quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Nutrição racional

A dois passos do Dia Mundial da Alimentação lembramos alguns princípios básicos para uma boa nutrição: comer alimentos não processados nem refinados ou contaminados com agrotóxicos, ingerir hidratos de carbono lentos, proteínas completas (com moderação e de forma variada), vegetais crus, sementes e grãos germinados, alimentos lactofermentados e probióticos. Agora mais atentos, devido à gripe A, comecemos pela necessidade de romper com os maus hábitos alimentares.

Texto Alberto Suarez Chang fotografia Dina Cristo

A nutrição é uma ciência completa e uma arte de usar os alimentos com equilíbrio. Com uma dieta carente de proteínas completas, hidratos de carbono, vitaminas e minerais, seria impossível estar livre de enfermidades e gozar de um óptimo bem-estar físico e mental. Para isso é fundamental saber a composição de cada alimento, as compatibilidades alimentícias, o modo adequado de prepará-lo e estar consciente de que a qualidade é muito mais importante do que a quantidade. Por exemplo, uma cenoura contém uma grande quantidade de betacaroteno, sobretudo se provém da agricultura biológica, porém esta pode diminuir se não for consumida rapidamente ou pode ser destruída completamente se for cozida mais de cinco minutos.
Os queijos, sobretudo se são de leite cru, são uma excelente fonte de proteínas, porém quando se abusa deles, podem estimular uma excessiva produção de mucos; se são consumidos junto com os doces podemos bloquear a absorção de proteínas e formar uma glicosilação. Este processo causa uma modificação anormal na estrutura e funcionamento de muitas outras proteínas de células e tecidos, acelerando, por exemplo, as complicações oculares dos diabéticos.
Todavia, apesar de termos uma alimentação razoavelmente aceitável, não conseguimos ter um aporte suficiente de vitaminas, minerais e outros nutrientes que nos permitam libertarmos a toxicidade ambiental, reparar o desgaste celular, reforçar o sistema imunitário e restaurar o sistema nervoso do stress da vida moderna.
Necessitamos urgentemente de incorporar na nossa dieta quotidiana certos alimentos com uma alta concentração de nutrientes essenciais, tais como a levedura de cerveja (rica em complexo B e aminoácidos), gérmen de trigo (vitamina E), pólen de flores, algas marinhas (iodo e ácido algínico), iogurte (proteínas e acidófilos), azeites polinsaturados de colza ou sésamo com pressão a frio (precursor de prostaglandinas E1), assim como aumentar o nosso consumo de frutas ricas em vitamina C, como o kiwi, a papaia, a toranja, o maracujá, também alhos, brócolos, repolho roxo e os abacates (excelentes fontes de antioxidantes sulfurados, selénio e glutatião).
Todos estes supernutrientes podem ser suficientes na maior parte dos casos porém, quando sofremos de um processo infeccioso ou degenerativo (como artrite) ou quando a quantidade de metais pesados e outros xenobióticos é alta no nosso organismo, necessitamos de uma suplementação extra de todos os nutrientes essenciais tais como os antioxidantes (vitamina E, C, selénio), minerais (magnésio e zinco) e o complexo B em doses mais fortes.
Infelizmente o preço da vida moderna e do progresso, nós mesmos temos que pagar pois as leis e as resoluções governamentais, que deveriam proteger o meio ambiente e o povo, são inexistentes.

Maus hábitos

A maioria das pessoas não se preocupa com o conteúdo alimentício do que consome. Só se interessa com a sensação hedonista que produzem certos alimentos do seu agrado. Isto leva, por um lado, a uma limitação de nutrientes e, portanto, a uma desnutrição e, por outro, a um excesso perigoso de certas substâncias, como as gorduras saturadas (carnes e lácteos), gorduras peroxidadas (frituras) ou, pior ainda, gorduras “trans” (como as margarinas usadas nos bolos), açúcar refinado (doces, gelados), produtos torrados (café) ou defumados (chouriço, presunto, salmão).
Muitas pessoas sentem que não podem funcionar apropriadamente sem tomar uma ou várias chávenas de café logo de manhã. Pensam que lhes dá energia. A cafeína é uma substância aditiva que estimula em exagero o sistema nervoso central e afecta a função de órgãos vitais como o coração, os rins e as supra-renais.
Aqueles que mudam os seus hábitos alimentares só o fazem quando têm graves problemas de saúde, outros inteligentemente compreenderam que uma boa nutrição é o melhor preventivo de enfermidades e a melhor maneira de aumentar a capacidade mental e o bem-estar físico.
Alimentos naturais
A maior parte dos alimentos que encontramos nos supermercados são desnaturalizados, desvitalizados e carentes de nutrientes essenciais devido em primeiro lugar a práticas lucrativas da agricultura convencional e em segundo lugar ao processo de industrialização que sofrem quase todos os produtos de consumo hoje em dia.
Comemos frutas, verduras, carnes e produtos lácteos com pesticidas e metais pesados que causam graves problemas de saúde a longo prazo. Por exemplo, os insecticidas organoclorados, como o lindane e aldrin, consumidos quotidianamente, produzem uma intoxicação crónica e podem provocar problemas neurológicos como dores de cabeça, com náusea, vertigem, confusão mental, perda de memória, ansiedade, astenia e mal-estar geral.
Outros insecticidas, os organofosfatados e os carbamates, bastante utilizados em quase todo o tipo de cultivo (legumes, árvores frutíferas, vinhas, etc.) são poderosos neurotóxicos devido à sua forte lipossolubilidade. Eles interferem com a acetilcolinesterase, a enzima que regula a acetilcolina, um neurotransmissor responsável por muitas e importantes funções, como a faculdade de concentração, aprendizagem, memória, movimentos musculares (tónus muscular), vasodilatação das artérias e capilares, reforço da contracção do tubo digestivo e a hipersecreção dos brônquios.
Em seguida, os alimentos são conduzidos a “armazéns” onde passam por um processo de esterilização com aditivos (preservantes anti-fúngicos) ou são irradiados. Com o bombardeio de iones radioactivos a fruta, os vegetais ou a carne podem preservar-se por mais tempo do que a putrefacção normal e, portanto, podem ser vendidos em lugares mais distantes. Todavia, com este processo, os alimentos, já contaminados e desvitalizados da primeira fase, sofrem mais problemas: durante a sua irradiação produzem-se “radiolitos” (que podem ser tóxicos para a saúde), os vírus e as bactérias podem mudar e chegar a ser mais resistentes, os micotóxicos, como a aflatoxina (poderoso carcinogénio) aumentam a sua toxicidade e, como se isto fosse pouco, a maioria das vitaminas são erradicadas.
O pão e as massas brancas são alimentos que perderam, durante o refinamento da farinha, a maioria dos seus nutrientes (pois a cutícula do trigo contém grande quantidade de complexo B e minerais).
As condições da vida moderna nas grandes metrópoles não nos permitem ter as condições para uma boa alimentação. Uma grande maioria dos que trabalham nas cidades têm de recorrer a restaurantes ou levar sandes para almoçar. Não são muitos os privilegiados que têm um jardim e todavia entre eles são poucos os que têm uma horta biológica. Então não temos outra alternativa do que encontrar um bom fornecedor de produtos biológicos certificados.
Hidratos de carbono lentos Os hidratos de carbono ou glúcidos assimiláveis estão divididos em três grupos: monossacarídeos - são a glicose, frutose e galactose; dissacarídeos - são a sacarose (molécula de glicose e frutose), maltose (duas moléculas de glicose) e lactose que está no leite (galactose e glicose) e glúcidos complexos – são moléculas mais complexas de glicose como os amidos (glúcidos vegetais) e em certa medida pelo glicogénio (glúcido animal).
Todos os glúcidos são transformados em glicose pela acção da digestão e na actividade hepática. A rapidez com que a glicose se torna utilizável depende de dois factores: o tempo que permanece no estômago e a velocidade com que a digestão se processa antes de passar no sangue. De referir que a velocidade a que decorre o esvaziamento do estômago (tempo gástrico) é um dos factores mais importantes.
Aquele tempo condiciona a velocidade de distribuição, no intestino delgado, da glicose previamente produzida no estômago. Estas duas operações devem efectuar-se o mais lentamente possível a fim de evitar a glicemia. O glúcido lento por excelência e aqueles que são ricos em glúcidos complexos são, por exemplo, as massas (97 minutos), arroz (86 minutos) ou pão (81 minutos). Para ser mais lenta pode incluir lípidos, como queijo, manteiga, azeite, nozes e outros polinsaturados.
Proteínas completas As proteínas são substâncias complexas com as quais se formam os músculos, os órgãos, as unhas, o cabelo, o colagéneo, as enzimas e toda a estrutura celular do nosso organismo. São constituídas por pequenas unidades, os aminoácidos. Existem 22 tipos de aminoácidos, dos quais 14 são elaborados no organismo, sendo os outros oito obtidos mediante a alimentação e, por isso, considerados essenciais. Eles são a isoleucina, leucina, metionina, fenilalanina, triptofano e valina.
Uma proteína é considerada completa quando contém os oito aminoácidos em proporção correcta. Por exemplo, os ovos, a carne, o peixe, os queijos e o iogurte. Sem dúvida, o peixe é a melhor forma de proteína completa, no sentido de que é mais digerível; é rico em ácidos gordos essenciais (ómega-3) e menos tóxico se comparado com a carne vermelha, que contém colesterol.
As proteínas animais consumidas em excesso deixam resíduos tóxicos nos tecidos, tais como as purinas e ácido úrico, que podem causar putrefacção intestinal, acidificação e diminuição do cálcio e magnésio no organismo. Muitas vezes consomem-se os hambúrgeres bastante fritos ou cozidos e o problema agrava-se mais, visto que ao perder a vitamina B6 e outros nutrientes dá-se o aparecimento de uma substância tóxica: a homeocisteína, implicada na origem da arteriosclerose. Por outro lado, a carne tostada vem a produzir uma substância extremamente tóxica: o benzo-alfa-pirene, implicado na formação de cancro.
Os ovos são fontes excelentes de proteína completa e lecitina. Devem ser cozidos na água, uma vez que perdem a lecitina quando fritos. Os queijos, porém, sobretudo o iogurte, contêm uma boa quantidade de proteínas pré-digeridas.
A quantidade de proteína depende de factores individuais. Assim, uma mulher em gestação ou que amamenta um filho, um menino em fase de crescimento, um atleta ou um trabalhador manual necessitarão de maior quantidade de proteínas do que outros.
Procure variar as fontes proteicas a cada dia. Por exemplo, um dia coma peixe, outro dia uma omeleta, no dia seguinte um assado de carneiro ou frango e, por último, outro dia só feijão com arroz. O feijão contém grande quantidade de proteínas, porém são incompletas, falta-lhes os aminoácidos triptofano e fenilalanina, que podemos encontrar no arroz e falta a este os aminoácido lisina e isoleucina, os quais se encontram em boa quantidade no feijão, de maneira que ao serem consumidos juntos se completam.
Outro ponto relacionado com o consumo de proteínas é a maneira de combiná-las com outros alimentos. O sistema digestivo adopta a sua secreção de acordo com as exigências de cada alimento. Os alimentos feculentos (como a farinha, o seitan) necessitam de uma secreção gástrica diferente dos alimentos proteicos. A pepsina, a enzima que reduz as proteínas nos seus elementos mais simples, necessita de um meio ácido para estar activa. Portanto, uma secreção gástrica ácida (ácido clorídrico) acompanha a ingestão de proteínas. Em troca, a ptialina ou amilase salivar, que se encarrega de decompor os almidones e polisacarídeos em monosacarídeos, necessitam de um meio alcalino. Então, o correcto para o nosso organismo seria consumir as proteínas e os amiláceos em comidas separadas.
Os alimentos intervêm sobre a nossa capacidade de atenção e memória. Existem numerosos estudos que põem em evidência a correlação que existe entre o melhoramento da atenção (e toda o desempenho mental) depois do consumo de proteínas e o surgimento de um estado sonolento após o consumo de glúcideos. O mecanismo biológico é complexo, porém podemos simplificá-lo assim: as proteínas induzem a uma competência entre vários aminoácidos neutros de cadeia larga como a leucina, valina, tirosina, fenilalanina e triptofano, acedendo a moléculas que serão transportadas ao cérebro através da barreira hemato-meníngea. Isto dá como resultado uma redução no fluxo intracerebral de triptofano e, por conseguinte, uma diminuição na síntese de serotonina, o neurotransmissor que regula o sono.
Por outro lado, o consumo de glucídeos activa o sistema monoaminérgico e serotoninérgico através da insulina, a qual permite uma entrada massiva no tecido muscular de certos aminoácidos neutros, porém pouco ou nada de triptofano. Este facto faz com que o triptofano aumente no plasma e passe a barreira encefálica para acrescentar o estado de serotonina de quem é precursor. Então, deveríamos comer proteínas ao pequeno-almoço e ao almoço. Pelo contrário, se comêssemos pão refinado com compotas doces e café teríamos um estímulo energético por algumas horas para em seguida cair num estado de sonolência.
Vegetais crus Pelo menos, 50% da nossa dieta deveria conter saladas de folhas verdes, pimentões, cenouras, etc. Os brócolos assim como a couve-flor e a couve-de-bruxelas só podem ser cozidos ao vapor apenas durante dois minutos, caso contrário, as suas propriedades vitamínicas e os “fitoquímicos” destroem-se parcialmente. A cozedura destrói enzimas, ácidos gordos polinsaturados, uma parte de proteínas e o valor nutricional da maior parte dos alimentos. Por exemplo, a boa quantidade de vitamina E, proteínas e ácidos polinsaturados das oleaginosas, como as amêndoas, avelãs e sésamo, são totalmente destruídas a temperaturas acima dos 90º.
Germinar grãos e sementes (trigo, soja, alfafa) é a melhor forma de potencializar a quantidade das suas vitaminas e minerais, assim como melhorar a qualidade das suas proteínas.
Probióticos A fermentação do ácido láctico através de leveduras, bactérias e outros microrganismos é um procedimento universalmente praticado para conservar naturalmente os alimentos, uma vez que, devido à sua acidez, impede o desenvolvimento de germes de putrefacção. Por outro lado, e talvez o mais importante, os alimentos lactofermentados, como chucrute, picles, miso e outros vegetais fermentados em ácido láctico, sofrem uma transformação no valor dos seus nutrientes. Por exemplo, na soja e noutros grãos sintetizam-se grandes quantidades de vitamina B12 e enzimas que favorecem a sua assimilação.
Outro alimento lacto-fermentado é o iogurte. Aqui as propriedades do leite são melhoradas pois as proteínas são pré-assimiláveis e, por outro lado, o iogurte feito com leite fermentado com lactobacilos acidófilos ou bifidobacterium bifidum tem propriedades terapêuticas e por isso se denomina “probiótico” (pró-vida).
Os lactobacilos acidófilos têm a capacidade de restaurar a saúde e promover o equilíbrio do nosso ecossistema intestinal intoxicado com bactérias de putrefacção e outras patogénicas, resultado da utilização de antibióticos, contraceptivos orais, demasiado uso de açúcar, seguido de consumo excessivo de carnes e lácteos contaminados com resíduos de antibióticos e esteróides. Recentes investigações demonstram que os lactobacilos acidófilos destroem também a E coli, uma das bactérias mais tóxicas do nosso tracto intestinal. Os acidófilos rompem a lactose em ácido láctico e neste meio é impossível a sobrevivência de bactérias que produzem gases e putrefacção.
Por outro lado, os acidófilos têm outro papel importante: o de sintetizar o “complexo B” no nosso sistema. Estimulam o sistema imunitário (desactivam bactérias patogénicas quando estão na presença de ácido fólico e riboflaviba), tratam e previnem a geração e propagação de “cândida albicans” e outras infecções micóticas, em casos de diarreias corrige a proliferação de bactérias gram-negativas, protegem contra infecções urinárias recorrentes, reduzem o risco de cancro do cólon, assim como em casos de asma, problemas hepáticos e má absorção de proteínas.

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quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Nutrição inteligente


Antes do Dia Mundial da Alimentação, este Sábado, lembramos a necessidade de se incluir na dieta nutrientes como as algas ou os óleos vegetais, a pressão a frio e crus, para uma nutrição mais racional.

Texto Alberto Suarez Chang

A levedura de cerveja é uma fonte de proteínas completas. Contém 15 dos 20 aminoácidos de que necessitamos para fabricar todas as proteínas indispensáveis ao bom funcionamento do nosso organismo. Sobretudo indispensável para quem decida ter um regime vegetariano já que pode complementar os aminoácidos carentes na soja e outros grãos. Contém uma boa quantidade de quase todas as vitaminas do complexo B, principalmente thiamina, riboflavina, niacina, ácido pantoténico, piridoxina, biotina e ácido fólico.
Os sintomas da deficiência deste importante complexo incluem fadiga física e mental, perda de apetite, irritabilidade, nervosismo, depressão, problemas de pele, fissura dos lábios, etc. Também contém traço de minerais essenciais como ferro, zinco, selénio e crómio. Principalmente deste último a levedura é uma das suas mais ricas fontes. O crómio é um co-factor essencial para a actividade e eficácia da insulina, portanto fundamental para o metabolismo da glucose.
A insuficiência deste tipo de micro-elemento (que acontece com frequência com o consumo de hidratos de carbono refinados) eleva o nível de açúcar no sangue, produz hipoglicémia, intolerância de glucose nos diabéticos, endurecimento das artérias, aterosclerose e problemas no metabolismo de aminoácidos.
(Micro)algas
As algas - verdes, vermelhas (nori) ou castanhas (laminárias, wakame, kombu, etc.) e praticamente todas as algas comestíveis - contêm uma grande concentração de vitaminas, tais como B1, B2, B3, B12, C e caretenóides. A vitamina B12 ou cyanocobalamina, essencial para o crescimento do tecido nervoso da mielina e para a formação de glóbulos vermelhos, é encontrada pela primeira vez em fontes não animais. Também contêm uma importante quantidade de minerais. Em algumas delas representam entre 10 e 30% do peso da alga seca; de todos eles, talvez o iodo seja o mais importante.
O iodo actua sobre a tiróide para a produção de certas hormonas que asseguram o processo metabólico normal do organismo. Tanto a sua deficiência como o seu excesso podem bloquear o seu bom funcionamento e produzir o bócio, hipertiroidismo ou hipotiroidismo e toda uma série de problemas relacionados com isto. O iodo orgânico das algas é um excelente protector contra substâncias radioactivas como o strontium 90 e o iodo radioactivo 131, posto que bloquearia a sua absorção por competição. De todas estas algas, o kelp, da espécie das laminárias, vem sendo utilizado em terapia nutricional devido à sua grande concentração de outros traços de nutrientes essenciais, como hidratos de carbono, proteínas, vitaminas e minerais (principalmente iodo, magnésio, potássio, cálcio, fósforo, ferro e zinco).
As algas também contêm polisacarídeos como os alginatos que são utilizados eficazmente no tratamento de úlceras e queimaduras. Outro componente, o ácido algínico, é usado em processos de desintoxicação de metais pesados como chumbo, mercúrio e cádmio, assim como protector contra radiações de strontium. Entretanto, descobriu-se um componente polisacarídeo sulfatado, chamado fucoidan, com propriedades antitumorais (responsável pelo baixo risco de cancro no seio no Japão), anticoagulantes e fibrilíticos. Outro composto activo, o sulfato dextran, tem propriedades anti-virais (desactiva o vírus da herpes simples) e anti-microbiano de amplo espectro. E, por último, o cicloendesmol, um composto antifúngico utilizado contra a cândida albicans.
Devemos mencionar aqui três micro-algas realmente importantes por conter uma grande quantidade de substâncias nutricionais e terapêuticas: a chlorella, a spirulina e a alga “azul-verde” (aphanizaomenon flos aquae).
A chlorella pyrenoidosa é uma alga verde unicelular, com um altíssimo conteúdo de clorofila (28,9 g por kg) e vitaminas (C, beta caroteno, B12 e todo o complexo B), minerais (fósforo, magnésio, cálcio, manganês, zinco e cobalto), ácido lipóico, ácidos nucleicos, proteínas completas 60% (todos os aminoácidos em boa proporção à excepção de metionina), enzimas e outras substâncias terapêuticas como o glicolipidio chlorellin, que demonstrou possuir uma actividade antiviral, imunoestimulante e antitumoral pela sua indução à produção de interferon 10 e a activação das células B e T (linfócitos).
A chlorella, graças à clorofila, estimula a formação de eritrócitos no sangue e acelera a produção de fibroblastos, as células responsáveis pela cicatrização de feridas. Os derivados de clorofila inibem as enzimas proteases, responsáveis pela inflamação e outros danos que causa a pancreatite. Também a clorofila tem uma actividade “lipotrópica”, ou seja, estimula a excreção de colesterol. Por último, a chlorella tem uma grande capacidade de desintoxicação de metais pesados, como o cádmio 14, mercúrio, urânio e chumbo. Assim como também remove pesticidas como o polychlorbiphenyl (PCB) e insecticidas como o chlordeconel.
A spirulina máxima é uma micro alga unicelular que pertence ao grupo das cyanophyceae que crescem sobretudo nas superfícies de lagos de água alcalina. Tem uma das percentagens mais altas de proteínas completas (60%), ou seja, possui todos os aminoácidos em proporção correcta. É uma das fontes mais extraordinárias de vitamina B12 (duas vezes mais do que o fígado) e de uma quantidade significativa de outras vitaminas do complexo B, principalmente a thiamina (B1) e riboflavina (B2). Contém também a provitamina A: betacaroteno e outros 16 diferentes tipos de caretenoides. Tem uma boa proporção de ácidos gordos essenciais ou poli-insaturados ómega-3, ómega-6 e gamma linolenic acid (GLA) assim como grandes quantidades de phicocyanins (estimulante do sistema imunitário), glicolipídeos, sulfonolipídeos, rhamnose e muitos minerais tais como magnésio, ferro, potássio, etc. Terapeuticamente utiliza-se em casos de vitaminose, úlceras, hipoglicémia, deficiência do sistema imunitário e prevenção de tumores.
A alga “verde-azul” pertence ao mesmo grupo de micro algas que a spirulina. Crescem na água fresca do lago Klamath, uma remota área ao Sul do Oregon (EUA). Como a spirulina, esta alga contém mais de 60% de proteínas completas, clorofila, betacaroteno, complexo B (sete vezes mais de B12 do que a spirulina) e toda a gama de minerais.
O gérmen de trigo é o embrião do grão, contém todos os recursos vitais que permite que uma nova planta se desenvolva. É rica em vitamina B (B1:1,7mg/100gr; B2: 03mg/100gr, B3, B6: 1mg/100gr, ácido fólico 398mcg/100gr)), vitamina E, aminoácidos como lisina (1,660mg/100gr) metionina, minerais como ferro (9,1mg/g), magnésio (285mg), fósforo (1,044mg) ou zinco (13,2mg) e proteínas (28g/100gr).
O pólen é uma fonte de vitalidade muito rica de vitaminas, ácidos aminados e proteínas pré-assimiladas. Pode-se usar com outros adaptogénicos como regulador energético.
Óleos vegetais
As gorduras, em várias formas, são outro dos factores nutricionais que o nosso organismo necessita para funcionar correctamente. Alguns deles, os ácidos gordos essenciais (ómega-3 e ómega-6) produzem substâncias biológicas de capital importância sem as quais o nosso organismo não funciona. Grosso modo, poderíamos classificar as gorduras em três tipos: saturados, monosaturados e poli-insaturados.
As saturadas encontram-se maioritariamente em produtos animais como a manteiga de porco, derivados lácteos (queijo e manteiga), carne e em menor grau nos vegetais, com a excepção da manteiga de coco. As monosaturadas encontram-se principalmente representadas no azeite de oliveira. O azeite tem que ser extraído a frio, só através de processos mecânicos, e não refinado para ser denominado “virgem”. Só assim podemos aproveitar as suas componentes medicinais, como o ácido oleico, vitamina E, squalene, phytosterols e caretenoides - todos eles protectores de enfermidades cardiovasculares e tumorais. Por último, os poli-insaturados são todos os óleos vegetais (em estado líquido à temperatura ambiente) provenientes do milho, girassol, colza, sésamo, soja e outros.
Os ácidos gordos essenciais pertencem a este tipo de gordura, contudo, nem todos os poli-insaturados são essenciais: alguns óleos vegetais podem sofrer alterações perigosas, sobretudo quando são refinados, processados com calor ou utilizados para frituras. Os ácidos gordos essenciais dividem-se em dois grupos: o ácido linoleico (ómega-6), presentes principalmente nos óleos de girassol, milho e soja, e o ácido alfa linoleico (ómega-3) que se encontra em maior proporção no óleo de linho, e em menor percentagem no óleo de soja, avelãs, nozes e abóbora. Este ácido alfa linoleico converte-se no nosso organismo em ácido eicosapentaenoico (EPA, que se encontra em boa quantidade nos peixes de água fria, salmão, atum, trutas e cavala) e este ácido, por sua vez, converte-se numa importante hormona, a prostaglandina E-3. Muitíssimos estudos hoje em dia demonstram que o consumo destes peixes reduz significativamente o risco de enfermidades cardiovasculares. Por sua vez, este ácido linoleico transforma-se em ácido gama linoleico (desde que não encontre nenhum bloqueio na sua transformação) e este ainda, por sua vez, em “prostaglandina E-1. O ácido gama linoleico encontra-se presente nos óleos extraídos de plantas como borago officinalis e primula veris.
A actividade biológica dos ácidos gordos essenciais é vastíssima, contudo, alguma dela tem de ser mencionada. Eles formam parte da membrana celular, contribuindo para a sua fluidez e transportando oxigénio através das membranas assim como o crescimento e divisão celular; formam parte do tecido nervoso, afectam o desenvolvimento e função cerebral (incrementa a capacidade de aprendizagem), moderam as emoções, aliviam as depressões e equilibram a hiperactividade infantil. As prostaglandinas E-1 e E-3 são anti-inflamatórias, estimulantes do sistema imunitário (infecções) e moderam os problemas auto-imunes (como diabetes ou artrite reumatóide).

Atmosfera relaxada

O ruído ao qual estamos expostos quase todos no quotidiano é um dos factores mais esgotantes e perturbadores do sistema nervoso. No momento de almoçar ou jantar deveríamos apagar a televisão ou o rádio, baixar o volume do telefone (principalmente não atender) e distanciarmo-nos o mais possível de todas as fontes de ruído que ultrapassem os 60 decibéis (um restaurante que dê para a rua passa dos 80 decibéis). Então, devemos procurar o lugar mais tranquilo, harmonioso e confortável para podermos comer.
Por menos ideal ou bonita que possa ser a casa onde vivamos deveríamos sempre tratar de nos rodear de cores agradáveis e da beleza das plantas e flores. Por outro lado, deveríamos evitar comer quando estivéssemos apressados, ansiosos, irritados ou com falta de apetite. Ao comer em tais condições não se mastiga nem se saliva a comida apropriadamente e, por isso, a digestão perturba-se e dá origem a uma série de problemas gástricos, tais como gases, acompanhados de uma sensação de peso e sonolência o resto do dia. E, por último, os pratos têm que ser apresentados esteticamente de forma que sejam apetecíveis aos olhos.
Água pura
Não nos esqueçamos de que somos constituídos por uns 70% deste importantíssimo elemento: algo assim como 40 litros, dos quais 25 litros estão dentro das nossas células e 15 litros fora delas, no fluído extra-celular e no sangue. Esta quantidade deve permanecer aproximadamente constante para não afectar o equilíbrio metabólico. Em condições normais, perdemos no mínimo um litro de água e, dependendo do clima ou do tipo de actividade, como desportos, podemos perder um pouco mais de um litro e meio. Por isso devemos ingerir a cada dia pelo menos um litro e meio. Um défice de oito litros, o que só acontece com mais de seis dias de privação, pode ser fatal.
A composição da água varia de acordo com a fonte de onde provém. Algumas terão um conteúdo rico em magnésio, outras em cálcio, outras terão traços de lítio, etc. Infelizmente, a água encanada que bebemos contém também – assim como o ar e a terra – uma grande quantidade de substâncias tóxicas. Estas provêm em primeiro lugar das infiltrações que sofrem as camadas de água subterrânea, de pesticidas, herbicidas, fertilizantes (nitratos), detergentes, solventes e outros derivados petroquímicos. Em segundo lugar pelo material de canalização temos metais pesados como o chumbo e o cobre. E finalmente pelo tratamento que sofrem as águas potáveis como o sulfato de alumínio e cloro piora a sua toxicidade e muitas pessoas começam a ficar sensíveis a isso.
Para resolver este problema temos três alternativas. A primeira, reabastecer-se numa fonte de água que esteja o mais longe possível de qualquer indústria. Isto é um privilégio para uma grande maioria. A segunda, comprar garrafas de água mineral ou de fontes cuja composição química e bacteriológica estejam na etiqueta. E, por último, utilizar um filtro profissional, como o de “reverse osmosis”, que remove absolutamente todos os pesticidas, cloretos, metais pesados e micróbios. Só que também remove minerais importantes como o magnésio, cálcio e outros, portanto ter-se-ia que tomá-los como suplemento.
A “toxicidade” interna tem como primeira causa a acumulação de tóxicos do meio ambiente no nosso corpo. O ar que respiramos nas grandes cidades contém finas partículas de mil substâncias poluentes, a água da rede contém químicos perigosos.

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quarta-feira, 3 de abril de 2013

Medicina lenta

 

Antes do Dia Mundial da Saúde, seguimos Omraam Aivanhov, que defende a cura de forma orgânica. Um modo mais demorado, seguro e eficaz a longo prazo, de preservar e fortalecer o estado de um ser (humano), garante.
Texto Dina Cristo
É a vida que anima e alimenta o organismo. Ela é essencial. Para que se possa preservá-la há que a conservar na pureza, o que, para o autor, significa consagrá-la a um fim sublime, que transcenda o próprio indivíduo, como a família, a sociedade, a humanidade ou o universo. Uma atitude que equivale a colocar tal capital vital numa espécie de banco superior, que lhe permitirá retirar dividendos, enriquecendo-se, já que novos elementos vêm substituir os que se perdem, e obter, seguramente, juros e recompensas, como o amor, o equilíbrio, a estima, a paz ou o respeito.
A vida, que para Omraam Mikhael Aivanhov, emana e insufla alegria, beleza, conhecimento, glória, poder e riqueza, pode e deve ser, assim, canalizada, dirigida, distribuída e orientada para o Alto, sem a desperdiçar. Para realizar tal trabalho altruísta, melhorando essa quinta-essência que vem das regiões sublimes e ser um canal de vida abundante o primeiro passo é levar uma existência equilibrada, moderada, ordenada, prudente, sensata e de respeito pelas leis universais, um modo de vida (mais) lento, um estado e atitude interior de consciência.
Omraam Aivanhov destaca a importância de se restabelecer a harmonia primordial, em si próprio e à sua volta: a melhor terapia é pensar, sentir e agir em harmonia com as forças luminosas, entrar em comunicação e sintonizar-se com elas, estar em consonância com a vida, sincronizar-se com o cosmos, vibrar em uníssono com a criação. Tal estado de equilíbrio será propagado às células, pelo que a filosofia e modo de vida é o primeiro passo para uma existência sã, ensina o autor.
Alimento geral
Dormir e comer o suficiente são preliminares indispensáveis à boa saúde, preconizados por uma medicina lenta, para a qual uma nutrição demorada é essencial à boa assimilação da energia dos alimentos. Omraam recomenda que não se sacie completamente e se mastigue durante vários minutos os alimentos na boca para que o seu lado mais vivo e subtil possa ser melhor aproveitado sem que haja demasiado gasto de energia ou criação de resíduos.
Também os exercícios respiratórios, ao regular e ritmar a inspiração, retenção e expiração (respectivamente de quatro, dezasseis e oito tempos) de preferência em jejum, devem ser profundos para ajudar a substituir o ar viciado por ar puro e, assim, renovar as energias. Para Omraam, “Respirar profundamente é um poderoso remédio preventivo e curativo”[1]. A circulação do ar purificado ao longo dos nervos (que alimentam os órgãos e passam pela coluna vertebral, que se deve manter ereta) melhora o auto-domínio, a circulação, a vitalidade, ilumina o intelecto (pensamentos tornam-se mais claros), aquece o coração (sentimentos ficam mais calmos) e fortalece a vontade.
A necessidade de alimento e de trocas, a base da vida, é sentida não apenas a nível físico, com a terra, e mental, com o ar, mas também na região emocional, com a água, e anímica, com a luz, cuja inspiração, ao nascer do sol, e projecção para o mundo era, bem como o meio para se libertar das forças saturadas e distribuir as energias renovadas - o relaxamento - recomendada. Omraam aconselha também a, pelo menos, durante um minuto, várias vezes por dia, parar, fechar as “torneiras” de água (emocional) e do gás (mental), para que a energia não se esgote, e descansar, descontrair, de forma elevada e atenta.
Após a renovação da energia e o restabelecimento da força será possível, então, dedicar-se ao trabalho, com amor e contentamento - duas condições fundamentais à manutenção e melhoramento do estado de saúde. Só a seguir vem a indicação de métodos (mais) naturais, como a aromoterapia, fitoterapia, magnetismo, quiroprática, talassoterapia ou terapia do sol que, como o jejum (cuja época mais propícia é a Quaresma), ajudam o organismo, ao despertar poderes adormecidos, a defender-se, a neutralizar, a resistir aos agentes da doença e a reforçar-se naturalmente sem as “muitas anomalias [que] têm a sua origem no abuso dos produtos farmacêuticos”[2].

[1] AIVANHOV, Omraam – Harmonia e saúde, Edições Prosveta, Colecção Izvor, nº225, pág.128. [2] Idem, pág.78.

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quarta-feira, 20 de março de 2013

Recurso vital


Neste que é o Ano Internacional da Cooperação pela Água, e antes do seu Dia Mundial, reflectimos sobre o que nos espelha.
Texto Dina Cristo
Cai do céu e gosta de penetrar profundamente na terra, onde descansa. Depois de repousar, brota como nascente. Corre lentamente pelo leito dos rios, nutrindo as suas margens. Vitalizada, desagua no mar. Eis o grande ciclo, em equilíbrio, sem falta ou excesso de água.
Contudo, hoje, com a deflorestação, sem húmus suficiente, ela desperdiça-se apressadamente pelos vales abaixo. Enquanto deixa o solo seco inunda as margens dos rios, levando consigo detritos e causando destruição. Crescem os riscos de incêndio, aumenta a poluição e o nível do mar. As fontes secam, os caudais diminuem, as reservas escasseiam. Existe cada vez menos água potável e com menor qualidade.

O consumo, esse, aumenta. Durante o séc.XX o uso de água cresceu nove vezes, segundo Janez Potocnik, Comissário Europeu do Ambiente. Quando mais de um bilião de pessoas não possuem abastecimento de água, e Moçambique consome quatro litros diários, no território português, apesar de um Programa Nacional para o seu uso eficiente, utiliza-se cerca de 175 litros por dia, 70% dos quais em autoclismos e em duches.
Em Portugal existe uma legislação quase centenária e uma Lei da Água desde 2005, um Plano Nacional, do qual decorre o Plano de Gestão das Regiões Hidrográficas, além de um Plano Estratégico para o Abastecimento de Água e Saneamento de Águas Residuais (PEAASAR), uma Estratégia Nacional para os Efluentes Agro-Pecuários e Agro-industriais (ENEAPAI), uma Entidade Reguladora e, entre outros organismos, um Instituto da Água, agora integrado na Agência Portuguesa do Ambiente.
Contudo, falta uma gestão articulada e integrada, disse Carmona Rodrigues, em entrevista à “QuercusAmbiente”(1), referindo que um terço da água tem má ou muito má qualidade, que a factura do consumidor se mantém demasiado elevada e que do Plano de Barragens, lançado à margem do Plano Nacional de Água, não constava o do Baixo Sabor, além de não ter sido sujeito ao parecer prévio do Conselho Nacional da Água.

Reequilíbrio
Em Tamera, desde 2007 que Bernd Walter Mueller vem pesquisando e implementando uma paisagem de retenção de água e o grande ciclo. Lagos, com barragens naturais, permitem aproveitar a água da chuva que, de forma lenta e profunda, é absorvida pelos solos. Os lençóis freáticos recuperam-se, a paisagem regenera-se e, além dos três lagos existentes e cerca de uma centena de pássaros, há já uma nascente.
Eis o resultado da cooperação com o espírito da água, de natureza feminina e que gosta de repousar como de se movimentar livremente, em S: «Como qualquer ser vivo, a água precisa de ser livre para se mover de acordo com o seu Ser. A água gosta de se mover sinuosamente, de se enrolar e de descrever curvas e espirais. Desta forma, ela mantém a sua frescura e vitalidade. Através destes movimentos, purifica-se a si própria ao mesmo tempo que abranda o seu ritmo e se infiltra no corpo terrestre» (2), explica Bernd Walter Mueller.

O segredo está em compreende-la, respeitá-la e estimá-la; conhecer a sua essência, por dentro, e não apenas medi-la por fora. Trabalhar com ela, em harmonia, e não contra ela, em concorrência, exploração ou abusos, permite obter nutrição e energia suficiente, reverter o deserto em paraíso, sonhar com mil lagos para o Alentejo e visionar a região como um modelo para o mundo, com direito a acesso livre a água potável de boa qualidade.
Universalmente conhecida como origem da vida, de purificação e de regeneração (a sua capacidade de Memória, ligada à Imortalidade) será, assim - despoluída, cuidada e protegida - capaz de devolver aos seres (humanos) as bênçãos da Graça, da cura e do rejuvenescimento(3). Fonte altamente informativa, capaz de receber e distribuir pela terra inteira informações vitais, restruturando-a, e veículo de comunicação entre todos os seres, ela é hoje também foco de olhares mais (híper)sensíveis e atentos que experienciam outros modos mais energéticos de a purificar, como o pensamento ou a aurosoma.

Matriz
Matéria-prima original, Prakriti, a Mãe do Universo, ligada à Mulher, à Alma, como à Luz, à Águia e a Gabriel, excelente condutora (de Electricidade, Sabedoria, Verbo e Sentimento), é também, segundo Maria Flávia de Monsaraz, filtrada pela Lua.
Manifesta-se como fonte, lago, rio, ribeira, mar, gelo, chuva ou vapor. Pode ser doce (pura) ou salgada (amarga), destilada ou mineralizada, pluvial ou subterrânea, ácida ou alcalina, corrente ou pantanosa, benta e abençoada, termal ou residual, pode estar calma ou raivosa, viva ou adormecida, livre ou engarrafada, limpa ou poluída, em cisternas ou fontanários, aquedutes, açudes ou albufeiras (hoje transformados em praias fluviais).
Depois da herança romana, com os seus balneários termais, e, séculos mais tarde, das termas, com as suas águas caldas, minerais e curativas, um pouco por todo o país e para as mais variadas doenças, ela é hoje não só considerada um elemento vital para a saúde como também para a beleza e bem-estar, como mostram, por exemplo, os SPA, saúde pela água, e a talossoterapia.
Água presa
A água salgada é um importante recurso terapêutico mas quando, devido à secura dos solos, neles se infiltra torna-os inférteis - um perigo sempre que os aquíferos subterrâneos naturais se começam a esgotar. Neste momento, o recurso a barragens ou mesmo mini-hídricas não é, para a Quercus, a solução. As grandes (mais de cem) ou pequenas e médias (cerca de 800) infra-estruturas ocupam 90% dos troços dos rios (4) e afectam a sua conectividade, qualidade, quantidade e morfologia de água, além de, entre outros danos, a livre e efectiva passagem de peixes.
Em vez disso, a Associação Nacional de Conservação da Natureza, que aponta deficiências ao nível da aplicação, fiscalização e gestão das entidades responsáveis e documentação produzida, propõe a poupança do recurso hídrico e a micro-geração como moinhos de água, preservando em vez de destruir o património, como no caso de Alqueva onde «Pastagens, montados, olivais foram engolidos, centenários moinhos do Guadiana e um castelo ficaram cobertos pela água, estradas foram cortadas, conduzindo a lado nenhum, e uma povoação desapareceu para sempre» (5).

«O Programa Nacional de Barragens, onde a Barragem do Foz Tua se destaca como um dos casos mais deploráveis, deve ser cancelado. As nove grandes barragens aprovadas permitiriam satisfazer apenas 3% das necessidades anuais de electricidade em Portugal. Apostar em medidas de eficiência energética é dez vezes mais barato do que aumentar a capacidade instalada de produção de electricidade», escreviam há um ano, a Quercus, o GEOTA, Grupo de Estudos de Ordenamento do Território e Ambiente, e o CEAI, Centro de Estudos da Avifauna Ibérica (6).

Aguados

Quase a finalizar a Década Internacional de Accção da Água para a Vida, estamos perante um confronto, como na Bolívia, entre os que lutam pelo seu controlo, domínio, privatização e em que a escassez de H2O se transforma em poder e lucro, e os que defendem o seu livre acesso, como um direito fundamental, a um bem indispensável à prossecução da vida e nela vêem a sacralidade, abundância, fertilidade e pacifismo. Em Portugal, Carmona Rodrigues, em entrevista a Carla Graça, afirmou que a privatização das "Águas de Portugal" deveria ser (re)equacionada pois o mais importante é a capacidade reguladora do Estado. O tema é objecto de atenção mediática internacional.
Os humanos, que são seres de água, constituídos essencialmente por ela, em especial o seu cérebro, dela dependem para sobreviver. Este elemento que não se fabrica, está na base do ecossistema, que provê a própria economia, hoje tão desejada. Constituída por elementais, como as ondinas, associada à terra, também ela elemento receptivo, omnipresença constante, em cada ser e objecto, interna e externamente, para tudo é necessária.
Contudo, aos olhos técnicos a água não passa de uma fórmula a controlar, manipular e explorar. O afastamento da Natureza levou a medi-la, a planifica-la estratégica e friamente. E desconhecendo-a, a Humanidade desrespeitou-a. Invadiu o seu próprio espaço, poluindo-a, abusando e desperdiçando-a. A água cai graciosamente e os humanos, além de não a aproveitarem, muitas vezes maldizem-na, quando chove na cidade, mesmo após anos de seca severa.
Cantada, em Portugal e no mundo, ela é hoje peça de Museu, uma prenda acessível, motivo de pesquisa, de invocação e também de atenção em fóruns de discussão real e internacional. Faz parte da pegada ecológica de cada ser humano que a requer pura para primeiro lavar e depois levar as suas máculas. Depois de tão ignorada, mal tratada e poluída, é da sua própria reabilitação que está dependente o futuro e regeneração da própria Humanidade.
(1) GRAÇA, Carla - Recursos hídricos em Portugal in QuercusAmbiente, Janeiro/Fevereiro, 2013, pág.4-5. (2) MUELLER, Bernd Walter - o segredo da água - a base para um novo mundo. Institute for Global Peace Work, pág.6. (3) CHEVALIER, Jean; GHEERBRANT, Alain - Dicionário dos símbolos, Teorema, 1994, pág.41-46. (4) «Não nos sobram muitos rios num território já cortado em fatias por dezenas de auto-estradas», afirmavam Mara Sé, Bruno Caracol e Marcos Pais, na QuercusAmbiente, Maio/Junho 2012, nº52, pág.26. (5) JORGE, José Luís – Alqueva – paisagem de água. Tempo Livre, Setembro 2012, pág.28. (6) Quercus, GEOTA, CEAI – Plano Nacional de Barragens in QuercusAmbiente, Janeiro/Fevereiro 2012, pág.20.

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quarta-feira, 16 de março de 2011

Défice florestal

No Ano Internacional das Florestas e antes do Dia da Árvore, transcrevemos parte de um capítulo do livro “Aqui e Agora”*, esgotado, de Carlos Cardoso Aveline, autor e editor de livros e, hoje, websites sobre temas filosóficos e tesóficos**. Denominado "O dióxido de carbono" o texto explica como o nível de desmatamento leva à destruição do equilíbrio ambiental. Estávamos, então, em 1985.

Texto Carlos Cardoso Aveline fotografia Dina Cristo


«(...) Paralelamente ao problema da fome, Jimmy Carter fez uma séria tentativa de enfrentar a crise ecológica. Logo em 1977 pediu ao Congresso um “Informe Global sobre o Ano 2000”.
“Problemas ambientais”, afirmou ele na década, “não obedecem a fronteiras nacionais. Na década passada, nós e as outras nações tivemos que reconhecer a urgência de esforços internacionais para proteger o meio ambiente comum a todos nós”.
Quando o Informe ficou pronto, entre as suas conclusões, podiam ler-se duas especialmente graves:
- As grandes florestas estão desaparecendo no mundo todo à proporção de 18 a 20 milhões de hectares por ano, com a maior parte da perda ocorrendo na América Latina, África e Ásia. São 830 hectares por minuto e 50 mil hectares por dia de matas derrubadas.
- As concentrações atmosféricas de dióxido de carbono e substâncias químicas que eliminam o ozónio chegarão a um volume que pode alterar significativamente o clima do mundo e a temperatura atmosférica até ao ano 2050. A chuva ácida ameaça os lagos, os solos e as lavouras.
O Informe 2000 dizia, ainda, que “como o clima tem um profundo efeito sobre nossas vidas e nossa economia, não podemos ignorar estes problemas que fazem incerto o nosso futuro”. Mas foi exactamente isso que aconteceu. Jimmy Carter foi considerado um “fraco”, dentro da política norte-americana. A direita reaganiana conquistou a gerência da máquina do grande império. No resto do mundo, nenhuma outra potência quis ou pôde dar real importância ao assunto. O meio ambiente é de todos. O que é de todos não é de ninguém”.
Como consequência, a devastação – que é um bom negócio a curto prazo – prosseguiu como se não houvesse perigo. Um dos fenómenos que se alastraram foi o incêndio das florestas. As causas não são simples. Uma delas é que o solo do planeta está esgotado e fraco por falta de elementos minerais. A desmineralização, mais o excesso de dióxido de carbono (CO2) acaba enfraquecendo as árvores. Elas vão secando e ficam vulneráveis ao fogo. Uma faísca incendeia uma floresta, e o fogo se alastra, lançando mais dióxido de carbono no ar, o que aumentará o ritmo dos incêndios.(1)
A Austrália sofreu em 1980 o pior incêndio desde a Segunda Guerra, com a destruição de 40 mil hectares de florestas. Na Espanha, um incêndio de Barcelona a Alicante. Na mesma época doze mil acres ardendo no Arizona, e dez mil destruídos no Colorado, USA. John Hamaker cita dezenas de exemplos documentados no seu livro “A Sobrevivência da Civilização” (pág.90-91). Na Grécia, 90 mil soldados são mobilizados para o combate a um incêndio em centenas de milhares de acres de florestas. A notícia está no “San Francisco Examiner”, de 6/7/1981.
As advertências do Informe 2000, aparentemente, estavam esquecidas. Ninguém pensou no significado desta onda de incêndios. Quem gostaria de parar as fábricas e deixar de lado a sociedade industrial consumista para construir um modo de vida mais simples e mais durável? Mais fácil continuar como está para ver como fica. Eram todos individualmente demasiado vivos para que pudessem ser colectivamente inteligentes.
Em Novembro de 1982 a revista Time dedicou uma reportagem de capa ao problema da chuva ácida, “a praga silenciosa”. A devastação “é silenciosa, invisível, penetrante”, dizia o semanário norte-americano, no primeiro parágrafo da reportagem. Mas devia ter dito, em vez de silenciosa, silenciada. Silenciada pelos mesmos grandes grupos industriais que lançavam elementos tóxicos na atmosfera, causando a chuva ácida. Há mais de 200 lagos perto de Nova Iorque já sem qualquer forma de vida em si, dizia a Time. A opinião pública se mobilizava. Numa visita ao Canadá, Reagan foi recebido com vaias e protestos, devido à chuva ácida oriunda dos Estados Unidos que causava danos aos canadenses. Mas os protestos não foram levados em conta.
Em Fevereiro de 1984, um expert da ONU informou: “Os desertos estão avançando, a cobertura verde do planeta está desaparecendo, e no ano 2000 a terça parte das terras até aqui agricultáveis estarão reduzidas a pó e a deserto”.(2) Meses depois, um filme da BBC de Londres choca a Europa. Milhões de pessoas esperam a morte por fome no norte da África. Seus países viraram desertos. Ninguém é responsável pelo fato. A ajuda internacional é insignificante.

Um banho de ácido sulfúrico.

A expressão “chuva ácida” foi criada em 1872 pelo químico inglês Robert Angus Smith para descrever as precipitações cada vez mais ácidas em Manchester, um dos centros da revolução industrial da época.
O processo químico é simples. Quando combustíveis fósseis como carvão e petróleo são queimados, libertam grandes quantidades de dióxido de enxofre (SO2) e óxidos de nitrogénio. Uma vez na atmosfera, estes gases reactivos se combinam com a água e o oxigénio para formar os ácidos sulfúrico e nítrico, que caem sobre a terra, rios e lagos, como chuva ácida. É certo que estes ácidos podem também cair na sua forma gasosa original, - ou ainda como partículas muito finas. Os cientistas chamam o fenómeno em suas várias formas de “deposição ácida”. Mas a palavra chuva é mais expressiva e ficou conhecida popularmente.(3)
Em 1980, as emissões de dióxido de enxofre chegaram a 24,1 milhões de toneladas, só nos Estados Unidos. Dois terços vinham de centrais eléctricas e 22% de indústrias. As fusões de metais também emitem muito SO2.
Depois que a chuva ácida se mistura ao húmus no solo dos bosques, a morte das árvores é uma questão de tempo. A árvore retira sua nutrição básica de elementos como cálcio, magnésio e potássio, presentes entre os minerais do solo. A deposição ácida acrescenta ao solo íons de hidrogénio (ávidos de combinações) que retiram estes nutrientes.
O cálcio, por exemplo, é essencial para a vitalidade das árvores. Tem a ver com a formação das células e o transporte dos açucares, da água e de outros nutrientes – desde a raiz até as folhas.
Magnésio é um elemento vital na fotossíntese e um portador de fósforo para a produção do DNA, principal componente do material genético. Não é só decisivo na constituição das sementes, mas também na reprodução das células que ocorre continuamente em todo organismo vivo.
Esta retirada de elementos vitais ocorre ao mesmo tempo em que se acentua no solo e na atmosfera a presença de metais pesados como chumbo, zinco, cobre, cádmio, cromo, manganês e vanádio, todos, quando em excesso, adversários da vida.
O efeito da chuva ácida não é apenas devastar florestas e despovoar lagos. Ela afecta a saúde humana, através do ar e dos alimentos. Amostras dos cientistas norte-americanos indicam que a água, particularmente, está demasiado ácida.
“As florestas estão morrendo na Suíça”, dizia a Agência Associated Press num telegrama de Genebra em Abril de 1984. Dados oficiais mostravam que uma de cada cinco árvores da área florestal suíça estava doente devido à poluição. “As florestas estão morrendo devido ao ácido nítrico lançado pelos carros, tóxicos lançados pelas fábricas, e à conhecida chuva ácida”, diziam os jornais.
“As árvores mortas, morrendo, ou muito doentes se multiplicam na Europa e nos Estados Unidos devido à chuva ácida” diz o Instituto World watch. No leste norte-americano, a morte das florestas é uma das questões que mais preocupam a opinião pública. O governo da Alemanha Ocidental revelou que um terço das florestas do país está em sério perigo. Entre as mais atacadas está a área da famosa Floresta Negra. Na Tcheco-Eslováquia, 485 mil hectares de floresta estão doentes. Na Polônia, estima-se que até 1990 tenham desaparecido 2,83 milhões de hectares de florestas atualmente enfermas”.(4)
Na Europa, 56% a emanação de CO2, dióxido de carbono, vêm de centrais elétricas e térmicas movidas a carvão. Vinte e seis por cento são lançados por indústrias de produção, 13% por estufas e calefações privadas, 3% por ônibus e automóveis. O jornalista Joelmir Beting escreve sobre o problema:
“Na Tchecoslováquia, um programa de reflorestamento deu com as mudas no nada: as árvores negaram viço. Ou se vingaram, porque, como se descobre agora, a natureza não se defende, apenas se vinga…”
“Que tal uma chuvinha fina de ácido sulfúrico? Não é o caso de Los Angeles, mas é o caso de São Paulo: alto teor de enxofre no óleo diesel verde-amarelo provoca alterações químicas na massa poluente dos ônibus e caminhões, do que resulta, ao cair da primeira garoa, um banho de ácido sulfúrico na vida da gente?” (5)
Em 23 de Junho de 1985, a repórter Ivone Cassol pergunta na Zero Hora, de Porto Alegre: “Será chuva ácida?” Acontece que, em Canoas, as folhas das árvores estão pretas, e as abelhas não produzem mel. Há muito tempo os pássaros desapareceram dos céus da cidade. Ao invés deles, o que paira no ar são minúsculas e invisíveis partículas que lentamente se depositam principalmente sobre as árvores. “Canoas quer saber exatamente o que está respirando”, diz o jornal.

O Desmatamento.

Numa reunião do Banco Mundial nos Estados Unidos, em Setembro de 1984, o fundador da Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural, Agapan, José Lutzenberger, denunciou que são destruídos na Amazônia 100 mil quilómetros quadrados de mata virgem por ano – uma área igual à metade do Rio Grande do Sul. Até 1988, Lutzenberger prevê que as florestas de Rondônia terão desaparecido. “É uma destruição irreversível”, diz ele. Enquanto isso, os incêndios são frequentes. Um deles destruiu 10 quilômetros quadrados de reserva florestal no Parque Nacional de Itatiaia, estado de São Paulo.
Igualmente importante é a devastação da Mata Atlântica. Da exuberante mata que cobria a faixa litorânea, ocupando 2 milhões de quilómetros quadrados quando aqui chegou Pero Vaz de Caminha, restam apenas cerca de três por cento. O que avança hoje não são as matas, mas o território das secas e enchentes sucessivas. E a devastação por parte do homem continua numa proporção de 300 mil hectares por ano. O diretor do Centro de Primatologia do Rio de Janeiro, Adelmar Coimbra, acrescenta a estes dados que a ilusão de usar a terra desmatada para a agricultura ou pecuária não dura mais que três anos. Quando se devasta a mata, nem a cinza das queimadas fica no solo desprotegido. A chuva a leva para os rios e a natureza fica sem o húmus que levou milhões de anos para produzir.
Isto constitui um suicídio ecológico. “Primeiro morrem as árvores, depois morremos nós”, advertiam os ecologistas anos atrás. As florestas tropicais da América do Sul estão desaparecendo ao ritmo de 40 mil quilómetros quadrados por ano, diz o relatório do Congresso para a Conservação da Natureza, em Madri. O dado é mais otimista que a cifra de Lutzenberger (100 mil quilómetros quadrados só na Amazônia), e mostra as dificuldades para fazer um cálculo exato. “As florestas tropicais ocupam 35% do território sul-americano e têm função determinante no clima mundial”, informa o congresso madrilenho. (6)
Há vários anos Lutzenberger vem atribuindo a sequência de enchentes que atinge o Sul e outras regiões do país à devastação das florestas. Lutzenberger não está só.
[Nota de 2011: Mais adiante, José Lutzenberger passou a trabalhar para os poluidores do meio ambiente, chegando ao ponto de entrar em choque frontal com os defensores da natureza]
“As repetidas enchentes no Sul têm como uma das suas causas principais o desmatamento, e o Governo Federal é responsável por isso, pois não estimula a preservação das matas, nem o reflorestamento”, disseram os líderes da Igreja Evangélica Luterana (IECLB), da Igreja Episcopal e da Igreja Metodista, em Porto Alegre, em Agosto de 1984. A notícia está na Zero Hora do dia 18. Os religiosos citaram dados concretos: há 150 anos atrás, havia 37% de matas nativas no território gaúcho. Hoje as matas são 1,8%. O número vale como alerta para o que está acontecendo no resto do país.
Apesar de já desmatado, o Rio Grande ainda continua perdendo 45 mil hectares de matas por ano, enquanto são replantados apenas 12.700 hectares. Em 1984 esperava-se que mediante um esforço especial fossem replantados cerca de 40 mil hectares, reduzindo o deficit anual para cinco mil hectares. No entanto, o Rio Grande do Sul, apesar de tudo, é um dos estados onde a consciência ecológica é mais forte. No resto do país o desmatamento está ocorrendo em maior velocidade.

Reverter a Contaminação

Paralelamente ao agravamento dos problemas ecológicos, surgem as primeiras respostas. Nem todo o mundo está paralisado diante do problema.
Os suecos conseguiram diminuir consideravelmente a poluição no ar e na água. Descobriram que a contaminação causava prejuízo de 5,5% do PIB. Com um terço destes recursos, reduziram em muito o envenenamento, com filtros e outras precauções. Já na Suíça, novas leis limitam o uso de carros e outras atividades poluidoras. Os suíços redescobriram recentemente os passeios a pé pelas montanhas. Organizam caminhadas individuais ou em grupos, longe dos ruídos das cidades. As rotas organizadas do excursionismo têm cerca de 50 mil quilómetros. (7) O novo hábito traduz uma volta à simplicidade que se encontra em todas as partes, sob mil diferentes formas.
Na Alemanha, o governo adota um programa radical de redução de gases sulfurosos da indústria, que serão reduzidos a 10% do volume anterior. Há um projeto parecido em relação às térmicas de carvão.
Na Austrália, anos atrás, jovens ecologistas passaram a fazer grandes mutirões de reflorestamento aos domingos. Quem conta é a ecologista Betsan Coats, de passagem pelo Brasil em 1984 para dar palestras sobre a desregulação climática como resultado do excesso de CO2.
Nos Estados Unidos há um movimento com o objectivo de criar “florestas urbanas”, e um milhão de árvores foram plantadas a partir de 1980 na cidade de Los Angeles. Este dado foi fornecido por dona Wanda Seibt, da Associação Democrática Feminina Gaúcha, ADFG, uma das principais entidades ecológicas do país.
O Departamento de Recursos Renováveis, da Secretaria da Agricultura do Estado gaúcho, criou em 1984 uma Bolsa de Sementes florestais que tem despertado enorme interesse por parte da população. Em poucos meses, centenas de pessoas haviam trocado ou ganhado mudas e sementes de árvores nativas e exóticas para plantar em grandes ou pequenas áreas e mesmo em seus quintais.
Entre as espécies preferidas estão araçá, butiá, gerivá, figueira e capororoca. O engenheiro agrónomo José Carlos Dias explicou que em 1985 a Secretaria da Agricultura mantinha convénio com mais de 80 municípios gaúchos, dando assistência técnica e treinando pessoal, para programas de reflorestamento surgidos nos últimos anos. Cerca de 500 milhões de mudas foram produzidas deste modo.
A EMATER, empresa de extensão rural, a Fundação Zoobotânica e a Prefeitura de Porto Alegre lançaram uma campanha para reflorestar a cidade (Zero Hora, 12 de Junho de 1985), com venda de mudas nativas a preço de custo e total assistência técnica aos plantadores.
O reflorestamento está sendo feito por escolas, pais e mães de família, crianças, prefeituras municipais, delegacias de educação do interior do Estado e amantes da natureza em geral. Sua importância não é apenas numérica. Está também no novo padrão cultural de relacionamento com a natureza que ele tende a estabelecer e que em breve se estenderá a toda a sociedade, impedindo a devastação.
O ritmo com que o governo federal toma medidas preservacionistas tem sido muitas vezes inferior ao que seria necessário para efetivamente garantir algum equilíbrio ambiental. Será preciso uma transformação radical na atitude frente ao problema durante o governo da Nova República. Esta transformação não pode ocorrer por decreto. Terá que dar-se simultaneamente em todos os níveis, e será consequência de uma nova maneira de ver (e de viver) a natureza».

* AVELINE, Carlos - Aqui e Agora - Para Viver até ao Século XXI. Editora Sinodal. Brasil. 1985. O capítulo, cinco, começa na página 51 e a transcrição na página 53. Ambos terminam na pág. 61.
** Atualmente Carlos Cardoso Aveline é o editor geral dos websites http://www.filosofiaesoterica.com/, http://www.teosofiaoriginal.com/, http://www.esoteric-philosophy.com/ e http://www.theosophyonline.com/.
(1) John Hamaker, "The Survival of Civillization", Hamaker-Weaver Publishers, Michingan, USA, 1982. "Solar Age or Ice Age?" bulletin, December 1983, 88 p.; "Solar Age or Ice Age?" bulletin, August 1984, 120 p., Revista "Time", 8/11/1982. (2) "Indian Express", India, 20/2/1984. (3) Science Digest, revista de Nova Iorque, USA, September 1984, vol.92, nº9, p.39 to 49. (4) Dados do Instituto Worldwatch, citados no jornal Zero Hora, de Porto alegre, dia 2/4/1984. Ver também Zero Hora, 6/5/1984. (5) Zero Hora, 5/5/1984. (6) Incêndio no Itatiaia: Zero Hora, 14/8/1984, Lutzenberger; Zero Hora 25/9/1984 e Zero Hora 3/6/1984. Mata atlântica; revista "Interior", do Ministério do Interior, Brasília, maio/junho/1984, p.31 a 47. florestas sul-americanas; Zero Hora, 8/11/1984. (7) "Jornal do País", Rio, 7 a 13/fevereiro/1985.

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terça-feira, 25 de janeiro de 2011

A Ciência da Polis VIII


Nesta oitava parte desenvolvemos a importância da verdadeira educação, em detrimento do mero adestramento.

Texto José Luís Maio fotografia Dina Cristo


“…A educação não pode continuar a ser entendida em termos de uma correria desenfreada para alcançar um emprego, como se (usando propositadamente uma rudeza de expressão) os seres humanos fossem animais de carga que se devam atrelar a uma carroça, ainda que dourada, tão logo seja possível. Deve, sim, começar a ser encarada como um processo de emersão de valores sólidos e de capacidades intelectuais e afectivas que permitam a cada indivíduo tornar-se mestre (ou seja, conquistar a capacidade de lidar correctamente) face às diferentes circunstâncias que a vida lhe irá apresentando… A máxima pluralidade de informação possível – sobre os mais diversos âmbitos da actividade e do conhecimento humanos e não, apenas, sobre o âmbito restrito de uma profissão, quase sempre aleatória ou superficialmente escolhida – deve ser propiciada a todos; pelo contrário, o mínimo de imposição deve ser praticado. Não tendes o direito de impor uma educação de escravos. Tendes, sim, o dever de assegurar uma educação de liberdade – de liberdade interior, de liberdade de autoconstrução, de liberdade de autodescoberta… A Nova Educação constituirá, em grande medida, o processo pelo qual se concede a cada indivíduo a oportunidade de descobrir por si mesmo – e, assim, enraizar profundamente – os princípios éticos que haverão de nortear a sua conduta social. Agindo de acordo com a sua própria convicção, com o seu livre auto-condicionamento, todo o indivíduo tenderá a encontrar a alegria ao contribuir para o bem comum…”(1).
Já foi dito algo acerca das naturezas essenciais dos animais e dos homens. O que é partilhado pelos elementos de ambos os reinos da natureza é “a mesma natureza física fundamental, bem como muitos instintos (que formam o seu subconsciente)”. Porém, o ser humano é “auto-consciente, o que decorre de ter o Princípio Mental activado (embora muito pouco, nas primeiras etapas) e, assim, um corpo mental definidamente constituído e formalmente organizado, o que lhe permite ter uma ligação individualizada entre o Espírito (que é pura unidade) e as formas materiais (diferenciadas e separadas) e, assim ter uma Alma individual, enquanto que a evolução animal se processa através das chamadas Almas-Grupo (ou melhor, das Almas colectivas, visto que se trata de uma consciência colectiva e não de uma consciência grupal, no seu sentido superior, própria da evolução super-humana”(2).
Para um melhor esclarecimento acerca do conceito “Alma-Grupo”, acrescenta-se, da mesma obra: “A Alma-Grupo de cada espécie animal preside aos seus mecanismos e determina a actuação do instinto. Como que pairando sobre cada unidade de vida, a Alma Grupal (ou Alma Colectiva) providencia os impulsos migratórios, os mecanismos de defesa, a aprendizagem da adaptação ao meio natural, a colaboração organicista (por exemplo, nas colmeias das abelhas), etc… Imagine-se os dedos de uma mão que, em simultâneo, estivessem enfiados numa placa de cartão perfurado (que impede de ver a mão como um todo). Aparentemente, no lado mais externo, eles não teriam nenhuma especial relação entre si; apesar de pertencentes a uma mesma espécie, aparentariam diferenças e seriam absolutamente independentes. Na realidade, porém, a sua verdadeira raiz e impulsos para a manifestação subjazeriam, ocultamente, do outro lado do cartão. De qualquer modo, nesse mundo aparente e dissociado da raiz que os une, cada informação é processada e transmitida para o outro lado – uma picada, por exemplo, ou qualquer outra sensação táctil. E a todo o momento o conjunto beneficia-se das informações colectadas e reencaminhadas para cada unidade. Assim acontece com a Alma Colectiva animal. A Alma Grupal pode ser comparada a uma enorme tina de água incolor (no Mundo Anímico), de que se retiram pequenas porções individuais que vêm procurar experiência no mundo externo (os animais englobados na Alma-Grupo); quando cada porção regressa ao manancial colectivo, vai-lhe introduzindo cor e substância, para ele contribuindo com a sua própria tonalidade e com os seus próprios ingredientes, conseguidos através da experiência particularizada. Da progressão dessas simbioses e combinações vão sempre surgindo (vindo à encarnação) seres detentores do produto das novas ou últimas experiências adquiridas”.
A entidade humana – por possuir “auto-consciência” e “individualidade” (única e intransmissível em relação aos demais seres humanos), isto é, por pertencer de facto ao primeiro reino da natureza em que a “unidade mental” que o completa adquire foros de “cidadania” real e plena (e só assim é que pode ser responsabilizado pelos seus próprios actos, sentimentos e pensamentos, o que não sucede nos animais) – distingue-se do ente animal e não pode ser sujeita ao adestramento que os humanos realizam neste. No animal, através da domesticação, são fortemente estimulados o veículo “kámico” (ou emocional) – por natureza inconsciente das consequências da sua acção no mundo que o envolve – e a rudimentar inteligência, subjacente a todas as manifestações de vida sub-humanas.
O total condicionamento [externo (e não auto-condicionamento, que é interno e uma expressão da vontade superior, espiritual, do ser humano – atman)] a que submetemos os animais só é “bem sucedido” porque, nestes, a inteligência (capacidade de resposta) é exclusivamente passiva e reactiva, e não activa e criadora, atributos da alma espiritual existente no indivíduo. Este, ao despertar (na personalidade) a sua consciência para patamares mais elevados – os níveis espirituais (“buddhi-manásicos”, próprios do eu superior, ou da mente superior e intuição) –, por meio da educação, da instrução e por um esforço de aprimoramento ético/moral, ficará capacitado a levar a cabo um conjunto de actividades e realizações geradoras não só de bem-estar e saúde pessoais, mas principalmente nos mundos físico, psíquico, mental e espiritual dos seres que delas beneficiem. As actividades e realizações de especial e elevada qualidade, inquestionável nobreza e vastíssimo alcance serão “imortalizadas”, ou seja, apesar de serem geradas na (e pela) personalidade (condicionalmente mortal) dos indivíduos, cobrirão o abismo que separa os níveis mentais inferiores (inerentes ao quaternário inferior) dos superiores e passarão a integrar a sua tríade espiritual (imortal), constituindo aquilo que na terminologia religiosa é conhecido por “tesouros que acumulamos no céu” (3).
Mais uma vez verificamos aqui como uma teoria científica (neste caso psicológica) é transformada em norma religiosa. De facto, “Não dissocieis a Sabedoria do Amor nem a Religião da Filosofia. A Religião deverá ser a Filosofia do Amor; a Filosofia deverá ser a Religião da Sabedoria. Unicamente assim podereis aceder à Sabedoria Divina. Se não amardes o Universo, jamais o havereis de compreender, jamais vos havereis de tornar sábios de verdade – da mesma forma como, se não amardes o vosso semelhante, nunca o podereis entender e ajudar, por mais teorias psicológicas que conheçais. Só pelo Amor a Razão de Ser que está dentro de vós pode compreender a Razão de Ser de todas as coisas… No entanto, se não dirigirdes sabiamente o amor, ele acabará por degenerar num sentimento caótico, inútil e cego, nada mais gerando senão ansiedade e bloqueios. Por isso, não estagneis num amor fraco e superficial que, tantas vezes, serve de desculpa e de pretexto para quem se recusa a fazer o esforço de aprender mais…” (4).
Para a egrégia e profunda sabedoria hindu, “velha” de muitas centenas de milhar de anos e berço de posteriores civilizações ocidentais, desde a persa à grega, uma das cinco causas da miséria humana é a ignorância – avidya em sânscrito [a (não, ausência de) + vidya (sabedoria)] –, não uma ignorância qualquer, mas a ignorância fundamental, isto é, a ignorância acerca da verdadeira natureza de todos os seres humanos.
A resposta da esmagadora maioria das nossas crianças e jovens às imposições brutais do caos social e da ignorância fundamental e congénita desta civilização – seja o desrespeito e desprezo aos pais nos lares, seja a rejeição e insurreição contra o sistema escolar – demonstra inquestionavelmente que a política de educação vigente é obsoleta e incapaz de motivar e entusiasmar, quer educadores, quer educandos, o que acaba por os tornar rebeldes, agressivos, anti-sociáveis, marginais e dependentes de todo o género de vícios.
Enquanto, por um lado, os pais não têm outra solução que não a de abandonar os seus filhos prematuramente – antes dos três anos – em instituições/depósitos apenas excepcionalmente competentes, para poder “ganhar a vida” – ou antes, na maioria dos casos, para “sobreviver” fisicamente e sem acesso aos bens realmente espirituais, os “bens divinos” de Platão –, por outro, o “habitat” escolar conserva os mesmos equipamentos cinzentos, desinteressantes e medievais, comparativamente à inebriante e tentadora tecnologia lúdica exterior das grandes catedrais de consumo, mantém os estudantes simbólica e literalmente imobilizados nos coletes de força que são os programas curriculares impostos de “cima”. É caso para perguntarmos: onde, quando e como é que as crianças podem aprender a utilizar sua própria criatividade, a desenvolver a sua individualidade, única no universo, em vez de jazer um autómato programado pela tirania alheia (por muita simpatia, revestida de “caridade esmoler”, que aparente)?
Como dizia o eminente investigador João dos Santos, a criança, no seu sentido etimológico, é alguém que não só é criado (bem-criado ou malcriado, bem-educado ou mal-educado), mas principalmente alguém “capaz de criar”.

A ciência da educação
A suprema importância da educação na vida de qualquer país tem de estar na proporcionalidade directa da envergadura ética e profissional daqueles que devem levá-la a cabo, sejam os ideólogos (legisladores e governantes), sejam os executores (pais e professores).
Contrariamente à usualmente conhecida por Sabedoria das Idades, Eterna Sabedoria, ou Ciência Espiritual, que aguarda paciente e misericordiosamente o momento em que, assim o queiramos, galvanizará todo o formidável potencial que caracteriza o Ser Humano no seu mais excelso esplendor e na sua mais magnífica estatura, no seio sabiamente hierarquizado do Todo Universal – precisamente no centro da Cruz Cósmica da plenitude da Vida, entre os reinos sub-humanos (adormecidos para a Unidade Divina) e supra-humanos (despertos e activos nessa Unidade) –, impera ainda no mundo e nas nossas vidas o pretenso, vulgar, limitado e constrangedor saber humano (a “sabença” no dizer de António Sérgio), cujos frágeis e cada vez mais obsoletos pilares teimam em perpetuar a fraqueza (física), o medo (emocional) e a inépcia (mental) na comunidade das crianças, adolescentes, jovens, pais, educadores, professores e cidadãos em geral.
É óbvio que a repressão da energia de todo o potencial que caracteriza os seres humanos – desde o nível físico até ao nível espiritual – só poderá dar maus resultados, pois é impossível reprimir seja quem for indefinida e impunemente, até ao momento da sua morte, como nos demonstra uma vulgar panela cheia de água hermeticamente fechada, ao lume.
Aprendamos novamente com Platão: “…São leis justas porquanto produzem o bem-estar daqueles que as utilizam proporcionando todas as coisas que são boas. Ora, os bens são de duas espécies, a saber, humanos e divinos; os bens humanos dependem dos divinos e aquele que recebe o maior bem adquire igualmente o menor, caso contrário é privado de ambos”.
“Entre os bens menores a saúde vem em primeiro lugar, a beleza em segundo, o vigor em terceiro, necessário à corrida e todos os demais exercícios corporais; segue-se o quarto bem, a riqueza, não a riqueza cega, mas a de visão aguda, que tem a sabedoria por companheira”.
“A sabedoria, a propósito, ocupa o primeiro lugar entre os bens que são divinos, vindo a racional moderação da alma [disposição moderadora da alma associada à inteligência; numa palavra, a temperança” (sobriedade)] “em segundo lugar; da união destas duas com a coragem nasce a justiça, ou seja, o terceiro bem divino, seguido pelo quarto, que é a coragem”.
De posse do conhecimento do que é nefasto e benéfico para as crianças, importa agora atentar para o facto de que se, conforme nos ensina Platão, “devido à força do hábito é na infância que todo o carácter é mais efectivamente determinado”, é mister estabelecer-se uma sinopse de prioridades a instituir, de modo a que os “bens” gerais – “humanos e divinos” – floresçam naturalmente em todas as crianças, passando de “potenciais” (possíveis e invisíveis) a “actuais” (efectivos e visíveis).
Também na ciência da educação é a lei hermética e universal da analogia ou da correspondência tão bem aplicada, como, aliás, não podia deixar de ser, pois, a não ser assim, isto é, se não incluísse toda a realidade, tal lei jamais poderia ser tida por “universal”.
Basta um pouco de atenção (ou, mais exactamente, de interiorização ou aprofundamento do pensamento – coisa a que, infelizmente, não estamos muito habituados, dado o ritmo frenético de vida quotidiana que decidimos adoptar, e não só…) e, de acordo com essa lei, transpormos os fenómenos básicos e elementares de manifestações da vida – neste caso, o da gravidez da futura mãe, quando o nascituro carregado de vitalidade se agita e movimenta no ventre, e o início da existência fisicamente autónoma dos recém-nascidos, quando chora poderosamente – para a instituição generalizada de um conjunto de normas educativas correctas, neste caso referentes à ginástica e dança para o corpo e à música (que inclui o canto) para a alma.
Para tal, recorramos novamente a Platão e às suas Leis: “ –…A nutrição correcta tem de ser decididamente capaz de tornar tanto corpos quanto almas em todos os aspectos os mais belos e melhores possíveis… E suponho que, tomando o mais elementar dos aspectos, os corpos mais belos devem, já da mais tenra infância, desenvolver-se com a maior normalidade possível… Acontece observarmos que, no que diz respeito a qualquer ser vivo, o primeiro impulso representa de muito o crescimento mais intenso e mais longo, a ponto de muitas pessoas afirmarem convictamente que, quanto à altura, os indivíduos crescem mais nos primeiros cinco anos de vida do que nos vinte seguintes. Mas nós sabemos que, quando o crescimento ocorre rapidamente desacompanhado de muito exercício adequado, produz no corpo males incontáveis. E que corpos que recebem o máximo de alimento requerem o máximo de exercício…
– O que queres dizer? Será que pretendemos prescrever o máximo de exercício para os recém-nascidos e as criancinhas?
– Não. Na verdade, bem antes disso. Nós prescrevê-lo-emos para aqueles que são nutridos nos corpos das suas mães… Uma tal prática é mais fácil de ser compreendida no meu Estado, porque lá há pessoas que praticam os jogos até ao excesso. Ali encontramos não apenas meninos mas por vezes mesmo homens velhos criando pequenas aves… Mas essas pessoas estão longe de crer que o adestramento que lhes proporcionam excitando a sua pugnacidade produz exercício suficiente; além disso, cada uma delas apanha a sua ave e com ela no punho, se for menor, ou no braço, se for maior, caminha muitos estádios a fim de melhorar a condição não dos seus próprios corpos, mas sim a desses animais. Assim se mostra claramente a qualquer observador que todos os corpos são beneficiados, como se por um tónico, quando são deslocados mediante qualquer tipo de movimento, seja quando são movidos por acção própria – como num balanço ou num barco a remo –, seja quando são transportados no dorso de um cavalo ou por quaisquer outros corpos de movimento célere; e também mostra que é esta a razão por que os corpos podem assimilar eficientemente os seus suprimentos alimentares e bebida e proporcionar-nos saúde, beleza e vigor… Tanto para o corpo quanto para as almas dos bebés um processo de nutrição infantil e movimentação, que seja o mais ininterrupto possível…, é sempre salutar e especialmente no caso dos bebés mais novos, que deveriam, se possível, ser balançados como se estivessem num navio; com os recém-nascidos dever-se-ia reproduzir esta condição com a máxima proximidade da condição original. Uma evidência suplementar a favor disto pode ser constatada no facto desse procedimento ser adoptado e a sua utilidade ser reconhecida tanto por quem alimenta os bebés, quanto por quem administra medicamentos. Assim, quando as mães têm filhos que padecem de insónia e desejam acalmá-los para que adormeçam, o tratamento que lhes dão não é imobilizá-los mas sim movê-los, pois embalam-nos nos seus braços constantemente; e em lugar de silêncio fazem uso de uma espécie de cantarolar e assim literalmente fascinam os seus bebés…, por meio do emprego do movimento combinado da dança e da canção como medicamento…”. Tal doença é uma forma de “medo e os medos devem-se a uma condição precária da alma. Assim, sempre que se aplica um sacudir externo a males desse tipo, este movimento externo aplicado domina o movimento (a perturbação) interno de medo e, ao dominá-lo produz uma visível tranquilidade na alma…”.

(1) In As Novas Escrituras, Vol. IV, A Educação, do Centro Lusitano de Unificação Cultural (CLUC), 1996. (2) In Luzes do Oculto, do CLUC, 1998. (3) Evangelho de Mateus, XIII. (4) In As Novas Escrituras, Vol. IV, A Filosofia do Amor, do CLUC, 1996.

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