quarta-feira, 19 de março de 2008

Proibido morrer?


Homenagem às vítimas de Entre-Os-Rios

Antecedendo a Páscoa e a Primavera (época propícia a depressões) abordamos a morte e o suicídio, os últimos tabus, na adolescência e nos "media". Antecipamos a saída do novo livro de Abílio Oliveira, "Ilusões Na Idade das Emoções - representações sociais da morte, do suicídio e da música na adolescência", editado pela Fundação Calouste Gulbenkian.

Texto e fotografia Dina Cristo

«Numa sociedade que corre apressadamente para um futuro, sempre inatingível, a melodia interior que nos deveria sintonizar e equilibrar com os ritmos da natureza, e o sentido da vida que gostaríamos de perfilar, parecem-nos meros conceitos, longínquos e desvanecidos. E há sempre quem, um certo dia, grite: Tempus Fugit!, notando em si um «estranho vazio», mal-estar ou desconforto, como referem os Pink Floyd no célebre Time»
[1], afirma Abílio Oliveira, no seu mais recente livro, prestes a ser lançado no mercado editorial.
Nesta obra, baseada na sua tese de doutoramento, acrescenta o autor ser natural que alguém que «precisa de tomar decisões importantes, procure, constantemente, o melhor caminho a seguir. Talvez apenas no seu íntimo possa encontrar algo de seguro. Talvez tenha que arriscar para se conhecer, também através do que o circunda. Ao conquistar uma maior consciência da vida, por vezes pelo contacto próximo com a morte, o indivíduo pode entender que o suicídio não é mesmo uma solução»[2].
Segundo o mesmo investigador, a alternativa passa por cada um reencontrar o equilíbrio perdido, sem ter receio de se olhar e de chegar próximo «do outro», de estabelecer laços de intimidade, com a consciência de que, ainda «que se tropece de vez em quando, que cada dificuldade pode constituir um desafio, uma oportunidade de aprendizagem, um convite para um novo passo, cada vez mais firme e seguro, capaz de o conduzir mais profundamente e mais longe na Vida»
[3].
A auto-agressão poderá revelar uma forma de aproximação à morte… como forma de redescobrir (o sentido de) a vida. «Quando um jovem, em desespero, pensa seriamente em suicídio e chega a tentar a sua própria morte, encontra-se oprimido no limiar da dor e da tensão julgadas insustentáveis. O gesto suicida apela à nossa ajuda e simboliza o desespero supremo ou a recusa da vida, mostrando-nos uma vontade firme de não ser ou, talvez mais correctamente, de desaparecer para o que se tem sido, e ser algo diferente. Mais do que morrer, o jovem quer testar-se (...) e, no seu íntimo, ainda que não o refira, espera sobreviver e saber viver, consigo mesmo e com os outros, encontrar um objectivo que lhe reacenda a esperança esmorecida (ou perdida), a confiança e um sentido real para a sua vida»
[4].
De acordo com alguns dos resultados obtidos na investigação que este livro também resume, «em geral, a morte é também objectivada nas suas causas, como um fim incontrolável e não como o fim, na esperança de que exista vida para além do desconhecido»[5].
Morte interdita
A morte, em especial por suicídio, continua a ser “proibida”, quer ao nível dos rituais, que devem ser discretos, quer ao nível da sua expressão, dos sinais de luto. Fica implodida, nomeadamente a sua dor, intensificada com a rejeição do fenómeno, não sem marcas. «O interdito da morte e do suicídio dificulta a familiarização com algo de estranho (…), como o suicídio, e o desenvolvimento psicossocial dos adolescentes, como seres humanos.»
[6].
Vivemos numa “época desmorteada”, como lhe chama Abílio Oliveira, numa sociedade obcecada pela juventude e pelo domínio da vida sobre a morte, necrófoba que nega, rejeita, esconde e dessocializa o fenómeno: «Ainda que aconteça num contexto social público (ou hospitalar), é vivenciada em isolamento, de forma impessoal. Ninguém a deve referenciar ou dar-lhe importância. Tecnicamente admitimos a nossa morte mas, no quotidiano, agimos como se fossemos imortais»
[7].
«A meta é adiar e combater a morte e o envelhecimento em cada minuto da vida, com o apoio da ciência médica, da indústria da saúde e da informação dos media»
[8], explica Manuel Castells, que acrescenta: «À atitude antiga, onde a morte é, simultaneamente, familiar próxima, suave e indiferente opõe-se cada vez mais a nossa onde a morte mete medo a ponto de não ousarmos mais proferir o seu nome»[9].
Origens do tabu
Mas de onde veio o medo, a vergonha, o tabu em relação a um fenómeno (tão) natural? Nem sempre foi assim. A actual “crise de morte” (espelho de uma crise da própria vida, como afirma Abílio Oliveira), iniciou-se no final do Séc.XVI, com a doutrina escatológica saída do Concílio de Trento, no âmbito da Contra-Reforma religiosa, onde aparece o medo do juízo final, o paraíso e inferno, que tornou a morte ameaçadora e angustiante, os ritos mais pesados, a separação dos cemitérios das igrejas e ‘impôs’ o isolamento e o silêncio.
Até ao Antigo Regime a morte era algo familiar, ainda que a esperança de vida não fosse muito além dos 50 anos. O ser humano vivia em contacto permanente com o desaparecimento físico, através da peste, da fome e da guerra. Este, não só era aceite - fazia parte da vida social, o ritual era público, com grande cerimonial, mas sem dramatismo, as próprias crianças entravam nele – como as pessoas se preparavam para ele e conduziam, até poderem, o próprio ritual, pedindo perdão às pessoas que se aproximavam do seu leito. A morte era percepcionada como uma passagem para uma nova fase existencial, extra-terrena, e, por vezes, até ansiada. Saber morrer era uma arte.
Com a melhoria das condições de vida e a diminuição da mortalidade, sobretudo a partir do Séc.XVIII, a morte torna-se tabu, separa-se então cada vez mais da vida e tentam apagar-se dela todos os sinais. No Séc.XIX, a intolerância social face à morte aumenta e com ela a dor (emocional) que atinge os ritos funenários. «Claro que a expressão da dor dos sobreviventes é devida a uma intolerância nova quanto à separação. Mas não é só à cabeceira dos moribundos ou à lembrança dos desaparecidos que se comovem. Basta a ideia da morte para os comover»[11].
O Séc.XX “mata” a morte. «Durante o longo período que percorremos, desde a Idade Média ao século XIX, a atitude diante da morte mudou, mas tão lentamente que os contemporâneos não se aperceberam. Ora, desde há cerca de um terço de século, assistimos a uma revolução brutal das ideias e dos sentimentos tradicionais; tão brutal que não deixou de chocar os observadores sociais. Na realidade, trata-se de um fenómeno absolutamente estranho. A morte, tão presente e familiar no passado, vai apaga-se e desaparecer. Torna-se vergonhosa e objecto de interdição»
[12].
Na ânsia de a controlar, os seres humanos hoje escondem-na. A morte hoje é “vivida” como uma falha técnica e os nossos adolescentes percepcionam-na com pensamentos e sentimentos de medo e tristeza e também a desafiam, através dos comportamentos de risco. O suicídio «surge como a segunda causa de morte entre adolescentes (…) e há a considerar muitas mortes que resultam de acidentes sobre os quais paira a dúvida de terem sido intencionais (…) Acrescente-se que cerca de metade dos adolescentes que questionámos já teve ideias de suicídio e, também quase metade, conhece alguém que morreu por suicídio ou que tentou matar-se»
[13].
Suicídio nos “media”
Interdita e intolerada socialmente, a morte é, no entanto, exposta nos "media" sobretudo no seu lado mais espectacular e longínquo. «A tendência dominante nas nossas sociedades, como expressão da nossa ambição tecnológica e no seguimento da nossa celebração do efémero, é apagar a morte da vida, ou torná-la inexpressiva pela sua repetida representação nos media, sempre como a morte do outro, de forma que a nossa própria morte seja recebida com a surpresa do inesperado. Ao separar a morte da vida e ao criar o sistema tecnológico para fazer com que esta crença dure tempo suficiente, construímos a eternidade durante a nossa existência. Tornamo-nos assim eternos, excepto por aquele breve instante em que seremos envolvidos pela luz»
[14], afirma Manuel Castellls.
E como é que é representada a morte, especificamente o suicídio, na imprensa portuguesa? Olga Ordaz Ferreira respondeu a esta pergunta e concluiu, no seu estudo em 1995, que há dois tipos de representação do fenómeno. Um primeiro, que inclui os jornais Semanário, Independente, Expresso, Público e Diário de Notícias em que há uma abordagem diversificada do fenómeno, dos personagens e das causas. Neste, caso, por exemplo, os jornais salientam, para além da falta de integração social, o estilo de vida e a auto-percepção. No segundo tipo, que integra os jornais Crime e Correio da Manhã, em que predomina uma visão mais uniformizada, ao nível das metáforas, da imagem do suicida e das causas do fenómeno, centradas na falta de integração social e num comportamento desviante.
Entre os vários tipos de morte (natural, por doença ou acidente), a ocorrida por suicídio, trágica e controlada, é, talvez, a mais intensa e difícil de aceitar, mas «não há nenhuma sociedade ou micro-cultura, qualquer que seja o período histórico considerado, onde não exista suicídio, embora gerido em cada uma delas de forma diferenciada, conforme a sua mentalidade e ideologia específica sobre a vida e o seu valor social simbólico, sobre a morte e o significado após a morte»[15].

[1] OLIVEIRA, Abílio – Ilusões. Na Idade das Emoções (representações sociais da morte, do suicídio e da música na adolescênci). Lisboa. FCT/Fundação Calouste Gulbenkian, 2008, pág. 417. [2] Idem, ibidem. [3] Idem, ibidem.[4] Idem, pág.416. [5] Idem, pág. 409. [6] Idem, pág. 412. [7] Idem, pág. 93. [8] CASTELLS, Manuel – A sociedade em rede. Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 2002, pág.583. [9] ARIÈS, Philippe – Essais sur l `histoire de la morte en Occident du Moyen-Age a nos jours. Ed. Seuil, Paris, 1975, pág. 28. [10] A demografia do Antigo Regime e a família – temas de história 3, Edições Sebenta, s/d., pág.85. [11] A demografia do Antigo Regime e a família – temas de história 3, Edições Sebenta, s/d., p.85. [12] Idem, ibidem. [13] OLIVEIRA, Abílio – Ilusões. Na Idade das Emoções (representações sociais da morte, do suicídio e da música na adolescência). Lisboa. F.C.T./Fundação Calouste Gulbenkian, 2008, pág.410. [14] CASTELLS, Manuel – Op.cit.,pág.585. [15] FERREIRA, Olga – Representações sociais do suicídio na imprensa escrita, tese de Mestrado. Lisboa. ISCTE. 1995, pág.120.

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quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Rádiotelefonia de sessenta IV


Nesta quarta parte ecoamos o modo como a rádio tratou alguns dos principais acontecimentos dos anos 60.



Texto e fotografia Dina Cristo



Em 1962, teve início a primeira emissão da Rádio Portugal Livre, a 12 de Março: “Aqui Rádio Portugal Livre. Fala Rádio Portugal Livre. Uma emissora Portuguesa ao Serviço do Povo, da Democracia e da Independência Nacional”(1). Duraria mais 13 anos, fazendo contra-propaganda, sob a orientação do PCP. Contudo, “A audição era bastante pequena, segundo suponho e ao contrário do que na época afirmava a direcção do Partido”(2), escreveu Rui Perdigão.

Pouco depois, em Abril, estalou a crise académica de 1962, causando a demissão de Marcello Caetano da Universidade Clássica de Lisboa e a saída do director da PIDE, Homero de Matos. Nos anos seguintes, a guerra africana alastrou, primeiro à Guiné, em 1963, e depois a Moçambique, em 1964.

Em 1965 Humberto Delgado é assassinado e o seu corpo e da sua secretária descoberto em Villanueva del Fresno. Logo que informado, José do Nascimento seguiu para Espanha, conseguindo enganar os militares armados, que fiscalizavam o acesso ao local. As expectativas de conseguir trazer uma reportagem gravada não se concretizaram, já que todos os intervenientes (o sub-delegado de saúde, o motorista, o menino que descobriu os corpos, a polícia local e até o povo) se recusaram a falar (3).

Quando chegou ao RCP, e se preparava para contar aos ouvintes a sua aventura, foi impedido. “Paradoxalmente eu, que não havia conseguido uma palavra dos espanhóis e só poderia descrever o que tinha visto, fui proibido pelo antigo SNI de continuar o meu relato ao microfone (…)”(4). António Caetano Carvalho, funcionário superior do SNI, telefonou para o RCP proibindo a transmissão de informações sobre Humberto Delgado: “Vocês deram há pouco uma notícia relativa ao facto de terem enviado um enviado especial a Espanha. Há instruções superiores no sentido de as notícias relativas a este acontecimento, desde que não sejam das agências autorizadas, carecerem de autorização da censura”(5).

Pelo funeral de Humberto Delgado, a rádio transmitiu o som fúnebre do seu enterro. A reportagem descreveu a urna, coberta pela bandeira portuguesa, em seda, tendo desenhado o escudo da Força Aérea e o povo, imenso, que (quando deu entrada na nave do Santo Condestável) se reunia em redor, aplaudindo vibrantemente(6) .

O ano de 1965 não terminaria ainda sem a extinção, assalto e destruição da Sociedade Portuguesa de Escritores, devido ao prémio atribuído ao livro “Luuanda” de Luandino Vieira, então no Tarrafal.

Em 1966, quando Américo Tomás comemorou oito anos à frente da presidência da República, o “Diário Sonoro” abriu com o aniversário da reeleição do chefe de Estado: “Passa hoje mais um ano sobre a data em que o almirante Américo Tomás foi reeleito chefe do Estado, em confirmação do seu anterior mandato”(7). Na presidência da República, acrescentava ainda a notícia, foram recebidas, por tal motivo, muitas saudações, procedentes de todos os pontos do país.

O noticiário nacional, com mais de dez minutos, incluía uma notícia sobre a abertura de uma agência do Banco de Crédito Comercial de Benguela, como forma de extensão dos estabelecimentos de crédito metropolitanos às províncias; um comunicado da Polícia de Segurança Pública (2’20’’) apelando ao pagamento de imposto sobre as viaturas importadas, numa linguagem eminentemente escrita e rebuscada; a informação sobre a recepção, nos paços do Concelho lisboeta, de uma representação da colónia portuguesa, residente na República do Congo ex-Belga, que veio a Portugal assistir às comemorações do 40º aniversário da revolução nacional e outras notícias, como os exames para ingresso na universidade, e o Campeonato Mundial de Futebol, com um comentário de João Saldanha, da Rádio Nacional do Brasil: “Parabéns a Portugal. Parabéns pela brilhante participação na copa do mundo(…)”(8).

Artur Agostinho terminava a intervenção no radiojornal: “Senhores ouvintes este o comentário que se nos oferece fazer agora, neste momento, e que talvez possamos completar um pouco mais tarde com outros apontamentos e outras sugestões, que nos tenham sido oferecidas por este encontro dramático entre Portugal e a Inglaterra. Por agora é tudo”(9). Artur Agostinho relatou ainda, em directo, o desfecho do campeonato, em que pela primeira vez Portugal ficou apurado para a fase final.

Em 1967, o Papa Paulo VI visitou Fátima, para assistir às cerimónias comemorativas do 50º aniversário do 13 de Maio, o que levou a uma movimentação inusitada de meios técnicos e humanos, e mais de 850 acreditações de jornalistas estrangeiros, “tendo a Emissora Nacional mobilizado todo o seu pessoal e meios técnicos de que pôde dispor”(10). Contudo, “não houve nada de novo no plano técnico. As transmissões fizeram-se como todas”(11).

O “PBX”, programa que se havia estreado em 1967, reportou as inundações de Lisboa, adquirindo uma função de serviço público e prolongando-se ao longo da madrugada: “(…) o trabalho de reportagem e de cobertura do trágico acontecimento foi de tal ordem que o programa acabou por se transformar numa espécie de centro de informações e de comunicações. Os bombeiros, a polícia e as diversas entidades envolvidas no sinistro davam informações, faziam apelos, pediam notícias”(12). Os produtores do “PBX”, Parodiantes de Lisboa, comemoravam 20 anos aos microfones da rádio, fazendo humor, nesse mesmo ano de 1967.

Salazar exonerado

Em 1968, dois dias após um acidente vascular, que se seguiu à queda da cadeira de Salazar, um relatório médico explicou o estado de saúde do Presidente do Conselho. “(…) Um dia depois do aparecimento das primeiras manifestações patológicas foi feito o diagnóstico do hematoma e da sua localização e realizado o trabalho cirúrgico apropriado. O presidente teve uma recuperação notável e dois dias depois da operação os sintomas tinham desaparecido a ponto de se poder considerar em vias de atingir o seu estado normal. Infelizmente, o regresso às suas actividades habituais foi subitamente interrompido há dois dias por um acidente vascular cerebral, hemorragia no hemisfério cerebral direito. Esta hemorragia não teve qualquer relação com o hematoma sub-dural de que anteriormente sofreu, mas foi consequência da ruptura de uma artéria cerebral. Uma hemorragia intra cerebral é uma lesão grave que ameaça a vida do doente. O presidente está a lutar valorosamente para vencer a lesão do seu cérebro(…)”(13).

No dia 10 de Setembro, João Patrício, comentador político da EN, responsável pelos editoriais e notas do dia, afirmava aos microfones a influência de Salazar: “O prestígio do Doutor Salazar é realidade incontroversa, que não poderá minimizar-se ou negar-se. Ao tomar o País conhecimento de que o Doutor Salazar adoecera e havia sido submetido a delicada intervenção cirúrgica, logo, por toda a parte, se geraria espontâneo e colectivo movimento de ansiedade e de simpatia e de respeito pela sua figura prestigiosa. Sentia-se que a Nação lhe entregava, uma vez mais, o coração e se reunia à volta de si para, como ele, lutar e vencer nova crise – agora em combate contra a doença”(14).

A 26 de Setembro de 1968, Américo Tomás, sonoramente emocionado, exonerou Salazar e indigitou Marcello Caetano como novo Presidente do Conselho: “Continuando muito gravemente doente, o presidente do Conselho, Dr. António Oliveira Salazar, e perdidas todas as esperanças, mesmo que sobreviva, de poder voltar a exercer em plenitude as funções do seu alto cargo, atendendo a que superiores interesses do país têm de prevalecer sobre quaisquer sentimentos, por maiores e mais legítimos que pareçam, circunstância que obriga à decisão dolorosa de substituir na chefia do Governo o Dr. Oliveira Salazar, tendo ouvido o Conselho de Estado e não devendo adiar por mais tempo é, no entanto, com profunda amargura, só minorada pelo que dele directamente colhi, de que não desejava morrer no desempenho das suas funções, que o uso da faculdade conferida pelo número primeiro, do artigo 81 da Constituição, exonero o Dr. António Oliveira Salazar do cargo de presidente do Conselho de Ministros, do qual manterá todas as honras a ele inerentes, e para o substituir nomeio, nos termos do mesmo preceito constitucional, o Dr. Marcello José das Neves Alves Caetano”(15).

No dia seguinte, João Patrício intitulava o seu comentário de “renovação na continuidade”: “A mensagem dirigida pelo chefe do Estado a comunicar ao País aquela histórica decisão é um documento que, pelo seu valor patriótico e humano, todo o português subscreveria. O respeito pela unidade e pela fidelidade aos princípios defendidos toda a vida por Salazar será, nesta hora suprema, um motivo de máxima meditação e a mais elevada homenagem a prestar ao grande Português que tanto honrou e engrandeceu a Pátria comum. Foi constante pensamento político de Salazar que os Governos do Estado Novo eram sempre o mesmo governo; só os homens mudam de vez em quando. Renovação na continuidade”(16).

Na era salazarista, João Patrício havia comentado temas como a entrevista de Salazar à revista “Extra”, o seu 36º aniversário como presidente do Conselho, o seu discurso de 23 de Setembro de 1966, a tomada de posse dos comandantes gerais da PSP e Legião Portuguesa, a construção da barragem de Cabora-Bassa, a emigração para o Ultramar e o esmagamento da Checoslováquia. Goa não fora esquecida: “Goa, pelo coração e pela história, continua a ser orgulhosamente portuguesa. Politicamente, também. Só a administração e a soberania locais nos foram clamorosamente usurpadas pela garra rapace da falsamente pacífica União Indiana. Há duas situações de facto: a realidade da usurpação e a realidade da permanência espiritual lusíada em terras distantes da costa do Malabar, a despeito dessa ignominiosa usurpação. São duas realidades incontroversas: uma promanada de um acto de violência e de injustiça internacionais; a outra, resultante de um acto de são e exemplar sentimento de amor pátrio”(17).

Em comentário à encíclica “Humanae Vitae” de Paulo VI, nomeadamente à anti-concepção, João Patrício afirmava. «Com efeito, segundo dados fornecidos por especialistas responsáveis, “dos 50 por cento dos solos do Planeta passíveis de cultivo, só 10 por cento produzem actualmente, restando ainda 40 por cento para serem utilizados na luta contra a fome”. Não têm, portanto, os neomalthusianistas razão para fundamentarem o emprego da limitação científica da natalidade no drama natural da subalimentação nem recearem uma constante ascensão demográfica. Há, assim, dois problemas morais convergentes: o anti-concepcionismo, por um lado, antinatural, condenado por Deus; e o egoísmo e premeditado abandono de terras cultiváveis, igualmente antinatural e verberado por Deus. “A vida humana – segundo João XXIII, citado por Paulo VI – é sagrada; desde o seu alvorecer compromete directamente a acção criadora de Deus»(18).

(1) PERDIGÃO, Rui – O PCP visto por dentro e por fora, pág.52. (2) Idem, pág. 58. (3) A. H. RDP. 01/11/1976. AHD 10584. (4) Idem, ibidem. (5) A.H. RDP. RCP. 1965. AHD 584. (6) A.H. RDP. RDP. 01/11/1976. AHD 10584. Extracto 11. (7) Idem, EN 1966. (8) Idem, ibidem. (9) Idem, ibidem. (10) “60 anos de rádio em Portugal”, pág.305. (11) CRISTO, Dina – “Rádio anos 60”, pág. 2. (12) MAIA, Matos - Telefonia, Círculo de Leitores, pág.278. (13) A.H. RDP. EN 01/09/1968. AHD 1922. Faixa 10. (14) “Editoriais e notas do dia. Das realidades aos mitos”, pág. 30. (15) A.H. RDP. EN 26/09/1968. (16) Op. Cit. Pág. 34. (17) Idem, pág. 18. (18) Idem, pág. 26.

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quarta-feira, 25 de junho de 2008

Filhos da estrada


Depois da comemoração, ontem, do Dia Nacional do Povo Cigano, relembramos as suas antigas tradições num artigo escrito há mais de vinte anos, com base em “O povo cigano”, de Olímpio Nunes.

Texto e fotografia Dina Cristo

Muitas pessoas desejam hoje paz, amor, liberdade. No entanto ficam apenas pelos sonhos. Os ciganos, com uma personalidade única, vão muito mais longe. Ultrapassando todos os obstáculos vivem uma vida repleta dos ideais do povo civilizado, reflectidos nas coisas mais simples. São filhos do sol e do vento.
Os ciganos faziam parte de um povo multiforme criador e herdeiro de culturas antigas como a mohenjo-dora. Estas sofrem uma regressão com as invasões arianas, ressurgindo a concepção religiosa primitiva e a devoção mística a par dos mais díspares ritualismos.
Com um género de vida já semi-nómada iniciaram assim o seu peregrinar por volta do século X. Deixam o noroeste da Índia, atravessam o vale do Danúbio - onde estacionam longo tempo, assimilando muitos costumes húngaros – a Pérsia, Arménia, Península Balcânica, onde se qualificam nas artes dos metais.
No século XV, com a invasão turca, retomam a marcha para a Europa Ocidental, de onde se deslocam para todo o mundo em inúmeros e pequenos núcleos.
Aquando da sua chegada, muitas designações lhes foram atribuídas, baseadas desde a sua cor às regiões de maior permanência. São três os principais grupos: Rom, mais tradicionais, com subgrupos de várias profissões, Sinti, devido à sua longa estada em França, e Gitanos, estabelecidos na Península Ibérica.
Nas primeiras décadas de estadia, foram vítimas de expulsões e repressões, chegando mesmo a morrer, atingindo o auge com os nazis.
É perante esta sociedade, então desconhecida, que sofrem um enquistamento. Ignoravam as línguas e eram importunados por outra mentalidade cheia de curiosidade, começando aqui o temor e ao mesmo tempo desdém ao estranho.
Entretanto, à medida que se distanciam no tempo e no espaço do seu berço territorial, vão-se afirmando cada vez mais como ciganos, pois que vão dando respostas muito próprias às necessidades surgidas. É por esta razão que apresentam ainda hoje características antropológicas e socias peculiares que os distinguem dos meios humanos onde vivem, mantendo uma genuinidade étnica.
Cultura
A área cultural está na sua própria etnia, nos seus elementos comuns que lhe dão unidade e a preservam. Embora sendo uma raça única é diversificada devido à permanência mais duradoura em determinadas regiões.
Esta é uma cultura ágrafa, que foi perpetuada pela tradição oral. A sua língua original é o Romani. Pertence às indo-europeias, com grande parte do vocabulário indo-ariano. No entanto, com o seu peregrinar, são influenciados por vocábulos dos vários países (alguns dominam diversas línguas) pelo que surgem vários dialectos.
Como povo nómada que é, liberta-se de todo o complexo burocrático e artificial da nossa civilização, levando-o a algum imobilismo cultural. Embora tivessem transformado algumas formas externas – pela sua utilidade imediata e necessária – muito pouca a sua forma interna foi seduzida pelo ambiente social externo. São idênticos a ciganos de séculos anteriores, incompatibilizando-se com as leis das sociedades modernas que os rejeitaram, tornando-os definitivamente (como) marginais.
Povo
O povo cigano só é plenamente feliz perante um cenário natural, tirando proveito da sua liberdade. Reflecte-se na tranquilidade dos campos, na fogueira sobre a relva à sombra das árvores, na largueza dos vales, na grandeza das montanhas, no ilimitado do céu, no brilho das estrelas, no esplendor repleto no contraste entre o luar e o sol.
Foi pelo amor à liberdade que se tornaram nómadas, fugindo aos que os pretendiam escravizar. Assim caminham à rédea solta durante séculos, dando-lhes esse permanente vaguear pelas zonas mais distantes e diversas do globo uma enorme alegria e paz de espírito. A terra não tem para si fronteiras; a sua pátria é o mundo.
Preferem passar as situações mais humilhantes a deixar a viagem. O caminho está no seu próprio sangue, faz parte da sua natureza. São filhos da estrada, mudando constantemente de horizontes.
Nas suas deslocações em campanhas estabelecem uma perfeita comunhão entre si e quando encontram outros ciganos confraternizam-se. Encontram o mesmo contexto, passado, no fundo revem-se a si próprios, conscientes de um valor exclusivo.
Para transporte utilizam desde cavalos, carroças a bons automóveis e roulottes, dependendo da condição financeira. De acordo com o seu carácter aproveitam também abrigos naturais como pontes e cavernas. Preferem a floresta como local de estacionamento. Aqui, encontram lenha para a fogueira, pasta para os muares e possibilidades de caçar. À frente da tenda a fogueira, ao lado os animais.
Devido às condições climáticas durante o Inverno fixam-se temporariamente, esperando impacientemente o retomar, uma vez que para o cigano permanecer muito tempo em qualquer parte é anormal: “cavalo parado muito tempo… formigas nas patas”, dizem.
É num ambiente humano de solidariedade e coesão do grupo, com intensa afectividade e em espaço reduzido, que o cigano encontra o refúgio das agressões sociais.
Essa sociedade onde tem como “recompensa” do apego às tradições – na negação à inovação externa – a pobreza, o analfabetismo, a miséria. No entanto, mesmo perseguidos, menosprezados e humilhados confessam não querer mudar de vida.
Não têm a noção do tempo. O importante é a vida presente, pois que o passado não importa e o futuro é incerto. Normalmente não se orientam por relógios ou calendários, mas através de fenómenos naturais como o relinchar do cavalo indicando a aurora. Muitas vezes não sabem a sua idade e desconhecem a dos seus filhos. Estes são novos ou velhos, o resto não tem importância.
São versáteis ao longo da vida e têm um alto grau de inteligência. São simples, dão valor às pequenas coisas, não têm ambições de bens materiais – o que importa é sentirem-se bem e serem felizes.
O casamento não funda a família. É apenas um rito de passagem do estado de adolescente para adulto. A boda prolonga-se durante uma semana. A rapariga fica dependente da sogra e o rapaz do pai, sendo este o chefe da família com toda a autoridade sob o lar. O jovem casal só é dignificado a partir do nascimento do seu filho, que normalmente recebe o nome do avô paterno.
A criança enquanto não é baptizada é considerada impura. Os filhos não têm berço e depois andam semi-nus. Muito cedo se tornam úteis e são obrigados a mendigar pelo aperto da fome, tornando-se importantes elementos na economia doméstica.
Costumes
Desconfiados e muito prudentes para com o desconhecido (gadjé), raramente lhe dizem a verdade. Aliás, a mentira aliada à sua língua constituem as suas armas.
Como recurso a necessidades vitais pratica o roubo, essencialmente de alimentos e roupa. Acredita que se a Mãe-Natureza é pródiga tudo é de todos e aqueles que têm bens suficientes podem dispensar aos necessitados. A prática é normalmente longe do local onde estão estabelecidos, após uma experiência para recolha de informações preciosas.
Em alternativa à insegurança da vida que praticam tornam-se mendigos, em especial mulheres e crianças. Para provocar a piedade nos passantes inventam manhas e mentiras. Também comum e[ra] o contrabando e a passagem de notas falsas. Entretanto, para esquecer a fome tomam o gosto pelo cigarro desde a infância, evidando todos os esforços para o obter. Adoram fumar cachimbo. A bebida é presença assídua em festas e bodas e é muito comum a ingestão em excesso. Só após a boca molhada exteriorizam os seus estados íntimos.
O cigano cumpre integralmente as normas: respeito aos seus e aos velhos, amor extremo aos filhos e fidelidade conjugal. Para julgar conflitos ou problemas recorre à kris – assembleia de conhecedores das normas de tradição - muito temida.
Crenças
Os ciganos adoptaram um comportamento religioso repleto de superstições e mitologias, perfeitamente integrados nos seus valores familiares, económicos e culturais.
Acreditam numa realidade extra-terrena - entre a qual distinguem o mundo dos mortos, entidades com vida e poderes específicos - para os ciganos tão verdadeira como objectos materiais. Têm assim uma visão de continuidade entre os dois tipos de existência.
O seu Deus chama-se Del, do qual tudo depende, razão pela qual está sempre presente na sua mente. Não têm, contudo, uma religião própria, adoptando regra geral a dos países em que permaneceram mais tempo. São dados à bruxaria, da qual tiram proveito, utilizando frases feitas para ganhar umas moedas. Lançam pragas, maus-olhares, provocado pelo ódio ou inveja. Praticam a adivinhação, eficaz com mulheres grávidas e velhas. Só a mulher tem estes dons, pelo que é sua actividade ler a sina. Acreditam em poderes ocultos, especiais em certos indivíduos, na telepatia e no poder místico do fogo e da água (esta é considerada com mais virtualidades).
Têm uma grande diversidade de ritos e crenças em relação à doença e à morte, onde colocam grande carga afectiva. Em relação à enfermidade são-lhe dadas explicações sobrenaturais; assim, é causada pela introdução de um espírito mau no doente que, nos casos graves, terá de chamar uma curandeira para o expulsar. Há uma mistura da religião cristã, magia e superstições nas “mezinhas” aplicadas tal como nas palavras rituais dos feitiços.
Quanto ao falecimento há uma ambiguidade: homenageiam a alma crendo na sua imortalidade e no seu espírito protector (butyakenga) e têm temor pelos seus malefícios (muló). Acreditam que o morto faz uma peregrinação dolorosa, atravessando montanhas e desertos de ventos gelados e combatendo monstros - é o carácter imortal da alma.
O defunto deixa na terra parte do seu espírito que habitará um descendente, protegendo a restante família. No entanto, o muló – também ele ambulante – pode atormentá-los e pretender ter relações amorosas com mulheres viúvas durante a noite, pelo que é vigiado. Para evitar, satisfazem-no visitando os túmulos, colocando flores e/ou queimando velas.
O velório é acompanhado de pranto, gritos, lágrimas, ruidosas lamentações, para alívio. O luto é condição para praticamente todos os parentes e se é próximo durante quinze dias os familiares não se lavam ou comem alimentos quentes, evitam ainda carne, álcool, músicas e participações em divertimentos. Após o seu enterro é “esquecido” e proibido pronunciar o seu nome ou lamentar pois ele teria desejos de voltar à terra para os consolar. Os seus objectos são queimados pois crêem que o seu espírito vive sobre as coisas de seu uso.
Para auxílio do defunto nas dificuldades que irá encontrar e para protecção da família fazem ritos funerários, mas só após a sua decomposição, altura em que a alma é libertada. Antes estava somente dormitando, razão pela qual lançavam, juntamente com o cadáver, comida e objectos pessoais.
O rito mais importante é o “pomanal”, cerimónia após ano e meio sobre a sua morte, onde se marca o fim do luto. É feita uma encenação, na qual um membro da família com idade próxima o imita em tudo, fazendo-o reviver. Após o banquete lançam-se os restos da comida no rio para demonstrar que a sua lembrança foi apagada.
Todos os ritos visam o bem-estar do morto, pois acreditam que o comportamento dos vivos tem uma influência directa no mundo dos defuntos. Este reúne todas as condições para intervir na existência dos demais e castigá-los.
Ocupações
Laborar para o cigano significa vender; também com uma visão de lazer vai praticando actividades marginais ligadas à vida nómada, livres de horários rígidos e patrões. Só trabalham por extrema necessidade ou para distracção do ócio.
Há uma divisão sexual do trabalho. O homem ocupa-se da actividade produtiva: trabalha o metal (estanhador, caldeireiro, ourives, latoeiro, cutileiro, ferrador), é amestrador (de ursos, macacos), malabarista, acrobata, veterinário, contrabandista, músico e fabricante de instrumentos de cordas, a sua predilecção. Também caçam e pescam, fazem a tosquia de bestas, mas são essencialmente vendedores ambulantes (bufarinheiros) de tecidos e gado (muares, burros, cavalos). Para além do negócio, o cavalo serve para montar, embora não o faça com frequência, e para transporte. É o seu companheiro inseparável e é tratado como um membro da família. O cigano é hábil no tratamento de qualquer animal e perito em fazer passar por bons ginetes.
É a mulher que cuida da alimentação (procura, rouba ou compra) e prepara as refeições - uma por dia, embora comam diversos acepipes. O seu prato preferido é ouriços-cacheiros. A alimentação é muito variada com predominância da carne. Apreciam muito a cebola e a bebida habitual é água. Não têm qualquer repugnância em se alimentar de animais mortos por doença. Os pobres costumam comer com os dedos, esfregando-os no cabelo para brilharem. Nunca deixam restos pois é sinal de desgraça para o próximo dia.
Arte e fisionomia
A sua alegria oculta explode nas festividades. Nestas manifestações ciganas, a música, dança e canto são elementos indispensáveis. Expressam os seus sentimentos quotidianos, reflexo da sua maneira de viver.
Devido à dificuldade de compreensão do canto, as formas mais receptivas foram a música. É sobretudo instrumental na Hungria, vocal na Rússia e dança em Espanha, onde alcança êxito internacional. Da sua cultura musical ficam orquestras célebres na Europa, os países de Leste mantêm tradições no canto, na Rússia são representadas peças em romani. Liszt foi o grande divulgador. Alguns músicos ficam nomes consagrados como Paco de Lucia, guitarrista de Paris. Também muitos temas do seu folclore inspiram compositores e fazem vibrar aficionados.
A sua música é repassada de nostalgia, assente numa espécie de mágica transmitida, própria da sua alma. Deram expressão única à música flamenga que embora tenha influência Andaluzia é muito genuína, com uma variedade rítmica em constantes ornamentações de melodia. Prestam além dos espectáculos, lições.
Em Portugal, são cerca de 50 mil, que se dedicam ao comércio ambulante de tecidos e também gado. Chegaram cerca do século XV, ao Alentejo, zona do seu agrado, provenientes da Estremadura castelhana.
Geralmente magros e esbeltos; contudo, as mulheres de meia-idade tornam-se muito fortes. São morenos, cabelo ruivo – quase sempre cumprido, mesmo em certos homens – rosto cumprido, dentes muito brancos. Olhos escuros, de olhar inquieto que vê e prevê; andar irregular, corpo muito direito. São muito resistentes e parece que falam com as mãos, de tantos gestos que fazem.
A mulher é coquete; usa fatos garridos, gosta muito de argolas, colares, botas ou chinelos. Cobre as pernas e despreza o busto. O homem usa normalmente patilhas, fatos esfarrapados. O seu traje tradicional era a jaqueta com alamares, calças apertadas e chapéu de abas largas.

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