quarta-feira, 3 de outubro de 2007

Condicionar o ar?


Mais importante do que o dinheiro, o amor, ou mesmo a água. O ar. Existe naturalmente, mas nós condicionamo-lo. O seu abuso agrava a poluição.

Texto e fotografia Dina Cristo

Não há nada de mais precioso. Venerado como um dos principais elementos da Vida, em sociedades antigas, onde os Silfos, elementais do Ar, eram respeitados, o ar é hoje desvalorizado. Além de respirarmos superficial, rapidamente e sem consciência, também já pouco exalamos ao ar livre e menos ainda ao ar puro. No entanto, é do ar que depende a nossa qualidade de vida. Literalmente. É dele que dependemos, desde que nascemos. Sem ele, nada do que consideramos mais importante resistiria. Sobre o ar deveria recair, então, a nossa maior e melhor atenção. É um dos nossos direitos mais básicos. Mas também um dos deveres primordiais, ao nível de um comportamento sustentável, de responsabilidade para com as gerações vindouras. Deixar-lhes, ao menos, ar puro e livre, para poderem não apenas sobreviver, mas também viver condignamente. Ao invés da preocupação com esta herança fundamental, nem sequer nos atendemos a nós próprios. Como tudo o que é realmente importante, é discreto, invisível e gratuito. Mas nós desbaratamo-lo. Depois de desequilibrarmos a Natureza, refugiamo-nos em autênticas redomas de vidro para não vermos o resultado das nossas acções. Fechamos janelas, acendemos a luz e, já quase automaticamente, ligamos o ar… condicionado. Condicionamo-lo à nossa comodidade. Esquecemos o resto: as causas e as consequências.
Os efeitos ambientais
Porque preferimos nós respirar ar condicionado? Fará melhor? Será melhor? Sentir-nos-emos uma espécie de Pavana, o antigo Senhor do Ar, que o regula à mercê dos seus desejos? Só que esse poder, ilegítimo e mal usado, virar-se-á contra o seu usuário. É o que está a acontecer. Num momento em que o país tem de economizar recursos, tanto económicos quanto energéticos e ambientais, usamos mal e/ou abusamos do ar que condicionamos. Deixamo-lo ligado horas a fio já sem dele necessitarmos, depois de ‘lá fora’ se ter atingido a temperatura que nós, ‘aqui dentro’, consideramos ideal. Numa altura em que a palavra de ordem é economizar, nós desperdiçamos. Sem o resolver (apenas mascaramos) agravamos o problema: consumimos mais energia. Para a repor entramos num ciclo vicioso: mais gastos, mais necessidade de recursos, mais depauperação, mais alterações climáticas, mais abuso… O que leva a mais necessidades artificiais e ao consumo de mais energia, para a qual se delapidará ainda mais património natural desgastando assim a natureza que, um dia, mais cedo ou mais tarde, manifestará o desequilíbrio criado. Outra consciência ambiental já comum é a necessidade de evitarmos os gases que destroem a camada de ozono, que nos protege dos raios ultravioletas. Pois bem, o ar condicionado é um dos principais responsáveis pela utilização desses gases compostos de síntese à base de cloro, bromo e flúor.
Os efeitos no Ser Humano e social
Além dos efeitos económicos e ambientais, há outros (mais) imediatos, visíveis e audíveis. A tosse, a irritação da garganta, olhos, nariz, as dores de cabeça, as alergias, as constipações. Enfim, cada um reage de acordo com sua parte mais sensível. É sabido que a falta, escassez ou deficiência na manutenção dos aparelhos de ar condicionado são campo para o desenvolvimento de fungos e bactérias, transmissão de infecções respiratórias, tal como para a
acidificação do sangue. A causa está na deficiente presença de oxigénio e na falta de oxigenação em proporções naturais. Tal resulta do desgaste do organismo devido ao ácido láctico que é descarregado na circulação sanguínea, por graça da decomposição da glucose que origina a produção de ácido pirúvico. A acidez no sangue por sua vez causará, entre outros efeitos, deficiência imunológica, aumento dos radicais livres e fungos, envelhecimento prematuro, problemas hormonais, cardiovasculares, de bexiga; pedra nos rins, diabetes, osteoporose, obesidade, fadiga crónica, rápida exaustão, tendências depressivas, digestão lenta, úlceras, gastrite; dores musculares, de cabeça e de dentes, inflamação da córnea, pálpebra e gengivas, pele seca e unhas e cabelos quebradiços.
Um dos problemas é a falta de alternativa. Para quem sofre os efeitos do ar artificial no organismo, sente uma opressão social, pois ele é hoje presença obrigatória em quase todos os estabelecimentos, públicos e privados, que nem as mercearias escapam. Trata-se de uma verdadeira questão de saúde pública. Enquanto em relação ao tabaco já há um aumento da consciência quanto aos malefícios, um retrocesso no que toca à imagem socialmente favorável de quem puxava pelo cigarro, uma onda de apoio crescente em termos legislativos e cada vez mais locais reservados a não fumadores, no que diz respeito ao ar condicionado tal não acontece. Ainda se está na maré de opinião pública crescente em que se usa sem conhecer as consequências. Por outro lado, enquanto nos elevadores é fácil para o consumidor verificar a manutenção feita, no caso dos aparelhos de ar condicionado não há como confirmar o estado dos filtros. A única coisa a que os utilizadores forçados têm acesso é, muitas vezes, ao aspecto pouco higiénico dos cabos e contentores. Algumas vezes nem sequer se limpa o espaço, no mais básico que a limpeza tem, mas há sempre um moderno aparelho de ar para se ligar. Não custa quase nada. Aparentemente e no curto prazo, apenas. Sacrifica-se o saber bem, a sensação de um desejo hedonisticamente cumprido, de parecer bem, ao fazer bem à saúde. Consideramos então muito “in” andar de mangas curtas em pleno Inverno e, no Verão, de mangas cumpridas. Rejeitamos o clima que a natureza tão graciosamente nos oferece, para desejarmos quase sempre o contrário. Vivemos, assim, numa insatisfação permanente, querendo quase sempre o contrário da temperatura que temos de forma natural. Mas haverá prazer maior que desfrutar o ar quente do Verão e, depois, o frio do Inverno, ou vice-versa? O quente e o frio é tão natural e importante como o dia e a noite, o homem e a mulher. Sem um deles, a vida seria absurda e impossível.
Neste momento, o ar condicionado corre o risco de se juntar a uma lista de dependências (sociais), como o tabaco ou o café. Primeiro o organismo rejeita e reage, depois habitua-se e a dependência instala-se. Os estragos virão mais tarde, até um dia a doença se manifestar.
A ilusão técnica
Tudo o que fazemos é uma expressão daquilo que somos. Ao condicionar o ar não estamos mais do que a auto-limitar a nossa essência vital. Prendemos o ar, como a água. A acção incauta e ambição humana parece tocar a consciência, levando o Ser Humano a necessitar de compensar com reservas para o futuro os recursos que, consumidos de forma frugal, seriam mais que suficientes no presente. A técnica, porém, dá-nos a ilusão de que podemos continuar a poluir o ar natural e que deste haverá sempre forma de o filtrar. A fantasia de viver quase permanentemente em ar artificial, ainda que uma vez por outra lá se tenha de enfrentar as quatro estações naquelas poucas vezes em que ainda saímos à rua e nos confrontamos com o sol, a chuva, a terra ou o ar. Às vezes, já sob a forma de ondas de calor, inundações, tremores de terra ou incêndios. Esquecendo os nossos gestos, limpamos daí as mãos, a nossa responsabilidade, individual e colectiva. A ideia de que podemos poluir à vontade, que depois haverá uma qualquer técnica que nos dará os elementos básicos à nossa sobrevivência, limpos e puros, pode ser muito cómoda mas é insustentável. Tudo aquilo que fizermos à Natureza e aos seus elementos, mais cedo ou mais tarde, ela nos devolverá. Em “feedback”. Aqui, agora, ou ali, depois. Mas inevitavelmente. Cada vez que optamos por ligar o ar condicionado estamos a agravar o problema das alterações climáticas. É como lançar ainda mais lenha para a fogueira. E o que se quer é apagá-la. A continuar assim, somos muito mais condicionados pelo ar do que o condicionamos, na verdade. Quem o vê, em janelas e prédios em toda a parte, parece que não tem concorrentes. Mas eles ainda existem e são mais eficazes, baratos e saudáveis. Tudo começa pela qualidade da construção dos prédios, o uso de persianas no Verão, e as velhinhas ventoinhas. Podemos ainda optar por uma via mais ecológica: a sombra de uma árvore, no calor, ou o uso de roupas mais quentes, durante o frio.
Um uso adequado, controlado da nova técnica pode ser, no entanto, legítimo na defesa de vidas humanas. Tratar-se-ia de um uso racional, pontual, em vez de um abuso emocional, quotidiano.

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quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Vi(d)a rápida?

Perto do atraso de uma hora, na madrugada de Domingo, reflectimos sobre o “vírus” da pressa, que nos põe à mercê dos ponteiros do relógio, cinco anos depois do primeiro dia nacional nos EUA pela diminuição das horas de trabalho e a defesa de mais tempo livre para o lazer.

Texto e fotografia Dina Cristo

Quem, hoje, não está ocupado? Poucos. E quem não está por vezes parece estar. Estar ocupado tornou-se uma espécie de estatuto social elevado: quanto mais atarefado mais importante se parece ser. Parar, fazer uma pausa, estar disponível parece ter sido relegado para o mundo dos fracos e indigentes. Mais do que isso, os humanos são de tal forma “elevados” que correm e vivem continuamente apressados, para aqui e para ali, fazendo isto e aquilo, atarefados entre um compromisso e outro, entre uma e outra chamada telefónica, @mail, e os mais afazeres que a tecnologia nos possibilitou.

«Na maioria da humanidade», escreveu Max Heindel, «existe tal preponderância de egoísmo e um desejo tão veemente de tirar o maior partido possível da vida física, que os seres humanos se encontram sempre ocupados, seja em manter o “lobo fora da porta”, seja acumulando posses e cuidando delas. Daí que tenham pouco tempo ou inclinação para se ocuparem com a cultura da alma, tão necessária para o verdadeiro êxito da vida»[1].
Para além das nossas actividades, sempre “importantes” e quase sempre urgentes, homens e mulheres esforçam-se por ser os primeiros: na escola, no trabalho, na estrada. Chegar primeiro é ser “mais” do que os outros e acrescenta ainda uma sensação de mais “poder”. É, assim, que muitas vezes já não corremos mas “voamos”, e algumas vezes nos estatelamos. Nesta correria, esquecemo-nos de que estar ocupado é estar preso, como explica Luís Martins Simões, é não deixar vago o lugar para tudo o que o agora nos pode presentear, e de que os últimos são os primeiros.
Embora os lamentos acerca da falta de tempo sejam habituais, o horror à pausa (como ao silêncio ou ao espaço vazio) parece ser ainda maior. E assim ocupamos excessivamente os tempos livres (talvez a mesma disfunção que leva a condicionar o ar) tentando encaixar numa vida, numa década ou, de preferência, num ano, quem sabe numas férias, todas as experiências possíveis. Para poder viver e fazer tudo só aumentando o ritmo. E foi o que fizémos: tudo, cada vez mais rápido. Fotografias num minuto, consertos rápidos, “conversas” de 30 segundos, crescimento intensificado (mesmo de crianças), canções concentradas num refrão.
Infectados pelo vírus da pressa, contagiamo-nos e de aguda tornou-se em doença crónica. A preocupação em gerir o tempo de forma eficaz gerou o aparecimento de gurus que nos aconselham a poupar tempo ao segundo. Só que a contabilização cada vez mais precisa do tempo torna-nos autênticos neuróticos, numa relação com o tempo patológica, perigosa e disfuncional.
Há mesmo quem sonhe em travar o tempo e o “anuncie” como marca do seu serviço e até bancos do tempo, onde as actividades são gratificadas consoante as horas dispendidas e não segundo o valor de mercado de cada serviço. Em Portugal existem agências desde 2002. Pagamos o trabalho com aquilo que, em cada época tem, para nós, mais valor. Se outrora fora o sal (daí o salário) e hoje é o dinheiro, quem sabe se no futuro vai ser o tempo a retribuição do exercício profissional.
Mas o tempo não tem todo o mesmo valor. O mundo, que se tornou num gigantesco centro mundial sempre acessível, potenciado com a internet, dá-nos essa ilusão. Quase tudo está a qualquer hora ao nosso alcance. Em Portugal a “revolução” começou com a abertura dos hipermercados ao Domingo e não mais parou. Fazem-se compras indiscriminadamente, de dia e de noite, à semana e ao fim-de-semana, durante a hora do almoço ou do jantar, nos dias profanos ou sagrados. Sempre as festas (diárias) das novas aquisições.
Desrespeitámos as tradições, os ritmos naturais e passámos a ter tudo sempre. É o caso da fruta que, congelada e vinda de vários países, temos durante todo o ano, a luz artificial que nos permite fazer da noite dia e trabalhar como se houvesse luz do sol. Mas, recorda Carl Honoré[1], a natureza tem os seus próprios horários e há uma altura certa para tudo. O Sábado, por exemplo, é um dia consagrado ao descanso (de onde vem a dispensa sabática) e não ao trabalho, muitas vezes duro, como se vê por quase todo o lado.
Desafiámos também os nossos próprios limites, até a (e à) morte. Quando aceleramos em excesso colocamos a vida em perigo, corremos o risco, na estrada, no trabalho (onde se verificam vários óbitos devido ao excesso de actividade) e na vida, com todo o desgaste orgânico gerado pelo stress continuado e de cuja tensão resultam inúmeras doenças. Radicalizamos, mesmo no desporto.

Devagar que tenho pressa

Queremos ser tão despachados por fora, que acabamos empachosos por dentro. Como, entre tanta pressa, sem tempo para “intervalo” – quantas vezes mesmo o natural e vital sono – havemos de assimilar e digerir tanta “comunicação”, experiências e “novidades”? Como, sem reflexão, atingiremos a consciência? Como, à força de assumirmos ritmos e horários apostados no trabalho sem tempo para a vida – incluindo o tão sonhado tempo para nós próprios e as coisas (às vezes mais simples) que nos alimentam a alma e nos devolvem a felicidade e alegria – não nos desumanizamos?
Haverá forma de nos protegermos desta doença do tempo, a necessidade gerada pela tecnologia de termos e fazermos sempre mais – mesmo à custa de sermos cada vez menos – com uma sensação crescente de falta de tempo e a mania de poupá-lo?
Desacelerar, como explica Carl Hororé no seu livroO movimento slow[2], é um risco numa sociedade apressada, competitiva e materialista. Abrandar tem um preço e os Lentos sabem-no bem. Mas deixar voluntariamente uma carreira de alta tensão, estatuto e lucros para adoptar uma vida mais simples, criativa, e descontraída tem inúmeras vantagens e uma delas é a de ser mais feliz.
Podemos começar por recuperar quer a sensação de ter tempo suficiente quer o auto-controlo. O primeiro passo - após a tomada de consciência de que o poder de escolha é nosso - é “dizer não” e optar: libertar a agenda e deixar espaço de tempo livre para passatempos que nos agradem, enriqueçam e alegrem ou, quem sabe, aproveitar para visitar o Museu do Relógio António Tavares D`Almeida, em Serpa.
Em relação às outras tarefas, seremos mais eficazes se tivermos em conta dois factores: primeiro, começar pelo essencial, depois o importante e no final o acessório; segundo, aproveitar os 20% de tempo em que atingimos os 80% de produtividade – período variável consoante os casos. Seja como for é importante manter o equilíbrio entre o trabalho e a vida ou, como sugere Louise Hay, dedicar oito horas por dia ao trabalho, ao lazer e ao descanso, bem como saber aplicar diferentes velocidades consoante as circunstâncias internas e externas, como indica Carl Honoré.
Não se trata de deixar de “correr” com fundamento, mas reconciliar-se com arte do fabrico manual, atentar ao aqui e agora, sem dele tentar escapar, saber dar tempo ao tempo, porque “Roma e Pavia não se fizeram num dia”, ser capaz de relaxar, parar ou, simplesmente, contemplar. “Não fazer nada, ser Lento, é essencial para se pensar bem” lembra Carl Honoré.
Por outro lado, “Ler implica tempo para reflectir (…)”[3], como lembra Paul Virilio, e “Tudo o que seja digno se ser lido é digno de ser lido lentamente”, reforça Cecília Howard. Para Uwe Kliemt “É estúpido beber um copo de vinho rapidamente. E é estúpido tocar Mozart muito depressa”[4]. É hora, pois, de reconhecer as virtudes da tartaruga.


[1] HEINDEl, Max - Princípios Ocultos de Saúde e Cura, Cap.V, pág.5. [2] HONORÉ, Carl - O movimento slow, Ed. Estrela Polar, 2006. [3] Citado por Carl Honoré [4] Citado por Carl Honoré

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