quarta-feira, 4 de maio de 2011

Criticar ou compreender?


Numa altura crucial para Portugal, publicamos um conto sobre a liberdade de escolher o caminho. De um jovem autor português a história alerta para a responsabilidade de aumentar o que mais se estimular: o conflito ou a elevação.

Texto Elton Rodrigues Malta fotografia Dina Cristo

Num belo parque, onde o Sol penetrava as folhas das árvores que dançavam com o vento, a água do lago brilhava com o reflexo da magnífica luz solar, e as aves voavam com infinita liberdade, encontravam-se três amigos bem diferentes.
Hélio, contemplava e absorvia aquela beleza, fundindo-se com a magia da natureza e enriquecendo-se com aquela energia. Repousava em silêncio, contagiando ao seu redor. Era firme, constante, compreensivo, respeitador e dado.
A segunda era Gaia, sempre muito influenciável pelo que a rodeava, sem opinião firme aquando de troca de ideias. O que defendia num momento rapidamente era esquecido, bastava ser confrontada ou não ser apoiada.
Por último encontrava-se Selene. Sentada no banco em posição rígida e sentindo-se perturbada, batia continuamente o pé enquanto agarrava em ramos e os partia em mil pedaços. Apesar de pouco reflexiva, tinha tendência a defender fanaticamente a primeira opinião que expressasse. Fechada sobre si mesma, recusava-se a ver mais além, o que a tornava agressiva. Dominada pelo instinto, desejosa de controlar tudo, e aborrecida com a impossibilidade de o fazer, alternava continuamente o alvo do seu olhar, mas ainda assim qualquer alvo era incomodativo.
Após algum tempo de silenciamento externo, Selene não resistiu mais e com revolta começou a atacar os pombos que ali passeavam:
- Olhem que animais tão parvos… Não param de comer. Nem sequer guardam um pouco para se mais tarde precisarem!
Hélio manteve-se no seu reflexivo silêncio, enquanto Gaia concordou e ainda acrescentou:
- É verdade, parece que comem para passar o tempo.
Depois de ouvir isto Selene sentiu-se apoiada, e com mais confiança continuou num ataque repartido com Gaia:
- Para onde voa um vão todos atrás! Vão para onde está a comida e não fazem nenhum esforço para a conseguir...
- Pois é, e ainda roubam a comida uns aos outros!
- Como se isto não fosse suficiente, limitam-se a um campo reduzidíssimo, não vão além deste curto espaço onde se habituaram a viver...
- São comodistas! Preferem o que é garantido em vez do esforço de crescer e arriscar.
- No fundo eles nem escolhem o seu caminho individualmente…
- Mas depois acabam por ser ainda mais individualistas! Não achas Hélio?
Hélio concorda, e em tom brando e assertivo responde calmamente:
- Sim, isso é um facto. Funcionam cada um por si, guerreiam para chegar primeiro e o que se safa vai logo embora...
Então Selene e Gaia, entusiasmadas, intensificaram o ataque:
- Já viram que quando eles querem acasalar andam às voltas sobre si mesmos para impressionar?
- Sim é verdade… e ainda por cima estão constantemente a fugir, azulam até de quem lhes dá alimento. Vivem completamente amedrontados... Mais rápido se acobardam do que enfrentam o perigo!
- Então e já repararam que não aproveitam a sua leveza, e optam por caminhar de forma mais pesada, sobre as suas finas patas, esforçando-as excessivamente?
- Sem dúvida, movem-se muito mais lentamente do que aquilo que conseguem, e preferem estar aqui a andar enquanto podem voar livremente.
E é quando Selene e Gaia, em coro, rematam:
- Ainda por cima estão sempre a fazer porcaria.
Após este ataque, Selene silenciou a voz, enquanto, sentindo-se tão superior àqueles animais, pensava que nem deviam partilhar o mesmo espaço. Foi durante esta pausa que anunciava o fim do ataque, que Hélio quebrou o seu profundo silêncio.
- Estive a ouvir-vos atentamente, e reflectindo sobre as vossas palavras concordo com tudo o que disseram. Mas vocês já repararam que estavam a falar de nós? Tudo o que disseram encaixa perfeitamente no Homem...
Indignada, Selene responde:
- Achas mesmo? Os pombos nem merecem estar no mesmo espaço que nós. Eles são inúteis, além de não construirem nada que nos seja benéfico ainda conseguem destruir o que está à sua volta. Ainda por cima sujam tudo, não respeitam o espaço do Homem.
- Exacto, continuas a dar-me razão. Só quando deixarmos de ter essas características que lhes apontaram é que eles deixarão de nos incomodar. Indo um pouco mais longe, só aí é que nós deixaremos de os incomodar a eles. Só teremos paz quando passarmos a viver presentes na nossa vida. Se criticamos nos outros, é porque nos sentimos incomodados, e isso só acontece porque também temos essas mesmas características, eles apenas nos mostram o que somos.
Hélio entra novamente no seu característico silêncio meditativo durante cerca de sete segundos e retoma o seu raciocínio:
- Só aí chegaremos ao seu nível, ou seja, não teremos este fel. Lutando para vencer estes defeitos mais básicos fortalecemos a força de vontade. Aí acreditaremos nas nossas capacidades e voaremos sem limite, com a possibilidade de realizar todos os nossos sonhos, porque nós somos o que acreditamos. Nós somos o que alimentamos. Tornamo-nos naquilo em que nos focamos, os nutrientes aos quais abrimos as portas psíquicas passam a integrar o nosso organismo, transformando o que somos. Aí deixaremos de viver num grupo pré-programado e cada um voará livre no seu próprio caminho. A ignorância é mãe da incompreensão e avó da revolta, e desta última nasce a frustração. A ignorância é a única prisão. Da liberdade nasce a felicidade e a realização.
Nós temos os genes de Gaia, não lhe podemos ser indiferentes. Mas temos o livre arbítrio para optar por dar mais espaço aos conflitos mentais ou à compreensão do coração, à escuridão ou à luz. E o que alimentamos cresce. Mas temos de nos lembrar que podemos ver sempre mais fundo do que nos parece à primeira vista. Podemos sempre ver as coisas por nós próprios. Só precisamos de luz.

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quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Comunicação empática



Numa altura propícia ao contacto mais genuíno, abordamos a comunicação compassiva - baseada na expressão e reconhecimento das necessidades dos interlocutores - desenvolvida e ensinada por Marshall Rosenberg há décadas. 

Texto Rogério Marques desenho Dina Cristo*

Porque há tanta desarmonia e conflito no mundo quando tantos parecem estar dispostos a contribuir para o bem-estar de outros? A verdade é que cedo na vida aprendemos a falar e a pensar de uma forma não-natural, mas que se torna habitual. Chamemos-lhe a linguagem de chacal ou chacalês.

O chacal

O chacal é um animal que se move próximo do solo, que não vê nem antecipa o futuro e que está apenas preocupado em satisfazer as suas necessidades imediatas.

A linguagem que o chacal usa é uma linguagem que vem da cabeça, classifica mentalmente tudo, incluindo pessoas, em graus de bem e mal, certo e errado, melhores e piores.

Esta linguagem provoca reacções de defesa, resistência, e contra ataque. É uma linguagem que não só faz os seus utilizadores acreditarem que podem rapidamente analisar, compreender e classificar as pessoas, como também de que podem mudar as outras pessoas. Ainda por cima, mudar as pessoas por via das exigências!

Resumidamente, o Chacal é: o uso de juízos morais, a comparação de pessoas, a negação de responsabilidades, o uso de exigências, o uso de recompensa e castigo, e a responsabilização de outrem pelos nossos sentimentos.

O Chacal surgiu há muitos milhares de anos e tem-se espalhado desde então, tendo profundas raízes políticas e filosóficas. Emergiu a partir de e suporta sociedades hierárquicas ou de dominação, sendo verdadeiramente uma mentalidade de escravo, portanto seria do interesse de reis, czares, nobres, etc que as massas fossem falantes de chacal.

Citando o criador da Comunicação Não Violenta, Marshall Rosenberg: “Quanto mais as pessoas são condicionadas a pensar em termos de juízos morais que implicam o "estar mal" ou "estar errado", mais propensas elas ficam a procurar externamente -
nomeadamente em autoridades - pela definição do que constitui certo e errado, bem e mal.”

Por tudo isto, a linguagem de Chacal pode ser considerada uma Comunicação Alienante da Vida.

Mas há uma outra possibilidade, que parece ter grande potencial para através dela fazermos com que a vida de todos seja mais maravilhosa. Vamos chamar a esta forma de comunicação de linguagem de girafa ou girafês.

A girafa

A girafa é um animal bastante diferente do chacal. Este é o animal terrestre com maior coração, vive a vida com gentilidade e força e tem a cabeça alta o suficiente para ver bem longe e tem consciência de como as suas acções no presente se repercutem no futuro.

Desde cedo nas nossas vidas somos integrados na sociedade e aprendemos a esquecer como falar à maneira da girafa, portanto gostaria de vos relembrar...

A linguagem de girafa é uma linguagem que vem do coração e serve para falarmos sobre o que se passa connosco, o que está, no momento, vivo em nós. Por outras palavras, é uma linguagem com um vocabulário rico em palavras que expressam sentimentos e necessidades, bem como uma atenção especial por falar da forma mais concreta que for possível quando estamos a criticar alguém ou até a fazer auto-críticas.

A girafa nunca julga os outros, procura dar oportunidade às pessoas de dizerem sim, e o “não” é respeitado como resposta. As girafas estão também conscientes de que não conseguem mudar os outros. O que as girafas fazem é dar-lhes oportunidades para estarem dispostos a mudar. É uma Linguagem de pedidos, sem exigências. Esses pedidos são focados no que queremos que as pessoas façam, não no que queremos que as pessoas sintam.

Enfim, a linguagem de girafa promove o nosso bem-estar e o dos outros, sem coerção ou manipulações.

É por isso que lhe chamamos Comunicação Não Violenta ou Comunicação Compaixonada.


Esta forma de comunicar pode ter fortes repercussões na nossa vida pessoal, íntima, social e profissional. Não é nenhuma panaceia, mas tem grande potencial para ajudar a melhorar a nossa vida em sociedade.

* Anos 70

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