quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

Perdão?


Copyright © Neale Donald Walsch, 1998



Na véspera do Ano Internacional da Reconciliação, propomos uma viagem: da culpa (em que nos degeneramos, destruimos, paralisamos) à desculpa (em que nos regeneramos e reconstruimos a nossa vida) - conscientes dos erros, corrigimo-los e, desenganados, absolvemo-nos.

Texto Dina Cristo fotografia(*) Frank Riccio (**)


«- No momento em que eu te atacar e atingir, - respondeu a Alma Amiga – no momento em que te fizer a pior coisa que possas imaginar – nesse preciso momento… - sim? – interrompeu a Pequena Alma. –Sim? A Alma amiga ficou ainda mais quieta. - Lembra-te de Quem Realmente Sou»
[1].

Quem nos fere não é mais do que uma alma amiga, perfeita e maravilhosa, como todas, Luz pura que, por amor, acede penetrar na vida física, pesada, e fazer-nos coisas terríveis. São anjos disfarçados, só para que possamos experimentar (ser e sentir) a compreensão e o perdão e perante a escuridão, o que julgamos como mal, lembrarmos que todos somos o Sol.

Nesta parábola para crianças, editada em Portugal pela primeira vez em 2001, Neale Donald Walsch recorda que «(…) para se experimentar o que quer que seja, tem de aparecer exactamente o oposto»
[2]. É assim que da culpa, temos, lembra Louise Hay, o poder, a capacidade, a liberdade e a inteligência, para atingir a desculpa.


Perante circunstâncias adversas que nos fazem sentir dor imensa - raiva, amargura, ódio, rancor, tristeza, arrependimento, desejo de vingança e medo – temos o poder de escolher se nos mantemos como vítimas ou fazemos o nosso caminho até à responsabilidade. Como afirma Louise Hay
[3]: “Você pode escolher continuar preso e amargo ou pode fazer um favor a si mesmo perdoando voluntariamente o que aconteceu no passado; deixando-o; e depois seguindo em frente para criar uma vida alegre e que o faça sentir-se realizado”.

A decisão mais comum é o “primeiro nível”: culpar-se e culpar os outros. No centro está (quase) sempre a dor. Tais feridas vão-se formando ao longo da vida. Ao nível religioso (ao prazer é atribuído um sentimento de culpa), social, cultural, familiar (as críticas por sermos, pensarmos, expressarmos ou actuarmos de dada maneira). Espalhada um pouco por toda a parte, como vírus, a dor, mais cedo ou mais tarde, acaba por se transmitir a outrem, sob qualquer forma de hostilidade. E a ferida, se não curada, agrava-se.

Da culpa…


Sempre que alguém culpa outra pessoa está a assumir o papel de vítima e a dar-lhe poder. Transfere para o outro a responsabilidade que não sabe, pode ou quer assumir. Neste caso o passado mantém-se vivo, recorrentemente ou, até, obsessivamente lembrado, tornando-se mesmo numa prisão ineficaz que paralisa. Por vezes, um preço a pagar para se permitir cometer o mesmo erro: «Os sentimentos de culpa não o ajudam, apenas o mantêm paralisado, mas podem, pelo contrário, fazer aumentar as hipóteses de repetição do comportamento indesejado, isto é, os sentimentos de culpa podem tornar-se a sua própria recompensa, dando-lhe também permissão para que repita o comportamento»
[4].

Vive-se em ódio, raiva, ansiedade, conflito (tipicamente mental), num stress que conduz à doença e à infelicidade. Vivemos ressentidos, com o lado mais negativo da experiência, o pecado, o castigo, o dever de sacrifício. Uma pós-ocupação vã, assente na (auto)rejeição, desaprovação e reprovação inútil. Segundo Wayne W. Dyer, as prisões, tendo em conta as taxas de incidência, são um exemplo de como a instigação da culpa não resulta.
Fase intermédia é aquela que passa pelo reconhecimento, expressão (da dor e da raiva, nomeadamente pelo choro), arrependimento (através da confissão), compreensão e purificação. Neste caso, os erros mais não foram do que vias para o conhecimento do caminho mais correcto e são, pois, motivo para premiar, celebrar e elogiar em vez de condenar, criticar ou castigar. Houve uma evolução, através da experiência (ainda que equívoca), para o conhecimento.

A cura pode ser facilitada através de terapias naturais, como os remédios florais (floral “pine”) ou auro-soma (frasco nº 81) bem como de uma espécie de higiene mental todos os fins-de-semana: ao Sábado, dia especialmente indicado para reparar e perdoar, tratar de assuntos delicados e estar em repouso (sabático) junto da Natureza, e ao Domingo, altura propícia a considerar todas as dívidas pagas, saldadas e ultrapassadas. A visualização e meditação são outras das formas de dissipar a culpa, tratando-a no presente, evitando que se acumule. Marta Cabeza lança as perguntas: “Porque te culpas há tanto tempo? Porque carregas com culpas que não são tuas? Porque tens medo que te culpem? Porquê?”
[5].


[6], que encontrou na culpa uma das causas para várias doenças, definiu sete etapas para o perdão. Já há décadas, Louise Hay havia notado a mesma ligação: «Já descobri que o perdão, o libertarmo-nos do ressentimento, contribui para dissolver inclusivamente o cancro».


… à desculpa

Depois do trabalho psicológico de enfrentar a dor, manifestá-la e aprender com ela, poderá atingir-se o “segundo nível”, aquele em que nos damos ao direito de ter (tido) não só os erros e enganos, com os quais aprendemos, mas inclusive sentimentos negativos, uma vez que nos são úteis; segundo Lise Bourbeau, o medo indica a necessidade de auto-protecção, a raiva a de afirmação e a tristeza a de desapego.

Neste caso desculpamo-nos a nós próprios pela vivência equívoca bem como à outra pessoa, ou seja, assumimos a responsabilidade pelos acontecimentos. E, quando acontece o auto-perdão, perdoar os outros simplifica-se. «Ás vezes é difícil perdoar, mas torna-se ainda mais difícil perdoares a ti próprio»
[8], escreve Marta Cabeza ou, como afirma Luís Simões, "(...) quando não perdoo os outros é só porque não consigo perdoar-me a mim próprio"[9].


Ao isentar de culpa, o que só o coração tem coragem para fazer, por amor e compaixão, o indivíduo liberta-se do passado, esquece-o. E assim, num acto e visão positiva, curamo-nos perante a absolvição de nós próprios e do outro. “Só o perdão”, afirma Bernabé Tierno, “tem o poder de nos libertar das dolorosas amarras do ressentimento e de nos devolver o equilíbrio e a paz interior (…) Perdoar até nos libertarmos por completo do ressentimento e do rancor, aumenta a nossa saúde física, psíquica e mental, beneficia o corpo e o espírito (…) Perdoar é arrancar a raiva, destruir qualquer resquício de rancor, é construir-se a si mesmo, salvar-se a si próprio»

Pacificado, consciente do erro, mas não tolerando a situação que reprova, deixa-a e sai; segue em frente, recomeçando a sua vida. É a grande perda (de um relacionamento, um emprego, uma habitação) e o desapego, a entrega depois de se haver encontrado, o que tanto se procurou. Mas as pessoas, essas, são perdoadas.

O perdão implica uma (auto)aprovação e (auto)aceitação. Errar é humano (cair no mesmo erro é que não) e já mesmo S. Paulo escrevia na Epístola aos Romanos (7:19) «Porque não faço o bem que quero, mas, o mal que não quero, esse faço»
[11] e exortava na carta aos Colossenses (3:13): «Suportando-vos uns aos outros, e perdoando-vos uns aos outros, se algum tiver queixa contra outro; assim como Cristo vos perdoou, assim fazei vós, também».


Em síntese, ou nos culpamos (guerreamos, adoecemos e deprimimos) ou nos perdoamos (pacificamos, curamos e alegramos). Como escreveu José Manuel Anacleto (JMA), promotor do movimento cívico “Ano 2000, Perdão e Reconciliação” e do Dia do Perdão
[12], «Perdoar é começar de novo, quebrar os grilhões que nos aprisionam a um passado tantas vezes doloroso, que nos oprime. Não se trata de um moralismo qualquer mas, sim, de aprendermos a ser felizes, em conjunto. Todos precisamos de todos”.

Motivo de pensamentos, poemas, canções, livros[13], programas de rádio, dias e orações, a amnistia, o indulto é um sinal claro de amor e sabedoria que, aliás, Jesus Cristo veio ensinar há dois mil anos, e nos permite evoluir em bases mais correctas e (re)fundadas. Perdoar, como demonstraram portugueses e timorenses, é quebrar o ciclo infernal de violência. Já Tertuliano confrontava: "Você quer ser feliz por um instante? Vingue-se! Você quer ser feliz para sempre? Perdoe!".

* Imagem reproduzida mediante autorização da editora Sinais de Fogo. ** Copyright das ilustrações © Frank Riccio, 1998.
[1] WALSCH, Neal Donald – A Pequena Alma e o Sol, Ed. Sinais de Fogo, 2001. [2] Idem, Ibidem. [3] HAY, Louise – Eu consigo! Ed. Pergaminho, 2006, pág.31. [4] DYER, Wayne W – As suas zonas erróneas, Ed. Pergaminho. [5] CABEZA, Marta – Dia-adia com os anjos, Ed. Pergaminho, 2005, pág.160. [6] BOURBEAU, Lise - O teu corpo diz “ama-te” – a metafísica das doenças e do mal-estar, Ed. Pergaminho [8] CABEZA, Marta – Dia-adia com os anjos, Ed. Pergaminho, 2005, pág.67. [9] SIMÕES, Luís Martins Simões -Goste de Si, Ed. Pergaminho, p.60 [10] TIERNO, Bernabé – Aprenda a viver, Lisboa, Ed. Presença, 1998. [11] Ou em outra versão: «Porque o que faço, não o aprovo; pois, o que quero, isso não faço, mas o que aborreço, isso faço» Epístola aos Romanos 7:15 [12] No respectivo projecto educativo o mesmo autor afirmava «(…) A fim de evitar traumas, situações de revolta e o desenvolvimento de uma agressividade latente (susceptível de explodir em determinadas circunstâncias), é de capital importância que o jovem saiba conciliar a recusa de atitudes que injustamente o magoaram com a compreensão relativamente aos autores dessas injustiças; que um indispensável processo de maturação e aprendizagem (que também implica conhecer os lados menos bons da vida e do ser humano) não o marquem de forma patológica, levando-o a gerar ódios, bloqueios, alienações ou situações de não integração» in Brochura “Um minuto, uma flor, um mundo melhor!”, JMA, pág.11.
[13]ENRIGHT, Robert – o poder do perdão. Estrela Polar, 2001. JAMPOLSKY, Gerald G. – Perdoar – a melhor de todas as coisas. Sinais de Fogo, 2004. BARROS, José H. - Perdão e optimismo: uma abordagem intercultural. Revista Portuguesa de Pedagogia. Coimbra. Vol.37, nº2. WALSCH, Neale Donald – A Pequena alma e o Sol, Sinais de Fogo, 1º ed. 2001.

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quarta-feira, 31 de julho de 2013

(De)cisão



Decidimos terminar esta série do Aqui & Agora. Agradecemos àqueles que nos acompanharam e desejamos a todos boas leituras.

Texto e desenho Dina Cristo

A todo o momento acontecem decisões, mais ou menos (in)conscientes e (ir)relevantes. Óscar Quiroga escreveu um dia: «Nada acontece automaticamente no mundo humano, tudo é decidido ainda que inadvertidamente. A todo momento fazemos escolhas através dos pensamentos que nos permitimos pensar, das emoções a que nos agarramos para nos sentir vivos e intensos e, também, fazemos escolhas através das atitudes que decidimos tomar em relação aos nossos deveres e direitos».
Há pequenas escolhas tomadas de forma mais espontânea e naturalmente. Contudo, na viagem da vida, esta proporciona cruzamentos mais difíceis, com acesso a caminhos desconhecidos, para os quais não se sabe, antecipadamente, a saída, pelo que se torna mais arriscado e difícil decidir. O destino apropriado não está garantido e a incerteza e a tensão e ansiedade podem instalar-se.
Para que haja uma boa decisão é preciso evitar a precipitação, por um lado, mas também a indecisão prolongada, por outro, seguir somente a lógica mental como também escutar apenas o coração, ignorar os avisos alheios como seguir unicamente os conselhos de outrem. Uma decisão que, para ser rápida, sacrifica uma das partes torna-se imprudente e enfraquecida e corre o perigo de vacilar, recuar ou não ser aplicada.
Para uma decisão, ponderada e acertada, é necessário processar desde os aspectos mais factuais e práticos aos mais inspiradores e graciosos, passando pela reflexão e análise das informações disponíveis, que reduzem a incerteza, e pela atenção às emoções despertas[1]. É imprescindível tempo suficiente que permita aceder, apreender, compreender, compatibilizar, harmonizar, integrar e depois unificar e transcender as várias fontes numa única atitude unificada, ao mesmo tempo fundamentada e sólida, profunda e ampla, completa e elevada.
Autêntica (re)solução, a boa decisão é aquela que, assim, harmonizada e respeitando a natureza peculiar daquele homem ou mulher - os seus princípios, meios e objectivos -, tendo por base o amor próprio e não o medo, a luz e não o dinheiro, a Vontade e não a coação, se traduz num acto deliberado, exercício livre, autónomo e responsável do poder de escolher.
Pode ser avaliada por tornar a pessoa mentalmente mais discernida, e não confusa, emocionalmente mais generosa, e não maldosa, fisicamente mais estimulada a trabalhar, e não desanimada. Omraam Aivanhov ensinou a ouvir a voz interior que previne: «Se sentirdes uma sombra nos vossos pensamentos, uma perturbação nos vossos sentimentos e indecisão na vossa vontade, não assumais compromissos, pois este critério é absoluto»[2].
De acordo com Carlos Cardoso Aveline (CCA) para uma decisão correcta há que estabelecer metas claras, realistas, positivas (e não pela negativa), asseguradas com pequenos passos, graduais, sob aquilo que está ao alcance controlar, o nível interno (pensamentos, sentimentos e atitudes), em vez do externo, que, não dependendo da pessoa, gera ansiedade, além de (dis)trair.
Bem-estar e saúde são consequências de uma boa decisão, aquela que inspira, expande, eleva e liberta. Sempre que se alinha cabeça e coração, mental e emocional, a tomada de decisão traz paz, serenidade, alegria e leveza. Já a indecisão, hesitação ou inquietação - sinais de que a resposta deve ser negativa, de que o caminho não é por ali - sobretudo se prolongada, gera stress, angustia, mal-estar e, segundo Louise Hay, problemas físicos, nomeadamente nos dentes e gengivas.
Aceitar decidir
A indecisão, para cujo tratamento é adequado o floral “scleranthus”, pode ser devida a uma perturbação psíquica, devido a depressão ou a neura(stenia). No caso das Pessoas Altamente Sensíveis (PAS), deve-se ao facto de, ao serem muito intuitivas, terem acesso a diversas ideias e receberem demasiadas opiniões[3]. De igual modo, as pessoas com (forte) energia "dois" têm, ao ponderarem mais do que uma perspectiva, dificuldades em decidir. 
À indecisão arrastada ou à não decisão, é preferível, segundo alguns autores, uma má decisão, que poderá corrigir-se[4]. Ao contrário da indecisão, que implica inércia e estagnação, a decisão, ao ser uma escol(h)a, que gera acção, movimento e mudança, traz aprendizagem de acordo com os resultados obtidos. O que torna a (de)cisão, muitas vezes, difícil é a perda inevitável que provoca, pois há sempre alguma coisa a sacrificar para que algo se possa salvar. Decidir é - além de analisar, separar, selecionar e avaliar, saber optar – prescindir e renunciar, o que exige desapego.
A decisão benéfica activa o novo, útil, correcto e funcional em detrimento do passado, inútil, incorrecto e disfuncional, que deixa ir embora, como é propício no final de cada ciclo de nove anos de vida. Cada novo período, estimulado pela força do “um”, é uma das melhores oportunidades para efectivar as decisões tomadas, renovando pessoas, lugares, ideias e ocupações. O desafio é, ciclicamente, libertar o velho, ir dispensando cada vez mais o instintivo, grosseiro, pesado e pessoal por substância, física, emocional e mental, mais intuitiva, fina, leve e impessoal – a iluminação da “lua”.
A cada aniversário pessoal assim como a cada Ano Novo são, para CCA, também períodos ideais à tomada de decisão, à sua reavaliação ou reforço. Pela disponibilidade e disposição que propiciam são mais uma oportunidade para desapegar da rotina, exercitar a vontade, vencer a preguiça e ultrapassar a inércia.
O mesmo teósofo ensina como há sempre livre arbítrio nas escolhas efectuadas pelo Ser Humano, não só durante todo o tempo livre mas também na reacção face ao ocupado com o cumprimento das obrigações; a liberdade e responsabilidade são constantes e cada atitude define e orienta, no momento presente, a direcção do caminho a seguir, a via da animalidade ou divindade, a atenção a prestar ou não e a que(m).
A opção pelo bem, belo e bom, pela verdade, pelo amor e pelo serviço (1,0) em detrimento do mal, feio e mau, da ilusão, do medo e de se servir (0,1) são decisões importantes, que exigem coragem, força de vontade e sacrifício – há sempre um medo ou desejo a ultrapassar, uma perda a enfrentar, um “preço” a pagar. No caso destas decisões importantes, atravessar o Rubicão implica aceitar as consequências.
Para que a escolha do melhor seja influenciada pela profundidade da alma e não fique à mercê dos caprichos da personalidade é necessária persistência e paciência para que o apaziguamento mental, a serenidade emocional e a elevação aconteçam, como ensina Omraam Aivanhov[5]. Outro mestre, Platão, escreveu, no final da “A República”, que ainda que sejam os últimos a escolher, podem saber fazê-lo bem.
Cada um tem não só o direito como o dever, a responsabilidade, de decidir. A todo o momento é uma nova oportunidade de o fazer, que reflecte o seu autor e influencia os que o rodeiam. A cada nova decisão se avança no amor ou no medo, na vontade ou no desejo, no perdão ou na culpa, na elevação ou na degradação. As boas decisões, conscientes e amorosas, mais íntegras e demoradas, curam. As outras atrasam e desviam cada Ser Humano do seu caminho, autêntico, único e diferente.


[1] Como referiu António Damásio, em entrevista a Judite Sousa, na RTP, «É praticamente impossível tomar decisões que não tenham uma componente emocional». [2] AIVANHOV,OmraamPensamentos quotidianos 2011. Publicações Maitreya. Dia 13/8/2011. [3] Contudo, como sublinha Elaine Aron, embora não adoptem decisões rápidas, as PAS tomam normalmente boas decisões[4] O sentimento de remorso pode estar na base de novas boas decisões. [5] AIVANHOV, Omraam – Pensamentos quotidianos 2014. Publicações Maitreya. 3/8/2014.

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quarta-feira, 24 de abril de 2013

Somos livres?

 


Na véspera da celebração da Revolução do 25 de Abril e a dias da de inauguração, há 45 anos, na Broadway, do musical “Hair”, vamos saber o que é e até que ponto se consegue ser livre.
  
Texto e fotografia Dina Cristo

Alguém é livre quando age de acordo com a própria natureza, vontade, verdade e consciência. Tal pressupõe o auto-conhecimento, fundamental para que se possa actuar de acordo com quem se é. Ser livre é ter o poder e a capacidade de decidir o melhor para si, fazer a escolha mais acertada tendo em conta a sua essência, quem já se sabe que é e não para se vir a ser alguém; é ter capacidade de saber de que se ocupar, ao que dar atenção, a quem se ligar, como indica Omraam Aivanhov.
“(…) a verdadeira liberdade consiste em obrarmos em nosso próprio nome, em sermos nós em nossas obras e pensamentos”, escreveu Teixeira de Pascoaes. Esta capacidade de auto-determinação, do livre arbítrio da acção individual visível, o “agency”, é hoje enfatizada pela ciência pós-moderna em detrimento do determinismo externo, do constrangimento da estrutura colectiva invisível. No caso da pragmática acional, para a qual falar é agir, essa actuação é de âmbito discursivo.
Viver de acordo com a sua questão particular implica escolher o seu caminho, saber selecionar o mais adequado para si e não o mais atraente ou sedutor. Para Platão, a liberdade está em ser-se senhor de si mesmo, o que acontece quando a sua melhor parte, a mais virtuosa, embora menos desenvolvida, domina a pior, a mais viciosa e abundante. Como alguém escreveu, a liberdade atinge-se quando o intelecto compreende o que é o bem, o belo e o bom, o coração o deseja e a vontade vai atrás.
Quando está ao serviço das paixões o ser humano enceta uma falsa libertação que o mantém dependente dos apelos instintivos e expande as suas amarras. Dar vasão aos gostos, apetites e inclinações, como diria Immanuel Kant, apenas o amarrará aos seus interesses limitados, ao condicionado, à região abaixo do diafragma. Já Antero de Quental havia ensinado que “só é verdadeiramente livre aquele que sabe limitar voluntariamente a própria liberdade”.

Desprendimento

A verdadeira libertação está no auto-domínio, em saber integrar apegos, desejos e medos, para depois os direcionar e ultrapassar. Primeiro a aceitação já que, como lembra Carlos Cardoso Aveline, “ficamos presos a tudo aquilo que rejeitamos”. Há que aprender a harmonizar, a reequilibrar, a reunir o pólo da liberdade e da ordem, com moderação, para evitar que o investimento excessivo num conduza ao aprisionamento no outro, oposto e oculto.
«Sereis livres de facto não quando os vossos dias decorrerem sem cuidados e as vossas noites sem desejos e sem fadigas mas antes quando todas estas coisas cercarem a vossa vida e vos elevardes acima delas, nus e libertos”, ensinou Kahlil Gibran(1). Esta superação e subida às alturas acontecem quando se age sem esperar nada em troca, desinteressadamente, através do desapego, sobretudo quando se libertam as (outras) pessoas, se prescinde de objectos e actividades inúteis ou se livram de preocupações mentais ou emoções destrutivas, como a culpa, a raiva ou o medo, nomeadamente através do canto.
A libertação real advém do perdão, uma desculpa pelos erros, próprios e alheios, cometidos no passado, a cuja memória se associam emoções, como a tristeza, que precisam de ser enfrentadas, expressas, processadas e compreendidas. Muitas vezes o que resulta em termos de significado e sentido atribuído à experiência é a consciência de uma ilusão, o que normalmente origina um sofrimento duplo, tendo em conta a decisão de separação, uma grande perda e mudança que implica. “Você não encontrará a liberdade”, disse António L. Santos, “até ser capaz de enfrentar a mudança e a incerteza”.
A verdade é a via da autêntica libertação. Dependente do estado ou foco de consciência, do nível evolutivo, própria do mundo inteligível, incondicionado, da Razão Pura kantiana, ela dissipa as ilusões e desapossa de pessoas, ideias, lugares e ocupações, que ora o medo ora o desejo tentavam, pelo controlo, manipulação e mentira, suster, fixar e agarrar. Libertar é deixar fluir, circular e movimentar, é ser um sistema aberto, dinâmico e renovador. Estagnar, amarrar, prender ou parar, como diz o provérbio popular, é morrer.
Dependendo do estado de consciência, assim o ser humano se vai desembaraçando de ilusões em direcção a focos de luz maiores e melhores, num processo continuo que o leva a deixar para trás as percepções mais deturpadas ou distorcidas pelo egotismo, com gratidão pelo grau de evolução que a experiência anterior lhe permitiu alcançar. Como no Outono, em que as folhas caem da árvore, a efectiva libertação ocorre aquando da maturidade, quando há sabedoria suficiente para orientar e salvar.

Livramento

A verdadeira autonomia e independência são interiores. Corresponde à vibração anímica do amor, reino da abundância e da doação, da altivez, acima do diafragma, ao reino da Graça e da abundância, a Providência divina, repleta de luz e de leveza. Liberta dos p(r)esos materiais, mesmo sem nada, a pessoa é, como interpretou Nina Simone e é sentindo quem é, ao abrir o coração, viver cada emoção e ouvir a intuição que o indivíduo pode, doravante, viver em conformidade com esse conhecimento, fiel à sua própria natureza.
Contudo, o mais vulgar é a ampliação, amputação ou ajustamento das características e peculiaridades para uma rápida e conveniente adaptação à cultura vigente, aos papéis sociais, às expectativas alheias, se necessário recorrendo a comprimidos… para normalizar, ‘adormecer’ ou anestesiar, incluindo os sentimentos. Quer esta implosão psicológica interna quer a rejeição externa, que se crê ser causa de limitação e, por isso, se pretende desembaraçar, mesmo que abruptamente, são falsas libertações.
Ser livre é diferente de se ter a sensação de o ser. Embora o controlo seja cada vez mais remoto, tecnológico e indirecto, ele está omnipresente e tornou-se, no actual sistema, não apenas consentido mas também, devido aos sentimentos de insegurança fabricados e publicitados, desejado pelos próprios indivíduos. Enquanto domina, como denuncia a Teoria Crítica, o sistema difunde a auto-propaganda através do consumo, trabalho, “media”, educação e cultura em vigor como meio de libertação.
Contudo, como explicitou a 10/10/2011 Óscar Quiroga, o que impera é a opressão. Mesmo nos relacionamentos humanos, quando não se atinge a frequência amorosa, (ab)usa-se da ameaça, culpa, chantagem, julgamento, manipulação ou mentira que elimina o espaço, que não se tem e por isso não se dá, e, assim, sufocada, vicia-se a ligação num curto circuito fechado de dependência, medo ou subordinação. As Pessoas Altamente Sensíveis, como esclarece Elaine Aron, deixam-se aprisionar pelas exigências dos outros, por exemplo.
Sem amor e sem verdade, a escassa liberdade - de pensamento, expressão, opinião, circulação ou acção - reflecte-se numa atitude de bloqueio face ao meio ambiente: a ocupação do tempo, o condicionamento do ar como o barramento da água, aprisionada por estruturas equivalentes às que restringem o livre fluxo venusiano. Trata-se de um espelho de toda a estratégia mental que, por insegurança e falta de auto-conhecimento, a leva a investir na manutenção de algo que é, por natureza, constantemente transformado e alter(n)ado.
Contudo, florescem os mais diversos movimentos a favor da liberdade, desde o software ao amor, dois séculos após a independência americana e a Revolução francesa e meio após o movimento de contracultura hippie, nascido em S. Francisco e retratada no musical e filme “Hair”, contra a guerra, o consumismo e as restrições sociais, com o seu “flower power”, “make love, not war”, o desnudamento, os cabelos cumpridos, o valor da amizade, simplicidade e festividade e de vanguarda a favor dos movimentos ecologistas, sociais, pacifistas, comunitários e esotéricos, que entretanto se desenvolveram.

A peça, estreada desde então um pouco por todo o mundo, com as mais diversas traduções e versões, contou nos seus elencos com nomes como Sérgio Godinho (em França), Donna Summer (Alemanha) ou Sónia Braga (no Brasil) e as suas músicas ficaram para a História bem como a sua influência nas artes e nos costumes. A criação retrata uma tribo urbana liderada por Berger, um homem extrovertido e amigo de Claude, um romântico pensativo apaixonado por Sheila, uma mulher com destacado estatuto social. Embora contra a guerra no Vietname, o líder acaba, no filme, ao contrário do musical original, por embarcar, por engano, no lugar do seu amigo recrutado e morre não sem deixar o seu exemplo de combate a favor da paz, que passa a ser seguido.


(1) GIBRAN, Kahlil - O profeta, Pergaminho, 2004, pág.103.

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quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Défice emocional



Próximo do Carnaval, momento de maior liberdade de expressão, dançamos ao ritmo das emoções, cujo corte se faz sentir no resto do ano.

Texto e desenho* Dina Cristo


Todo o ser humano tem um corpo emocional. Este seu lado psicológico, intermediário entre o mundo físico, das acções e decisões, e o mundo mental, das ideias e pensamentos, permite-lhe ter sentimentos e emocionar-se. É algo inato que serve, aliás, como forma de adaptação e de regulação do estado interno do organismo, como no caso do derramamento de lágrimas.

Apesar de ser algo natural, humano e universal, cada cultura tem não só as suas especificidades como as suas próprias formas de controlo, de definição das tipologias aceitáveis e formas de manifestação legítimas. Desta forma, o âmbito psicológico é não só reprimido como reaprendido. A finalidade pode ser evitar ou negar as emoções instintivas, consideradas socialmente incómodas, ameaçadoras ou vergonhosas, mas o resultado é a desadaptação, a estagnação, a auto-desorganização, o caos.

Ao definir quais as emoções admissíveis e convenientes, a vida sócio-cultural censura o lado emotivo dos indivíduos e estes, para se protegerem, acabam por reprimir-se, culpar-se, fingir (sentir o que não sentem e não sentir o que sentem) e fugir das suas próprias emoções. Por forma a melhor serem aceites em sociedade, as pessoas escondem aquilo que sentem, por vezes não só dos outros como também de si próprias – quando tentam suprimir o lado mais afectuoso ou combate-lo, seja pela negação ou mesmo rejeição do que sentem.

Homens e mulheres procuram eliminar momentos mais intensos recorrendo a dependências, que geram um prazer imediato mas falsificado, e ao consumo excessivo que levam ao ciclo vicioso, seja ele o alcoolismo ou o consumismo, por exemplo. Tentam dessa forma evasiva alienar-se e afastar-se daquilo que o seu próprio corpo revela, ao nível da respiração, circulação ou secreção.

Esta luta pela exclusão das emoções, este combate pelo corte emotivo, na verdade, só o reforça e nem mesmo a falsa frieza ou a aparente indiferença conseguem vencer. Pelo contrário, as emoções, assim barradas, encontrarão outras saídas, mais agressivas. Como explica Lise Bourbeau, no seu livro “O teu corpo diz ama-te”, o bloqueio emocional acaba por desencadear outros a nível físico, manifestados em doenças, então, somatizadas. Outras vezes aquilo que vai sendo implodido chega a uma altura em que rebenta – são as revoltas colectivas ou individuais, em que as ondas emotivas se propagam. O excesso de energia emocional, até ali contida, explode e é derramada de forma descontrolada, violenta ou destrutiva.

Desertificação emotiva

A vivência emocional é uma fonte natural de energia. Como a água, se ela se infiltrar no solo vai nutrindo os campos e quando em excesso gerará uma fonte, da qual nascerá um rio que alimentará vastos terrenos até desaguar no mar. Pelo contrário, se não houver um contentor para a reter ela rolará apressadamente até aos vales deixando os terrenos secos e em tempos de maior abundância de chuva arrastará muita vida ao longo do seu percurso. Também nos humanos, se a emoção não for aceite e fluir livremente acabará por se manifestar raivosamente – qual mola que motiva a agir é assim desperdiçada em vez de ser aproveitada como bússola orientadora.

Querer descartar as emoções é como tentar eliminar os sinais de um automóvel ou das próprias vias de circulação – um perigo. Meio de expressão das necessidades humanas, elas estão presentes para informar e ajudar a pensar e a agir, a decidir de forma mais correcta, não apenas por interesse ou com indiferença, mas por dever, como explica Abílio Oliveira, psicólogo social, no seu artigo “Entender as emoções” (publicado na revista "Biosofia", vencedora do IV Prémio de Informação Solidária). Uma sensação de dor, por exemplo, é um claro sinal de que o caminho que se está a seguir não é o mais correcto, indicado ou o melhor.

Se Kant considera as inclinações como patológicas, Omraam vê-as como um meio de acesso a uma via mais elevada: a Intuição. Se o ser humano quer transcender as emoções e, assim, atingir o Graal, tal não poderá suceder sem antes as atravessar. Não se chega ao Cabo da Boa Esperança sem antes ter vivenciado o Cabo das Tormentas. Os santos, antes de o serem, experienciaram toda a gama de emoções pelo que limitar as diversas frequências emotivas às culturalmente toleráveis é, na verdade, restringir o desenvolvimento humano.

Ao se separarem de si próprios, os indivíduos afastaram-se dos outros também. Com o coração fechado, a distância entre todos aumentou. Algumas pessoas, de tanto se querer convencer a si próprias de que não sentiam nada, acabaram, à força de tanta insistência, por secar. De tão camuflados muitos campos emocionais tornaram-se quase desérticos ao ponto das pessoas, tão adormecidas e anestesiadas, se sentirem mortas, pois eram as emoções que lhes davam vida. Depois são precisas campanhas de sensibilização e para que voltem a sentir algo são necessárias grandes quantidades de quase tudo, desde a alimentação à sexualidade.

Vida emocional

António Damásio lembra que o cérebro emocional é bem mais lento do que o cognitivo. Desta forma, as montagens, técnica muito usada para criar e aumentar tensão emocional desde Eisenstein, impede o desenvolvimento emocional. Com um consumo informativo cada vez mais acelerado e baseado em imagens, vê-se (quase) tudo e não se sente (quase) nada. Assim, além de ampliar a intolerância, aumenta a impotência emocional - a incapacidade para lidar e gerir as emoções.

Prescindir delas, como se tal fosse sintoma de progresso civilizacional, é próprio de uma sociedade patriarcal, regida pelo medo, poder e competição, em que os homens, pouco presentes fisicamente, estão ausentes emocionalmente. Neste tipo de organização social, dispensa-se a vinculação – aos sentimentos, a si próprio e aos outros (a solidariedade) e desvalorizam-se as Pessoas Altamente Sensíveis, profundamente emotivas.

Contudo, mesmo após a devastação a vida irrompe, nem que seja sob a forma de dor. Mesmo com altas doses de analgésicos ela lá está a dar sinal de existência. Ainda que escondido, o lado emotivo não desapareceu e agora, ao iniciar-se um período de transição, as emoções e os sentimentos recomeçam a ser apreciados. Há quem nunca os deixasse de assumir, mesmo publicamente. Roberto Carlos, o rei das emoções, é um exemplo; numa das suas mais célebres canções, entre centenas, canta: «se chorei ou se sorri, o importante é que emoções eu senti». 

Em Portugal - que Teixeira de Pascoais afirma ter uma alma mais emotiva do que racional, com mais tendência à poesia do que à filosofia – no fado, agora reconhecido internacionalmente, se expressa o sentimento saudoso, a tristeza própria da memória do sofrimento passado como também a alegria da esperança no futuro. Dando voz ao sentir do coração, fadistas animados, no máximo silêncio, comunicam com o público, em idênticos estados de alma.

Alguns sentimentos - mais estáveis, extensos, estruturais, duradouros e íntimos, como a amizade ou o amor – e várias emoções - mais instáveis, intensas, conjunturais, momentâneas e públicas, autênticos sentimentos em movimento, como a paixão, o medo (sinal de risco ou perigo que pode ajudar a vigiar, desacelerar e a proteger) ou a raiva (por vezes traduzida em silenciamento, revela um défice de expressão e estimula a auto-afirmação). Associadas a impulsos nervosos que induzem a libertação de neurotransmissores e se traduzem em sensações e alterações físicas, as emoções mudam com frequência: chora-se “hoje” por coisas que haviam encantado “ontem” e alegra-se agora com algo pelo qual antes se tinha entristecido.

Integração emocional

Mas observar, dar atenção, conhecer e saber reconhecer as emoções não significa deixá-las expressar-se como um autêntico cavalo à rédea solta. Saber lidar com a vida sentimental implica preservar a via racional, controlar as emoções mais grosseiras, em vez de ser consumido por elas em tempestades emotivas, preservar as mais finas, como o altruísmo, a compaixão, e de uma forma geral dispor o âmbito psicológico ao serviço do mental, ou seja, treinar a conciliação, a conjugação, a cooperação de ambos em vez da competição.

Como explica Omraam Aivanhov, razão e emoção são como duas pernas, ambas necessárias para se avançar em segurança. Como ensinou o autor, civilizações mais evoluídas do que a nossa desapareceram pela preponderância dada ao intelecto em detrimento do coração, que deve ocupar o seu lugar pois, como disse, só este pode remediar os efeitos malfazejos daquele[1].

Por sua vez, Kahlil Gibran instruiu que em vez da competição, concorrência ou combate entre a razão e a paixão, estas devem ser unificadas e compatibilizadas aproveitando para descansar no juízo, que sozinho restringe, e actuar no apetite, que só consome. O conselho é para exaltar a razão até ao cume da paixão e dirigir a paixão com a razão.

Substituir o conflito emocional (entre por exemplo um desejo íntimo e uma vontade pública) pela compatibilização entre os pensamentos e os sentimentos, usando-os de harmonia com a razão e não contra ela, é, pois, uma das formas mais úteis e construtivas de aproveitar beneficamente as emoções, muitas delas expressas em palavras.

Em vez de se desgastar tentando, em vão, combater as emoções, o que não raras vezes conduz à perdição, elas podem ser aproveitadas antes de tudo para o conhecimento da própria Identidade e ajudar a promover as mudanças necessárias, escolhendo o caminho e o veículo mais apropriado (seja uma auto-estrada, uma via nacional, uma rua regional ou mesmo um estrada alternativa, um percurso pedestre, enquanto outros irão de alta-velocidade ou de avião) para uma direcção decidida racionalmente, atingindo assim não só a salvação como a realização.

Dieta emocional

Para os casos de “inflamação” emocional, por irritação, exaltação ou excitação, em situações mais agudas, é recomendado fazer dieta emocional, o que significa alimentar-se menos mas de melhores e mais adequadas emoções, devidamente processadas e digeridas conscientemente, caminhar, tomar florais, recentrar em Si próprio, amar, trabalhar, escrever, ouvir ou ser ouvido reflexivamente, comunicar empaticamente, o que significa pedir a satisfação das necessidades em vez de as exigir ao outro, e contactar com o sol e a água corrente, observando-a ou banhando-se nela. A febre emocional, pela concentração de energia, acaba, em cerca de dois dias, por queimar, purificar e curar, ao libertar os resíduos inúteis, nocivos e venenosos das máculas emocionais.

Se em vez de mastigar se for engolindo e em doses excessivas, os detritos emocionais acumulam-se, envenenando o organismo. Para que, em alternativa, as cinzas não sejam lançadas a despropósito e abruptamente sobre o primeiro indivíduo mais receptivo que aparecer, é preciso filtrar de forma a que os sentimentos mais refinados possam ser assimilados e libertados convenientemente os mais grosseiros – o baixo astral de que falam os brasileiros.

Supressão emocional

Para processar as emoções, observar e geri-las é preciso tempo, para as enfrentar e manifestar é necessária coragem tal como para abrir o coração é fundamental aceitar e perdoar. Algo difícil no actual sistema social que conota a experiência emocional, mais subjectiva e pessoal, como uma ilusão, um devaneio ou uma fraqueza – uma fragilidade. Como a Teoria Crítica vem denunciando, a violência estrutural do sistema é tal que leva o indivíduo acreditar que aquilo que o seu coração sente, e o torna verdadeiramente humano, é um engano, uma mentira – o que se traduz, segundo a Escola de Frankfurt, numa brutalidade, crueldade e desumanidade.

No caso dos homens, onde a repressão é maior e os limites ainda mais estreitos (crescendo sob a ameaça de que um homem não chora), a emoção acaba por ser extravasada através da arte, nomeadamente da música, do desporto ou mesmo do trabalho – às vezes vividos excessivamente como forma de compensação. Também há tantos homens como mulheres altamente sensíveis, como revelou Elaine N. Aron, tal como existem homens marcados pela personalidade, motivação ou destino “dois”, uma vibração de extrema emoção e receptividade. Alguns, superdotados adultos, por exemplo, afogam as suas mágoas, incompreendidas pela sociedade, em dependências variadas – virando a agressividade que sofreram contra si próprios. Outros, mais integrados, ao adaptar-se à secura emocional, sem tempo nem espaço para deixar fluir as emoções, tornam-se carentes e (co)dependentes: naturalmente ricos e abundantes transformam-se em vampiros afectivos ao apropriarem-se, sem querer, de sentimentos alheios.

Capital emocional

As emoções traduzem uma forma de inteligência própria - são um capital altamente desvalorizado mas com uma riqueza que pode ser extraída pelo intelecto, como aconselhou Omraam. Para que a falta de autonomia se transforme em responsabilidade emocional, para que haja higiene emocional, através da expressão moderada que dissolva as emoções mais densas e as transmute em sentimentos positivos, para que as feridas e traumas emocionais se curem e os abusos emocionais se dissipem, para que se promova o bem-estar e a disponibilidade emocional, se satisfaçam as necessidades afectivas e a vida emocional deixe de ser tabu, para que a vida não seja apenas preenchida com cifrões mas também com significados, para que haja serenidade emocional, em equilíbrio dinâmico, para que a chantagem e a hipocrisia emocional diminuam é preciso que o pudor sentimental, como identificado por Gilles Lipovetsky, acabe e dê lugar à integração emocional.

Abílio Oliveira indica que há que, sem as banalizar ou exagerar, as entender, saber adequá-las e dirigi-las pois dado o seu potencial para refinar a mente e despertar o pensamento abstracto contêm a força de levar a agir para e pelo bem. Como se sabe um ser um humano emocionalmente adormecido é capaz de cometer as maiores atrocidades, daí a importância que António Damásio lhes dá ao nível do desenvolvimento moral.

Inteligência emocional

As emoções estão ligadas à memória implícita. A sua génese está no cérebro límbico, responsável pela aprendizagem e memória. Como Lucienne Cornu demonstrou a percepção é subjectiva, é um conhecimento que reflecte o estado emocional e depende dos filtros internos, e a interpretação não é mais do que o tratamento da informação segundo a memória, habitualmente baseada nas sensações de medo/desejo.

Reflectidas nas águas dos sonhos e ligadas ao corpo electromagnético, conotadas, nas antigas sociedades matriarcais, com as plantas e a adolescência, entre os sete e catorze anos, as emoções são habitualmente mais profundas do que as ideias e mais fortes e poderosas do que os factos, influenciando ambos – o nível mental e comportamental. Também os (pre)sentimentos costumam ser mais reais e poderosos do que aquilo que se está a fazer, as acções visíveis.

Abrir o coração

Hoje, é possível inaugurar um tempo de novas descobertas marítimas, não já ao nível do mar exterior mas das águas internas, até aqui encobertas. Como vimos, ignorar as emoções além de não conduzir ao seu desaparecimento só as vira, quais águas revoltas, contra a própria pessoa, traduzindo-se quantas vezes em “stress” e até a exaustão emocional. Se em vez de insistir em obliterá-las - por medo de se magoar, o que só conduz ao enfraquecimento e a doenças coronárias, através das quais o coração dá sinais de existência – os seres humanos se se empenharem em conhecê-las, pelo exame introspectivo e concentração, elas irão reforça-los e devolver-lhes a felicidade e a verdadeira segurança

Com moderação, sem mastigar de menos ou triturar demais, o ressentimento dará lugar à compreensão, à aceitação, ao perdão e à libertação. Poupando-a e aproveitando-a, os seres humanos podem, assim, usar a energia emocional, disponível gratuitamente, não só a seu favor como também em benefício dos outros, já que ficam mais enriquecidos para também os nutrir com sentimentos positivos.

Com a consciência de que as emoções ajudam não só a comunicar, a (sobre)viver, a aprender e a mudar, mas também alertam para as necessidades humanas, permitem avaliar os estímulos aos quais respondem, assinalando os acontecimentos significativos e apoiando a tomada de decisões, pode-se mudar o paradigma do medo de sentir para a confiança naquilo que se sente; pode-se ir além do envolvimento emocional e promover o seu progresso, aumentar a competência e habilidade emocional, reconhecer as emoções em si próprio e nos outros, possibilitar a telepatia, permiti-las na vida pública, como defende a Ética do Cuidado, e tornar a sua expressão receosa e indirecta algo (ultra)passado.

* Anos 70 [1] AIVANHOV, Omraam – Pensamentos quotidianos, Publicações Maytreia, 2012 – 16/11/2012.

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