quarta-feira, 18 de junho de 2008

Dor benfazeja


Sinal - inevitável - de resistência, convida a estar atentos e conduz-nos ao presente. Depois de Portugal ter assinalado, este Sábado, o Dia Nacional de Luta Contra a Dor, eis os benefícios quase desconhecidos desta verdadeira ponte para a liberdade.

Texto e desenho* Dina Cristo

A dor é altamente informativa – ela sinaliza com elevada eficácia a acção incorrecta – seja ela mental, psicológica ou física. Consoante o seu tipo, intensidade e local assim a referência que dela pode ser extraída sobre o desvio à realidade mais adequada à natureza de cada um. Ela indica com rigor onde e como há equivoco no caminho seguido. Sempre que dele nos desviamos há um sinal de alerta infalível que o acusa. A primeira nobre verdade budhista ensina, orienta e não engana. Sempre que se diz “não” à vida, rejeita ou bloquea algo lá está ela para o lembrar.
A cada via errada corresponde, portanto, uma determinada pena. Acções viciosas, demeritórias geram sofrimento, lembrava já Patandjali. A dor é um signo, com uma mensagem para ser descodificada e entendida. É um meio informativo altamente individualizado e útil. Desperta sempre que nos enganamos e confundimos a ilusão da mudança (como a paixão) com a verdade da permanência (como o Amor). Cada vez que fazemos algo inconveniente para a alma ou corpo ela sinaliza; indicia o caminho errado, para que o possamos corrigir.
Mas em vez de a escutarmos, muitas vezes preferimos deixá-la de ouvir e sobretudo de sentir. “Sim, às vezes, até dói sentir mas, na verdade, ainda bem que podemos sentir”, elucida Louise L. Hay. Emoções quantas vezes dolorosas. Por isso é, aparente e imediatamente, mais fácil esconder ou disfarçar. É mais rápido tomar um comprimido para uma dor do que iniciar o processo de cura da causa que a está a provocar.
Ao anestesiar-se regularmente o Ser Humano, sem o perceber, desensibiliza-se não só em relação à dor mas também ao prazer. Prescindindo do sofrimento, acaba por dispensar, por consequência, o deleite e deixa muitas vezes de ser tocado pelas coisas mais belas e singelas. De tal forma se gera insensibilidade que algumas pessoas já só conseguem sentir algo em situações extremas de sofrimento infligido a si próprio (masoquismo), a outro (sadismo) ou a ambos (sadomasoquistas). Só quem sente dor a provoca em si e nos outros, seja de forma mais ou menos consciente, e a dor provocará mais dor, insatisfação, dramatismo emocional e infelicidade.
Começa por deixar de sentir uma dor simples, de cabeça, de estômago, de dentes. Confunde a eliminação artificial do sintoma com a erradicação da doença que, sem dela ter sinais, permanece. Persiste até um dia, tantas vezes implodida por “medicamentos”, explodir num caso grave e às vezes mortal. Qual automóvel a que se decidiu destruir a sinalética motora para o conduzir inconscientemente, enfrentando então o desastre e, quem sabe, a morte. Sem consciência do erro, adia a solução, persiste no equívoco até uma crise aguda chegar. Entretanto, a dor que se vai ocultando, acumula-se e acabará por se escapar, expressando-se, antes de uma eventual resolução fatal, através do ressentimento, raiva, culpa, irritação, ciúme, impaciência, desespero, auto-comiseração ou em todas as formas de auto-destruição sejam lentas (como o tabaco) ou rápidas (como o suicídio).
Resistência
Para além do medo de a viver, o que só a faz perdurar, e do erro (e sentimento de culpa adjacente) há outras origens da dor. A insatisfação, a carência, o sentimento de imperfeição cria dor. O conhecimento da verdade gera muitas vezes mágoa. A indecisão com a sua tensão e conflito arrastado produz sofrimento. A ingestão de alimentos da família das solanáceas, como a batata, o tomate, a beringela, também; inflamam o corpo e provocam dores. A acidificação do sangue, a diminuição de serotonina aumenta o nível de sofrimento sobretudo a quem já é mais sensível à dor. A fuga ao presente, como toda a oposição, causa dor. E quanto maior a resistência às mudanças da vida, mais dor se irá sobrepor no corpo (mental, psicológico e físico).
A crítica, o julgamento, cria padecimento. Todos os padrões mentais negativos, os pensamentos com forte carga emocional destrutiva, sobretudo se associados a aspectos egoísticos da personalidade – paixão, apego, desejo, aversão, avidez, cobiça, luxúria, ódio, ira, agressividade, ressentimento - são grandes responsáveis pela dor. A ilusão, que confunde o permanente com a mudança, levando à procura da constância na inconstância, gera uma forte dose de dor. Como afirma Helena Blavatsky, "A principal causa do sofrimento está na nossa busca perpétua do permanente no impermanente, e nós não só buscamos, mas agimos como se já tivéssemos encontrado o imutável em um mundo cuja única característica certa e que podemos proclamar é a constante mudança; e sempre, no momento em que nós pensamos que conseguimos estabelecer a nossa base sobre algo permanente, a situação muda diante de nós, e o resultado é o sofrimento”.
Outra grande causa de dor é a consciência, abaixo ou acima da média. A ignorância, até pelos equívocos que provoca, cria dor, mas também os seres que estão na senda espiritual e desenvolvem uma consciência mais abrangente, num altruísmo que os faz identificarem-se com os outros, a quem amam e pelos quais se interessam, também o provoca: «(…) E tudo dói na minha alma extensa como um Universo(…)», como escrevia Álvaro de Campos que na “(…) última fase vai ser esse coração insone em que tudo dói: o que foi, o que não foi, o que é, o que não é, e também a vasta dor do mundo»
[1]. Maior sensibilidade traz um sofrimento mais doloroso; trata-se, neste caso, de uma espécie de prova para atletas do espírito, em ciclo ascencional.
Poder curativo

A dor está presente logo desde o momento do nascimento, quer para o recém-nascido - o trauma da entrada num universo gelado, sonoro e luminoso que angustia e faz gritar - quer para a própria mãe. Não há parto sem dor. Todo o nascimento implica sofrimento. As modernas técnicas de eliminação da dor, além de alguns danos graves já causados, criam a ilusão de que dar à luz é indolor (tal como o fazem relativamente à morte). A dor é natural, inerente à própria vida e é ao longo dela inevitável. Não há vida sem erro e sendo este a principal causa de dor, não é possível viver sem a experienciar.
As tentativas de a controlar foram tantas e tão contínuas ao longo do tempo que, na falta de relaxamento, elas se vão sedimentando no corpo de dor, cristalizado e manifestado, por exemplo, nos Síndromas Pré-Menstruais, ou em depressões, ambas tipicamente femininas – altura óptima para um processo de aceitação das mágoas. Devido à sua acumulação, tentativa para as dissimular, sem que desapareçam efectivamente, as dores escondem outras anteriores, como numa casca de cebola, razão pela qual num verdadeiro processo de cura, ao desbloquear energia, reaparecem sintomas antigos para que possam ser verdadeiramente sarados.
A dor pode ser temerosa, parecer insuportável, mas não é intransponível. Por muito dolorosa que seja, ela não dura para sempre e terminará (mais cedo), necessariamente, se for aceite. A dor (tal como o medo) é uma grande guardiã do prazer, felicidade e alegria, paraísos que assim são reservados. Como lembra Victor Martins, “prazer e dor são uma parelha que jamais pode ser separada”. Se é verdade que o prazer imediato provoca muitas vezes mais tarde sofrimento pelos seus efeitos (como a dependência, a saudade, a carência) também a dor, se aceite, bem vivida e então erradicada, não passa de um meio que conduzirá à bem-aventurança, paz, libertação, compreensão e cura.
Ao ser enfrentada e assumida, como no caso do luto, e não mascarada e ocultada, ela pura e simplesmente se resolve e elimina, sobretudo se for emocional. A dor é, deveras, memória passada acumulada; muitas vezes, no momento actual não há qualquer problema ou pesar. Forçando a decidir qual a melhor via a seguir, leva antes a ajuizar sobre as melhores opções de vida, a peneirar o trigo do joio, gerando um conflito até um ponto de ruptura que leva à decisão. Obriga, assim, a distinguir qual a verdade da ilusão, o que faz bem (a longo prazo) do que sabe bem (no imediato). Nesse processo de transformação, ela é alquimia que eleva cada vez mais em direcção à essência e mantém a fidelidade ao próprio ser. Ao mesmo tempo que ilumina - já que através dela se percepciona qual o melhor caminho a seguir, contribuindo para o auto-conhecimento - também purifica.
Uma das grandes virtudes da dor é obrigar a sentir o instante, a focar a atenção no aqui e agora, às vezes pela sua intensidade. Tão fortes são certas dores que continuar a ignorá-las torna-se impossível. Na sua aparente crueza, a dor atira ao chão do presente, sem subterfúgios, desculpas ou pretextos. Aceitando-a, no entanto, como meio de comunicação individual e observando-a, (mais) rapidamente é ultrapassada. Uma dor pode salvar se para ela houver olhos e ouvidos. Se não for calada tomando um comprimido químico, análgésico ou anti-inflamatório, que a prolongará, ainda que silenciosamente.
Há aliás substâncias orgânicas no corpo humano, como a prostaglandina, que ajudam a produzir reacções que evitam a dor; o chá de cravinho, tal como o magnésio, chocolate ou canela, por exemplo, também auxiliam no alívio das dores. Mas não há remédio como a aceitação do presente, permitindo que a vida flua, com as suas (in)satisfações. Deixando vir a dor, ela rapidamente se dissipa e em seu lugar haverá espaço para o bem-estar. Se esta limpeza diária for feita não serão acumulados resíduos. E em cada dia serão aceites as suas tristezas e alegrias respectivas.
Mais elucidados e orientados, mulheres e homens estarão prontos para desfrutar da vida na sua versão integral e não apenas numa, a cores garridas, que a distorce e é a sua morte lenta e agonizante. A aceitação devolve a saúde, a harmonia entre os dois pólos, integrados, o que conduz à verdadeira resistência e a um espírito construtivo. Foram, aliás, várias as obras-primas criadas após um intenso período de sofrimento. “Devemos ter a sagacidade", aconselhou Goethe, "de permitir pegar na dor e transformá-la numa obra de arte”.
Pietro Ubaldi sugeria que não se temesse a dor, pois ela é um poderoso instrumento de redenção, se for vivida de forma equilibrada. Há pois que não fugir apressadamente, sem reter as suas virtudes e ensinamentos, mas também sem excessivas demoras, correndo o risco de a prolongar ao ponto do afundamento em depressões crónicas ou profundas. A decisão de a vivenciar ou não, e como, é de cada um. Está nas mãos da humanidade a liberdade de escolher. Afinal, como afirma José Manuel Anacleto, «a vontade é mais forte que a dor».
Luta inglória
Pelo mundo fora há, hoje, uma guerra contra a dor. Esta aparece como hostil, algo a controlar. Instituem-se os Dias Nacionais e Mundiais de – Luta Contra a – Dor, de que Portugal foi pioneiro, em 1999, publicam-se manuais, livros, jornais e revistas sobre o tema. Profissionais do sector da saúde formam-se para eliminar o inimigo. Se bem que em casos extremos tais cuidados sejam necessários – qualquer doente se impacienta perante dores graves, prolongadas e insuportáveis - alguns deles poderiam ser evitados se a atitude geral perante a dor fosse diferente.
Há hoje uma intolerância generalizada face à dor. Também ao nível social, individual e de género, ela é vista como a grande adversária, de quem todos temem, alguns mais do que a própria morte. No caso dos homens tal é patente no preconceito de que um ser humano do sexo masculino não deve chorar. Considerada nociva, lança-se sobre ela todo um arsenal de combate. Todos os esforços parecem ser insuficientes para a conseguir “debelar”.
Também se usam as mais diversas estratégias para a “enganar”, através de fugas – dependência de substâncias, actividades ou pessoas. Álcool, droga, açúcar, café, jogo, trabalho, televisão, sexo, comprimidos são alguns exemplos compensatórios nesta guerra mundial. Mas quanto mais dela se a evita, mais ela sobrevive e se expressa. É, portanto, uma luta inglória, que não terá sucesso enquanto não forem extintas as suas causas. Como aconselhava Helena Petrovna Blavatsky, as lágrimas não devem ser enxugadas enquanto não for retirada a dor que as causou.


* Anos 80 [1] Teresa Rita Lopes in CAMPOS, Álvaro – Poesia, Assírio & Alvim, 2002, pág.29.

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quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

Perdão?


Copyright © Neale Donald Walsch, 1998



Na véspera do Ano Internacional da Reconciliação, propomos uma viagem: da culpa (em que nos degeneramos, destruimos, paralisamos) à desculpa (em que nos regeneramos e reconstruimos a nossa vida) - conscientes dos erros, corrigimo-los e, desenganados, absolvemo-nos.

Texto Dina Cristo fotografia(*) Frank Riccio (**)


«- No momento em que eu te atacar e atingir, - respondeu a Alma Amiga – no momento em que te fizer a pior coisa que possas imaginar – nesse preciso momento… - sim? – interrompeu a Pequena Alma. –Sim? A Alma amiga ficou ainda mais quieta. - Lembra-te de Quem Realmente Sou»
[1].

Quem nos fere não é mais do que uma alma amiga, perfeita e maravilhosa, como todas, Luz pura que, por amor, acede penetrar na vida física, pesada, e fazer-nos coisas terríveis. São anjos disfarçados, só para que possamos experimentar (ser e sentir) a compreensão e o perdão e perante a escuridão, o que julgamos como mal, lembrarmos que todos somos o Sol.

Nesta parábola para crianças, editada em Portugal pela primeira vez em 2001, Neale Donald Walsch recorda que «(…) para se experimentar o que quer que seja, tem de aparecer exactamente o oposto»
[2]. É assim que da culpa, temos, lembra Louise Hay, o poder, a capacidade, a liberdade e a inteligência, para atingir a desculpa.


Perante circunstâncias adversas que nos fazem sentir dor imensa - raiva, amargura, ódio, rancor, tristeza, arrependimento, desejo de vingança e medo – temos o poder de escolher se nos mantemos como vítimas ou fazemos o nosso caminho até à responsabilidade. Como afirma Louise Hay
[3]: “Você pode escolher continuar preso e amargo ou pode fazer um favor a si mesmo perdoando voluntariamente o que aconteceu no passado; deixando-o; e depois seguindo em frente para criar uma vida alegre e que o faça sentir-se realizado”.

A decisão mais comum é o “primeiro nível”: culpar-se e culpar os outros. No centro está (quase) sempre a dor. Tais feridas vão-se formando ao longo da vida. Ao nível religioso (ao prazer é atribuído um sentimento de culpa), social, cultural, familiar (as críticas por sermos, pensarmos, expressarmos ou actuarmos de dada maneira). Espalhada um pouco por toda a parte, como vírus, a dor, mais cedo ou mais tarde, acaba por se transmitir a outrem, sob qualquer forma de hostilidade. E a ferida, se não curada, agrava-se.

Da culpa…


Sempre que alguém culpa outra pessoa está a assumir o papel de vítima e a dar-lhe poder. Transfere para o outro a responsabilidade que não sabe, pode ou quer assumir. Neste caso o passado mantém-se vivo, recorrentemente ou, até, obsessivamente lembrado, tornando-se mesmo numa prisão ineficaz que paralisa. Por vezes, um preço a pagar para se permitir cometer o mesmo erro: «Os sentimentos de culpa não o ajudam, apenas o mantêm paralisado, mas podem, pelo contrário, fazer aumentar as hipóteses de repetição do comportamento indesejado, isto é, os sentimentos de culpa podem tornar-se a sua própria recompensa, dando-lhe também permissão para que repita o comportamento»
[4].

Vive-se em ódio, raiva, ansiedade, conflito (tipicamente mental), num stress que conduz à doença e à infelicidade. Vivemos ressentidos, com o lado mais negativo da experiência, o pecado, o castigo, o dever de sacrifício. Uma pós-ocupação vã, assente na (auto)rejeição, desaprovação e reprovação inútil. Segundo Wayne W. Dyer, as prisões, tendo em conta as taxas de incidência, são um exemplo de como a instigação da culpa não resulta.
Fase intermédia é aquela que passa pelo reconhecimento, expressão (da dor e da raiva, nomeadamente pelo choro), arrependimento (através da confissão), compreensão e purificação. Neste caso, os erros mais não foram do que vias para o conhecimento do caminho mais correcto e são, pois, motivo para premiar, celebrar e elogiar em vez de condenar, criticar ou castigar. Houve uma evolução, através da experiência (ainda que equívoca), para o conhecimento.

A cura pode ser facilitada através de terapias naturais, como os remédios florais (floral “pine”) ou auro-soma (frasco nº 81) bem como de uma espécie de higiene mental todos os fins-de-semana: ao Sábado, dia especialmente indicado para reparar e perdoar, tratar de assuntos delicados e estar em repouso (sabático) junto da Natureza, e ao Domingo, altura propícia a considerar todas as dívidas pagas, saldadas e ultrapassadas. A visualização e meditação são outras das formas de dissipar a culpa, tratando-a no presente, evitando que se acumule. Marta Cabeza lança as perguntas: “Porque te culpas há tanto tempo? Porque carregas com culpas que não são tuas? Porque tens medo que te culpem? Porquê?”
[5].


[6], que encontrou na culpa uma das causas para várias doenças, definiu sete etapas para o perdão. Já há décadas, Louise Hay havia notado a mesma ligação: «Já descobri que o perdão, o libertarmo-nos do ressentimento, contribui para dissolver inclusivamente o cancro».


… à desculpa

Depois do trabalho psicológico de enfrentar a dor, manifestá-la e aprender com ela, poderá atingir-se o “segundo nível”, aquele em que nos damos ao direito de ter (tido) não só os erros e enganos, com os quais aprendemos, mas inclusive sentimentos negativos, uma vez que nos são úteis; segundo Lise Bourbeau, o medo indica a necessidade de auto-protecção, a raiva a de afirmação e a tristeza a de desapego.

Neste caso desculpamo-nos a nós próprios pela vivência equívoca bem como à outra pessoa, ou seja, assumimos a responsabilidade pelos acontecimentos. E, quando acontece o auto-perdão, perdoar os outros simplifica-se. «Ás vezes é difícil perdoar, mas torna-se ainda mais difícil perdoares a ti próprio»
[8], escreve Marta Cabeza ou, como afirma Luís Simões, "(...) quando não perdoo os outros é só porque não consigo perdoar-me a mim próprio"[9].


Ao isentar de culpa, o que só o coração tem coragem para fazer, por amor e compaixão, o indivíduo liberta-se do passado, esquece-o. E assim, num acto e visão positiva, curamo-nos perante a absolvição de nós próprios e do outro. “Só o perdão”, afirma Bernabé Tierno, “tem o poder de nos libertar das dolorosas amarras do ressentimento e de nos devolver o equilíbrio e a paz interior (…) Perdoar até nos libertarmos por completo do ressentimento e do rancor, aumenta a nossa saúde física, psíquica e mental, beneficia o corpo e o espírito (…) Perdoar é arrancar a raiva, destruir qualquer resquício de rancor, é construir-se a si mesmo, salvar-se a si próprio»

Pacificado, consciente do erro, mas não tolerando a situação que reprova, deixa-a e sai; segue em frente, recomeçando a sua vida. É a grande perda (de um relacionamento, um emprego, uma habitação) e o desapego, a entrega depois de se haver encontrado, o que tanto se procurou. Mas as pessoas, essas, são perdoadas.

O perdão implica uma (auto)aprovação e (auto)aceitação. Errar é humano (cair no mesmo erro é que não) e já mesmo S. Paulo escrevia na Epístola aos Romanos (7:19) «Porque não faço o bem que quero, mas, o mal que não quero, esse faço»
[11] e exortava na carta aos Colossenses (3:13): «Suportando-vos uns aos outros, e perdoando-vos uns aos outros, se algum tiver queixa contra outro; assim como Cristo vos perdoou, assim fazei vós, também».


Em síntese, ou nos culpamos (guerreamos, adoecemos e deprimimos) ou nos perdoamos (pacificamos, curamos e alegramos). Como escreveu José Manuel Anacleto (JMA), promotor do movimento cívico “Ano 2000, Perdão e Reconciliação” e do Dia do Perdão
[12], «Perdoar é começar de novo, quebrar os grilhões que nos aprisionam a um passado tantas vezes doloroso, que nos oprime. Não se trata de um moralismo qualquer mas, sim, de aprendermos a ser felizes, em conjunto. Todos precisamos de todos”.

Motivo de pensamentos, poemas, canções, livros[13], programas de rádio, dias e orações, a amnistia, o indulto é um sinal claro de amor e sabedoria que, aliás, Jesus Cristo veio ensinar há dois mil anos, e nos permite evoluir em bases mais correctas e (re)fundadas. Perdoar, como demonstraram portugueses e timorenses, é quebrar o ciclo infernal de violência. Já Tertuliano confrontava: "Você quer ser feliz por um instante? Vingue-se! Você quer ser feliz para sempre? Perdoe!".

* Imagem reproduzida mediante autorização da editora Sinais de Fogo. ** Copyright das ilustrações © Frank Riccio, 1998.
[1] WALSCH, Neal Donald – A Pequena Alma e o Sol, Ed. Sinais de Fogo, 2001. [2] Idem, Ibidem. [3] HAY, Louise – Eu consigo! Ed. Pergaminho, 2006, pág.31. [4] DYER, Wayne W – As suas zonas erróneas, Ed. Pergaminho. [5] CABEZA, Marta – Dia-adia com os anjos, Ed. Pergaminho, 2005, pág.160. [6] BOURBEAU, Lise - O teu corpo diz “ama-te” – a metafísica das doenças e do mal-estar, Ed. Pergaminho [8] CABEZA, Marta – Dia-adia com os anjos, Ed. Pergaminho, 2005, pág.67. [9] SIMÕES, Luís Martins Simões -Goste de Si, Ed. Pergaminho, p.60 [10] TIERNO, Bernabé – Aprenda a viver, Lisboa, Ed. Presença, 1998. [11] Ou em outra versão: «Porque o que faço, não o aprovo; pois, o que quero, isso não faço, mas o que aborreço, isso faço» Epístola aos Romanos 7:15 [12] No respectivo projecto educativo o mesmo autor afirmava «(…) A fim de evitar traumas, situações de revolta e o desenvolvimento de uma agressividade latente (susceptível de explodir em determinadas circunstâncias), é de capital importância que o jovem saiba conciliar a recusa de atitudes que injustamente o magoaram com a compreensão relativamente aos autores dessas injustiças; que um indispensável processo de maturação e aprendizagem (que também implica conhecer os lados menos bons da vida e do ser humano) não o marquem de forma patológica, levando-o a gerar ódios, bloqueios, alienações ou situações de não integração» in Brochura “Um minuto, uma flor, um mundo melhor!”, JMA, pág.11.
[13]ENRIGHT, Robert – o poder do perdão. Estrela Polar, 2001. JAMPOLSKY, Gerald G. – Perdoar – a melhor de todas as coisas. Sinais de Fogo, 2004. BARROS, José H. - Perdão e optimismo: uma abordagem intercultural. Revista Portuguesa de Pedagogia. Coimbra. Vol.37, nº2. WALSCH, Neale Donald – A Pequena alma e o Sol, Sinais de Fogo, 1º ed. 2001.

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quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Co-dependência


Depois do dia de S. Valentim e antes do Dia Europeu da Vítima, eis uma proposta para transitar do ciclo vicioso da dependência e submissão amorosa para o virtuoso, da auto-estima.

Texto Dina Cristo

Para Robin Norwood, as mulheres que amam demais estão doentes. Trata-se de um desequilíbrio caracterizado por um ciclo vicioso, de dependência obsessiva em relação a um homem, progressivo e contínuo, que é uma compensação à dor emocional, que se pretende evitar. Em vez de enfrentá-la, a mulher projecta para cima do homem a realização emocional que não teve e, portanto, a sua carência, insatisfação emocional e um enorme anseio de amor, atenção e segurança amorosa.
Uma das principais causas apontadas é a vivência passada num lar disfuncional onde era negada a liberdade de expressão e a própria realidade. A constante tensão, a extrema rigidez, a ênfase no cumprimento de regras e a falta de contacto e intimidade tornaram-na incapaz de ver e estabelecer relacionamentos. Em adulta, a criança torna-se numa mulher carente e com tendência para a depressão, presa ao sonho, como compensação para a sua insatisfação íntima.
Curiosamente será atraída por homens emocionalmente indisponíveis, aos quais se esforçará por agradar ao máximo, num espírito serviçal. Ela ajudará na esperança de que ele goste dela e mude, acreditando que aí será feliz. Investe todas as suas forças nesta ilusão que só lhe trará, mais tarde, desilusão. Quanto mais lhe parece escapar esse objectivo, maior a dedicação, o investimento, a ajuda e a culpa e desculpa. Mas em vez da aprovação, chegará a indiferença e a distância, que fará crescer o desejo e a dor, numa espiral que levará à auto-destruição, o desespero de não (se) conseguir controlar, seguido de raiva e ressentimento.
Estas mulheres chamam amor ao medo (da perda), à dependência, à paixão, à obcecação. E tudo isso só levará à infelicidade e agravará a dor inicial e a depressão latente, mascarada com este vício. Desaguará num sofrimento dilacerante ainda maior do que o inicial. Mas então porquê esta opção, esta negação da dor emocional inicial?, pergunta a autora. Para não a sentir, para se defender e proteger dela, responde.

A cura

No instante inicial em que decide enfrentar o seu próprio sofrimento, cuja época propícia é o período menstrual, inicia-se o processo de recuperação. No restabelecimento, a mulher passa a responsabilizar-se e a controlar a sua vida, a investir em si mesma e na resolução dos seus próprios problemas; aceita-se, tolera(se) e respeita-se a si e aos outros; valoriza-se, recupera a auto-estima, tem interesses e amigos próprios, pensa primeiro no seu bem-estar e passa a confiar em pessoas adequadas – ela sabe que merece o melhor, e toma conta… de si, ajuda-se.
A mulher em regeneração deixa de fugir dos sentimentos, pois adquie consciência de que estes servem para (a) orientar e que a aceitação cura, traz paz e dá felicidade. Ela resgata as suas emoções e desapega-se. Liberta-se da responsabilidade por ele (e dos seus problemas) e do sentimento de defeito, de que não merece ser amada. Aceita mudar, enfrenta os seus medos, enceta novas experiências e arrisca novas actividades; descontrai, despe-se, encontra-se e exprime-se, torna-se genuína e autêntica.
A mulher tratada troca a ilusão sobre o outro pelo amor a si própria. Está pronta para uma relação compatível. Deixa de querer, de precisar, de mudar e controlar (ajudando) os outros. Entende que concretizou o modelo social veiculado – o que identifica o amor com a paixão, excitação, dramatização ou manipulação. Deixa de ser (a)traída por homens que amam de menos – distantes, magoados, dependentes, defensivos e frios – de desculpar toda a sua irresponsabilidade. Deixa de se culpar (pela discussões, irritações e infelicidade), de (se) julgar e de temer; ao invés abre o seu coração... à vida.

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quarta-feira, 19 de março de 2008

Proibido morrer?


Homenagem às vítimas de Entre-Os-Rios

Antecedendo a Páscoa e a Primavera (época propícia a depressões) abordamos a morte e o suicídio, os últimos tabus, na adolescência e nos "media". Antecipamos a saída do novo livro de Abílio Oliveira, "Ilusões Na Idade das Emoções - representações sociais da morte, do suicídio e da música na adolescência", editado pela Fundação Calouste Gulbenkian.

Texto e fotografia Dina Cristo

«Numa sociedade que corre apressadamente para um futuro, sempre inatingível, a melodia interior que nos deveria sintonizar e equilibrar com os ritmos da natureza, e o sentido da vida que gostaríamos de perfilar, parecem-nos meros conceitos, longínquos e desvanecidos. E há sempre quem, um certo dia, grite: Tempus Fugit!, notando em si um «estranho vazio», mal-estar ou desconforto, como referem os Pink Floyd no célebre Time»
[1], afirma Abílio Oliveira, no seu mais recente livro, prestes a ser lançado no mercado editorial.
Nesta obra, baseada na sua tese de doutoramento, acrescenta o autor ser natural que alguém que «precisa de tomar decisões importantes, procure, constantemente, o melhor caminho a seguir. Talvez apenas no seu íntimo possa encontrar algo de seguro. Talvez tenha que arriscar para se conhecer, também através do que o circunda. Ao conquistar uma maior consciência da vida, por vezes pelo contacto próximo com a morte, o indivíduo pode entender que o suicídio não é mesmo uma solução»[2].
Segundo o mesmo investigador, a alternativa passa por cada um reencontrar o equilíbrio perdido, sem ter receio de se olhar e de chegar próximo «do outro», de estabelecer laços de intimidade, com a consciência de que, ainda «que se tropece de vez em quando, que cada dificuldade pode constituir um desafio, uma oportunidade de aprendizagem, um convite para um novo passo, cada vez mais firme e seguro, capaz de o conduzir mais profundamente e mais longe na Vida»
[3].
A auto-agressão poderá revelar uma forma de aproximação à morte… como forma de redescobrir (o sentido de) a vida. «Quando um jovem, em desespero, pensa seriamente em suicídio e chega a tentar a sua própria morte, encontra-se oprimido no limiar da dor e da tensão julgadas insustentáveis. O gesto suicida apela à nossa ajuda e simboliza o desespero supremo ou a recusa da vida, mostrando-nos uma vontade firme de não ser ou, talvez mais correctamente, de desaparecer para o que se tem sido, e ser algo diferente. Mais do que morrer, o jovem quer testar-se (...) e, no seu íntimo, ainda que não o refira, espera sobreviver e saber viver, consigo mesmo e com os outros, encontrar um objectivo que lhe reacenda a esperança esmorecida (ou perdida), a confiança e um sentido real para a sua vida»
[4].
De acordo com alguns dos resultados obtidos na investigação que este livro também resume, «em geral, a morte é também objectivada nas suas causas, como um fim incontrolável e não como o fim, na esperança de que exista vida para além do desconhecido»[5].
Morte interdita
A morte, em especial por suicídio, continua a ser “proibida”, quer ao nível dos rituais, que devem ser discretos, quer ao nível da sua expressão, dos sinais de luto. Fica implodida, nomeadamente a sua dor, intensificada com a rejeição do fenómeno, não sem marcas. «O interdito da morte e do suicídio dificulta a familiarização com algo de estranho (…), como o suicídio, e o desenvolvimento psicossocial dos adolescentes, como seres humanos.»
[6].
Vivemos numa “época desmorteada”, como lhe chama Abílio Oliveira, numa sociedade obcecada pela juventude e pelo domínio da vida sobre a morte, necrófoba que nega, rejeita, esconde e dessocializa o fenómeno: «Ainda que aconteça num contexto social público (ou hospitalar), é vivenciada em isolamento, de forma impessoal. Ninguém a deve referenciar ou dar-lhe importância. Tecnicamente admitimos a nossa morte mas, no quotidiano, agimos como se fossemos imortais»
[7].
«A meta é adiar e combater a morte e o envelhecimento em cada minuto da vida, com o apoio da ciência médica, da indústria da saúde e da informação dos media»
[8], explica Manuel Castells, que acrescenta: «À atitude antiga, onde a morte é, simultaneamente, familiar próxima, suave e indiferente opõe-se cada vez mais a nossa onde a morte mete medo a ponto de não ousarmos mais proferir o seu nome»[9].
Origens do tabu
Mas de onde veio o medo, a vergonha, o tabu em relação a um fenómeno (tão) natural? Nem sempre foi assim. A actual “crise de morte” (espelho de uma crise da própria vida, como afirma Abílio Oliveira), iniciou-se no final do Séc.XVI, com a doutrina escatológica saída do Concílio de Trento, no âmbito da Contra-Reforma religiosa, onde aparece o medo do juízo final, o paraíso e inferno, que tornou a morte ameaçadora e angustiante, os ritos mais pesados, a separação dos cemitérios das igrejas e ‘impôs’ o isolamento e o silêncio.
Até ao Antigo Regime a morte era algo familiar, ainda que a esperança de vida não fosse muito além dos 50 anos. O ser humano vivia em contacto permanente com o desaparecimento físico, através da peste, da fome e da guerra. Este, não só era aceite - fazia parte da vida social, o ritual era público, com grande cerimonial, mas sem dramatismo, as próprias crianças entravam nele – como as pessoas se preparavam para ele e conduziam, até poderem, o próprio ritual, pedindo perdão às pessoas que se aproximavam do seu leito. A morte era percepcionada como uma passagem para uma nova fase existencial, extra-terrena, e, por vezes, até ansiada. Saber morrer era uma arte.
Com a melhoria das condições de vida e a diminuição da mortalidade, sobretudo a partir do Séc.XVIII, a morte torna-se tabu, separa-se então cada vez mais da vida e tentam apagar-se dela todos os sinais. No Séc.XIX, a intolerância social face à morte aumenta e com ela a dor (emocional) que atinge os ritos funenários. «Claro que a expressão da dor dos sobreviventes é devida a uma intolerância nova quanto à separação. Mas não é só à cabeceira dos moribundos ou à lembrança dos desaparecidos que se comovem. Basta a ideia da morte para os comover»[11].
O Séc.XX “mata” a morte. «Durante o longo período que percorremos, desde a Idade Média ao século XIX, a atitude diante da morte mudou, mas tão lentamente que os contemporâneos não se aperceberam. Ora, desde há cerca de um terço de século, assistimos a uma revolução brutal das ideias e dos sentimentos tradicionais; tão brutal que não deixou de chocar os observadores sociais. Na realidade, trata-se de um fenómeno absolutamente estranho. A morte, tão presente e familiar no passado, vai apaga-se e desaparecer. Torna-se vergonhosa e objecto de interdição»
[12].
Na ânsia de a controlar, os seres humanos hoje escondem-na. A morte hoje é “vivida” como uma falha técnica e os nossos adolescentes percepcionam-na com pensamentos e sentimentos de medo e tristeza e também a desafiam, através dos comportamentos de risco. O suicídio «surge como a segunda causa de morte entre adolescentes (…) e há a considerar muitas mortes que resultam de acidentes sobre os quais paira a dúvida de terem sido intencionais (…) Acrescente-se que cerca de metade dos adolescentes que questionámos já teve ideias de suicídio e, também quase metade, conhece alguém que morreu por suicídio ou que tentou matar-se»
[13].
Suicídio nos “media”
Interdita e intolerada socialmente, a morte é, no entanto, exposta nos "media" sobretudo no seu lado mais espectacular e longínquo. «A tendência dominante nas nossas sociedades, como expressão da nossa ambição tecnológica e no seguimento da nossa celebração do efémero, é apagar a morte da vida, ou torná-la inexpressiva pela sua repetida representação nos media, sempre como a morte do outro, de forma que a nossa própria morte seja recebida com a surpresa do inesperado. Ao separar a morte da vida e ao criar o sistema tecnológico para fazer com que esta crença dure tempo suficiente, construímos a eternidade durante a nossa existência. Tornamo-nos assim eternos, excepto por aquele breve instante em que seremos envolvidos pela luz»
[14], afirma Manuel Castellls.
E como é que é representada a morte, especificamente o suicídio, na imprensa portuguesa? Olga Ordaz Ferreira respondeu a esta pergunta e concluiu, no seu estudo em 1995, que há dois tipos de representação do fenómeno. Um primeiro, que inclui os jornais Semanário, Independente, Expresso, Público e Diário de Notícias em que há uma abordagem diversificada do fenómeno, dos personagens e das causas. Neste, caso, por exemplo, os jornais salientam, para além da falta de integração social, o estilo de vida e a auto-percepção. No segundo tipo, que integra os jornais Crime e Correio da Manhã, em que predomina uma visão mais uniformizada, ao nível das metáforas, da imagem do suicida e das causas do fenómeno, centradas na falta de integração social e num comportamento desviante.
Entre os vários tipos de morte (natural, por doença ou acidente), a ocorrida por suicídio, trágica e controlada, é, talvez, a mais intensa e difícil de aceitar, mas «não há nenhuma sociedade ou micro-cultura, qualquer que seja o período histórico considerado, onde não exista suicídio, embora gerido em cada uma delas de forma diferenciada, conforme a sua mentalidade e ideologia específica sobre a vida e o seu valor social simbólico, sobre a morte e o significado após a morte»[15].

[1] OLIVEIRA, Abílio – Ilusões. Na Idade das Emoções (representações sociais da morte, do suicídio e da música na adolescênci). Lisboa. FCT/Fundação Calouste Gulbenkian, 2008, pág. 417. [2] Idem, ibidem. [3] Idem, ibidem.[4] Idem, pág.416. [5] Idem, pág. 409. [6] Idem, pág. 412. [7] Idem, pág. 93. [8] CASTELLS, Manuel – A sociedade em rede. Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 2002, pág.583. [9] ARIÈS, Philippe – Essais sur l `histoire de la morte en Occident du Moyen-Age a nos jours. Ed. Seuil, Paris, 1975, pág. 28. [10] A demografia do Antigo Regime e a família – temas de história 3, Edições Sebenta, s/d., pág.85. [11] A demografia do Antigo Regime e a família – temas de história 3, Edições Sebenta, s/d., p.85. [12] Idem, ibidem. [13] OLIVEIRA, Abílio – Ilusões. Na Idade das Emoções (representações sociais da morte, do suicídio e da música na adolescência). Lisboa. F.C.T./Fundação Calouste Gulbenkian, 2008, pág.410. [14] CASTELLS, Manuel – Op.cit.,pág.585. [15] FERREIRA, Olga – Representações sociais do suicídio na imprensa escrita, tese de Mestrado. Lisboa. ISCTE. 1995, pág.120.

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quarta-feira, 30 de julho de 2008

Presente Real

Doze meses após o lançamento do "Aqui & Agora", uma prenda. Lembramos, com Eckhart Tolle, a eficácia da actualidade.

Texto Dina Cristo


Quanto mais fugimos à dor mais ela, acumulada, se expressa. Só a aceitando, reconhecendo e dando-lhe atenção, estando presentes no aqui e agora a dissipamos. No livro “A prática do poder de agora”[1], Eckhart Tolle conta como aceitar é observar (sem julgar), é dignificar e reconhecer cada instante como o melhor, é estar (no) presente, rendermo-nos[2] e dizer “sim” ao que somos, onde estamos e ao que fazemos.


Tal leva à mudança da situação, leveza e paz, possibilita maior simplicidade e, curiosamente, menos sofrimento. Depois, implica fazer o que a circunstância exige, por isso trata-se de uma acção positiva, com qualidade e prosperidade - uma via de realização que religa ao ser e não impõe condições.
O agora é o portal[3] para o Ser, a plenitude, integridade, consciência, liberdade (de escolha), mudança, é o verdadeiro poder, que proporciona calma, redime, salva e onde cada actividade é um fim em si mesma. Corresponde à intuição, o consciente que age, o Ser e o Saber para além da forma, a compaixão, sanidade, presença, despertar, aceitação e perdão que dá vera confiança; é Poder, Luz, Paz, Realidade, Aqui e Agora.
Pelo contrário, resistência é julgar, viver cada momento como um meio, insatisfação mental, negativismo emocional, é evitar e negar. Mantém a condição problemática e apenas encaminha para a preocupação, conflito e dramatismo. Precisa de máscaras e de defesas, é exigente e tem expectativas rígidas, que originam tensão e contracção corporal. Ao dizer "não" o indivíduo interpreta com base no medo, analisa, critica, rotula e, consequência de um apego mental, gera complexidade e frustração.
(Se)mente
A mente é o inconsciente que reage, o pensador e o juiz, a forma, paixão, condicionamento, que gera violência, vulnerabilidade, vitimação. É apego e separatividade, fraqueza, escuridão, ilusão, adormecimento, indecisão disfuncional, ruído e projecção mental, que provoca culpa, medo, problemas, dores e doença.
Em “O poder do agora”[4], Eckhart Tolle explica como a mente é tagarela, produz poluição sonora, resiste, categoriza, compara, julga, condena, especula, lamenta-se e preocupa-se, cria filmes mentais e se torna num vício, pensamento compulsivo que ataca, castiga, desvitaliza, angustia e é muitas vezes repetitiva, inútil e até prejudicial. Condicionada e dualista, ela provoca ansiedade, necessidade, apego, suscita discussões e torna-se estéril e insensata, sempre que usada de forma incorrecta. O positivo é que nós não somos esta mente pensadora: estamos para além dela.
Segundo o autor, existe um tempo psicológico, a identificação com o passado e a projecção compulsiva no futuro, e um tempo cronológico, o presente, que também deve servir para aprender com os dias idos e estabelecer objectivos para o que há-de vir, mas sem prisão. O excesso de passado leva ao sentimento de culpa enquanto demasiado futuro acarreta medo. O agora é tudo o que existe, só o presente é real e pode ser enfrentado.
A mente usa estratégias para evitar o agora, pois a personalidade adora sentir-se infeliz, ressentida ou com pena de si própria. Há, então, propõe o autor, que honrar e reconhecer o passo actual, aceitar o momento incondicionalmente, concentrar toda a atenção no presente e entrar profundamente no agora; parar a mente, retirar-lhe tempo e restringir ao presente, dando-lhe espaço; aproveitar para observar os pensamentos-sentimentos e sensações corporais, concentrar na própria respiração, meditar e permanecer [5]consciente. Quanto mais atenção e qualidade de consciência, mais presença haverá.
Há, assim, dois caminhos: o tempo psicológico, da resistência, do passado/futuro, da mente, que mantém a situação e produz dor, medo, insegurança, infelicidade e o tempo do relógio, da aceitação, do aqui e agora da intuição, que muda a ocasião e leva à paz, confiança e alegria. O poder da escolha é nosso.

[1] Ed. Pergaminho, 2004. [2] Para além da felicidade ou infelicidade há a paz, que vem da rendição e nos conduz à leveza e à liberdade; pelo contrário, a resistência leva à dor, à rigidez, à separação, ao sofrimento. Só este último, a nossa cruz, nos força a render, altura em que dispensamos o passado. Mas a aceitação não significa indiferença nem inactividade. [3] Há vários portais que dão acesso ao não manifestado: o agora, o parar de pensar, a rendição, o silêncio, o espaço (quase cem por cento das matérias aparentemente sólidas é espaço). [4] Pergaminho. 2ª ed. 2003. [5] O estado de presença tem uma energia de alta frequência.

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quarta-feira, 11 de junho de 2008

Amar é preciso

Há – exactamente - um ano estava a ser lançado durante a conferência sobre Informação Solidária. Em jeito de comemoração, daquela que foi a promotora do “Aqui & Agora”, relembramos o conteúdo de um livro que reúne as respostas dos congressistas à pergunta da Cais sobre qual é o lugar do amor numa economia neo-liberal.

Texto Dina Cristo

O amor é uma necessidade básica de qualquer ser humano. Quando alguém em criança não aprendeu a amar, porque não foi amado, corre sério risco de se vir a tornar sem-abrigo.
A aprendizagem da competência amorosa ocorre na família - espaço afectivo por excelência, onde se vivência o nível mais elevado de gratificação e partilha sentimental. Ser amado é ter (tido em criança) um papel central na atenção, apreciação, admiração; é ter-se sentido único, especial, exclusivo; é ter sido querido, considerado, respeitado e valorizado na totalidade.
Esta experiência será vital para a auto-estima, sentimento de segurança, realização, felicidade, capacidade de sonhar, enfim, para a saúde, não apenas física mas também psicológica e mental de todo o indivíduo. Quando houve na infância uma “anemia” de afectos, a personalidade do futuro adulto ficará enfraquecida e (mais) vulnerável (à dor).
“Os consumos de álcool e drogas cruzaram-se com as suas vidas e são um penso rápido para uma ferida que não pode cicatrizar, impedindo apenas que o sangue se torne visível, isto é, que a maior dor de todas, a dor de pensar, não surja, porque ninguém suporta olhar-se completamente desprovido de amor”
[1], explica António Bento, psiquiatra, a propósito dos doentes mentais sem abrigo.
Sem-abrigo ou sem-amor?
Os sem-abrigo, mais do que não terem habitação, são essencialmente pobres física e, sobretudo, emocionalmente. Como anota Elias Barreto, psicólogo, “(…) antes destas pessoas se tornarem sem-abrigo já o eram interiormente”
[2]. Os sem domicílio fixo não têm onde se alojar afectivamente, carecem de laços psicológicos e sociais estáveis, pelo que o desalojamento exterior mais não é do que um reflexo do desabrigo interior. Os sem-abrigo são, na verdade, pessoas sem amor ou mal amadas.
Esta falta de filiação - traduzido, por exemplo, na ruptura conjugal e/ou parental, na débil ou inexistente rede de amigos - de ligações afectivas, conduz, com frequência, à reprodução do padrão de carência de amor (em relação a si próprio e ao outro), à escassez comunicativa, à depressão, ao delírio, à solidão, à auto-destruição.
A macro-economia, orientada para a produtividade, individual e competitiva, «(…) lucrativa (mas apenas para as pessoas mais “empregáveis”)»
[3], marginalizando uns, os antigos escravos, a quem hoje se retiram os direitos elementares, e excluindo outros, os pobres, amplia, no mercado de trabalho, estes problemas sociais. Aumenta o síndroma de dessocialização, a tensão social e impele à (sobrevivência na) clandestinidade. Amplifica a falta de laços sociais e comunicacionais, o sentimento de inutilidade, de não pertença e a falta de amor geral manifesta-se, então, no crime e na violência.
Problemas que não se resolvem com mais policiamento, controlo ou punição, mas através da responsabilização. Dar a alguém a possibilidade de (voltar a) ser útil, de fazer algo ou cuidar de alguém pode ser o primeiro passo. Parte da solução pode passar pelo restabelecimento de laços afectivos, quer com coisas, produzindo-as, criando-as, quer com pessoas, ou mesmo animais, cuidando deles
[4].
Cura amorosa
A resolução passará pela comunicação e pelo amor – a ligação a algo maior que a nossa única individualidade, separada – pela transição do egosistema, isolado, para o ecosistema, integrado e interdependente. É preciso dar a cada pessoa a oportunidade para encontrar o seu lugar e função neste mundo. Porque o trabalho, além de realização humana, é uma forma de servir os outros.
Numa época de desinvestimento afectivo, perante uma civilização de afirmação individual, com relações interpessoais mais exigentes e frágeis, onde o “nós” está em segundo plano e a pessoa improdutiva é non grata, só a disponibilidade interior poderá curar esta ferida social pois, como afirmou Gabriela Moita, psicóloga, “(…) só amor produz amor (…)”
[5] e o vazio afectivo só poderá voltar a ser (pre)enchido com afectividade.

Enquanto a sociedade privilegiar o mercado em detrimento da dádiva amorosa e a economia permitir será natural que prolifere a falha da auto-estima, a tensão económica, o conflito social e o mal-estar individual. Se persistir a insatisfação amorosa, a “anemia” de afectos - a âncora que representa a relação verdadeiramente humana - e os indivíduos não tiverem sucesso afectivo, os guetos continuarão, por mais que deles desviemos o nosso olhar.

[1] AAVV – Gostar de si – o lugar do amor numa economia neo-liberal, Lisboa, Padrões Culturais Editora, 2007, pág. 32. [2] Idem, pág.57. [3] Idem, pág. 17. [4] A história de sucesso do Fernando é um exemplo. Cf. pág. 61-63. [5] Idem, pág. 12.

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Pensamentos

Assinalamos a chegada do calor, com a publicação de algumas reflexões sobre o amor, medo, desejo, liberdade, vulnerabilidade - todas da mesma autora.

Citações e fotografia Dina Cristo

«O amor corresponde ao grande ciclo da água, a paixão ao pequeno»
«Chora»
«Cala-te»
«Diz-me como te chamas, dir-te-ei quem és»
«Pouco, de cada vez»
«A infelicidade mata»
«Menos e melhor»
"O amor é mais forte do que o medo"
"A maré vazia mostra o que a cheia oculta"
"Levanta-te"
"A verdade não está escrita"
"Concentra-te no bem"
"O direito pertence à alma, os deveres à personalidade"
"Não há coragem sem (des)ancoragem"
"Atenta à voz, não à roupa"
"Qual é o teu modelo?"
"Quanto mais simples mais feliz"
"A felicidade pertence ao céu, o sacrifício à terra"
"É livre quem não faz o que lhe apetece"
"Uma pequena inovação é uma grande mudança"
"O melhor está no pior"
"Os amigos são terapêuticos"
"Quem ama, não exige, dá"
"Quanto mais invisível mais importante"
"Os sonhos estão certos, os medos errados"
"A vontade está no todo, o desejo nas partes"
"Só o amor é urgente"
"A verdade é amorosa"
"O amor espera, a paixão desespera"
"Nos céus puros do amor voam todas as aves em liberdade"
"Ficar doente é um sinal de saúde"
"Faz parte da ignorância considerar-se esclarecida"
"O amor é a chave que ilumina a escuridão, dá compreensão à ignorância e paz ao desasssossego"
"Muito ocupados, sem tempo para viver"
"Vencemos sempre que aceitamos a derrota"
"As tradições também se criam"
"O mundo não nos pertence. Nós é que pertencemos ao mundo"
"Não é preciso procurar. Basta não fugir"
"Se houver coragem para atravessar a dor, no fim encontrar-se-á o prazer"
"Escolhe a Luz"
"Somos a ponte entre o Céu e a terra"
"Não há nada mais amador do que o profissional nem mais profissional do que o amador"
"Não insistas"
"Mais importante do que o modo como se vive é a maneira como se morre"
"A recompensa do trabalho é a alegria do dever cumprido"
"O essencial não muda. O que parece alterar-se é (o) acessório"
"Não se conquista o Céu recusando a Terra"
"Ocupa-te das coisas do corpo mas dedica-te apenas às da alma"
"É a vulnerabilidade que nos torna fortes"
"O amor é extensivo. O desejo é intensivo"
"Os que julgam saber não sabem e os que sabem julgar não julgam”
"Porquê querer mais, quando já se tem tudo?"
"O mal não está em errar mas em não corrigir o erro"
"A comunicação cura"
"Por vezes, parar é andar"
"Hoje homem, amanhã mulher"
"A paixão cega-nos. Só o amor nos ilumina"
"A solução está em sair do problema"
"Não há portal sem guardião"
"Só vemos aquilo que somos"
"O que nos acontece é o melhor que nos podia acontecer"
"Não vai deixar de anoitecer pelo facto de resistirmos à noite"
"O risco vem do abuso"
"Não ames sem pensar nem penses sem amar"
"O tempo transforma o amargo em doce e o doce em amargo"
"Nunca é tarde para sermos quem somos"
"As nuvens escondem o Sol, mas não o eliminam"
"Diz-me o que compras, dir-te-ei quem és"
"Nunca nada está a mais. Tudo tem o seu lugar no universo"
"Tudo o que queremos está em nós"
"A felicidade mede-se pelo estado de saúde"
"Quer a dor quer o prazer profundos se calam"
"O amor não tem fronteiras"
"Quem é ciumento é porque não acredita no seu sentimento"
"Para o que gostamos temos sempre tempo e nunca estamos cansados"
"O amor é infinito"
"Nada há mais comunicativo do que o silêncio"
"Não temas o vazio pois, na verdade, ele é o pleno"
"A vida será fácil se nos banharmos na água cada vez que ela vem e secarmos ao sol cada vez que vai"
"A solidariedade é a resposta"
"O medo atrai, o desejo repele"
"Há caminhos sem saída"
"Vivemos entre o desejo e a frustração de ter"
"Não critiques ou lamentes, agradece"
"A solução está na aceitação"
"Só o Amor dá Alegria"
"A pior coisa que há é sermos bonzinhos"
"Se queres descansar, trabalha"
"Quanto mais sábio, mais silencioso e mais santo"
"Não há maior justiça do que o perdão"
"Morrer é renascer"
"Ou te envolves ou desenvolves"
"Para se ser activo é preciso ser passivo"
"Vencemos sempre que aceitamos a derrota"
"A privação é a rainha de todo o bem-estar"
"Quanto mais dentro mais fora"
"A realidade é muitas vezes a mesma, o que muda é a nossa visão dela"
"A verdadeira cura piora"
"Resistir é adiar"
"A liberdade está para além do medo e tem um preço"
"No momento em que tudo está perdido é que tudo se salva"
"Quanto mais liberdade damos, mais temos"
"A realidade é uma ilusão"
"Quem não sente dor, não sente amor"
"Enquanto não se eliminarem as causas, os efeitos continuarão a manifestar-se"
"É tão estúpido sexo sem amor, como amor sem sexo"
"Quanto mais independência maior fusão"
"A tristeza é uma doença"
"A carência dos Homens é abundante"
"Não fujas. Sente"
"O medo atrai, o desejo repele"
"A cada céu o seu inferno"
"Tudo o que queremos está em nós"
"O cimento é feito de grãos de areia"
"A beleza está na imperfeição"
"Quanto mais acima mais abaixo"
"A felicidade não se procura, semeia-se"
“O pior da vida? A expectativa. O melhor? A aceitação”
"Diz-me como vês os outros, dir-te-ei quem és"
"Sempre que resistimos envolvemo-nos"
"Nada tem de ser mais do que aquilo que é"
"O amor não tem condições"
"Se queres descansar, trabalha"
"A vida só começa onde acaba o medo"
"Tudo o que nos limita faz sofrer"
"São as fraquezas que nos tornam fortes"
"A verdadeira inteligência é amorosa"
"O mais importante não é o que temos mas a maneira como nos sentimos"
"Amar é gostar sem ilusões"
"Quem ama sabe e quem sabe ama"
"O amor é a única coisa que existe e persiste"
"A vontade está no todo, o desejo nas partes"
"O ponto máximo da perdição é também o início da salvação"
"Libertar não é fugir mas renunciar voluntariamente"
"O coração quer paz. É a cabeça que faz a guerra"
"A verdade está sempre oculta"
"A paixão afunda-nos. O amor faz-nos flutuar"
"É o amor que nos conduz à paz. É a paz que nos leva ao amor"
"Só seremos humanos quando formos livres"
“Não há evolução sem recapitulação”
"Só o que está para além da mudança é verdadeiro"
"Quem não aceita perder nunca ganhará"
"Só dói onde há ferida"
"As pessoas amam quem as manipula e manipulam quem as ama"
"Sê tu próprio. Sempre"
“Ou nunca se gosta ou jamais se esquece”
"No que amamos, demoramos"
“Nada substitui a falta de amor”
“O tempo faz aquilo que parecia impossível acontecer”
“O medo é o que, a uns passos do paraíso, nos mantém presos, no inferno”

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