quarta-feira, 28 de abril de 2010

Objectividade?


Antes do Dia Mundial da Liberdade de Imprensa, reflectimos sobre uma das principais obrigações dos seus profissionais.

Texto Vânia Furet fotografia Dina Cristo

"O jornalista deve", de acordo com o 1º artigo do Código Deontológico da profissão, "relatar os factos com rigor e exactidão e interpretá-los com honestidade".
Para a produção de um jornalismo de qualidade é necessário que as informações difundidas sejam sérias e rigorosas, de forma a proporcionar ao público dados importantes para que este possa formar correctamente os seus juízos e opiniões.
Para isso é necessário, acima de tudo, que se seja imparcial, respeitando a veracidade dos factos e não devendo nunca tomar partido, manifestando opiniões ou juízos de valor. Um acontecimento deve ser transmitido ao público tal como ele é e tal como se manifestou. E para uma aproximação efectiva à objectividade é indispensável uma comprovação dos factos, ouvindo as partes com interesses atendíveis no caso. A objectividade engloba ainda outros factores como, por exemplo, a aposta na identificação das fontes de informação.
Estes são alguns aspectos inerentes à prática de uma objectividade jornalística e que são maioritariamente aceites por todos. No entanto, a questão da objectividade é bem mais complexa e já muito foi discutida, sendo que se defendem, dentro dela, outras tendências e condutas que deveriam (ou não) também ser seguidas para uma prática efectiva deste critério.
Na minha opinião, é muito difícil, ou quase impossível mesmo, um jornalista se abster completamente dos temas que noticia. Um jornalista não é, nem deve ser a meu ver, um mero observador moralmente descomprometido. Esta para mim não deve ser a base do critério da objectividade. No máximo, um jornalista deve ser um intérprete moralmente descomprometido.
Subjectividade na procura Todas as pessoas têm os seus valores, opiniões, juízos, interesses e preferências. E isso certamente não fica simplesmente em casa quando se vai trabalhar. É impossível um jornalista não questionar e avaliar, ainda que inconscientemente, uma situação com a qual se depara. E não penso que isso seja negativo. Afinal, se nós não avaliarmos uma situação, se não nos interessarmos por ela, se não nos questionarmos sobre ela, conseguiremos colocar as melhores e mais pertinentes perguntas? Estaremos aptos a incutir no nosso trabalho uma maior qualidade? Sinceramente acho que não. Acabaríamos sempre por colocar as mesmas questões básicas, nas mais variadas situações e aos mais diversos intervenientes.
Na minha perspectiva, um jornalista não deve envolver-se demais emocionalmente com os assuntos, mas também não deve, nem consegue, desinteressar-se deles por completo. É precisamente esse envolvimento e esse interesse que, a meu ver, acabam por distinguir os jornalistas e os seus trabalhos, pela positiva. Um jornalista que questione, que avalie e que se interesse, consegue olhar muito mais além dos assuntos, existem mais coisas que ele quer saber, questões, mais pormenorizadas e profundas, que ele quer ver respondidas. Não concordo com quem diga que se passa exactamente o contrário. Que um jornalista interessado e comprometido com a situação, se torna “cego”, parcial e tendencioso, só vendo o que quer ver e o que mais lhe agrada ver. Isso pode acontecer sim, como é óbvio, mas julgo que a um mau jornalista.
Além do mais, as notícias, encaradas como construção social da realidade, rejeitam a ideia de que a produção jornalística é um retrato fiel e objectivo da realidade. As notícias, de acordo com Nelson Traquina, são vistas como o resultado "da interacção entre agentes sociais: os jornalistas e as fontes de informação, os jornalistas e a sociedade, os membros da comunidade profissional, dentro e fora da sua organização". Assim, os jornalistas cobrem, seleccionam e divulgam notícias sobre temas considerados relevantes e de interesse para os indivíduos de uma estrutura social, o que faz com que, segundo Gay Tuchman, as notícias se apresentem à sociedade como um “espelho” dos seus interesses.
Objectividade na produção Na hora de produzir os trabalhos, aí sim, o jornalista tem de conseguir deixar de lado todas as suas opiniões e juízos, o seu lado emocional, e limitar-se a uma interpretação correcta, séria e rigorosa dos factos, com a maior imparcialidade e isenção possíveis. Mas factos esses aos quais ele chegou, em grande parte, devido ao seu interesse e envolvimento, nos quais sempre estiveram também presentes, ainda que inconscientemente, os seus juízos, os seus valores, as suas opiniões, a sua forma pessoal de ver as coisas. A própria abordagem escolhida acaba por resultar de toda essa desconstrução e reconstrução dos acontecimentos, defendida pela perspectiva da notícia enquanto construção social da realidade, e onde existe sempre uma visão e um cunho pessoal do jornalista.
Logo, um jornalista não deve ser um observador moralmente descomprometido. Deve ser um bom observador, que se compromete moral e emocionalmente consigo e essencialmente com o seu trabalho. Se o jornalista for comprometido com o seu trabalho, o interesse pelos assuntos, a avaliação dos mesmos, o envolvimento moral e sentimental vão sempre acabar por existir. E eu acho que isso funciona como um benefício na execução do trabalho, se for bem canalizado e se existir consciência e ponderação por parte de cada um. Agora, obviamente, cada um dos profissionais tem de saber encontrar o equilíbrio correcto neste envolvimento e comprometimento, para que ao invés de um benefício, não se transforme numa situação prejudicial, na qual o jornalista não saiba ter o controlo das situações e que possa fazer com que ele seja encarado como tendencioso e pouco sério, rigoroso e objectivo no trabalho que produz.
Assim, encaro o descomprometimento moral e emocional como algo que deve existir sim, mas na hora de produzir e redigir os trabalhos. Uma imparcialidade ao noticiar os acontecimentos e uma aposta na simples veracidade dos factos. Se assim for, o jornalista é objectivo.
Para além do mais, um jornalista também tem sempre uma tendência para se identificar mais ou menos com determinados assuntos. E quando existe essa identificação, que é normal e natural, existe sempre algum tipo de envolvimento e compromisso com os mesmos. Isso põe em causa a objectividade dos seus trabalhos? Por si só, claro que não. E, provavelmente, esses seus trabalhos serão muito melhores e com mais qualidade do que aqueles que realiza sem qualquer tipo de identificação.
Jornalismo (des)envolvido Por isso, este conceito de objectividade, tão discutido e sem consenso geral, acaba, a meu ver, por muitas vezes limitar os jornalistas e contribuir para a produção de trabalhos de menor qualidade. A pressão desta necessidade de objectividade é tanta, que os jornalistas acabam por ser uns meros transmissores de notícias, não se preocupando em aprofundar ou interpretar os factos. E por isso mesmo critico a objectividade e aqueles que a defendem como tal, encarada como um dever dos jornalistas se transformarem, no exercício da profissão, em pessoas apáticas, sem moral nem emoções, uns simples robôs que visualizam, e produzem notícias.
Para mais, quando não mostramos interesse pelos assuntos, quando não provamos que sabemos e conhecemos e queremos saber e conhecer mais, quando não estabelecemos algum tipo de envolvimento, normalmente as pessoas dizem-nos o básico, o que diriam a todos, ou somente aquilo que querem ou lhes interessa dizer. Mas quando nós mostramos envolvimento e interesse, as pessoas notam e sentem isso, e há mais tendência e uma maior oportunidade de que nos contem mais, porque também têm mais prazer em falar com alguém que elas sentem que se interessa, que conhece, que está minimamente envolvido.
É diferente se nós perguntarmos somente a uma pessoa a sua opinião sobre um dado assunto ou, ao conversar, tentarmos deixar transparecer que sabemos sobre aquele assunto, que nos interessamos, que também temos umas certas opiniões pessoais, independentemente das exigências ali marcadas pela profissão. A pessoa vai-nos certamente transmitir a sua opinião de uma forma totalmente diferente. E nada disto, a meu ver, prejudica uma objectividade indispensável ao jornalismo… creio que a contribuição deste tipo de postura vai ao encontro de um jornalismo de maior qualidade.

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quarta-feira, 27 de março de 2013

Vida ilusória

 


A anteceder o Dia das Mentiras, mergulhamos nas causas, condições e efeitos de (não) expressar a verdade.

Texto e fotografia Dina Cristo

Uma parte significativa da vida real é constituída pelo sonho e ilusão, em que se baseia, aliás, muito entretenimento. Por vezes é mesmo difícil distinguir onde acaba uma e começa outra dimensão. Nos tempos actuais de transição, a mistura aumenta e a confusão cresce tal como a necessidade de as distinguir.
O sonho, embora difícil, pode ser concretizado, depende por isso da acção, esforço e talento do sonhador. É ele que dá qualidade, humanidade e sentido à vida e impulsiona a evolução, lembra Carlos Cardoso Aveline. Por seu lado Omraam Aivanhov recorda que “Os verdadeiros progressos sempre foram obra de utópicos”[1].
Quando, apesar de ausente, no presente, o sujeito ou objecto permanece na memória de alguém, está-se perante uma imaginação. Pode ser uma fonte de alegria, criativa e construtiva - é o caso das fantasias artísticas, nomeadamente as musicais. Em relação ao deslumbramento e encantamento, de carácter emocional, próprio do fascínio, pode e deve ser corrigido pelo âmbito mental.
Já a ilusão não depende do iluso para a sua concretização. A pessoa ou objecto ilusor não está e nunca esteve presente. De carácter mental, pode ser reequilibrada com o nível emocional, nomeadamente através do amor. É um engano, uma esperança sem fundamento, que constitui uma distorção da realidade.
Muitas vezes uma fuga, a ilusão pode ter, entre as suas principais causas a dureza da realidade (social) e o egoísmo. Resulta também da astúcia e do ódio. O seu objectivo é o interesse, proveito e conveniência pessoal (como o aumento da posse), o desejo de dominar (pessoas e situações) e de ganhar tempo. Conduz, com frequência ao envelhecimento, à tristeza, à dor, que temia, e mesmo à infelicidade, miséria e, inevitavelmente, à desilusão.
A confusão mental provoca cada vez mais enganos, equívocos, erros, sofrimentos e intranquilidade emocional, que, por sua vez, pode levar à depressão ou (co)dependências – um ciclo vicioso que só aumentará a sombra e o aprisionamento. Se a curto prazo os efeitos parecem atrativos, em pseudo-realidades mais agradáveis, confortáveis ou prazerosas, a médio e longo prazo tornam-se desgastantes e destrutivas, uma espécie de pântano que alimenta a escravidão, como um vampiro que se sustenta do sangue da sua própria… presa.
A resposta mais comum é o prolongamento de uma ilusão com outra (nomeadamente casa, emprego, relação), a substituição do optimismo pelo pessimismo (o desânimo e o desespero, a crença de que não há saída) ou a troca deste por aquele. Poucos aproveitam a oportunidade para se sintonizarem com o realismo ou se elevarem a um plano real mais duradouro.

Quem (não) tem medo de expressar a verdade?

Os motivos são vários. A falta de experiência e de reflexão pessoal como a repetição de falsidades e mentiras colectivas, por um lado, a imposição e, ao mesmo tempo, a relativização de verdade(s), ao nível institucional, por outro, dificulta o reconhecimento da ilusão. A mescla entre realidade e ficção dissemina-se. Quantas vezes as mentiras são ditas com ar sério (seja no jornalismo, na história ou na vida quotidiana) e em “on”, utilizando palavras (muitas vezes escritas) e as verdades em (tom, programas e desenhos de) humor, na dita ficção científica, nas lendas, mitos, brincadeiras comuns como no “off”, nas palavras não ditas, no silêncio.
Superar o ‘sincretismo’ mental e discernir entre o que é e aquilo que parece ser é uma tarefa árdua. Exige força, coragem, renúncia às falsidades, reaprendizagem da arte de pensar (menos e melhor), experiência, maturidade, preparação e mesmo precaução para que, dada a sua energia, possa ser recebida sem estragos, como previne Omraam Aivanhov, autor para quem a verdade deve ser assimilada e integrada, experiênciada, vivida e aplicada antes de ser transmitida. Para Neale Donald Walsch, a sua expressão deve ser a cinco níveis: de cada um a si próprio e a outra(s) pessoa(s), da(s) outra(s) pessoas a si próprio e a ela(s) e acerca de tudo a toda a gente.
É difícil encontrar a verdade numa sociedade que confunde carência com amor e, como diria Emanuel Kant, o condicionado, as inclinações (patológicas), o sensível e a parte com o incondicionado, o mundo das Ideias, da Razão Pura, o todo; repleta de falsificações, onde as cópias substituem, com vantagens lucrativas, o original, com cada vez há menos alimentos genuínos e mais “do tipo de”, objectos contrafeitos e argumentos falaciosos.
Numa sociedade assim, com os indivíduos a perceberem as realidades de acordo com os seus filtros emocionais (onde predomina o medo e o desejo), como explicou Lucienne Cornu, com pressa(o) de se adaptar, os exemplos de ilusão são inúmeros. Desde (a linearidade de) o tempo, a separação, o isolamento entre seres e a permanência dos fenómenos, a própria ciência, religião e engenharia (segundo Óscar Quiroga), até à convicção de que a verdade não existe, de que se pode obliterar o envelhecimento, a doença e evitar a morte, agir sem quaisquer consequências ou colher sem semear.
Carlos Cardoso Aveline explica como Maya não é literalmente uma ilusão mas um nível de realidade em perpétua renovação, mutante e dinâmica, cíclica e impermanente. Esta dimensão enganosa constitui um nível mais externo de realidade, campo de competição, de carácter mental, e de interesses personalísticos.
A ilusão, que envolve a maioria dos humanos, corresponde às trevas, a objectividade, a superficialidade ou a aparência. Identifica-se com os pensamentos e palavras, da mente concreta, que controla, manipula, oprime, oculta, bloqueia, mente, desconfia, analisa, esconde, separa e, insegura, precipita a própria destruição, ao invés da sobrevivência para a qual encontra todas estas estratégias de defesa.
O intelecto é um meio de conhecimento, embora limitado, pois julga a partir das aparências, conclui a partir de visões parciais sem conseguir captar elementos subtis, o que origina erros, enganos e incorrecções, lembra Omraam Aivanhov. Amigo da crença, da fé e dos desejos, muitas vezes omite, resiste ou rejeita a realidade.
A mentira, denunciada em fados e canções, nacionais e internacionais, além de livros, é coadjuvada pela velocidade de informação, eufemismos e fingimentos. Amiga do joio, da preguiça e da anestesia, é cúmplice da submissão, susceptibilidade e estagnação bem como da cosmética em que tenta imitar e, ao mesmo tempo, encobrir e maquiar a realidade mais pura.

Da ilusão à iluminação

Mas aquilo que é objecto de ilusão pode, despoletado por uma desilusão e uma fraqueza, que leva ao crescimento, tornar-se um propulsor de iluminação e de franqueza, para um punhado de almas que procuram ultrapassar os limites da ignorância, da opacidade e da parcialidade e atingir um nível mais interno, anímico, intuitivo e unitário da realidade.
A verdade vai além do intelecto e concilia o conhecimento mais profundo, a sabedoria, com o amor, o que lhe permite penetrar instantaneamente no íntimo das coisas e dos seres e conhecê-los na totalidade, sem nada lhe ser ocultado e nunca se enganar, explica Omraam Aivanhov. Este nível mental abstracto ao integrar o significante, o corpo, a matéria visível e também o significado, a essência e o espírito invisível permite-lhe obter a visão do todo e não se reduzir a uma parte dele.
Ao contrário da mentira, tem pernas cumpridas e transcende o tempo e o espaço. Está para além das conveniências pessoais e dos interesses personalísticos. É, por isso, de seguimento raro e difícil mas criativo este caminho, em que a estética está ao serviço da revelação e descoberta da realidade, em direcção à transparência, à frontalidade e à aceitação, cujo desfecho é a correcção, confiança e segurança. Como escreveu Óscar Quiroga[3] «Belas ilusões se tornam indigestas e promotoras de problemas ao longo do tempo. Enquanto isso, cruas realidades enfrentadas com coragem tornam o panorama claro e transitável com muita rapidez»[4].
Satya, a verdade, é uma luz que dissolve as barreiras, um raio fulminante, sensível, breve e profundo; uma força de vontade que liberta e cura, e cujos frutos são o discernimento mental e a serenidade emocional; o autêntico poder mág(ic)o de revelar e manifestar a realidade oculta(da), qual “iceberg” desconhecido. «Verdade é» segundo Óscar Quiroga «o que se vive interiormente, é o que resiste a quaisquer argumentações; verdade é aquilo que geralmente não se discute nem sequer nos momentos em que nossa humanidade decide ter conversas sérias».


[1] AIVANHOV, Omraam - Pensamentos quotidianos. Edições Prosveta e Publicações Maitreya, 2013 (27/3/2013). [3] 28/06/2011. [4] QUIROGA, Óscar – 6/6/2011

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quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

A Comunicação Oculta IV



Neste quarto artigo focamos um dos principais canais de Comunicação: a Humanidade.

Texto e desenho* Dina Cristo

Cada Ser Humano é um ponto de encontro entre a linha horizontal, temporal (Prácrito, yin), e o braço vertical, espacial (Purusha, yang), entre o Alfa (passado) e o Ómega (futuro), o Céu e a Terra. Ele está no centro, o ponto de intersecção, que lhe permite conciliar realidades aparentemente opostas, harmonizá-las, sintetiza-las e transcende-las.
A Humanidade é o meio de comunicação por excelência entre diferentes mundos. Completado através do fogo mental, recebido na terceira raça, como vimos, é a primeira Hierarquia Criadora completa, com acesso quer à Tríade Superior, o Céu, a dimensão Super-Humana, Divina, do mais elevado Espírito, quer ao quaternário inferior, o inferno, a dimensão sub-humana, animalesca, da mais densa matéria.
É o corpo mental[1], dual e paradoxal (dado o carácter concreto e Abstrato), que permite aos humanos serem uma ponte que liga, ou separa, os deuses e Mestres das bestas e feras, conforme for mais ou menos activado o plano Mental Superior, e construída a escada[2] de Jacob, o antahkarana, o cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo, a separatividade, unindo o Eu Superior à personalidade, na vindoura sexta sub-raça.
Nessa altura será manifestada a Alma Humana, intermediária entre a Alma Espiritual - Sobre-Natural, Intuicional, Eterna, Noética, detentora de conhecimento directo, intrínseca aos Filhos de Deus, a Matéria da Deusa Virgem e Pura - e a Alma animal, natural, emocional, psíquica, tentadora e perecível, propícia a (des)ilusões, inerente ao homem e à mulher sub-desenvolvidos, alienados, condicionados, escravizados, impotentes e vulgares, os Filhos da Mulher, prostituta.
A mediadora é a Alma Humana - a Esfinge, enigmática e frenética - racional, imperecível, de nível causal, própria do Ser Humano desenvolvido, Senhor de si mesmo, com poder e livre arbítrio, o Filho do Homem. Este é, pois, o verdadeiro medium: «O homem é um ponto de encontro e um lugar de transmissão, uma charneira ou um foco de difusão»[3].
O Ser Humano é, através do seu nível de consciência mental, quem casa verdadeiramente o mais elevado nível de Espiritualidade e o mais baixo de selvajaria. Como a alma, em sentido lato, é a mediadora, o Software, entre o Pai - o Programador, o Espírito, o Transcendente, a Vida, a Subjectividade - e a Mãe, o hardware, a Matéria, o imanente, a forma, a objectividade.
Como escreveu Alice Bailey, por «(…) meio do centro divino de inteligência activa a que chamamos Humanidade, o quarto reino da natureza actuará, oportunamente, como um princípio mediador para os três reinos inferiores. A Humanidade é o divino Mensageiro para o mundo da forma»[4]. O quatro é a via central, a meio da perfeição, o sete, final do caminho, capaz de estabelecer a ligação; é o caso do quarto Raio do Equilíbrio, da Lei da Harmonia como do Chakra Cardíaco[5].
Comunicação celular
O facto do Ser Humano ter sido criado à imagem e semelhança Divina (com planos de frequência equivalentes) dá-lhe proporcionalidade, compatibilidade e possibilidade de entrar em interacção com Essa realidade mais subtil, nomeadamente através das glândulas endócrinas, sobretudo a timo e a pituitária, que lhe permite uma simbiose com o subliminar universal, e a tiroide, que lhe faculta a ligação entre a Tríade Superiora e o quaternário personalístico.
A Humanidade dispõe de centros cerebrais, estruturas a desenvolver, que são autênticas portas de acesso ao subliminal. É o caso do terceiro ventrículo, dos tálamos ópticos, da epífise (glândula pineal, o terceiro olho) como dos tubérculos quadrigémeos em relação ao lado pré-frontal. O corpo caloso, um feixe composto por dezenas de milhões de fibras, assegura a ligação entre os dois hemisférios.
Lembramos que o hemisfério da esquerda, da mente concreta, está ligado à lógica, ao raciocínio, à análise, ao planeamento, ao conhecimento, à linguagem verbal como ao passado, e o hemisfério da direita, da Mente Abstracta, do futuro, para além da lógica racional, do explícito e do dito - relaciona-se com a linguagem não-verbal, a Intuição, a Comunicação ou a Criatividade.
O próprio Sistema Nervoso Central (SNC) comanda todo o corpo humano, órgãos, células e periferia, através do seu centro distribuidor, o hipotálamo, que recebe, descodifica os significados e envia um registo para o subconsciente. Esta zona cerebral à volta do ventrículo (que regula a temperatura, o sono e o metabolismo) sabe onde guardar a mensagem (para)simpática captada e para onde a retransmitir.
O corpo humano é um alto sistema de comunicação celular, onde se processa a recepção, tratamento e envio da informação captada. A casa humana é constituída por dezenas de triliões de células, uma espécie de tijolos inteligentes, que transportam no seu núcleo, o ADN, átomo-permanente com informação codificada sobre as características hereditárias.
Cada célula contém a mesma informação genética, um texto, que interpreta, com as instruções sobre como construir o organismo humano. Para que não se perca ou corrompa, o ADN é quase todo copiado por enzimas e as sequências terminais aumentadas pelas telomerases, até atingirem um tamanho mínimo.
Primeiro, a mensagem passa do exterior para o interior da célula. Os carteiros são as proteínas e, à superfície, os marcos de correio são os ligandos. Depois os sinais transmitem-se ao núcleo, através da cedência de electrões. Todas as células se (in)formam por impulsos eléctricos, radiações e circuitos empáticos que transportam significado.
Cada uma tem a sua própria família, padrão de ressonância, vibração, papel e tipologia. As células sensoriais sinalizam e reagem, provocando sensações, face aos estímulos que captam (conscientemente), desde que compatíveis com o seu filtro selectivo, relacionado com a memória de experiências anteriores, como salientou Lucienne Cornu.
No cérebro[6] existem (milhares de) milhões de células nervosas, uma espécie de gatekeepers que decidem, ou não, (re)transmitir o sinal detectado. Há milhares de possibilidades de contactos, conexões e fluxos electro-químicos (sinapses), de entradas e propagação de ondas, através do axona, o emissor, e saídas, através das dendrites, as suas extensões.
Quando os neurónios são activados, estimulados e excitados libertam neurotransmissores, mensageiros químicos cerebrais - uma corrente de energia eléctrica que leva a mensagem às outras células nervosas. Trata-se de um cordão fibroso que transmite impulsos nervosos, portadores de codificação, geradora de percepções, e de significação, fomentadora de interpretações.
É a informação, o fluxo eléctrico e luminoso, existente nos “vacuos” ou cavidades, como os ventrículos, que - à semelhança de Fohat, a um nível Macro-Cósmico – permite, assim, organizar, estruturar e dar forma à matéria (virgem). Para manter a ordem, e evitar a entropia, é vital o fluxo de energia, seja ao nível estruturante seja ao nível circulante.

 * Anos 70

[1] Trata-se do fogo de Prometeu, atribuído na terceira raça-raiz, aquando da divisão sexual, como vimos no artigo anterior. [2] «Pois deveis saber que é por uma e a mesma escada que a natureza desce à produção das coisas, e que o intelecto ascende ao conhecimento delas», ensinou Giordano Bruno, no diálogo cinco, em “De la causa, Princípio te uno”. [3]  CLUC - Introdução à Sabedoria e Técnicas Grupais, CLUC, 1ª ed. 1990, pág.52 [4] BAILEY, Alice – Astrologia esotérica, Vol.III, Tomo I, Association Lucis Trust, 1ª ed. 1997, pág. 133. [5] É também o caso das folhas de uma árvore, entre a raiz, o tronco e os ramos, por um lado, e as flores, os frutos e as sementes, por outro, ou ainda do verde do Arco-Íris, entre o vermelho, laranja e amarelo, e o turquesa, índigo e violeta.
[6] O cérebro é constituído pela região réptil, sede da vida física e automática, região límbica, génese das emoções, e região cortical, dos comportamentos inteligentes, livres, autónomos e originais.

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sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

A Comunicação Oculta II



Neste segundo artigo acompanhamos a expansão da trindade em septenário, com reflexo na radiação cósmica, legislação universal ou ao nível do microcosmos humano.

Texto e desenho* Dina Cristo

De cada modo de relação diferenciada entre o pólo espiritual e o material resultam sete planos distintos de substância e consciência, que constituem sete veículos de manifestação (Saptaparna). «Entre o Um e o Dois há sete frequências vibratórias possíveis, sete graus de consciência, sete qualidades manifestadas»[1], ensinava Kepler, conforme lembra Maria Flávia de Monsaraz.
Os planos são regiões habitadas pelo espírito-matéria, onde substâncias com determinadas propriedades vibratórias, com um certo nível de estado de consciência, interpenetram os corpos mais grosseiros. São campos de expressão macro-cósmicos, constituídos por esferas concêntricas que, embora separadas, são, interdependentes.
Cada plano tem o seu respectivo veículo (upadhi), aquele que lhe é inferior e que constitui um canal de expressão, ou então barreira, conforme está mais ou menos (des)bloqueado, limpo e organizado. Uma das várias formas de tornar os veículos mais receptivos (a uma informação mais clara, profunda e pura) é a emissão da palavra (co)recta, compassiva  e sagrada.

Um dos pontos de contacto privilegiado com os planos é a rede de meridianos e os seus sete principais centros de força subtis (chakras), transformadores de energia. O Coronário - Fonte de Vida, Poder e Vontade; o Frontal - a Intuição; o Laríngeo – a Iluminação; o Cardíaco – a Identificação; o Plexo Solar – o instinto; o Centro Sacro – o magnetismo e o Básico – a síntese.

No âmbito humano, os princípios septenários (equivalentes dos macrocósmicos) são constituídos pelos planos arûpa, sem forma, que contêm a tríade superior, espiritual, numénica e imorredoura, e os planos rûpa, com forma – o seu desdobramento no quaternário inferior, correspondente aos quatro elementos (fogo, água, ar e terra) e à guanina, citosina, timina e adenina do ADN, como denota Isabel Governo[2]. 

Estas dimensões têm sido designadas das mais diferentes formas e perspectivas, segundo as épocas, correntes e autores. Aqui, embora de uma forma geral e aproximada, podemo-las identificar pelo Eu Superior, constituído por Atman – o Espírito Puro, a Unidade, a Mónada, a Vontade Espiritual; Buddhi – o Corpo Causal, a Intuição, a Síntese, a Discriminação, o Supra-Consciente e pela Mente Superior – o mundo das Ideias Arquetípicas, dos Pensamentos Abstractos, da Linguagem Simbólica[3].
Ao nível da personalidade, existe o mental inferior - dos pensamentos concretos, limitado pelo raciocínio e preso ao desejo; o emocional - dos afectos, paixões e inclinações, onde se processa a criação; o vital - o campo electromagnético, onde ocorre a formação e o físico denso - sub-consciente, onde se dá a geração.

O sete

Na Estátua da Liberdade, nos EUA, estão representados os sete raios, presentes em todo o mundo nas sete cores do Arco-Íris. Cada um expressa uma característica, qualidade, diferenciação da energia Una. O primeiro raio exprime Vontade, Poder e Organização. É o Alfa; o segundo Amor/Sabedoria, Compaixão/Intuição; o terceiro[4] Adaptação e Mudança; o quarto equilíbrio, harmonia e beleza; o quinto rigor e ciência; o sexto devoção, idealismo e honra; o sétimo, o Ómega, tecnologia, gestão e eficiência.
Existem de igual modo sete leis universais: o Holismo, a Analogia, a Ordenação, a Harmonia, os Ciclos, o Karma e a Evolução. Em cadernos editados pela Sociedade Teosófica de Portugal, Humberto Álvares da Costa explica como a Realidade é Una, Idêntica, Rigorosa, Polar, Alternante, Encadeada e Progressiva e como cada uma destas regras é referida na oração do “Pai Nosso”.
Esta revelação com base em sete diferentes espaços-tempos, órgãos subtis, raios ou leis, está presente na Cabala como nas “moradas” do Cristianismo, nos sete planetas sagrados como nas sete estrelas da Ursa Maior ou de certa forma nas sete notas musicais, nos sete dias da semana e reflecte-se em expressões populares como “estar fechado a sete chaves”[5].
O logos desdobra-se e manifesta-se a sete níveis. À medida que prossegue a condensação evolutiva «(…) o fio ténue se transforma em um canal cada vez mais largo através do qual flui, cada vez mais abundantemente, a vida átmica»[6]. Como referiuJosé Manuel Anacleto, essa expressão faz-se indirectamente. A sephiroth Yesod, por exemplo, é «(…) o medium através do qual a mente pode actuar na objectividade material, tal como a mente é o meio através da qual o Espírito se pode manifestar nos planos psíquicos e físicos»[7].  
O sete representa em várias tradições a realização, a conclusão, a perfeição, a totalidade (do tempo e do espaço); é, por isso, um número sagrado, com um poder (mágico), frequentemente citado na Bíblia, nomeadamente os seus múltiplos e no Apocalipse. Chave do Evangelho de São João, este número é usado 77 vezes no Antigo Testamento sendo que o Profeta Zacarias se refere aos sete olhos de Deus. Resulta da soma da tríade celeste, a Imperatriz (3), com o quaternário terrestre, o Imperador (4), do Tarot[8]. É a matriz da manifestação universal, como vimos no primeiro artigo, e humana, como veremos no próximo

* Anos 70

[1] MONSARAZ, Maria Flávia – Vénus, 2004 (CD). [2] GOVERNO, Isabel – Como somos feitos… in Biosofia, n.º 29, pág. 19. [3] A noosfera de Pierre Theird de Chardin ou a Razão Pura de Immanuel Kant. [4] Os primeiros três raios, o Poder do Pai, o Amor do Filho e a Luz do Espírito Santo, referidos no artigo anterior, são respectivamente o transmissor, transformador e transfigurador, de acordo com Alice Bailey. [5] “Monstro de sete cabeças”; “estar nas sete quintas” ou, por exemplo, “um gato ter sete vidas”, além dos sete mares, do sétimo céu, etc. [6] BESANT, Annie – O enigma da vida. Editora Pensamento. S. Paulo. 10ª ed., 1997, pág. 115. [7] ANACLETO, José Manuel – “Tiphereth” in Biosofia, nº37, p.38. [8] CHEVALIER, Jean; GHEERBRANT, Alain – Dicionário dos Símbolos, Ed. Teorema, 1994.

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