quarta-feira, 11 de março de 2009

Armas de criação massiva



Esta é a penúltima parte do documentário de Petter Jeseph, que estreia a nível mundial este Domingo, dia Z. “Zeitgeist – Addendum” desenvolve a terceira parte, do filme de há um ano, dedicada ao sistema monetário.


Texto Dina Cristo

Em cerca de duas horas, o vídeo – disponível em português – explica a actual mecânica monetária, que cria dinheiro a partir da dívida, e como constitui um sistema moderno de escravidão geral. A nível individual, através dos empréstimos, dos juros e da inflação; a nível nacional pela ganância, corrupção e golpes de… globalização. Desde os anos 50 (Irão, Guatemala) aos anos 80 (Equador e Panamá) até ao século XXI (em 2002 na Venezuela) são desfilados exemplos de “assassínio económico”, cujos oponentes são baptizados de "terroristas". Dívida pública, desemprego e poluição são alguns dos efeitos identificados do abuso económico.
O filme expõe as fragilidades do que chama “corporatocracia” – economia corporativa e poder financeiro – e do “monetarismo”, sistema que coloca em primeiro lugar o dinheiro e o interesse particular, sustentado na percepção da escassez e na perseguição do lucro, gerando crime abundante. Uma “guerra económica”, classifica, liderada pelo Banco Central Norte-Americano (a Reserva Federal, ao nível americano), o FMI (a nível internacional) e o Banco Mundial, cujos resultados têm sido o aumento da pobreza e desigualdade social.
A esta “ditadura dos ricos”, de elite, baseada no egoísmo, na competição, na guerra e na agressão, com consequências ao nível da dependência da generalidade das pessoas e repercussões ao nível da exploração, da fome e da destruição, o autor propõe um novo sistema social baseado em “armas” de criação massiva. Defende que é tempo da sociedade mudar para um novo paradigma civilizacional, de unificação e comunidade, radicalmente diferente.

Prosperidade geral

Partirá de um pressuposto contrário: hoje, o ser humano tem, à sua disposição, recursos e tecnologia (mais do que) suficientes para gerar abundância, sustentabilidade e bem-estar a todos os habitantes deste planeta. Chegou a hora de passar a ser civilizado, decente, ético e a ter novos incentivos de vida bem mais amplos e humanizados.
Jacque Fresco, do Projecto Vénus, cujo teor o filme desenvolve, defende que é preciso desenhar novos valores. Existe bastante conhecimento tecnológico para que tenhamos energia acessível, limpa e infinita. Basta aproveitar os quatro elementos naturais (e daí retirar a energia solar, eólica, das ondas e geotérmica), e desbloquear a electricidade (no caso dos automóveis) e o comboio de levitação magnética - maglev (no caso dos aviões).
Neste sistema não haveria lugar para a publicidade, a legislação, as armas, as prisões, as compras e o próprio Estado. Ocupado com o seu desenvolvimento mental, o ser humano estaria preocupado na sua verdadeira contribuição colectiva em vez de ser obrigado a trabalhar para pagar as dívidas, contraídas para ter acesso aos bens e serviços básicos.
Colocado a circular em 2008, antes de se revelar a dimensão da crise, o documentário indicava dois sinais importantes de mudança: desconfiança política e incumprimento económico; davam-se também sete dicas para o comportamento, aqui e agora, de cada um: expor a fraude bancária, desligar o noticiário da televisão, boicotar o exército e as companhias de energia, rejeitar o sistema político e juntar-se ao movimento.
Nesta nova atitude destaca-se a transformação da própria consciência sobre o lado simbiótico da vida - a sua interdependência - e a importância do sentimento de ligação - comunicação - êxtase que traz alegria. Oitenta anos após o seu nascimento, as palavras de Martin Luther King parecem ressoar: «Eu acredito que a verdade desarmada e o amor incondicional terão a palavra final na realidade».

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quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Terrorismo mediático

Noam Chomsky faz este Domingo 80 anos. Altura para relermos um dos seus livros editados em Portugal*: a história de como se incitou uma população pacífica ao ataque militar.

Texto Dina Cristo

Como se consegue, em democracia, fazer com que as massas consintam políticas que vão contra as suas opiniões e interesses? Como, em liberdade e sem força física, se leva o público a aderir a ideias contrárias às que defende? Como é possível, enfim, viver numa espécie de totalitarismo auto-imposto? Para Chomsky a resposta é clara: através da propaganda, veiculada pela indústria das relações públicas.
A estratégia, com quase um século, está em enterrar a verdade e os problemas que a todos preocupam (interesse comum) num monte de mentiras. Como explicou em entrevista, a propaganda não é totalmente falsa (daí a sua eficácia) - há pedacinhos de verdade nos jornais - mas estão misturados com tanta desinformação massiva que precisam de ser decifrados, coisa que o “rebanho tolo” não faz.
A par da invenção de factos (a imagem do mundo tem uma relação muito remota com a realidade) e da falsificação da história (veja-se o caso do Vietname), a propaganda investe no controlo da massa. A domesticação faz-se em várias frentes: em termos físicos, mantendo-a parada e retida (em frente à televisão), distraída (com os jogos desportivos, as séries televisivas); em termos emocionais, aterrorizando (com toda a espécie de males), assustando e apavorando-a com todo o tipo de medos e, em termos mentais, inculcando a aprovação da força militar e da guerra como legítima e aceitável, mesmo quando as sondagens dizem precisamente o contrário: a população é habitualmente pacifista e prefere a ajuda humanitária à crueldade.
O controlo do estado de espírito, a instigação do medo e da incitação à guerra, através da criação de monstros inimigos, resulta numa tremenda passividade, isolamento social e dependência mediática. São assim criadas as condições para o círculo vicioso da sujeição à manipulação. Entretido (entre ter um produto hoje e obter mais um outro amanhã), distraído, afastado de si próprio (alienado), descuidado e desatento aos (seus) reais problemas, convencido de que a vida é aquilo que vê no televisor, o público facilmente se ilude. Enquanto se (dis)trai não pensa, não põe em causa os princípios do sistema no qual assenta a (sua) vida. Deixa-se levar.
Ignorando o que se passa, por mais que tenha a sensação de estar a ser bem informado, não sente, portanto, a necessidade de reflectir, discutir, partilhar, agir ou associar-se. Desta forma, não é preciso proibir os ajuntamentos e a livre discussão. A massa, assim apática e atomizada, obedece: ainda que em alguns míseros intervalos a sua consciência a questione, pelo facto de não comunicar (por mais que fale com os outros), terá tendência a considerar loucas essas ideias, politicamente incorrectas, que por vezes tem. Na verdade, o público está preso, mas pouca consciência tem da tortura mental no seu cárcere doméstico.

Força da união

Há mais de 25 anos que o inimigo deixou de ser o russo e passou a ser o terrorista. Contudo, o conceito tem sido aplicado apenas aos outros países: “Só é terrorismo se for contra nós. Quando lhes fazemos muito pior a eles, não é terrorismo”, cito o autor. Na verdade, quem quer a paz não vende armas e se o conceito norte-americano fosse tomado seriamente os EUA seriam invadidos e bombardeados, nomeadamente por violação dos direitos humanos.
É a elite dos profissionais especialistas, activos, que manipula e domestica o público. Fazem-no ao serviço dos “Senhores”, a comunidade empresarial que administra os “media”. Se, a par do controlo do sistema mediático, houver o domínio do sistema educacional e o conformismo académico, está garantida a fabricação do consentimento de políticas agressoras.
Contudo, e apesar dos investimentos na indústria de controlo dos espíritos, há uma via alternativa e esta depende da atitude de cada cidadão: está em si o poder de decidir se pretende viver numa sociedade totalitária, com meios de comunicação controlados a desinformarem, num mundo governado pela força ou, então, numa sociedade livre, com meios de comunicação social abertos, que informem e num mundo governado pelo Direito.
A solução é simples: a expressão, partilha, discussão de ideias e sentimentos, a participação; a associação aos movimentos de paz, por exemplo, assumindo as convicções de uma vida comum de respeito, harmonia e liberdade. Basta a coragem, que muitas vezes os “media” não têm, de dizer “o Rei vai nu” além da época natalícia.
É difícil mas não impossível passar da apatia e da marginalização à descoberta que não se está só, o que aumenta a força e vontade de expressão. Dessa forma, é possível evitar mais guerras, por um lado, e a não ser discriminado, por outro, por ter a opinião errada. Não mais a massa poderá tão facilmente ser posta “na linha” porque deixará de depender da aprovação dos seus Senhores: doravante terá os seus concidadãos em que se possa rever, identificar e apaziguar. Talvez a sua auto-confiança, segurança e satisfação sejam então notícia de primeira página num qualquer jornal de Marte.


* publicado pela Inquérito em 2003.

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