e tubérculos: ervilhas, espinafres, feijão verde, pimentos, agrião, cenoura, batata-doce, brócolos, couve-de-bruxelas, aipo, couve-galega, repolhos, couve-flor, espinafre, pepino, cebola, alho, rábano, couve rábano, rabanetes, nabos, cebolinho, alho francês. Óleos: de sésamo, girassol, abóbora, linhaça, amêndoas, nozes, milho, onagra, avelã, caju, margosa, cártamo, gérmen de trigo, borragem, cânhamo e soja. Peixes: cavala, arenque, salmão e atum. Soja, tofu, ovos, algas, quinoa, iogurte, miso, rebentos, bagas de roseira brava, extracto de caroço de toranja e a especiaria açafrão da Índia.

[1] Ed. Presença. 2004.

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quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Comer animais?


A alimentação humana à base de carne está a cada dia que passa a ser posta em causa. Mas nem todas as pessoas estão em condições de mudar. Quando se assinala, este Domingo, o Dia Mundial do Respeito pelos Animais, vamos ver quem pode ou deve adoptar uma dieta vegetariana e porquê.


Texto e fotografia Dina Cristo



Criar e matar animais para depois os comer tornou-se um hábito ancestral, (muito) poucas vezes questionado. Sempre assim foi e há-de continuar a ser, diz o povo: “já a minha avó….”. Habituados à escassez aquando da Grande Guerra, os nossos antepassados viam na carne um luxo, algo apropriado para momentos de festa, aliado a uma certa ideia de estatuto económico-social. Mais tarde, com a produção industrial, o seu custo baixou consideravelmente e o acesso generalizou-se. Passou, então, a fazer parte da ementa quotidiana.
Chegámos, assim, ao ponto em que, nos primeiros anos deste século, cada português consome, em média, cem quilos de carne, por ano. “A maior parte das pessoas pensa que uma refeição sem carne está incompleta, pois, desde tempos imemoráveis, considera-se axiomático ser a carne o alimento mais revigorante que possuímos. Todos os outros alimentos são considerados como simples acessórios de um ou mais pratos de carne no cardápio. Nada mais errado (…)”, escrevia Max Heindel há cem anos.
Ao excesso de carne no prato tem vindo a opor-se um movimento (inter) nacional que chama a atenção para os malefícios do uso, e sobretudo do abuso, do regime alimentar carnívoro. Peter J. D´Adamo tem estudado a dieta mais adequada para cada tipo de sangue e conclui claramente a natureza vegetariana dos indivíduos de tipo de sangue A, ao contrário do tipo O, carnívoros, e do tipo B, que toleram bem a proteína animal, e do tipo AB, que precisam de conjugar a dieta carnívora com a vegetariana.
Os riscos para a saúde são uma dos três razões mais habitualmente apontadas. A carga hormonal e de antibióticos, a alimentação artificial e as condições cruéis a que os animais são sujeitos nas produções intensivas têm vindo a ser denunciadas um pouco por todo o mundo: «Na produção pecuária utilizam-se aditivos e medicamentos de toda a espécie (…) para acelerar o crescimento dos animais e para combater doenças que são, frequentemente, consequência directa da imobilidade, dos maus tratos e da alimentação incorrecta dos animais», escrevia Gabriela Oliveira, no Outono de 2002, na revista “Biosofia” (uma das candidatas ao Prémio Informação Solidária 2009)[1].
As doenças entre os animais abatidos para consumo humano, como a BSE ou actualmente a gripe das aves, são vistas não como um acaso mas uma consequência do tratamento atroz a que os animais são submetidos. O gado deixou de se alimentar livremente nos campos para passar a ser “inchado” em condições degradantes e sujeito às mais diversas técnicas de tortura para lhes aumentar a produtividade e, portanto, os lucros empresariais: «(…) desde que haja possibilidade de ganhar dinheiro com a carne ou com a pele de um animal, o homem perde todo o respeito por sua vida e se converte no ser mais perigoso da terra, alimentando-os e criando-os para ganhar dinheiro, impondo sofrimentos e tormentos a um ser com direito à vida, para amontoar ouro»[2].
Humberto Álvares da Costa denunciava, há dez anos, o problema da assimilação dos desejos animalescos: «(…) também a matéria dos animais é viva e inteligente, mesmo depois de os assassinarmos, e introduzir no nosso corpo os desejos e o modo de sentir dos animais. Quem quer libertar-se, necessita de abdicar de comer animais ou tudo aquilo que promova desejos exacerbados (…)»[3]. Se se juntar a capacidade de antevisão dos animais à sua ida para os matadouros, autênicos campos de concentração, teremos o quadro de animosidade humana, agressividade e ferocidade comum.
Os cadáveres estão impregnados de toxinas, não só pela forma como são crescidos intensivamente, mortos e também, depois, ingeridos: «É natural que desejemos o melhor como alimento, mas todos os animais têm em si os venenos da putrefacção. O sangue venoso está cheio de substâncias venenosas que ele vai adquirindo no seu caminho através de todo o organismo e que normalmente deveriam ser expelidas através da urina e da transpiração. Estas substâncias repugnantes se encontram em todas as partes da carne, e quando comemos esses alimentos enchemos nosso corpo com essas toxinas venenosas. Muitas enfermidades são devidas ao nosso emprego da carne»[4], expunha o autor de "Conceito de Rosacruz do Cosmo".
Num artigo que recentemente publicámos, Alberto Chang explica os mesmos perigos: «As proteínas animais consumidas em excesso deixam resíduos tóxicos nos tecidos, tais como as purinas e ácido úrico, que podem causar putrefacção intestinal, acidificação e diminuição do cálcio e magnésio no organismo. Muitas vezes consomem-se os hambúrgeres bastante fritos ou cozidos e o problema agrava-se mais, visto que ao perder a vitamina B6 e outros nutrientes dá-se o aparecimento de uma substância tóxica: a homeocisteína, implicada na origem da arteriosclerose. Por outro lado, a carne tostada vem a produzir uma substância extremamente tóxica: o benzo-alfa-pirene, implicado na formação de cancro»[5].
Além das incompatibilidades alimentares, da multiplicação de proteína (um dos erros mais comuns à mesa, como é exemplo o bife com ovo), e da forma incorrecta de os cozinhar (demasiado fogo que elimina os nutrientes), o seu excesso deixa, pois, um rasto de veneno pelo organismo: «A carne que se consome», afirma Gabriela Oliveira, autora do livro “Alimentação Vegetariana Para Bebés e Crianças”, «mais não é que um bocado de cadáver impregnado de toxinas e de emoções primárias, resultado de uma vida escravizada e de uma morte violenta»[6]. Daí a tendência das crianças vegetarianas, como sublinha, para ser «(…) mais equilibradas, calmas e afectuosas (…)»[7]

Nutrição vegetariana 

A dieta vegetal ou frugívora é mais saudável, sobretudo se for crua, pois mantém a vitalidade do alimento, e é, muita dela, um antisséptico natural em alto grau (caso do ananás, laranja ou limão), limpando e purificando o sistema orgânico e elevando as vibrações do corpo. «Não devemos, todavia, chegar à conclusão de que cada um de nós teria que deixar de comer carne e dedicar-se a comer vegetais crus. Em nosso estado actual [1909] de evolução são muito poucos os que podem fazê-lo. Temos que cuidar de não elevar muito rapidamente as vibrações de nossos corpos porque, para continuarmos nosso trabalho nas condições actuais, precisamos ter um corpo apropriado para as tarefas que devemos realizar»[8].
Na verdade, o maior poder alimentício não está na carne. A sua proteína requer muitas enzimas digestivas (que o tipo de sangue O dispõe), pelo que a parte não digerida, que fica retida nos intestinos, apodrece e provoca maior acumulação tóxica; acidifica o organismo, origina uma menor actividade, maior excitação e desgasta o corpo. Só as pessoas que a consomem sentem necessidade de um estimulante espirituoso que embriaga, o vinho. Pelo contrário, os vegetais são elementos de mais fácil digestão, fornecem mais energia e a sua nutrição é mais prolongada.
No Génesis (1.29), é referido que a humanidade se deverá alimentar de vegetais: «E disse Deus: Eis que vos tenho dado toda a erva que dá semente, que está sobre a face de toda a terra; e toda a árvore, em que há fruto de árvore que dá semente, ser-vos-á para mantimento». Uma alimentação para a qual está vocacionada: «Os seres humanos podem alimentar-se de todo o tipo de alimentos, mas possuem características digestivas fisiológicas mais próximas do herbívoro que dos carnívoros. Exemplo disso é o número dos dentes incisivos, molares e pré-molares, e um tracto digestivo longo, adaptado à digestão de legumes, frutas e cereais, e em menor grau à digestão de proteínas animais»[9].
Além do envenenamento, embrutecimento e várias doenças, há um “segundo” argumento a desfavor da alimentação à “base” de animais: o ambiente. O Partido pelos Animais, na Holanda, e o documentário “Uma verdade mais do que inconveniente” sublinham o responsabilidade da indústria da pecuária nas emissões de gases no mundo (18%), acima do impacto dos transportes (13%), e na degradação dos solos e da água. Cada quilo de carne de vaca consumido equivale a 16 mil litros de água gastos: «Neste contexto, adoptar uma alimentação tendencialmente de base vegetariana permite, para além de reduzir o impacte sobre o solo, sobre a biodiversidade, sobre a energia e sobre as alterações climáticas, poupar água»[10], relembrava a Quercus no início deste ano. A quantidade de árvores abatidas para dar lugar a campos de cultivo que sustentem alimentação para os animais é outro factor de risco ambiental planetário.
Matar é desumano A terceira “vaga” de contestação é ao nível ético. O ideal de respeito pela vida dos animais e a prática de uma alimentação vegetariana têm sido ensinados e defendidos pelos grandes vultos da nossa história (inter)nacional. S. Francisco de Assis, seu padroeiro, é um dos mais conhecidos. Mais tarde, Leonardo Da Vinci profetizava que dali a alguns séculos qualquer ser humano que matasse um animal seria (re)criminado e condenado tal como “hoje” acontece quando a vítima é um humano.
«Tanto a espiritualidade oriental como a ocidental têm tradições que favorecem o vegetarianismo como expressão de sensibilidade moral e espiritual. No Ocidente, a exclusão de produtos animais foi ensinada pelos antigos pitagóricos, por algumas austeras ordens religiosas medievais e pelos rosacruzes»[11]. Em Portugal, Agostinho da Silva foi um exemplo de inofensividade à mesa e a tradição religiosa nacional reserva as Sextas-Feiras da Quaresma, especialmente a Santa, para a abstinência carnívora.
Já no século XIX, Helena Blavatsky se indignava perante o sofrimento sobre os animais: « (…) a caça se tornou um dos entretenimentos mais nobres das classes superiores. Assim – pobres inocentes pássaros feridos, torturados e mortos aos milhões a cada outono, tudo em países cristãos, para a recreação do homem. Disso também surgiu a maldade, e frequentemente a crueldade a sangue frio (…) Em todos os países que o europeu passa a dominar, começa a matança de animais e o seu massacre inútil»[12].
No início do século XX, Max Heindel questinava: «Se tivesse que ir a esses lugares sangrentos, onde todos os dias se cometem horrores para poder satisfazer os costumes anormais e daninhos, que causam muito mais vítimas que a sede de álcool; se tivesse que manejar o cutelo impiedoso e mergulhá-lo nas carnes palpitantes de suas vítimas, quanta carne comeria? Muito pouca. Mas para fugir desse trabalho repugnante, obrigamos nossos semelhantes a trabalhar nos sangrentos matadouros, matando milhares de animais dia após dia»[13].

Animais sensíveis 

Um dos maiores combates de quem defende os animais é o reconhecimento do seu carácter senciente, ou seja, de seres capazes de sentir dor e de sofrer. «Torna-se hoje visível que muitos animais, se tiverem espaço/condições psicológicas e materiais, revelam um potencial imenso, demonstram verdadeira inteligência, sentimentos refinados e complexos, e impressionante sentido estético”[14].
Nos nossos dias, a contestação face ao tratamento dos animais como se fossem objectos ou coisas à mercê dos caprichos do Homem alastra conforme desperta a sensibilidade das crianças, homens e mulheres. Reflexo de uma renovada consciência que, por compaixão, pretende evitar o sofrimento desnecessário dos animais que, doravante passam a ser vistos como criaturas vivas, a quem se deve respeito e protecção.
Hábitos alimentares que até há pouco tempo foram vistos como normais - por indiferença, inconsciência ou desumanidade - são hoje cada vez mais considerados verdadeiras atrocidades, barbaridades, massacres, assassinatos, aberrações, tornando-se cada vez mais difícil justificar os cerca de 60 biliões de animais usados em quintas industriais e o crescente mercado negro (ilegal) de animais (selvagens).
Desde sempre seres humanos de elevada estirpe optaram por um regime vegetariano, mas ultimamente têm vindo a somar forças. Em Portugal, a Liga Portuguesa dos Direitos do Animal, a "Animal", associação criada há 15 anos no Porto, têm vindo a lutar pelos direitos dos animais, como o de não serem sujeitos à violência, à privação da liberdade física e de não serem mortos. A nível internacional, está a decorrer uma campanhaPara mim os animais importam”, que conta com quase dois milhões de assinantes. A nível governamental, cerca de 200 países assinaram um compromisso, decorrente da conferência da Manila, em 2003, tendo em vista uma Declaração Universal do Bem-Estar Animal.
Também os portugueses se mostraram mais sensibilizados com o sofrimento animal ao ponto de o “Aqui e Agora”, da SIC (outro dos nomeados para o PIS 2009) lhes ter dedicado dois programas, com elevados níveis de participação. Na Anadia, por exemplo, há um casal que tem como animal de estimação uma porca e a cada esquina vemos mais pessoas dedicadas ao convívio com os animais.
Tendo em vista o desenvolvimento humano será de esperar que a humanidade passe a etapa do carnivorismo, como já ultrapassou a do canibalismo. Com uma sensibilidade mais apurada, de acordo com Max Heindel, os seres humanos sentirão horror face a um passado que, então, encararão como bárbaro e tenderão, então, a sacrificar-se a si mesmos, em detrimento dos animais, e a criar, em vez de destruir: «(…) chegará o dia em que sentiremos profunda repugnância ante o pensamento de converter nossos estômagos em cemitério de cadáveres dos animais assassinados. Todos os verdadeiros cristãos se absterão de comer carne por pura compaixão e compreenderão que toda vida é a Vida de Deus e que é errado causar sofrimento a qualquer ser sensível»[15].

Mudança de regime alimentar? 

Max Heindel chama a atenção para a alteração repentina da base alimentar humana: «(…) Seria errado, no entanto, que se mudassem os hábitos alimentares usados durante anos, para seguir outro regime, sem análise prévia e cuidadosa do que melhor possa servir aos objectivos pretendidos. A simples eliminação da carne, da alimentação corrente das pessoas omnívoras, causaria certamente desequilíbrios na saúde da maioria. A única maneira segura de o fazer é, em primeiro lugar, estudar o assunto cuidadosamente e experimentar o novo regime»[16].
Quem tem o tipo de sangue A (de origem sedentária, quando o homem se tornou agricultor) pode fazê-lo e, no caso de aspirantes a uma vida espiritual, devem-no: “Nenhum indivíduo que mate consegue progredir alguma coisa no caminho da santidade. Note-se, todavia que, ao comer carne, agimos pior do que se matássemos. Com efeito, para evitar cometer pessoalmente essas matanças, obrigamos o semelhante, forçado por necessidades económicas, a dedicar a sua vida inteira ao assassínio. Essa actividade brutaliza (…) Matar, para um aspirante aos ideais elevados, seja pessoalmente ou por interpostas pessoas, é uma coisa completamente inaceitável. Contudo, podem ser usados vários produtos animais muito importantes, como o leite, o queijo e a manteiga»[17].

Alternativas 

Como refere Max Heindel no sub-capítulo "Ciência da nutrição", na sua obra máxima: «Em termos gerais, de todos os alimentos sólidos, os vegetais frescos e as frutas maduras contêm a maior proporção de substâncias nutritivas e a menor quantidade de substâncias nocivas»[18]. Devido ao seu grau de consciência (sono com sonhos), superior ao dos vegetais (sono sem sonhos), os animais tendem a individualizar-se, a resistir à sua assimilação e a libertar-se mais depressa, daí a decomposição rápida, pelo que a sua ingestão exige maior quantidade de comida e refeições mais frequentes.
Existem formas alternativas, mais éticas, ecológicas e saudáveis, de obter proteínas completas, ou seja, alimentos que contêm, nas proporções correctas, os aminoácidos essenciais (isoleucina, leucina, lysina, methionina, fenylalanina, threonina, tryptofan e valina) produzidos unicamente através da alimentação (e não elaborados espontaneamente pelo organismo, como é o caso dos 14 aminoácidos não essenciais). A combinação do arroz com feijão, favas, ervilhas ou grão, por exemplo, é uma das formas de o conseguir. Também há fontes unicamente vegetais de proteína muito rica, em qualidade e quantidade, como é o caso dos derivados da soja, desde que não geneticamente modificada, como o tofu.
Em “O livro essencial da cozinha vegetariana” são dados exemplos de como variar e combinar alimentos: “A mistura de leguminosas, cereais, frutos secos e sementes proporciona ao organismo os aminoácidos necessários para produzir proteínas completas: feijão encarnado com arroz, grão-de-bico com couscous, sopa de ervilhas secas com pão, hamburguer de lentilhas com pão, manteiga de amendoim com tosta, tostas com feijões guisados (…)”[19]. Também “Na maior parte das sociedades a cozinha típica inclui diversas formas de combinar as proteínas complementares”[20], como arroz com tofu, massa e queijo, muesli com leite ou feijões com legumes[21].
A dieta vegetariana, nos seus diferentes formas e graus, constitui uma solução para muitos dos problemas actuais; alia a via da não-violência, o desenvolvimento humano e uma vida saudável e será difícil argumentar que não é viável - «As nações vegetarianas do Oriente são um argumento incontestável contra os que defendem a dieta carnívora”[22] – ou exequível, pois a lista de restaurantes vegetarianos cresce não só pela região de Lisboa mas por todo o país.


[1] OLIVEIRA, Gabriela – Nascer e crescer vegetariano in Biosofia, Outono 2002, p.34. [2] HEINDEL, Max – Princípios ocultos de saúde e cura, Cap. X, p.9. [3] COSTA, Humberto Álvares – Vegetarianismo e o Novo Homem in Biosofia, Outono 1999, p.46. [4] HEINDEL, Max – Princípios ocultos de saúde e cura, Cap.X, p.8. [5] Editado pela Arte Plural em 2006. [6] OLIVEIRA, Gabriela – Nascer e crescer vegetariano in Biosofia, Outono 2002, p.34. [7] OLIVEIRA, Gabriela – Nascer e crescer vegetariano in Biosofia, Outono 2002, p.33. [8] HEINDEL, Max – Princípios ocultos de saúde e cura, Cap. X, p.9. [9] A importância da soja na alimentação humana, Rosacruz, nº 386, p.29. [10] QuercusAmbiente Janeiro/Fevereiro 2009, pág.29. [11] ROSACRUZ – A importância da soja na alimentação humana in Rosacruz, nº386, p.29. [12] Citado de http://www.filosofiaesoterica.com/ [13] HEINDEL, Max - Princípios Ocultos de Saúde e Cura (Cap.X). [14] ANACLETO, José Manuel – Animais in Biosofia, nº33, p.3. [15] HEINDEL, Max – Princípios ocultos de saúde e cura, Cap. X, p.10. [16] HEINDEL, Max - Método para adquirir conhecimento directo, p.352. [17] HEINDEL, Max - Método para adquirir conhecimento directo, p.351. [18] HEINDEL, Max – Conceito Rosacruz do Cosmos, p.350 [19] O livro essencial da cozinha vegetariana, Konemann, 2000, p.22/23. [20] O livro essencial da cozinha vegetariana, Konemann, 2000, p.20. [21] Outros exemplos. hummus com pão lavash, salada de feijão e tabouli, dhal com pão pita ou com arroz, felafel com pão pita ou feijões com milho. [22] HEINDEL, Max – Princípios ocultos de saúde e cura, Cap. X, p.8.

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sábado, 25 de setembro de 2010

A Ciência da Polis V


Fórum de Conímbriga

Nesta quinta parte propomos o Código Deontológico do Político e analisamo-lo à luz do verdadeiro poder e necessidades humanas.

Texto José Luís Maio fotografia Dina Cristo

Art.º 1º – O político terá de reconhecer e exigir o valor, a respeitabilidade e a igualdade fundamental de cada ser humano, daí decorrendo a noção de um todo participado pelas unidades que o constituem.
Art.º 2º – O político terá de encarar o seu trabalho, estritamente, como um esforço altruísta e desinteressado – abdicando das conveniências, comodismos e vaidades pessoais, em prol do contributo para o Bem Comum.
Art.º 3º – O político não deve sequer considerar a possibilidade de exercer um cargo governativo ou de direcção como uma forma de preencher e melhorar o seu curriculum pessoal ou de ampliar a sua fortuna material – devendo, nesta esteira, ser criados, cumpridos e aperfeiçoados os correspondentes mecanismos institucionais de controlo.
Art.º 4º – O político terá de evitar um certo tipo de frieza que, eivada de pretensiosa superioridade, tem como efeito a incapacidade de se identificar com qualquer anseio colectivo.
Art.º 5º – O político não deve recusar prestar a sua colaboração numa actividade governativa pelo facto de ser mais bem pago numa outra profissão, excepto quando discordar da orientação vigente (devendo neste caso justificá-lo e sugerir, fundamentando, alternativas), por se reconhecer menos capaz para desempenhar aquelas funções, ou por estar empenhado noutra esfera de trabalho que igualmente concorra para o progresso da Comunidade.
Art.º 6º – O político deve evitar a demagogia fácil ou a reprovação leviana e primária e pautará a sua intervenção por um elevado grau de exigência ética.
Art.º 7º – O político (esteja na governação ou posicionando-se como alternativa) deve executar ou propor as medidas mais convenientes à realização de valores mais elevados e globalizantes, mesmo correndo o risco de ser mal interpretado por alguns – ou muitos –, numa interpretação imediatista ou superficial.
Art.º 8º – O político deve evitar uma excessiva susceptibilidade às críticas (sem, ao mesmo tempo, incorrer num processo de autismo), não valorizar demasiado um julgamento imediatista, tendo especialmente em conta o regime democrático (em si mesmo generoso, digno e cheio de virtualidades ainda por desenvolver), no qual está não só dependente de resultados eleitorais como, também, condicionado pela força da opinião crítica dos meios de comunicação social e pressionado pelos diversos grupos que integram o tecido social, com as suas diferentes perspectivas e os seus diferentes interesses.
Art.º 9º – O político deve saber explicar serena e lucidamente as suas opções, substituindo o populismo fácil e demagógico pela necessidade de que todos compreendam a dificuldade das escolhas, quando nelas se tem de sacrificar alguma coisa, o que sempre acontece.
Art.º 10º – O político deve ponderar respeitosamente os interesses particularizados ou sectoriais e, dentro de princípios de justiça relativa, concatená-los da forma mais correcta e equilibrada possível, tendo presente que, onde se tem de distribuir bens ou recursos quantitativamente relativos, não pode deixar de haver abdicações relativas.
Art.º 11º – O político deve considerar que a função governativa não se esgota com a tomada de decisões e sequente aplicação de medidas concretas, no uso de um poder de autoridade, devendo estas ser ideal e substancialmente complementadas pela apresentação de propostas de verdadeiro progresso – assentes na solidariedade activa e voluntária, numa ampla fraternidade, numa ética feita de inegoísmo pessoal ou grupal – que sejam deixadas à consideração íntima dos cidadãos e à sua livre escolha individual.
Art.º 12º – O político deve exercer a filantropia generalizada, inteligente e continuada, em vez da pequena e ocasional caridade esmoler.
Art.º 13º – O político deve assumir inequívoca e objectivamente o grande objectivo da gradual mas progressiva integração e solidária unificação entre os diversos estratos populacionais que constituem a nação e entre as diversas nações que constituem a Terra, o que implica, necessariamente, o esbatimento do desnível entre os privilégios de uns e as privações de outros, de classes económicas e sociais, de nacionalismos separatistas e antagonismos de toda a espécie.

Política sem poder
Como um dia disse uma grande mulher, “negamos a mínima intenção de sugerir desrespeitosamente ideias àqueles que são tão sábios que recusem uma sugestão”.
A liberdade humana é um fim ou objectivo a atingir, nunca um meio para o que quer que seja, como generalizadamente se pensa. Apesar dos conceitos “livre”, “liberdade para…”, etc., poderem iludir-nos de que somos livres para agir de acordo com os desejos, sentimentos e pensamentos que nascem em nós, ou que nos envolvem e influenciam, nomeadamente os de baixo cariz – e que aqui designamos por consciência inferior, inteligência passiva/reactiva, própria do quaternário inferior (por consistir em quatro veículos, mente inferior, corpo emocional, duplo etérico e corpo físico, por ordem decrescente de frequência vibratória, ou do mais espiritual para o mais material) –, somente de um modo somos, de facto ou permanentemente, livres: quando a nossa consciência está sintonizada com um dos níveis da tríade superior, atma-buddhi-manas, a trindade divina no Homem, expressão da Unidade – ou “Espírito”, “Essência Eterna”, “Centelha Individual do Fogo Universal” – no mundo manifestado. Somos tanto mais livres quanto mais os outros o são e vice-versa. Trata-se, pois, de uma questão de reciprocidade. E se, para obter algo, tivermos que dele privar outrem, em vez de livres, tornar-nos-emos escravos do desejo de possuir esse algo. De outra forma essa liberdade não faria qualquer sentido, pois, por via dela, acabaríamos submetidos às coisas, aos fenómenos e aos seres, em vez de enraizar e fortalecer no nosso íntimo o auto-domínio e o controle das situações, mesmo as mais desesperantes. A liberdade, a verdadeira, nunca conduzirá à escravidão. Em rigor, é o livre-arbítrio (a “liberdade de acção”) que nos conduz à dependência destruidora ou à liberdade (à libertação das escravidões de todo o género, da dor e do sofrimento).
Face a esta realidade, só os políticos com aspiração pura e ardente e vontade inquebrantável e constante de servir o Bem Comum aceitarão fazer um verdadeiro pacto – ou contrato – com as comunidades que, com (e por) todos os condicionalismos que as afectam, são o único móbil da sua acção esclarecida, competente e filantrópica. Deixarão assim de fazer qualquer sentido, por obsoletos e fomentadores de separatismos anacrónicos, quaisquer pactos que visem lucros, vantagens e prebendas eticamente ilegítimos, exclusivistas e manchados por delírios inconfessados.
Actualmente, todos sabemos de certos acordos de conveniência, falaciosamente chamados “de regime”, feitos entre partidos políticos em que a unanimidade parlamentar (em rigor, unanimismo, símbolo de passividade e omissão da maioria dos deputados, por interesse, em vez de unanimidade, isto é, deliberação activa de todos eles, por razões lúcida e devidamente ponderadas e conscientemente assumidas) – que deveria imperar nas matérias verdadeiramente decisivas, nucleares e de profundidade e dignidade inquestionáveis para o desenvolvimento e realização dos cidadãos – só acontece nas deliberações sobre matérias inócuas (estéreis) e iníquas (perversas), sem real benefício para todos.
Trilogia essencial
Em que matérias de cariz verdadeiramente essencial para o Bem Comum deveria haver unanimidade parlamentar – e a consequente acção governativa? Toda a gente o sabe, excepto os membros dos poderes legislativo e executivo (1): pão, habitação e educação – que conduziria à saúde física, anímica e espiritual, isto é, à realização do equilíbrio integral dos indivíduos e das sociedades. A força política que tiver como imperativo categórico a realização deste programa é de esquerda, é de direita ou é do centro? É democrática ou republicana? É conservadora ou reformista? É liberal ou ecologista?... Responda quem souber! A aparentemente redutora trilogia pão, habitação e educação só o é, de facto, na aparência.
O pão é, não só, físico mas, principalmente, espiritual(2). O alimento com que os seres humanos ficam real e prolongadamente saciados é, sem dúvida, o supra físico. Todos os indivíduos, sem excepção, que viram saciada a fome do conhecimento e da adveniente sabedoria que os levou a percorrer os “mares nunca dantes navegados” da vida espiritual são adeptos da frugalidade do alimento para o corpo físico. Qualquer pediatra competente ensina-nos que uma atmosfera de amor, tranquilidade e segurança que as crianças recebem dos seus progenitores é o alicerce realmente estruturante, a verdadeira pedra angular, na construção de um corpo físico enérgico e saudável e que a componente dietética é secundária (não confundamos com desnecessária). Como sabemos, a palavra “dieta” é de origem grega. A propósito, nunca nos devemos esquecer de que o grego é a língua sagrada (no sentido de espiritual, radical, nuclear) do ocidente. Assim, diaita, “dieta”, significa “género de vida”. Ora, parece não ser necessário perdermos muito tempo em avaliar a qualidade da existência de alguém que passa a vida à mesa ou a pensar excessiva ou exclusivamente nos prazeres da mesa.
De igual modo, a habitação possui um significado espiritual. É sem dúvida importante a casa material – de argamassa, ferro e tijolos – que habitamos, sem a qual é posta em causa e negada a dignidade de todos os cidadãos. A nossa própria Constituição, no seu artigo 65.º, consagra o direito à habitação para todos. Mas de que servirá essa habitação física, visível, se a morada que a nossa consciência habita for indevida ou caoticamente – isto é, não hierarquicamente – construída? O novo conceito de saúde é pautado por uma perspectiva holística, integral, global, segundo a qual o todo é mais do que a soma das suas partes. Para Albert Einstein, "o ser humano vivencia-se a si mesmo, os seus pensamentos, como algo separado do resto do universo – numa espécie de ilusão de óptica da sua consciência. E essa ilusão é um tipo de prisão que nos restringe aos nossos desejos pessoais e ao afecto apenas pelas pessoas mais próximas. A nossa principal tarefa é a de nos livrarmos dessa prisão, ampliando o nosso círculo de compaixão, para que ele abranja todos os seres vivos e toda a natureza na sua beleza. … Lutar pela sua realização já é, por si só, parte da nossa libertação e o alicerce da nossa segurança interior".
Como foi referido no final do primeiro trabalho desta série, há uma hierarquia septenária de planos de ser e de consciência que constituem a entidade humana. A correcta hierarquização desses sete princípios é fundamental para a saúde e equilíbrio de todo e qualquer indivíduo. Assim, por exemplo, se pensarmos que o nosso princípio emocional, passional ou de desejos pessoais e egoístas é mais valioso que o nosso princípio mental ou mesmo intuicional, em vez de fazermos um esforço para nos aperfeiçoarmos e sermos efectivamente agentes de concórdia, pacificação e harmonia social, continuaremos a agravar as nossas doenças psicossomáticas e, como um vírus ou miasma “psíquico” contagioso, a contribuir para o alastramento da demência patológica da sociedade em cujo seio vivemos.
Finalmente, temos a educação. Para cada vez mais autores e pensadores ’Educação' vem das raízes latinas 'e' (significando 'para fora'), mais 'ducere' (significando 'conduzir' ou 'trazer'). Assim sendo, 'Educação' significa, literalmente, revelar o que está dentro do estudante. A instituição que tenta impor conhecimento de fora para dentro está a perverter os objectivos da Educação.
Platão comparava a acção pedagógica a um parto, e o parteiro (o mestre) é o agente que estimula a parturiente (o discípulo) a “dar à luz”, a exteriorizar, o “filho” (a sabedoria, a inteligência e a vontade superior) que traz dentro de si.
Este problema multimilenar é de muito simples resolução. Aliás, a solução já foi suficientemente discutida e dada há muitos séculos. Basta alterar a relação entre o professor e o aluno. Em todas as épocas e civilizações em que são a ignorância e o correspondente despotismo a ditar as regras, o conhecimento é unicamente transmitido pelo professor (activo) ao aluno (passivo), de fora para dentro, do exterior para o interior (vindo dos outros, “violentamente”, sem a natural adesão e entusiasmo do destinatário).
Por que razão se terá generalizado a ideia de que qualquer actividade profissional que a escola e o estudo nos proporcionam é diferente de outra actividade, seja desportiva ou artística? Serão, por acaso, os pais ou os técnicos e profissionais que impõem aos filhos e educandos as modalidades desportivas ou áreas artísticas que estes praticam com plena e feliz motivação e realização? Salvo as excepções que desafortunadamente ainda ocorrem, em que, também aqui, a imposição dos “adultos”(?) verga e oprime a alegria espontânea das crianças e as transforma nos cidadãos desequilibrados e infelizes do futuro, todos nós conhecemos a resposta.
Sobre este assunto, verdadeiramente decisivo para todos e cada um de nós, pois dele depende o “paraíso” (a felicidade, a realização e a paz) ou o “inferno” (o sofrimento e a guerra) que somos capazes de construir, falaremos com mais detalhe posteriormente.


(1) Embora possa parecer despropositado referir aqui, a um outro poder – de grande influência ainda hoje e “que oprime as consciências” – cabe grande parte da responsabilidade pela (e perdoe-se-me a repetição) “apagada e vil tristeza” em que jazemos: o poder clerical. Aparentemente à margem da evolução, ou involução, a sua acção no seio das sociedades merece uma séria reflexão. Talvez um dia isso aconteça. (2) A noção de espiritualidade aqui referida nada tem a ver com as múltiplas formas ou tipos de teologia que induzem nas pessoas modos de existência que, ao fim e ao cabo, apenas servem para as tornar ignorantes, servis, egoístas e idiotas. Tem, sim, a ver com o que é essencial, importante, verdadeiro, central, principal, ou nuclear, como acontece, por exemplo, quando se usa a expressão “o espírito da lei”.

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quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Hrani-Yoga


Num mês em que se comemorou o Dia Mundial da Alimentação ouvimos os conselhos de Omraam Aivanhov sobre um tipo de yoga pouco conhecido e que pode ser praticado à mesa, uma ocasião acessível a todos e favorável ao aperfeiçoamento humano.

Texto Dina Cristo

«(…) cada homem é acompanhado por todas as almas dos animais cuja carne comeu»,[1] uma presença que se manifesta em estados como a crueldade, a sensualidade, a brutalidade, a destruição ou o medo. Pelo contrário, toda a erva que tem semente, como refere o Génesis, é indicada para alimentação humana; os frutos e legumes têm a vantagem de absorver a luz solar directamente e quase sem resíduos. Omraam indica como excepção à regra de não comer animais, o peixe, dado o seu sistema nervoso, rudimentar, e a presença do iodo, benéfica.
Este é um exemplo do tipo de dieta indicada para o Ser Humano. Mas mais importante do que o que comer, afirma Omraam, é a quantidade do que se ingere. Esta deve ser a conveniente e razoável. Tudo o que for para além do necessário, da moderação ou do limite e entrar no desregramento ou excesso sobrecarrega o organismo, bloqueia a digestão, provoca sensação de peso, sonolência, conduz à insaciedade e à doença. Pelo contrário, se parar antes de ficar cheio e sair da mesa com um ligeiro apetite a pessoa sentir-se-á mais leve, viva, bem-disposta e capaz de trabalhar.
O mais importante é mesmo o modo como se deve comer. Omraam refere que se pode diminuir a dose de comida, para metade ou até mesmo para um quarto se se aprender a comer correctamente. O jejum, por exemplo, é fundamental para limpar o organismo, dos resíduos que nele se acumulam e o obstruem, e assim purificá-lo. Para retirar dos alimentos os seus elementos vitais e depois os assimilar é necessário que eles se abram e, neste caso, o “mordente” é a ligação prévia, através de todos os sentidos, e a preparação, pela bênção e oração.

Relaxamento alimentar

Comer lentamente e mastigar bem, para que a língua assimile os elementos mais puros, e respirar profundamente, para melhorar a combustão dos alimentos, são outros dos cuidados a ter durante e no final das refeições. Nutrir-se em paz e em silêncio, preenchido com pensamentos conscientes e concentrados, nomeadamente nas suas qualidades, e sentimentos amor e gratidão, é essencial para se conseguir captar as energias mais etéricas que irão alimentar integralmente o Ser Humano.
Para Omraam, todo o alimento é sagrado. Luz solar condensada, a sua energia só é libertada e assimilada consoante a atitude da pessoa for mais ou menos consciente e amorosa: «O segredo para que os alimentos se abram consiste em aquecê-los, e o calor é o amor»[2]. Um pensamento concentrado dar-lhe-á lucidez e clareza mental e um coração agradecido facultar-lhe-á boa disposição. A refeição é uma espécie de alquimia que permite transformar a energia contida em cada alimento em luz e amor. Mas se se recebe força, vida e saúde, também se possibilita a transformação, subtilização e evolução da matéria – é uma troca.
Além da comunhão, a refeição é também, para Omraam Mikhael Aivanhov, um tipo de yoga, fácil e com resultados eficazes, o Hrani-Yoga, já que saber comer exige atenção, concentração e (auto)domínio. O autor explica como cada refeição é uma oportunidade para relaxar, abrir o coração, desenvolver a inteligência, aplicar a vontade e religar-se aos quatro elementos, como o sol, do qual, defende, nos deveríamos alimentar. Também cada Ser Humano deveria alimentar-se e alimentar, em simultâneo, o sol de todos os outros humanos, o seu melhor, a alma, depois de limpa e retirada a casca, a personalidade.
Recolher-se enquanto come e fazê-lo num estado de harmonia, determinará a actividade seguinte. Respeitar os alimentos e magnetizá-los, para que vibrem amigavelmente, sejam bem absorvidos e deles se retirem as partículas mais preciosas, que irão alimentar o sistema nervoso e todos os órgãos, é fundamental. Uma refeição mesurada para não fatigar o corpo físico e estimular quer o corpo etérico quer o plexo solar, o “cordão umbilical” que liga a Humanidade à sua Mãe, Natureza, é um dos conselhos dados por Omraam Aivanhov neste livro, redigido a partir de conferências proferidas pelo autor.



[1] AIVANHOV, Omraam- O yoga da alimentação. Éditions Prosveta e Publicações Maitreya. Coleção Izvor, 2013, pág.58. [2] Idem, pág. 104.

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quarta-feira, 23 de março de 2011

Em jejum


Em tempo de Quaresma, de abstinência e renúncia (alimentar), e colados ao Equinócio da Primavera, uma das épocas mais propícias para jejuar, evocamos a sua utilidade. Um exemplo para alimentar a alma e restabelecer o corpo, desde que praticado com precaução.

Texto e desenho* Dina Cristo

Saudável e benéfico seria o hábito da moderação à mesa e a prática de uma dieta vegetariana e frutífera, com alto poder alimentício, devido à capacidade de absorção das células – por longo tempo. Contudo, mais vulgar é a gula, um vestígio do instinto de sobrevivência. A dieta carnívora, típica do tipo de sangue O (o mais comum), sobrecarrega o organismo; pela sua decomposição rápida exige (mais) refeições frequentes, envenena o sangue e desgasta os órgãos.
Esta alimentação incorrecta pode e deve ser corrigida, através da prática de jejum. A privação de alimento, durante um tempo limitado, pode regenerar o organismo exausto. «É bom jejuar de vez em quando pelo menos vinte e quatro horas. Aquele que sabe como jejuar compreende que o jejum é uma outra forma de se alimentar. Sim, quando se priva um pouco o corpo físico de alimento, são os outros corpos, mais subtis – etérico, astral e mental – que começam a alimentar-se. Quando o nosso corpo físico não recebe todo o alimento a que está habituado, é dado um alerta e, como há no organismo entidades que velam pela nossa sobrevivência, vêm então, de uma região mais elevada, entidades que nos proporcionam o que nos faz falta e nós começamos a absorver certos elementos subtis que se encontram na atmosfera (…)»(1).
Existe, contudo, o risco de prolongá-lo: «Em certas condições, o jejum durante um ou dois dias é, sem dúvida, benéfico; mas assim como há glutões, também há outros que vão ao extremo oposto, jejuando em excesso. Aí reside o grande perigo», escreveu Max Heindel (2).
O jejum pode ser benéfico ao permitir pacificar as células e depurar o corpo. Se adequado, nomeadamente ao tipo de sangueA, B, AB ou O, e efectuado com moderação e lucidez, permite fortalecer a vontade e clarificar a mente, mas não deve ser praticado por pessoas em estado de vulnerabilidade. Os casos excepcionais, como o místico indiano Prahlad Jani, são isso mesmo: excepções.
Sugestão
De acordo com Alberto Chang, terapeuta de medicina natural, o jejum, de 24h, pode ser constituído por três litros de água com sumo de limão ou laranja. Deve ser antecedido por um dia com três quilos só de um tipo de fruta neutra (maçã, melancia, papaia, pêra, pêssego ou kiwi), nas mais variadas formas e acompanhado por dois litros de água ou chá (nomeadamente de alecrim, que é depurante) e um clister, de camomila morna.
No dia anterior a este, a preparação é feita com base em fibras vegetais: o pequeno-almoço com leite (de soja) e frutos secos, como nozes e/ou amêndoas. A principal refeição, ao almoço, à base de arroz integral com uma salada, com azeite, por exemplo, de alho, beterraba, cebola, cenoura, couve rouxa, espinafre, nabo e rabanete. À noite, uma sopa de legumes, com quinoa, trigo serraceno ou amaranto. No dia anterior deverá fazer-se uma refeição mais ligeira, à base de peixe.
Após o dia de jejum, propriamente dito, recomeçará a mesma dieta mas em sentido inverso: o quinto dia será igual ao terceiro (com outra fruta - uma oportunidade neste ano em que o Borda D`Água prevê a sua abundância) e o sexto ao segundo, o sétimo ao primeiro. Desta forma, pode obter-se um jejum saudável. «A terra exausta», como escreveu Helena Blavatsky, «deve ficar sem lavoura até que possa abrigar um novo plantio» (3).
Na Primavera ou no Outono, a privação alimentar, regulada, praticada com equilíbrio, nas actuas condições de irracionalidade alimentar, pode constituir um meio útil de se preparar para os novos desafios das estações mais extrovertidas ou introvertidas. Pode ser realizado em época de Lua Cheia e completado com meditação, numa espécie de purificação integral. Ao desintoxicar, vitaliza e restaura o organismo proporcionando uma sensação de leveza, um renascimento, tão bem simbolizado na Páscoa, após a quarentena.

* Anos 70. (1) AIVANHOV, Omraam Mikhael – Pensamentos quotidianos. Publicações Maitreya, 2011 (13 de Março). (2) HEINDEL, Max - Princípios ocultos da saúde – a cura. Zéfiro, Projecto Apeiron, 2010, p.33. (3) Citado por "O Teosofista" Maio 2008 de "Collected Writings”, H. P. Blavatsky, Theosophical Publishing House, Adyar, Índia, volume IV, 718 pp., ver p. 299. Publicado inicialmente em “The Theosophist”, Adyar, January 1883, p. 91.

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quarta-feira, 30 de abril de 2008

Força democrática

Nesta terceira parte revisitamos os movimentos independentistas africanos, o documento dos 43, numa “Hora da Saudade”.

Entrevista Virgílio Luís Silva


Em termos da década há alguns factos políticos que marcam os anos 50 relativamente à política e à sociedade, resta-nos saber relativamente à rádio. Por exemplo em 1955, há uma tentativa, muito embora frustrada, de invasão dos territórios portugueses na Índia: Goa e Damão.
A rádio portuguesa, reagiu patrioticamente. Nacionalistamente. Os invasores são os invasores. Nós estamos na nossa casa. Simplesmente, Goa recebeu da metrópole armas velhas, o Salazar dizia: é uma guerra sem fim, portanto temos de aguentar. A mesma coisa que ele dizia para África. É uma guerra sem fim. É evidente que os heróis dessas guerras, lá por fora, foram geralmente pessoas da oposição, porque parte deles estavam deportados e eles não tinham outro remédio senão lutar. Passou-se isso em Timor. Havia muitos exilados em Timor. Bem, exilados não. Eram condenados a ir para Timor, como o Mário Soares esteve na Guiné, como outros estiveram assim, não é. De modo que isso foi considerado, à face do Estado, como uma agressão que nós tínhamos que defender. Mas o que é certo é que nós não cuidamos antes, nem durante, de dar meios às pessoas de lá de se defenderem.
Em 1955 morreu o Luís de Freitas Branco e o Egas Moniz. Estas perdas, que foram significativas, não só para a sociedade portuguesa, e no caso do Freitas Branco também para a rádio, já que ele era compositor...
Foi director de Orquestra durante muito tempo.
Como é que estas mortes foram vistas e como é que foram noticiadas?
Bom. O Egas Moniz não era uma persona grata ao Estado Português. Não houve folguedos nem nada dessas coisas pelo facto de ele ter tido o Prémio Nobel. Foi uma coisa que quase passou despercebida. Há-de haver muita gente que nem sabe que o Egas Moniz teve o prémio Nobel da Medicina. O Luís de Freitas Branco foi diferente, porque era um homem que mantinha uma personalidade independente. Era muito querido dentro da música. Era um bom director de orquestra e compositor e depois tinha um filho que lhe seguiu as pisadas, o João de Freitas Branco, que é uma pessoa extraordinária. Ele foi muito acarinhado e, claro, as suas exéquias foram à dimensão desse carinho.
Em 1956 começa a haver uns certos movimentos independentistas relativamente a Angola, Guiné e Cabo Verde, nomeadamente, nestes movimentos, que aliás vêm já desde o final da década de 40, com o que acontece na União Indiana face à Grã-Bretanha que governava o território. Em 56 Amílcar Cabral funda o PAIGC e por assim dizer faz voltar os olhos do Estado para a Guiné e para Cabo Verde. A rádio cá ficou de “bico calado”.
“Bico calado” não. A rádio cá dizia que o Amílcar Cabral era um traidor. Todos os movimentos africanos colocavam-se ao nível mais baixo e dizia-se: são negros que estão a fazer isto. Posso dizer-lhe que houve pessoas que vieram prevenir Salazar de que a guerra estava eminente e de que ele podia salvar o problema ainda, através de eleições, através dessas coisas. Ele não aceitou nada e disse sempre que era uma guerra até ao fim. E depois começaram os movimentos em Portugal já dentro da oposição a favor dos negros. Muita gente foi para a cadeia por causa disso. Eu própria assinei um documento pela libertação dos prisioneiros portugueses e pelas eleições livres. Fui demitida. Depois assinei outro documento pela libertação dos prisioneiros do Tarrafal, isto coincide nessa época toda. Esse documento foi assinado por 43 pessoas, até se chamava o documento dos 43. Pedia a liberdade dos prisioneiros do Tarrafal, pedia a liberdade de imprensa, pedia eleições livres, creio que eram as três coisas. E a maior parte foram demitidos ou presos.
É aí que começa em Portugal um latejar de qualquer coisa que não está bem e que há-de chegar ao 25 de Abril e que a guerra de África veio trazer muita força. Há medida que partiam daqui os barcos cheios de soldados para África, eram milhares de mães, de noivas e irmãs que ficavam no cais a chorar porque iam para a morte. Toda essa gente, agregada cá, estabeleceu nova desconfiança. Todos os meses ia um barco cheio e não voltava ninguém. Como é que é isto?
Evidentemente que da gente que foi para África nem todos iam para matar. Muitos até iam. Mas, principalmente os milicianos iam para estabelecer camaradagem com os homens de África e isso foi estabelecendo uma visão diferente do problema africano, daqueles que escreviam para cá, em relação aquilo que se dizia aqui, que era uma coisa até ao fim.
Isto que lhe estou a dizer, se fosse dito naquela altura eu ia para a cadeia, porque não era isto o que o Estado queria. O Estado queria era manter África, era manter a Guiné, tanto Angola como Moçambique, com o patrocínio de Portugal, mas simplesmente o que aconteceu sempre nas colónias portuguesas é que elas foram o berço de riquezas de pessoas de cá, mas não educamos as pessoas e você sabe que um homem que não tem instrução não tem independência. Não abrimos escolas, só duas ou três para fazer ver, não preparamos indústrias, com tanta coisa que tem África, deixamos através da guerra estiolar todo o campo que deveria ser semeado e cultivado, aquelas madeiras extraordinárias que Angola exportava, quase tudo ardeu e hoje vemos um país devastado por quem?
Eu estou neste momento como Vice-Presidente da Federação das Mulheres Empresárias a trabalhar com África, com as mulheres de África, e já conseguimos abrir sociedades e fazer protocolos com mulheres da Guiné, Angola e Moçambique. As dificuldades delas em abrir uma escola, mandando nós de cá a Cartilha Maternal, que é o princípio de qualquer coisa... “Pois é, mas nós temos de fazer uma escola debaixo de um embondeiro com uma palhoça que guarde o vento e os miúdos trazerem um banquinho de casa, aqueles que trazem. Os restantes sentam-se no chão. É esta a Angola que eles herdaram.
O dinheiro todo que se gastou na guerra de África, transformado em escolas, em indústrias, em ensino para a agricultura, tinha feito dos países da África portuguesa, países extraordinários. Mas nós mandamos dinheiro para queimar. Evidentemente, você diz isso porque foi uma pessoa da oposição, não foi uma pessoa do Estado Novo que queria manter o património nacional. Pois é, eu quero manter o património enquanto o possa aguentar.
Acontece-me agora isso com a Fundação Sara Beirão. Sara Beirão deixou um bom património para a gente aguentar o lar de idosos e deixou-nos algumas casas de renda em Lisboa. Eu tenho dito sempre ao Caeiro (Igrejas Caeiro): “Eu não vendo património”. Agora se eu tiver uma casa velha com uma proposta boa de venda para ser remodelada e eu pegar nesse dinheiro e o puser em Tábua a melhorar aquilo que lá está, então faço! O que não tenho é que estar agarrada às pedras velhas que se vão demolindo e cada vez é mais caro manter. Então é melhor largar.
Nessa altura, mais ou menos, aparece um programa que tem uma certa importância que se chama “A Hora da Saudade” que muito embora venha mais detrás, com a guerra assume outro fôlego.
É, eu fiz muitas vezes “A Hora da Saudade”.
Mas “A Hora da Saudade” começa por ser para a frota bacalhoeira.
Sim, começou para a frota bacalhoeira. Vinham as mães, as noivas, traziam um papelinho escrito, não se podia ler nem uma palavra que não estivesse nesse papelinho que era visado pela administração. Traziam o papelinho e liam aquilo ao microfone. Muitas vezes embargava-se a voz, não podiam, e era o locutor que tinha de fazer a leitura. Não era nada fácil, principalmente para uma mulher quando via aquelas noivas e aquelas mães a chorar. Agora,...pegar no papelinho e fazer a voz delas, não era nada fácil. Não era nada fácil.
Primeiro foi para os bacalhoeiros e depois foi para os soldados de África. Houve uma senhora do Estado, que não me lembro o nome dela agora, Pinto, Cortez Pinto,... não sei, que tomou a seu cargo ser madrinha de guerra dos nossos soldados e então ia a Angola e andava lá com os rapazes a levar medalhinhas para os estimular, mas era uma coisa que caía no ridículo aqui.
Acabava por ser mal vista?
É.
“A Hora da Saudade”. Qual foi a razão de existir da “Hora da Saudade”? Foi proposta por alguém ou saiu da cabeça do Estado?
Não sei quem é que propôs. Sei que era uma companhia que se dava às pessoas que estavam distantes. Os bacalhoeiros chegavam a estar dois meses, três meses no mar. Havia um navio que lhes prestava assistência de saúde, com médicos e tudo isso e era esse navio que recolhia via rádio as coisas todas.
As emissões eram essencialmente em Onda Curta?
Em Onda Curta.
Do outro lado chegavam alguma sensações para vocês, não vinham pessoas visitar-vos e dizer obrigado?
Cartas. Bem. Quando estava na Onda Curta, já recentemente, eu tive pessoas que me vieram visitar da América, do Canadá, de muitos países, eu mandava mensalmente para o correio à volta de três mil cartas e fiz concursos trazendo crianças de lá a Portugal e, enfim, muita coisa. Isso era uma maneira de os unir a nós e eles acabavam por trazer os pais para ver a terra dos seus amigos portugueses. Isso foi uma coisa bonita que eu fiz. E fiz uma coisa em rádio, que está hoje no Museu das Telecomunicações, com o Luís Sambado, que foi uma mesa redonda de sete países numa noite de Natal. Ligava ao Brasil, ligava à Venezuela, aos Estados Unidos, ligava a França e havia uma pessoa no estúdio que atendia a chamada que vinha de lá.
Mas voltemos à “Hora da Saudade”. O programa com a guerra de África assume uma outra importância, diferente da que teve para os bacalhoeiros?
Claro. Era sempre dar saudades, beijinhos para a mãe. Não se podia passar disso. Elas não deixavam. Não havia outras frases que não fossem as frases de família.
Mas não havia também bacalhoeiros durante a guerra de África?
Eu penso que a história dos bacalhoeiros terminou a certa altura. Até os barcos deixaram de ir e houve um problema qualquer em que a história dos bacalhoeiros acabou. Vou-lhe dizer que eu estive na Associação de rádio nessa altura e o nosso presidente era o Carlos Ribeiro que ia sempre no barco dos bacalhoeiros. Deu-me a sensação que houve qualquer problema a nível superior, que eu não soube, que se deixou de fazer. Depois passaram-se a fazer as “Horas da saudade” para África.
Bem. Depois já no final da década de 50, existiam algumas “coisas” interessantes que dizem respeito à entrada de Portugal para a ONU, por exemplo. A entrada de Portugal para a ONU deve ter sido um motivo de regozijo?
Houve regozijo da parte estatal. Da oposição não. Foi mal interpretada a entrada de Portugal para a ONU, porque nós não nos esquecíamos...
Mas a ONU era uma coisa boa para Portugal, no fim de contas...
Pois era, mas era americana. Espere estou a confundir ONU com NATO.
A ONU era uma coisa melhor que a NATO no que diz respeito a Portugal.
Era.
Em 1957, dá-se a assinatura do Tratado de Roma que cria a Comunidade Económica Europeia. O facto passou despercebido cá?
Houve assim um embandeirar em arco. E eu vou-lhe dizer porquê. É preciso a gente compreender a psicologia do Salazar. O Salazar era um homem de Coimbra, ou perdão, era um homem de Santa Comba Dão que tinha estudado em Coimbra. Tinha começado pelo seminário e depois passou para a Universidade e era um homem muito fechado. Era um homem que nunca saiu do país, senão para ir a Mérida a uma conferência com o Franco, uma vez... Aqui na fronteira. De resto, nunca saiu do País. Ele achava que não valia a pena e tinha uma frase que era: “Nós somos um país pobre e temos de nos governar como pobres”. Para ele era uma coroa de glória Portugal estar só, daí a sua frase, célebre frase: “Orgulhosamente sós”. Era um homem que detestava tudo quanto fosse para lá da fronteira.
Então como é que Portugal adere à ONU, que era uma organização estrangeira?
ELA - Porque ele foi empurrado depois da guerra. Não tinha alternativas.

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quarta-feira, 6 de julho de 2011

Vida festiva


Este fim-de-semana, de Norte a Sul, Portugal anima-se com a mudança para um mundo mais saudável, solidário e Humano.


Texto Dina Cristo

Montalegre recebe a oitava Manifesta, Festa e Feira de Desenvolvimento Local, centrada na economia solidária, social e sustentável. Uma espécie de Fórum Social Nacional, coordenado pela Animar, com exposição e debate de soluções inovadoras para um paradigma que coloca as pessoas em primeiro lugar. “Viver as utopias para construir realidades”, declarava Elza Pais, na qualidade de Presidente da Comissão para a Igualdade de Género, no encerramento da última edição, em Peniche, onde expressões como “terceiro sector”, “microcrédito”, “regionalização”, “sociedade civil organizada” ou “diversidade” estiveram presentes.
No Palácio de Cristal, no Porto, é a vez da sétima Feira Alternativa – a apresentação de novas ideias e soluções no âmbito da saúde, incluindo alimentação e medicina (natural), ou desenvolvimento (pessoal). A proposta das organizadoras, “Terra Alternativa” e “PazPazes”, é (vi)ver o mundo de outra maneira, mais ecológica, confiante e harmoniosa. Entre conferências, aulas, ateliers e a presença das mais diversas expressões artísticas, está programado, no Domingo, pelas 15h, uma meditação pela paz e abundância na Terra, cuja receita reverterá a favor de instituições de solidariedade social da cidade invicta.
Em Tomar tem lugar a Festa dos Tabuleiros, em honra do Divino Espírito Santo. A coincidir, ainda, com a Festa, em Coimbra, da Rainha Santa Isabel, promotora do culto em Portugal, a cidade dos Templários mantém a tradição e fé na terceira pessoa da Santíssima Trindade, correspondente a Shiva, o destruidor hindu. Depois da Era do Pai, Criador, (antigo testamento) e da Era do Filho, Conservador (novo testamento), da Era de Peixes, eis a chegada à Era do Espírito Santo, Destruidor - Era de Aquário.
Os festejos antecipam, desde há séculos, essa Nova Era de Ouro, de pureza, representada no cortejo pelas meninas, de solidariedade, simbolizada no bodo, onde toda e qualquer pessoa é convidada a sentar-se confraternalmente à mesma mesa. Simbolizado na pomba da paz ou nas línguas de fogo purificador, celebradas no Pentecostes, o Espírito Santo, Transformador por excelência, também Consolador, corresponde igualmente a Maria, a mãe, a matéria, daí o retorno ao Feminino, e à Mente Superior, ao regresso do “Encoberto”, ao reaparecimento de Cristo, à Intuição, numa anunciação do Quinto Império. Em causa uma nova cultura: do ser, interesse colectivo, desapego e partilha; de amor, alegria, liberdade e abundância; de simplicidade, compreensão e felicidade.

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