quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Comer animais?


A alimentação humana à base de carne está a cada dia que passa a ser posta em causa. Mas nem todas as pessoas estão em condições de mudar. Quando se assinala, este Domingo, o Dia Mundial do Respeito pelos Animais, vamos ver quem pode ou deve adoptar uma dieta vegetariana e porquê.


Texto e fotografia Dina Cristo



Criar e matar animais para depois os comer tornou-se um hábito ancestral, (muito) poucas vezes questionado. Sempre assim foi e há-de continuar a ser, diz o povo: “já a minha avó….”. Habituados à escassez aquando da Grande Guerra, os nossos antepassados viam na carne um luxo, algo apropriado para momentos de festa, aliado a uma certa ideia de estatuto económico-social. Mais tarde, com a produção industrial, o seu custo baixou consideravelmente e o acesso generalizou-se. Passou, então, a fazer parte da ementa quotidiana.
Chegámos, assim, ao ponto em que, nos primeiros anos deste século, cada português consome, em média, cem quilos de carne, por ano. “A maior parte das pessoas pensa que uma refeição sem carne está incompleta, pois, desde tempos imemoráveis, considera-se axiomático ser a carne o alimento mais revigorante que possuímos. Todos os outros alimentos são considerados como simples acessórios de um ou mais pratos de carne no cardápio. Nada mais errado (…)”, escrevia Max Heindel há cem anos.
Ao excesso de carne no prato tem vindo a opor-se um movimento (inter) nacional que chama a atenção para os malefícios do uso, e sobretudo do abuso, do regime alimentar carnívoro. Peter J. D´Adamo tem estudado a dieta mais adequada para cada tipo de sangue e conclui claramente a natureza vegetariana dos indivíduos de tipo de sangue A, ao contrário do tipo O, carnívoros, e do tipo B, que toleram bem a proteína animal, e do tipo AB, que precisam de conjugar a dieta carnívora com a vegetariana.
Os riscos para a saúde são uma dos três razões mais habitualmente apontadas. A carga hormonal e de antibióticos, a alimentação artificial e as condições cruéis a que os animais são sujeitos nas produções intensivas têm vindo a ser denunciadas um pouco por todo o mundo: «Na produção pecuária utilizam-se aditivos e medicamentos de toda a espécie (…) para acelerar o crescimento dos animais e para combater doenças que são, frequentemente, consequência directa da imobilidade, dos maus tratos e da alimentação incorrecta dos animais», escrevia Gabriela Oliveira, no Outono de 2002, na revista “Biosofia” (uma das candidatas ao Prémio Informação Solidária 2009)[1].
As doenças entre os animais abatidos para consumo humano, como a BSE ou actualmente a gripe das aves, são vistas não como um acaso mas uma consequência do tratamento atroz a que os animais são submetidos. O gado deixou de se alimentar livremente nos campos para passar a ser “inchado” em condições degradantes e sujeito às mais diversas técnicas de tortura para lhes aumentar a produtividade e, portanto, os lucros empresariais: «(…) desde que haja possibilidade de ganhar dinheiro com a carne ou com a pele de um animal, o homem perde todo o respeito por sua vida e se converte no ser mais perigoso da terra, alimentando-os e criando-os para ganhar dinheiro, impondo sofrimentos e tormentos a um ser com direito à vida, para amontoar ouro»[2].
Humberto Álvares da Costa denunciava, há dez anos, o problema da assimilação dos desejos animalescos: «(…) também a matéria dos animais é viva e inteligente, mesmo depois de os assassinarmos, e introduzir no nosso corpo os desejos e o modo de sentir dos animais. Quem quer libertar-se, necessita de abdicar de comer animais ou tudo aquilo que promova desejos exacerbados (…)»[3]. Se se juntar a capacidade de antevisão dos animais à sua ida para os matadouros, autênicos campos de concentração, teremos o quadro de animosidade humana, agressividade e ferocidade comum.
Os cadáveres estão impregnados de toxinas, não só pela forma como são crescidos intensivamente, mortos e também, depois, ingeridos: «É natural que desejemos o melhor como alimento, mas todos os animais têm em si os venenos da putrefacção. O sangue venoso está cheio de substâncias venenosas que ele vai adquirindo no seu caminho através de todo o organismo e que normalmente deveriam ser expelidas através da urina e da transpiração. Estas substâncias repugnantes se encontram em todas as partes da carne, e quando comemos esses alimentos enchemos nosso corpo com essas toxinas venenosas. Muitas enfermidades são devidas ao nosso emprego da carne»[4], expunha o autor de "Conceito de Rosacruz do Cosmo".
Num artigo que recentemente publicámos, Alberto Chang explica os mesmos perigos: «As proteínas animais consumidas em excesso deixam resíduos tóxicos nos tecidos, tais como as purinas e ácido úrico, que podem causar putrefacção intestinal, acidificação e diminuição do cálcio e magnésio no organismo. Muitas vezes consomem-se os hambúrgeres bastante fritos ou cozidos e o problema agrava-se mais, visto que ao perder a vitamina B6 e outros nutrientes dá-se o aparecimento de uma substância tóxica: a homeocisteína, implicada na origem da arteriosclerose. Por outro lado, a carne tostada vem a produzir uma substância extremamente tóxica: o benzo-alfa-pirene, implicado na formação de cancro»[5].
Além das incompatibilidades alimentares, da multiplicação de proteína (um dos erros mais comuns à mesa, como é exemplo o bife com ovo), e da forma incorrecta de os cozinhar (demasiado fogo que elimina os nutrientes), o seu excesso deixa, pois, um rasto de veneno pelo organismo: «A carne que se consome», afirma Gabriela Oliveira, autora do livro “Alimentação Vegetariana Para Bebés e Crianças”, «mais não é que um bocado de cadáver impregnado de toxinas e de emoções primárias, resultado de uma vida escravizada e de uma morte violenta»[6]. Daí a tendência das crianças vegetarianas, como sublinha, para ser «(…) mais equilibradas, calmas e afectuosas (…)»[7]

Nutrição vegetariana 

A dieta vegetal ou frugívora é mais saudável, sobretudo se for crua, pois mantém a vitalidade do alimento, e é, muita dela, um antisséptico natural em alto grau (caso do ananás, laranja ou limão), limpando e purificando o sistema orgânico e elevando as vibrações do corpo. «Não devemos, todavia, chegar à conclusão de que cada um de nós teria que deixar de comer carne e dedicar-se a comer vegetais crus. Em nosso estado actual [1909] de evolução são muito poucos os que podem fazê-lo. Temos que cuidar de não elevar muito rapidamente as vibrações de nossos corpos porque, para continuarmos nosso trabalho nas condições actuais, precisamos ter um corpo apropriado para as tarefas que devemos realizar»[8].
Na verdade, o maior poder alimentício não está na carne. A sua proteína requer muitas enzimas digestivas (que o tipo de sangue O dispõe), pelo que a parte não digerida, que fica retida nos intestinos, apodrece e provoca maior acumulação tóxica; acidifica o organismo, origina uma menor actividade, maior excitação e desgasta o corpo. Só as pessoas que a consomem sentem necessidade de um estimulante espirituoso que embriaga, o vinho. Pelo contrário, os vegetais são elementos de mais fácil digestão, fornecem mais energia e a sua nutrição é mais prolongada.
No Génesis (1.29), é referido que a humanidade se deverá alimentar de vegetais: «E disse Deus: Eis que vos tenho dado toda a erva que dá semente, que está sobre a face de toda a terra; e toda a árvore, em que há fruto de árvore que dá semente, ser-vos-á para mantimento». Uma alimentação para a qual está vocacionada: «Os seres humanos podem alimentar-se de todo o tipo de alimentos, mas possuem características digestivas fisiológicas mais próximas do herbívoro que dos carnívoros. Exemplo disso é o número dos dentes incisivos, molares e pré-molares, e um tracto digestivo longo, adaptado à digestão de legumes, frutas e cereais, e em menor grau à digestão de proteínas animais»[9].
Além do envenenamento, embrutecimento e várias doenças, há um “segundo” argumento a desfavor da alimentação à “base” de animais: o ambiente. O Partido pelos Animais, na Holanda, e o documentário “Uma verdade mais do que inconveniente” sublinham o responsabilidade da indústria da pecuária nas emissões de gases no mundo (18%), acima do impacto dos transportes (13%), e na degradação dos solos e da água. Cada quilo de carne de vaca consumido equivale a 16 mil litros de água gastos: «Neste contexto, adoptar uma alimentação tendencialmente de base vegetariana permite, para além de reduzir o impacte sobre o solo, sobre a biodiversidade, sobre a energia e sobre as alterações climáticas, poupar água»[10], relembrava a Quercus no início deste ano. A quantidade de árvores abatidas para dar lugar a campos de cultivo que sustentem alimentação para os animais é outro factor de risco ambiental planetário.
Matar é desumano A terceira “vaga” de contestação é ao nível ético. O ideal de respeito pela vida dos animais e a prática de uma alimentação vegetariana têm sido ensinados e defendidos pelos grandes vultos da nossa história (inter)nacional. S. Francisco de Assis, seu padroeiro, é um dos mais conhecidos. Mais tarde, Leonardo Da Vinci profetizava que dali a alguns séculos qualquer ser humano que matasse um animal seria (re)criminado e condenado tal como “hoje” acontece quando a vítima é um humano.
«Tanto a espiritualidade oriental como a ocidental têm tradições que favorecem o vegetarianismo como expressão de sensibilidade moral e espiritual. No Ocidente, a exclusão de produtos animais foi ensinada pelos antigos pitagóricos, por algumas austeras ordens religiosas medievais e pelos rosacruzes»[11]. Em Portugal, Agostinho da Silva foi um exemplo de inofensividade à mesa e a tradição religiosa nacional reserva as Sextas-Feiras da Quaresma, especialmente a Santa, para a abstinência carnívora.
Já no século XIX, Helena Blavatsky se indignava perante o sofrimento sobre os animais: « (…) a caça se tornou um dos entretenimentos mais nobres das classes superiores. Assim – pobres inocentes pássaros feridos, torturados e mortos aos milhões a cada outono, tudo em países cristãos, para a recreação do homem. Disso também surgiu a maldade, e frequentemente a crueldade a sangue frio (…) Em todos os países que o europeu passa a dominar, começa a matança de animais e o seu massacre inútil»[12].
No início do século XX, Max Heindel questinava: «Se tivesse que ir a esses lugares sangrentos, onde todos os dias se cometem horrores para poder satisfazer os costumes anormais e daninhos, que causam muito mais vítimas que a sede de álcool; se tivesse que manejar o cutelo impiedoso e mergulhá-lo nas carnes palpitantes de suas vítimas, quanta carne comeria? Muito pouca. Mas para fugir desse trabalho repugnante, obrigamos nossos semelhantes a trabalhar nos sangrentos matadouros, matando milhares de animais dia após dia»[13].

Animais sensíveis 

Um dos maiores combates de quem defende os animais é o reconhecimento do seu carácter senciente, ou seja, de seres capazes de sentir dor e de sofrer. «Torna-se hoje visível que muitos animais, se tiverem espaço/condições psicológicas e materiais, revelam um potencial imenso, demonstram verdadeira inteligência, sentimentos refinados e complexos, e impressionante sentido estético”[14].
Nos nossos dias, a contestação face ao tratamento dos animais como se fossem objectos ou coisas à mercê dos caprichos do Homem alastra conforme desperta a sensibilidade das crianças, homens e mulheres. Reflexo de uma renovada consciência que, por compaixão, pretende evitar o sofrimento desnecessário dos animais que, doravante passam a ser vistos como criaturas vivas, a quem se deve respeito e protecção.
Hábitos alimentares que até há pouco tempo foram vistos como normais - por indiferença, inconsciência ou desumanidade - são hoje cada vez mais considerados verdadeiras atrocidades, barbaridades, massacres, assassinatos, aberrações, tornando-se cada vez mais difícil justificar os cerca de 60 biliões de animais usados em quintas industriais e o crescente mercado negro (ilegal) de animais (selvagens).
Desde sempre seres humanos de elevada estirpe optaram por um regime vegetariano, mas ultimamente têm vindo a somar forças. Em Portugal, a Liga Portuguesa dos Direitos do Animal, a "Animal", associação criada há 15 anos no Porto, têm vindo a lutar pelos direitos dos animais, como o de não serem sujeitos à violência, à privação da liberdade física e de não serem mortos. A nível internacional, está a decorrer uma campanhaPara mim os animais importam”, que conta com quase dois milhões de assinantes. A nível governamental, cerca de 200 países assinaram um compromisso, decorrente da conferência da Manila, em 2003, tendo em vista uma Declaração Universal do Bem-Estar Animal.
Também os portugueses se mostraram mais sensibilizados com o sofrimento animal ao ponto de o “Aqui e Agora”, da SIC (outro dos nomeados para o PIS 2009) lhes ter dedicado dois programas, com elevados níveis de participação. Na Anadia, por exemplo, há um casal que tem como animal de estimação uma porca e a cada esquina vemos mais pessoas dedicadas ao convívio com os animais.
Tendo em vista o desenvolvimento humano será de esperar que a humanidade passe a etapa do carnivorismo, como já ultrapassou a do canibalismo. Com uma sensibilidade mais apurada, de acordo com Max Heindel, os seres humanos sentirão horror face a um passado que, então, encararão como bárbaro e tenderão, então, a sacrificar-se a si mesmos, em detrimento dos animais, e a criar, em vez de destruir: «(…) chegará o dia em que sentiremos profunda repugnância ante o pensamento de converter nossos estômagos em cemitério de cadáveres dos animais assassinados. Todos os verdadeiros cristãos se absterão de comer carne por pura compaixão e compreenderão que toda vida é a Vida de Deus e que é errado causar sofrimento a qualquer ser sensível»[15].

Mudança de regime alimentar? 

Max Heindel chama a atenção para a alteração repentina da base alimentar humana: «(…) Seria errado, no entanto, que se mudassem os hábitos alimentares usados durante anos, para seguir outro regime, sem análise prévia e cuidadosa do que melhor possa servir aos objectivos pretendidos. A simples eliminação da carne, da alimentação corrente das pessoas omnívoras, causaria certamente desequilíbrios na saúde da maioria. A única maneira segura de o fazer é, em primeiro lugar, estudar o assunto cuidadosamente e experimentar o novo regime»[16].
Quem tem o tipo de sangue A (de origem sedentária, quando o homem se tornou agricultor) pode fazê-lo e, no caso de aspirantes a uma vida espiritual, devem-no: “Nenhum indivíduo que mate consegue progredir alguma coisa no caminho da santidade. Note-se, todavia que, ao comer carne, agimos pior do que se matássemos. Com efeito, para evitar cometer pessoalmente essas matanças, obrigamos o semelhante, forçado por necessidades económicas, a dedicar a sua vida inteira ao assassínio. Essa actividade brutaliza (…) Matar, para um aspirante aos ideais elevados, seja pessoalmente ou por interpostas pessoas, é uma coisa completamente inaceitável. Contudo, podem ser usados vários produtos animais muito importantes, como o leite, o queijo e a manteiga»[17].

Alternativas 

Como refere Max Heindel no sub-capítulo "Ciência da nutrição", na sua obra máxima: «Em termos gerais, de todos os alimentos sólidos, os vegetais frescos e as frutas maduras contêm a maior proporção de substâncias nutritivas e a menor quantidade de substâncias nocivas»[18]. Devido ao seu grau de consciência (sono com sonhos), superior ao dos vegetais (sono sem sonhos), os animais tendem a individualizar-se, a resistir à sua assimilação e a libertar-se mais depressa, daí a decomposição rápida, pelo que a sua ingestão exige maior quantidade de comida e refeições mais frequentes.
Existem formas alternativas, mais éticas, ecológicas e saudáveis, de obter proteínas completas, ou seja, alimentos que contêm, nas proporções correctas, os aminoácidos essenciais (isoleucina, leucina, lysina, methionina, fenylalanina, threonina, tryptofan e valina) produzidos unicamente através da alimentação (e não elaborados espontaneamente pelo organismo, como é o caso dos 14 aminoácidos não essenciais). A combinação do arroz com feijão, favas, ervilhas ou grão, por exemplo, é uma das formas de o conseguir. Também há fontes unicamente vegetais de proteína muito rica, em qualidade e quantidade, como é o caso dos derivados da soja, desde que não geneticamente modificada, como o tofu.
Em “O livro essencial da cozinha vegetariana” são dados exemplos de como variar e combinar alimentos: “A mistura de leguminosas, cereais, frutos secos e sementes proporciona ao organismo os aminoácidos necessários para produzir proteínas completas: feijão encarnado com arroz, grão-de-bico com couscous, sopa de ervilhas secas com pão, hamburguer de lentilhas com pão, manteiga de amendoim com tosta, tostas com feijões guisados (…)”[19]. Também “Na maior parte das sociedades a cozinha típica inclui diversas formas de combinar as proteínas complementares”[20], como arroz com tofu, massa e queijo, muesli com leite ou feijões com legumes[21].
A dieta vegetariana, nos seus diferentes formas e graus, constitui uma solução para muitos dos problemas actuais; alia a via da não-violência, o desenvolvimento humano e uma vida saudável e será difícil argumentar que não é viável - «As nações vegetarianas do Oriente são um argumento incontestável contra os que defendem a dieta carnívora”[22] – ou exequível, pois a lista de restaurantes vegetarianos cresce não só pela região de Lisboa mas por todo o país.


[1] OLIVEIRA, Gabriela – Nascer e crescer vegetariano in Biosofia, Outono 2002, p.34. [2] HEINDEL, Max – Princípios ocultos de saúde e cura, Cap. X, p.9. [3] COSTA, Humberto Álvares – Vegetarianismo e o Novo Homem in Biosofia, Outono 1999, p.46. [4] HEINDEL, Max – Princípios ocultos de saúde e cura, Cap.X, p.8. [5] Editado pela Arte Plural em 2006. [6] OLIVEIRA, Gabriela – Nascer e crescer vegetariano in Biosofia, Outono 2002, p.34. [7] OLIVEIRA, Gabriela – Nascer e crescer vegetariano in Biosofia, Outono 2002, p.33. [8] HEINDEL, Max – Princípios ocultos de saúde e cura, Cap. X, p.9. [9] A importância da soja na alimentação humana, Rosacruz, nº 386, p.29. [10] QuercusAmbiente Janeiro/Fevereiro 2009, pág.29. [11] ROSACRUZ – A importância da soja na alimentação humana in Rosacruz, nº386, p.29. [12] Citado de http://www.filosofiaesoterica.com/ [13] HEINDEL, Max - Princípios Ocultos de Saúde e Cura (Cap.X). [14] ANACLETO, José Manuel – Animais in Biosofia, nº33, p.3. [15] HEINDEL, Max – Princípios ocultos de saúde e cura, Cap. X, p.10. [16] HEINDEL, Max - Método para adquirir conhecimento directo, p.352. [17] HEINDEL, Max - Método para adquirir conhecimento directo, p.351. [18] HEINDEL, Max – Conceito Rosacruz do Cosmos, p.350 [19] O livro essencial da cozinha vegetariana, Konemann, 2000, p.22/23. [20] O livro essencial da cozinha vegetariana, Konemann, 2000, p.20. [21] Outros exemplos. hummus com pão lavash, salada de feijão e tabouli, dhal com pão pita ou com arroz, felafel com pão pita ou feijões com milho. [22] HEINDEL, Max – Princípios ocultos de saúde e cura, Cap. X, p.8.

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quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Hrani-Yoga


Num mês em que se comemorou o Dia Mundial da Alimentação ouvimos os conselhos de Omraam Aivanhov sobre um tipo de yoga pouco conhecido e que pode ser praticado à mesa, uma ocasião acessível a todos e favorável ao aperfeiçoamento humano.

Texto Dina Cristo

«(…) cada homem é acompanhado por todas as almas dos animais cuja carne comeu»,[1] uma presença que se manifesta em estados como a crueldade, a sensualidade, a brutalidade, a destruição ou o medo. Pelo contrário, toda a erva que tem semente, como refere o Génesis, é indicada para alimentação humana; os frutos e legumes têm a vantagem de absorver a luz solar directamente e quase sem resíduos. Omraam indica como excepção à regra de não comer animais, o peixe, dado o seu sistema nervoso, rudimentar, e a presença do iodo, benéfica.
Este é um exemplo do tipo de dieta indicada para o Ser Humano. Mas mais importante do que o que comer, afirma Omraam, é a quantidade do que se ingere. Esta deve ser a conveniente e razoável. Tudo o que for para além do necessário, da moderação ou do limite e entrar no desregramento ou excesso sobrecarrega o organismo, bloqueia a digestão, provoca sensação de peso, sonolência, conduz à insaciedade e à doença. Pelo contrário, se parar antes de ficar cheio e sair da mesa com um ligeiro apetite a pessoa sentir-se-á mais leve, viva, bem-disposta e capaz de trabalhar.
O mais importante é mesmo o modo como se deve comer. Omraam refere que se pode diminuir a dose de comida, para metade ou até mesmo para um quarto se se aprender a comer correctamente. O jejum, por exemplo, é fundamental para limpar o organismo, dos resíduos que nele se acumulam e o obstruem, e assim purificá-lo. Para retirar dos alimentos os seus elementos vitais e depois os assimilar é necessário que eles se abram e, neste caso, o “mordente” é a ligação prévia, através de todos os sentidos, e a preparação, pela bênção e oração.

Relaxamento alimentar

Comer lentamente e mastigar bem, para que a língua assimile os elementos mais puros, e respirar profundamente, para melhorar a combustão dos alimentos, são outros dos cuidados a ter durante e no final das refeições. Nutrir-se em paz e em silêncio, preenchido com pensamentos conscientes e concentrados, nomeadamente nas suas qualidades, e sentimentos amor e gratidão, é essencial para se conseguir captar as energias mais etéricas que irão alimentar integralmente o Ser Humano.
Para Omraam, todo o alimento é sagrado. Luz solar condensada, a sua energia só é libertada e assimilada consoante a atitude da pessoa for mais ou menos consciente e amorosa: «O segredo para que os alimentos se abram consiste em aquecê-los, e o calor é o amor»[2]. Um pensamento concentrado dar-lhe-á lucidez e clareza mental e um coração agradecido facultar-lhe-á boa disposição. A refeição é uma espécie de alquimia que permite transformar a energia contida em cada alimento em luz e amor. Mas se se recebe força, vida e saúde, também se possibilita a transformação, subtilização e evolução da matéria – é uma troca.
Além da comunhão, a refeição é também, para Omraam Mikhael Aivanhov, um tipo de yoga, fácil e com resultados eficazes, o Hrani-Yoga, já que saber comer exige atenção, concentração e (auto)domínio. O autor explica como cada refeição é uma oportunidade para relaxar, abrir o coração, desenvolver a inteligência, aplicar a vontade e religar-se aos quatro elementos, como o sol, do qual, defende, nos deveríamos alimentar. Também cada Ser Humano deveria alimentar-se e alimentar, em simultâneo, o sol de todos os outros humanos, o seu melhor, a alma, depois de limpa e retirada a casca, a personalidade.
Recolher-se enquanto come e fazê-lo num estado de harmonia, determinará a actividade seguinte. Respeitar os alimentos e magnetizá-los, para que vibrem amigavelmente, sejam bem absorvidos e deles se retirem as partículas mais preciosas, que irão alimentar o sistema nervoso e todos os órgãos, é fundamental. Uma refeição mesurada para não fatigar o corpo físico e estimular quer o corpo etérico quer o plexo solar, o “cordão umbilical” que liga a Humanidade à sua Mãe, Natureza, é um dos conselhos dados por Omraam Aivanhov neste livro, redigido a partir de conferências proferidas pelo autor.



[1] AIVANHOV, Omraam- O yoga da alimentação. Éditions Prosveta e Publicações Maitreya. Coleção Izvor, 2013, pág.58. [2] Idem, pág. 104.

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quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Nutrição inteligente


Antes do Dia Mundial da Alimentação, este Sábado, lembramos a necessidade de se incluir na dieta nutrientes como as algas ou os óleos vegetais, a pressão a frio e crus, para uma nutrição mais racional.

Texto Alberto Suarez Chang

A levedura de cerveja é uma fonte de proteínas completas. Contém 15 dos 20 aminoácidos de que necessitamos para fabricar todas as proteínas indispensáveis ao bom funcionamento do nosso organismo. Sobretudo indispensável para quem decida ter um regime vegetariano já que pode complementar os aminoácidos carentes na soja e outros grãos. Contém uma boa quantidade de quase todas as vitaminas do complexo B, principalmente thiamina, riboflavina, niacina, ácido pantoténico, piridoxina, biotina e ácido fólico.
Os sintomas da deficiência deste importante complexo incluem fadiga física e mental, perda de apetite, irritabilidade, nervosismo, depressão, problemas de pele, fissura dos lábios, etc. Também contém traço de minerais essenciais como ferro, zinco, selénio e crómio. Principalmente deste último a levedura é uma das suas mais ricas fontes. O crómio é um co-factor essencial para a actividade e eficácia da insulina, portanto fundamental para o metabolismo da glucose.
A insuficiência deste tipo de micro-elemento (que acontece com frequência com o consumo de hidratos de carbono refinados) eleva o nível de açúcar no sangue, produz hipoglicémia, intolerância de glucose nos diabéticos, endurecimento das artérias, aterosclerose e problemas no metabolismo de aminoácidos.
(Micro)algas
As algas - verdes, vermelhas (nori) ou castanhas (laminárias, wakame, kombu, etc.) e praticamente todas as algas comestíveis - contêm uma grande concentração de vitaminas, tais como B1, B2, B3, B12, C e caretenóides. A vitamina B12 ou cyanocobalamina, essencial para o crescimento do tecido nervoso da mielina e para a formação de glóbulos vermelhos, é encontrada pela primeira vez em fontes não animais. Também contêm uma importante quantidade de minerais. Em algumas delas representam entre 10 e 30% do peso da alga seca; de todos eles, talvez o iodo seja o mais importante.
O iodo actua sobre a tiróide para a produção de certas hormonas que asseguram o processo metabólico normal do organismo. Tanto a sua deficiência como o seu excesso podem bloquear o seu bom funcionamento e produzir o bócio, hipertiroidismo ou hipotiroidismo e toda uma série de problemas relacionados com isto. O iodo orgânico das algas é um excelente protector contra substâncias radioactivas como o strontium 90 e o iodo radioactivo 131, posto que bloquearia a sua absorção por competição. De todas estas algas, o kelp, da espécie das laminárias, vem sendo utilizado em terapia nutricional devido à sua grande concentração de outros traços de nutrientes essenciais, como hidratos de carbono, proteínas, vitaminas e minerais (principalmente iodo, magnésio, potássio, cálcio, fósforo, ferro e zinco).
As algas também contêm polisacarídeos como os alginatos que são utilizados eficazmente no tratamento de úlceras e queimaduras. Outro componente, o ácido algínico, é usado em processos de desintoxicação de metais pesados como chumbo, mercúrio e cádmio, assim como protector contra radiações de strontium. Entretanto, descobriu-se um componente polisacarídeo sulfatado, chamado fucoidan, com propriedades antitumorais (responsável pelo baixo risco de cancro no seio no Japão), anticoagulantes e fibrilíticos. Outro composto activo, o sulfato dextran, tem propriedades anti-virais (desactiva o vírus da herpes simples) e anti-microbiano de amplo espectro. E, por último, o cicloendesmol, um composto antifúngico utilizado contra a cândida albicans.
Devemos mencionar aqui três micro-algas realmente importantes por conter uma grande quantidade de substâncias nutricionais e terapêuticas: a chlorella, a spirulina e a alga “azul-verde” (aphanizaomenon flos aquae).
A chlorella pyrenoidosa é uma alga verde unicelular, com um altíssimo conteúdo de clorofila (28,9 g por kg) e vitaminas (C, beta caroteno, B12 e todo o complexo B), minerais (fósforo, magnésio, cálcio, manganês, zinco e cobalto), ácido lipóico, ácidos nucleicos, proteínas completas 60% (todos os aminoácidos em boa proporção à excepção de metionina), enzimas e outras substâncias terapêuticas como o glicolipidio chlorellin, que demonstrou possuir uma actividade antiviral, imunoestimulante e antitumoral pela sua indução à produção de interferon 10 e a activação das células B e T (linfócitos).
A chlorella, graças à clorofila, estimula a formação de eritrócitos no sangue e acelera a produção de fibroblastos, as células responsáveis pela cicatrização de feridas. Os derivados de clorofila inibem as enzimas proteases, responsáveis pela inflamação e outros danos que causa a pancreatite. Também a clorofila tem uma actividade “lipotrópica”, ou seja, estimula a excreção de colesterol. Por último, a chlorella tem uma grande capacidade de desintoxicação de metais pesados, como o cádmio 14, mercúrio, urânio e chumbo. Assim como também remove pesticidas como o polychlorbiphenyl (PCB) e insecticidas como o chlordeconel.
A spirulina máxima é uma micro alga unicelular que pertence ao grupo das cyanophyceae que crescem sobretudo nas superfícies de lagos de água alcalina. Tem uma das percentagens mais altas de proteínas completas (60%), ou seja, possui todos os aminoácidos em proporção correcta. É uma das fontes mais extraordinárias de vitamina B12 (duas vezes mais do que o fígado) e de uma quantidade significativa de outras vitaminas do complexo B, principalmente a thiamina (B1) e riboflavina (B2). Contém também a provitamina A: betacaroteno e outros 16 diferentes tipos de caretenoides. Tem uma boa proporção de ácidos gordos essenciais ou poli-insaturados ómega-3, ómega-6 e gamma linolenic acid (GLA) assim como grandes quantidades de phicocyanins (estimulante do sistema imunitário), glicolipídeos, sulfonolipídeos, rhamnose e muitos minerais tais como magnésio, ferro, potássio, etc. Terapeuticamente utiliza-se em casos de vitaminose, úlceras, hipoglicémia, deficiência do sistema imunitário e prevenção de tumores.
A alga “verde-azul” pertence ao mesmo grupo de micro algas que a spirulina. Crescem na água fresca do lago Klamath, uma remota área ao Sul do Oregon (EUA). Como a spirulina, esta alga contém mais de 60% de proteínas completas, clorofila, betacaroteno, complexo B (sete vezes mais de B12 do que a spirulina) e toda a gama de minerais.
O gérmen de trigo é o embrião do grão, contém todos os recursos vitais que permite que uma nova planta se desenvolva. É rica em vitamina B (B1:1,7mg/100gr; B2: 03mg/100gr, B3, B6: 1mg/100gr, ácido fólico 398mcg/100gr)), vitamina E, aminoácidos como lisina (1,660mg/100gr) metionina, minerais como ferro (9,1mg/g), magnésio (285mg), fósforo (1,044mg) ou zinco (13,2mg) e proteínas (28g/100gr).
O pólen é uma fonte de vitalidade muito rica de vitaminas, ácidos aminados e proteínas pré-assimiladas. Pode-se usar com outros adaptogénicos como regulador energético.
Óleos vegetais
As gorduras, em várias formas, são outro dos factores nutricionais que o nosso organismo necessita para funcionar correctamente. Alguns deles, os ácidos gordos essenciais (ómega-3 e ómega-6) produzem substâncias biológicas de capital importância sem as quais o nosso organismo não funciona. Grosso modo, poderíamos classificar as gorduras em três tipos: saturados, monosaturados e poli-insaturados.
As saturadas encontram-se maioritariamente em produtos animais como a manteiga de porco, derivados lácteos (queijo e manteiga), carne e em menor grau nos vegetais, com a excepção da manteiga de coco. As monosaturadas encontram-se principalmente representadas no azeite de oliveira. O azeite tem que ser extraído a frio, só através de processos mecânicos, e não refinado para ser denominado “virgem”. Só assim podemos aproveitar as suas componentes medicinais, como o ácido oleico, vitamina E, squalene, phytosterols e caretenoides - todos eles protectores de enfermidades cardiovasculares e tumorais. Por último, os poli-insaturados são todos os óleos vegetais (em estado líquido à temperatura ambiente) provenientes do milho, girassol, colza, sésamo, soja e outros.
Os ácidos gordos essenciais pertencem a este tipo de gordura, contudo, nem todos os poli-insaturados são essenciais: alguns óleos vegetais podem sofrer alterações perigosas, sobretudo quando são refinados, processados com calor ou utilizados para frituras. Os ácidos gordos essenciais dividem-se em dois grupos: o ácido linoleico (ómega-6), presentes principalmente nos óleos de girassol, milho e soja, e o ácido alfa linoleico (ómega-3) que se encontra em maior proporção no óleo de linho, e em menor percentagem no óleo de soja, avelãs, nozes e abóbora. Este ácido alfa linoleico converte-se no nosso organismo em ácido eicosapentaenoico (EPA, que se encontra em boa quantidade nos peixes de água fria, salmão, atum, trutas e cavala) e este ácido, por sua vez, converte-se numa importante hormona, a prostaglandina E-3. Muitíssimos estudos hoje em dia demonstram que o consumo destes peixes reduz significativamente o risco de enfermidades cardiovasculares. Por sua vez, este ácido linoleico transforma-se em ácido gama linoleico (desde que não encontre nenhum bloqueio na sua transformação) e este ainda, por sua vez, em “prostaglandina E-1. O ácido gama linoleico encontra-se presente nos óleos extraídos de plantas como borago officinalis e primula veris.
A actividade biológica dos ácidos gordos essenciais é vastíssima, contudo, alguma dela tem de ser mencionada. Eles formam parte da membrana celular, contribuindo para a sua fluidez e transportando oxigénio através das membranas assim como o crescimento e divisão celular; formam parte do tecido nervoso, afectam o desenvolvimento e função cerebral (incrementa a capacidade de aprendizagem), moderam as emoções, aliviam as depressões e equilibram a hiperactividade infantil. As prostaglandinas E-1 e E-3 são anti-inflamatórias, estimulantes do sistema imunitário (infecções) e moderam os problemas auto-imunes (como diabetes ou artrite reumatóide).

Atmosfera relaxada

O ruído ao qual estamos expostos quase todos no quotidiano é um dos factores mais esgotantes e perturbadores do sistema nervoso. No momento de almoçar ou jantar deveríamos apagar a televisão ou o rádio, baixar o volume do telefone (principalmente não atender) e distanciarmo-nos o mais possível de todas as fontes de ruído que ultrapassem os 60 decibéis (um restaurante que dê para a rua passa dos 80 decibéis). Então, devemos procurar o lugar mais tranquilo, harmonioso e confortável para podermos comer.
Por menos ideal ou bonita que possa ser a casa onde vivamos deveríamos sempre tratar de nos rodear de cores agradáveis e da beleza das plantas e flores. Por outro lado, deveríamos evitar comer quando estivéssemos apressados, ansiosos, irritados ou com falta de apetite. Ao comer em tais condições não se mastiga nem se saliva a comida apropriadamente e, por isso, a digestão perturba-se e dá origem a uma série de problemas gástricos, tais como gases, acompanhados de uma sensação de peso e sonolência o resto do dia. E, por último, os pratos têm que ser apresentados esteticamente de forma que sejam apetecíveis aos olhos.
Água pura
Não nos esqueçamos de que somos constituídos por uns 70% deste importantíssimo elemento: algo assim como 40 litros, dos quais 25 litros estão dentro das nossas células e 15 litros fora delas, no fluído extra-celular e no sangue. Esta quantidade deve permanecer aproximadamente constante para não afectar o equilíbrio metabólico. Em condições normais, perdemos no mínimo um litro de água e, dependendo do clima ou do tipo de actividade, como desportos, podemos perder um pouco mais de um litro e meio. Por isso devemos ingerir a cada dia pelo menos um litro e meio. Um défice de oito litros, o que só acontece com mais de seis dias de privação, pode ser fatal.
A composição da água varia de acordo com a fonte de onde provém. Algumas terão um conteúdo rico em magnésio, outras em cálcio, outras terão traços de lítio, etc. Infelizmente, a água encanada que bebemos contém também – assim como o ar e a terra – uma grande quantidade de substâncias tóxicas. Estas provêm em primeiro lugar das infiltrações que sofrem as camadas de água subterrânea, de pesticidas, herbicidas, fertilizantes (nitratos), detergentes, solventes e outros derivados petroquímicos. Em segundo lugar pelo material de canalização temos metais pesados como o chumbo e o cobre. E finalmente pelo tratamento que sofrem as águas potáveis como o sulfato de alumínio e cloro piora a sua toxicidade e muitas pessoas começam a ficar sensíveis a isso.
Para resolver este problema temos três alternativas. A primeira, reabastecer-se numa fonte de água que esteja o mais longe possível de qualquer indústria. Isto é um privilégio para uma grande maioria. A segunda, comprar garrafas de água mineral ou de fontes cuja composição química e bacteriológica estejam na etiqueta. E, por último, utilizar um filtro profissional, como o de “reverse osmosis”, que remove absolutamente todos os pesticidas, cloretos, metais pesados e micróbios. Só que também remove minerais importantes como o magnésio, cálcio e outros, portanto ter-se-ia que tomá-los como suplemento.
A “toxicidade” interna tem como primeira causa a acumulação de tóxicos do meio ambiente no nosso corpo. O ar que respiramos nas grandes cidades contém finas partículas de mil substâncias poluentes, a água da rede contém químicos perigosos.

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quarta-feira, 4 de maio de 2011

Criticar ou compreender?


Numa altura crucial para Portugal, publicamos um conto sobre a liberdade de escolher o caminho. De um jovem autor português a história alerta para a responsabilidade de aumentar o que mais se estimular: o conflito ou a elevação.

Texto Elton Rodrigues Malta fotografia Dina Cristo

Num belo parque, onde o Sol penetrava as folhas das árvores que dançavam com o vento, a água do lago brilhava com o reflexo da magnífica luz solar, e as aves voavam com infinita liberdade, encontravam-se três amigos bem diferentes.
Hélio, contemplava e absorvia aquela beleza, fundindo-se com a magia da natureza e enriquecendo-se com aquela energia. Repousava em silêncio, contagiando ao seu redor. Era firme, constante, compreensivo, respeitador e dado.
A segunda era Gaia, sempre muito influenciável pelo que a rodeava, sem opinião firme aquando de troca de ideias. O que defendia num momento rapidamente era esquecido, bastava ser confrontada ou não ser apoiada.
Por último encontrava-se Selene. Sentada no banco em posição rígida e sentindo-se perturbada, batia continuamente o pé enquanto agarrava em ramos e os partia em mil pedaços. Apesar de pouco reflexiva, tinha tendência a defender fanaticamente a primeira opinião que expressasse. Fechada sobre si mesma, recusava-se a ver mais além, o que a tornava agressiva. Dominada pelo instinto, desejosa de controlar tudo, e aborrecida com a impossibilidade de o fazer, alternava continuamente o alvo do seu olhar, mas ainda assim qualquer alvo era incomodativo.
Após algum tempo de silenciamento externo, Selene não resistiu mais e com revolta começou a atacar os pombos que ali passeavam:
- Olhem que animais tão parvos… Não param de comer. Nem sequer guardam um pouco para se mais tarde precisarem!
Hélio manteve-se no seu reflexivo silêncio, enquanto Gaia concordou e ainda acrescentou:
- É verdade, parece que comem para passar o tempo.
Depois de ouvir isto Selene sentiu-se apoiada, e com mais confiança continuou num ataque repartido com Gaia:
- Para onde voa um vão todos atrás! Vão para onde está a comida e não fazem nenhum esforço para a conseguir...
- Pois é, e ainda roubam a comida uns aos outros!
- Como se isto não fosse suficiente, limitam-se a um campo reduzidíssimo, não vão além deste curto espaço onde se habituaram a viver...
- São comodistas! Preferem o que é garantido em vez do esforço de crescer e arriscar.
- No fundo eles nem escolhem o seu caminho individualmente…
- Mas depois acabam por ser ainda mais individualistas! Não achas Hélio?
Hélio concorda, e em tom brando e assertivo responde calmamente:
- Sim, isso é um facto. Funcionam cada um por si, guerreiam para chegar primeiro e o que se safa vai logo embora...
Então Selene e Gaia, entusiasmadas, intensificaram o ataque:
- Já viram que quando eles querem acasalar andam às voltas sobre si mesmos para impressionar?
- Sim é verdade… e ainda por cima estão constantemente a fugir, azulam até de quem lhes dá alimento. Vivem completamente amedrontados... Mais rápido se acobardam do que enfrentam o perigo!
- Então e já repararam que não aproveitam a sua leveza, e optam por caminhar de forma mais pesada, sobre as suas finas patas, esforçando-as excessivamente?
- Sem dúvida, movem-se muito mais lentamente do que aquilo que conseguem, e preferem estar aqui a andar enquanto podem voar livremente.
E é quando Selene e Gaia, em coro, rematam:
- Ainda por cima estão sempre a fazer porcaria.
Após este ataque, Selene silenciou a voz, enquanto, sentindo-se tão superior àqueles animais, pensava que nem deviam partilhar o mesmo espaço. Foi durante esta pausa que anunciava o fim do ataque, que Hélio quebrou o seu profundo silêncio.
- Estive a ouvir-vos atentamente, e reflectindo sobre as vossas palavras concordo com tudo o que disseram. Mas vocês já repararam que estavam a falar de nós? Tudo o que disseram encaixa perfeitamente no Homem...
Indignada, Selene responde:
- Achas mesmo? Os pombos nem merecem estar no mesmo espaço que nós. Eles são inúteis, além de não construirem nada que nos seja benéfico ainda conseguem destruir o que está à sua volta. Ainda por cima sujam tudo, não respeitam o espaço do Homem.
- Exacto, continuas a dar-me razão. Só quando deixarmos de ter essas características que lhes apontaram é que eles deixarão de nos incomodar. Indo um pouco mais longe, só aí é que nós deixaremos de os incomodar a eles. Só teremos paz quando passarmos a viver presentes na nossa vida. Se criticamos nos outros, é porque nos sentimos incomodados, e isso só acontece porque também temos essas mesmas características, eles apenas nos mostram o que somos.
Hélio entra novamente no seu característico silêncio meditativo durante cerca de sete segundos e retoma o seu raciocínio:
- Só aí chegaremos ao seu nível, ou seja, não teremos este fel. Lutando para vencer estes defeitos mais básicos fortalecemos a força de vontade. Aí acreditaremos nas nossas capacidades e voaremos sem limite, com a possibilidade de realizar todos os nossos sonhos, porque nós somos o que acreditamos. Nós somos o que alimentamos. Tornamo-nos naquilo em que nos focamos, os nutrientes aos quais abrimos as portas psíquicas passam a integrar o nosso organismo, transformando o que somos. Aí deixaremos de viver num grupo pré-programado e cada um voará livre no seu próprio caminho. A ignorância é mãe da incompreensão e avó da revolta, e desta última nasce a frustração. A ignorância é a única prisão. Da liberdade nasce a felicidade e a realização.
Nós temos os genes de Gaia, não lhe podemos ser indiferentes. Mas temos o livre arbítrio para optar por dar mais espaço aos conflitos mentais ou à compreensão do coração, à escuridão ou à luz. E o que alimentamos cresce. Mas temos de nos lembrar que podemos ver sempre mais fundo do que nos parece à primeira vista. Podemos sempre ver as coisas por nós próprios. Só precisamos de luz.

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quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

João 3-16


Nesta quadra de Natal, eis um conto original sobre a importância... do essencial.

Texto José Maria Alves fotografia Dina Cristo

Foi na cidade de São Paulo. Na avenida Brigadeiro Faria Lima. A noite de Inverno estava escura e triste, com os fumos da poluição a envolverem os candeeiros de iluminação pública. O frio inusitado circundava objectos e seres. A pobreza era mais pobre, e o sofrimento mais sofrido. A miséria dos desfavorecidos golpeada pela opulência dos edifícios e pela quentura da riqueza.

Junto a uma loja, na calçada, um rapazinho de 11 anos, sujo, vestido de indigência, trémulo, de uma magreza desconfortante a exibir uns belos olhos negros, vendia os doces que não se aventurava a comer.
O pai morrera num assalto, quando tinha dois anos. Não nascera salteador, assim como a sua desventurada mãe, perdida nos subúrbios, não nascera prostituta. Só ele nascera desafortunado.
Quando o frio o não acossava tanto, interpelava-se quanto à justiça do mundo. “Não lhe daria Deus uma fogueira, e quem sabe um pedaço de pão com manteiga? Ele que enchia de afagos e carícias os passantes de viaturas aquecidas e dos condomínios luxuosos. Ouvia gente rica e poderosa falar dos pobres, mas tinham a barriga inchada de tanto comerem e roupas caras para se aquecerem.”
Os pensamentos desvaneciam-se na bruma e no gélido bafo da noite. A melancolia dos seus olhos, mais parecia clamar pela morte em segredo, de modo lento, para não doer.
Os transeuntes apressavam-se, não reparavam nele, nem acudiam aos seus apelos de compra, transformados em invocações de misericórdia. Ninguém comprava, apenas passavam por si, alheios ao padecimento e ao desabrigo, presos ao seu próprio ego e mesquinhas ambições.
Renunciou. Por que havia de insistir?! De que lhe serviriam mais uns magros reais?! Sentou-se nos degraus de um prédio de escritórios, e olhou para o céu. “Nem uma estrela”, pensou. “Gostava ao menos de poder olhar uma estrela a luzir no firmamento.” “Teriam os ricos um céu só para eles?; provavelmente têm, com muito pão, doces, e lume para se aquecerem quando faz frio e limonadas geladas para quando o calor comprime o peito e não nos deixa respirar.”
Tinha saudades da mãe que o abandonara e do pai que não se lembrava de ter conhecido. E tinha frio, e fome, e uma tristeza que só os pobres sabem reter. Não pedira para nascer. Deus bem podia ter-se esquecido dele e dar a sua alma a outro menino que não tivesse de dormir num vão de escadas. Até o Menino Jesus dos presépios, que vira no último Natal, tinha palha, uns panos e animais para o aquecer, uma mãe para o alimentar e um pai que o escudava do mal, da agonia e do pesar. Também ele queria uma cama, um gato que se enroscasse na sua barriga e um pão recheado que a enchesse.
Nisto, um polícia aproximou-se, visivelmente cansado, com as faces enrugadas por não saber sorrir, e perguntou: - Estás perdido? - Não, não estou senhor. Apenas queria um lugar quente para dormir – respondeu o rapaz com a indiferença e naturalidade de quem nada pode perder, por nada ter. - Onde é que tu dormes? – volveu o agente, que parecia ausente na dureza viciada do seu modo de falar.
- Na Paulista, numa caixa de cartão. Mas hoje tenho muito frio. Talvez não seja o frio, talvez seja eu. Quem sabe se não tenho febre?! Dói-me o corpo. Só queria um lugar quente. Dizem que no Norte faz sempre calor e que as praias estão sempre cheias; aí venderia água de coco, gelados e não teria frio. Mas não sei como ir, não tenho reais que cheguem para comer um pão, quanto mais para viajar. E como deve ser longe; nunca saí desta cidade. Gostava de ver o mar e os barcos com as velas ao vento, como nos postais; e de ir no comboio ao Rio para olhar os turistas que vivem em lugares onde não lhes falta nada e por isso têm dó dos mendigos. Se calhar só dão para poderem ir para o céu, ou para se verem livres de nós, mas pelo menos dão; quem me disse foi o “Caipira” da Rua Augusta.
O polícia apesar de exausto, olhou a criança, demoradamente, como quem chora ou como quem quer chorar e não sabe. Ficou em silêncio por alguns segundos, deslocou o boné para o lado e coçou a cabeça luzente, já quase sem cabelos.
Apontando para uma transversal, disse: - Bem, menino, desces esta rua e mais ou menos ao meio, vais encontrar uma casa grande, pintada de branco, com um jardim e com portões verdes. Quando chegares, toca na sineta. Alguém te irá abrir a porta, abrem sempre. - E o que é que eu faço? – questionou o rapaz um tanto confundido. - Nada. Diz apenas: João 3-16.
Estranho. João 3-16... João 3-16. Nunca ouvira tal coisa. Quem seria o João? O dono da casa? Um amigo do dono? E 3-16? Estranho. João 3-16. Ninguém se chama assim, com números e tudo, pensava, só os que estão presos com tabuletas no peito, como nos filmes que correm nas televisões das montras.
O frio aumentava enquanto a noite crescia. Desceu a rua, tocou a sineta. Ninguém vai aparecer, pensou. Não deve estar ninguém. História de polícia; se calhar estava bêbado. Toco outra vez? É melhor não. Ainda me maltratam.
Enquanto absorto nessa torrente de pensamentos, acendeu-se a luz da ombreira e abriu-se a porta de madeira talhada. Uma senhora idosa poisou nele o seu olhar meigo e caridoso, como quem acaricia com a vista uma flor, ou envolve uma criança num pano de linho, o que lhe fez perder o receio que o afligia. - João 3-16 - disse baixinho. - Não te oiço menino. - João 3-16 – volveu o rapazinho. - Entra meu filho.
A casa era bonita demais. Cheirava a lenha queimada e a comida. Tinha cadeiras, mesas, panos nas janelas, jarras, quadros nas paredes. E não parecia ter mais gente.
- Vem, aproxima-te do fogão de lenha – disse-lhe afectuosamente. Senta-te neste banco e aquece-te, estás branco, enregelado. Deves ter fome; aguarda um momento.
Enquanto o corpo recuperava o calor perdido, pensou consigo: - João 3-16, quem será? Não sei, mas aquece-me. É bom, deve ser bom, só pode ser, senão não me aquecia.
A Senhora retornou com um prato cheio de comida. Nunca havia comido nada assim. Há dois dias que nada comia. Nem os doces que vendia. Se os vendesse como poderia comprar pão? João 3-16. Nada sabia dele, apenas que aquecia e matava a fome. Não sei o que é, nem quem, mas cuida de mim, pensou. - Come o que quiseres filho. Há mais na cozinha.
Quando terminou a refeição, a benévola Senhora levou-o por umas escadas circulares ao andar cimeiro e deu-lhe um banho de água bem quente que cheirava ao perfume que as senhoras ricas deixavam na calçada quando entravam nas lojas do centro. Não sabia que a água tinha cheiro. Será que também se podia beber?!
- Posso ficar sozinho? – perguntou. Tenho vergonha que me veja assim. - Claro, criança. Mas não podes demorar. Terminaste agora a refeição. Não sabia quem era João 3-16, ou o que era João 3-16, mas tinha a certeza que o limpava de tanta sujeira.
Ao fim de algum tempo, a Senhora disse-lhe que tinha de sair da água. Que pena, estava tão quente, tão confortável, que o esforço para não adormecer era enorme. Segurou a sua mãozita, e conduziu-o a um quarto com uma cama de ferro, lençóis brancos e almofada de penas.
Não sabia quem era João 3-16, mas sabia que lhe estava a dar uma cama macia num quarto quente, e que dormiria como nunca havia dormido em toda a sua vida.
A Senhora abraçou-o, beijou-o na testa, deitou-o e apagou as luzes, dizendo: - Durma em paz criança de Deus.
No escuro, com uma ténue luminosidade que entrava pela janela, pensou: “Não sei quem é João 3-16, mas aquece, alimenta, limpa, e dá repouso, e dá carinho. Talvez seja rico, mas não como os outros ricos da Paulista.” E duas grossas e límpidas lágrimas escorreram no rosto inocente.

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quarta-feira, 20 de abril de 2011

Não Ser Humano


Publicamos hoje alguns versos sobre a irracionalidade generalizada.

Texto Elton Rodrigues Malta desenho* Dina Cristo


O camelo bebe até não conseguir beber mais nada
Só para que os camelos seguintes não tenham água
O burro só olha em frente apesar de não ter palas
É teimoso mesmo quando sabe que é errado o que fala
O porco sabe escolher o que come, mas é porcaria que escolhe comer
As serpentes cospem veneno só pelo prazer de ver sofrer
O papagaio só repete apesar de saber pensar
Os ursos caçam pelo prazer de matar, matam mas não comem.
Na verdade não há nenhum animal tão desumano, só o Homem
É por ter mente que se sente acima do resto dos animais
Mas é por causa dela que é o animal que desce mais baixo!
Na selva urbana impera a lei do mais fraco
É a única que é regida pela lei do mais cobarde:
Por quem não tem coragem de ser transparente nos seus actos
É o falso que domina os ignorantes fragilizados
Quem finge ter princípios para que o ingénuo acredite
Para atacar pelas costas sem qualquer risco
Quem rouba e diz ser seu, apesar de não ser, e saber
Independentemente de dar uso, apenas para ter...
O Homem é o mais camelo, o mais burro
O mais urso e o mais porco que a Natureza tem
É o único animal que vai contra a Natureza
É a única aberração que viola a própria mãe.
* Anos 80

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quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Antropogénese

Nesta segunda parte apresentamos a evolução humana numa perspectiva teosófica. Começamos pelos primeiros contestatários à teoria proposta em "A origem das espécies", faz Terça-Feira 150 anos.

Texto Joaquim Soares desenho Cristina Lourenço

Darwin fez, sem dúvida, um conjunto notável de descobertas que explicam muitos aspectos do processo evolutivo (no plano físico). Isso é indesmentível. E se atentarmos para o facto de que essas mesmas descobertas acabaram por abalar os dogmas da religião oficial do Vaticano, então o nosso reconhecimento é ainda maior. A questão, no entanto, é que, baseado nessa visão parcial dos processos da natureza, Charles Darwin especulou que a vida era conduzida por um acaso cego, caindo no dogma materialista, o que, mais tarde, acabou por ser usado para legitimar ideologias que reforçaram a exploração humana. Estava assim criado o cenário para a negação absoluta da natureza espiritual do homem.
Reconhecemos alguma razão a Fred Hoyle quando disse que era “perseguido pela convicção de que a filosofia niilista que a chamada opinião educada decidiu adoptar depois da publicação de ´A Origem das Espécies` conduziu a Humanidade no rumo de uma auto-destruição automática”[1].
Ao contrário do que muitas vezes se quer fazer crer, a doutrina darwinista encontrou oposição logo nos primeiros anos em que foi tornada pública. Vários foram os autores e cientistas contemporâneos de Darwin que repudiaram muitas das especulações darwinistas, entre os quais vale a pena destacar Alfred Wallace (co-autor da Teoria da Evolução das Espécies) e J. Louis de Quatrefages (renomado naturalista francês). Em algumas das suas obras, Wallace e Quatrefages apresentaram dados que deveriam ter inspirado os seguidores de Darwin a serem bem mais prudentes e humildes.
Foi exactamente a humildade de quem está comprometido, acima de tudo, com a Verdade, que levou Quatrefages, a escrever, por exemplo: “para aqueles que me questionam sobre o problema da nossa origem, eu não hesito em responder em nome da ciência – EU NÃO SEI.” Referindo-se também à falta de prudência e bom-senso, afirmou peremptoriamente: “Infelizmente, por ter esquecido os trabalhos dos seus predecessores, Darwin e os seus seguidores conceberam conclusões erróneas a partir de suas premissas. Eles imaginam que deram explicações quando afinal não deram nenhumas”
[2] Tanto Quatrefages como Wallace apresentaram dados que provavam ser a humanidade muito mais antiga do que pressupunha a teoria darwinista. O próprio Wallace, um espiritualista convicto, acreditava que a chamada “Selecção Natural” era insuficiente para justificar o aparecimento e o desenvolvimento das espécies e do Homem. Ele acreditava que Inteligências superiores guiavam os processos evolutivos, que ele via como necessárias para responder às inúmeras questões para as quais a teoria darwinista não tinha resposta.
Uma corajosa senhora

No entanto, a pessoa que se opôs mais vigorosa, destemida e eloquentemente à teoria darwinista da evolução foi Helena Blavatsky, fundadora do
Movimento Teosófico Moderno[3]. Escreveu ela em 1888: “A Ciência hoje tem uma inegável predilecção por apresentar ao público, como fatos comprovados, hipóteses baseadas em ideais pessoais; por oferecer, em lugar de conhecimentos, meras suposições com o rótulo de ´conclusões científicas`. Os especialistas preferem inventar mil e uma especulações contraditórias a confessar um facto embaraçoso mas evidente por si mesmo (…)”[4]
Sobre a “Selecção Natural”, afirma Blavatsky, sem rodeios, em “
A Doutrina Secreta”: "No que tange à Selecção Natural em si, noções as mais erróneas têm curso entre os pensadores actuais, que aceitam tacitamente as conclusões do darwinismo. Por exemplo, é um mero artifício de retórica atribuir à Selecção Natural o poder de originar espécies. A Selecção Natural não é uma entidade; é só uma expressão cómoda para indicar como se dá a sobrevivência do mais apto e a eliminação dos inaptos na luta pela existência. Todo o grupo de organismos tende a multiplicar-se além dos meios de subsistência; a luta constante pela vida – a ´luta pata obter o bastante que comer, e para escapar de ser comido`, adicionada às condições ambientes – necessita de uma perpétua eliminação dos inaptos. Os seleccionados de cada grupo, que assim permanecem, propagam a espécie e transmitem suas características orgânicas aos descendentes. Todas as variações úteis se perpetuam desse modo, e uma progressiva melhora se realiza. Mas a Selecção natural – a ´Selecção como poder`, na humilde opinião da autora – realmente não passa de um mito; especialmente quando a ela se recorre para explicar a Origem das Espécies. É tão-somente um termo representativo, que exprime a maneira pela qual as ´variações úteis` se esteriotipam quando produzidas. (…) O Darwinismo só descobre a evolução no seu ponto médio, isto é, quando a evolução astral cede o campo ao funcionamento das forças conhecidas pelos nossos sentidos actuais."[5]
Uma terceira hipótese

Existe uma profunda divergência entre a teoria darwinista e o ensino da
Teosofia ou Sabedoria Esotérica (que nada está relacionada com crenças infundadas e esoterismos a vulso, tão infelizmente na moda). A Antropogénese Ocultista está em consonância com as tradições religiosas universais dos povos (porque, em verdade, está na sua base) mas em flagrante oposição ao ensino religioso literalista e sectário, e vai muito mais além do paradigma darwinista da Evolução.
Na sua monumental obra “A Doutrina Secreta”, Blavatsky apresenta a Antropogénese dos Ensinamentos Secretos do Oriente. Para além disso, num trabalho notável de investigação e de fundamentação rigorosa dos princípios enunciados, oferece-nos um enorme volume de provas de todo o tipo, entre elas várias evidências geológicas que estão de acordo com os ensinamentos ocultos sobre a origem do Homem.
Por isso, permanecem mais do que actuais estas suas palavras: “A antropologia de Darwin é o incubo do étnologo, filha robusta do materialismo moderno, que se desenvolveu e adquiriu cada vez mais vigor à medida que a inépcia da lenda teológica da "criação" se fazia mais e mais aparente. E medrou graças à estranha ilusão de que, como diz um reputado homem da ciência, ´Todas as hipóteses e teorias acerca da origem do homem podem reduzir-se a duas (a explicação evolucionista e a versão exotérica da Bíblia) … Nenhuma outra hipótese é admissível…! `"
[6] Contrariando essa ideia, Blavatsky afirma peremptoriamente: a “antropologia dos Livros Ocultos é, no entanto, a melhor resposta que se pode dar a afirmativa tão pouco razoável."[7]
O Conhecimento Sagrado

O conhecimento presente nos referidos livros ocultos do Oriente, contêm uma exposição dos princípios da Eterna Sabedoria, ou Teosofia, que "foi a religião universalmente difundida no mundo antigo e pré-histórico"
[8] e que, “refulgindo em fragmentos dispersos em todas as religiões e filosofias”[9], se encontra(va) velada em linguagem simbólica em milhares de escritos. Parte desses ensinamentos eram outrora comunicados na instituição dos Mistérios, sob forma alegórica. Conforme nos informa Blavatsky, a “fase que se inicia com Buddha e Pitágoras, e finda com os Neoplatónicos e os Gnósticos, é o único foco, que a história nos depara, aonde pela última vez convergem os cintilantes raios de luz emanados de idades remotíssimas e não obscurecidas pelo fanatismo."[10] Podemos perguntar, entretanto, porque foi feito agora um esforço por tornar público uma parte desse Conhecimento Sagrado? Várias são as razões. Uma delas prende-se, directamente, com as especificidades do actual momento civilizacional. O diagnóstico foi feito por Helena Blavatsky com grande clareza: "O mundo converteu-se hoje em uma vasta arena, em um verdadeiro vale de discórdia e de luta sem fim, em uma necrópole onde são sepultadas as mais elevadas e santas aspirações de nossa alma espiritual."[11]
A evolução humana atingiu o ponto médio do percurso evolutivo, o ponto de maior afastamento da origem (do pólo espiritual), a altura em que o movimento evolutivo deve necessariamente inflectir a trajectória de descida em direcção aos níveis mais densos de matéria/consciência e começar a percorrer o arco ascendente. E esta é exactamente a altura mais crítica.
O crescente fanatismo e o surgimento do materialismo fizeram mergulhar a humanidade num período em que o eco da Alma já quase não se faz ouvir, correndo o risco de "romper" a ligação com a nossa natureza interior e real. Tudo isto se reflectiu numa selvática "luta pela sobrevivência", num esquecimento do sofrimento do nosso semelhante, numa competição desenfreada por bens materiais, poder e posição social, à custa da miséria de milhões e milhões de seres humanos e da destruição da natureza.

O labor científico de gerações de Sábios

Nunca como hoje foi tão importante o resgate da Sabedoria Antiga. Deve-se contudo frisar que o conhecimento sagrado não é uma invenção, é sim, fruto do labor científico dos grandes sábios da humanidade. Esta Ciência Espiritual está subjacente nas formulações e nas doutrinas genuínas originais de todos os grandes Instrutores da Humanidade e fundadores das religiões (Krishna, Orfeu, Buda, Hermes, Cristo, Platão, Pitágoras, etc.). Por detrás dos mitos e símbolos apresentados nas diversas Antropogéneses religiosas, está presente um conhecimento mais rigoroso do que aquele que nos é apresentado pela doutrina darwinista.
Esclarece-nos Helena Blavatsky: “A Doutrina Secreta é a Sabedoria acumulada dos séculos, e a sua cosmogonia, por si só, é o mais prodigioso e acabado dos sistemas (…) Mas tal é o poder misterioso do simbolismo oculto que os factos, que ocuparam a atenção de gerações inumeráveis de videntes e profetas iniciados, para os coordenar, classificar e explicar, durante as assombrosas séries de progresso evolutivo (…) A visão cintilante daqueles Iniciados foi até ao próprio âmago da matéria, descobriu e perscrutou a alma das coisas, ali onde um observador comum e profano, por mais arguto que fosse, não teria percebido senão a tessitura externa da forma. (…) tal sistema não é fruto da imaginação ou da fantasia de um ou mais indivíduos isolados; constitui-se dos anais ininterruptos de milhares de gerações de videntes
[12], cujas experiências cuidadosas têm ocorrido para verificar e comprovar as tradições, transmitidas oralmente de uma a outra raça primitiva, acerca dos ensinamentos de Seres superiores e excelsos que velaram sobre a infância da Humanidade.
Durante muitos séculos, os ´Homens Sábios` da Quinta-Raça
[13], pertencentes ao grupo de sobreviventes que escapou ao último cataclismo e das convulsões dos continentes, passaram a vida aprendendo, e não ensinando. Como o faziam? Examinando, submetendo a provas e verificando, em cada um dos departamentos da Natureza, as tradições antigas, por meio das visões independentes dos grandes Adeptos, isto é, dos homens que desenvolveram e aperfeiçoaram, no mais alto grau possível, seus veículos físico, mental, psíquico e espiritual. O que um Adepto via só era aceito depois de confrontado e comprovado com as visões de outros Adeptos, obtidas em condições tais que lhes conferissem uma evidência independente – e por séculos de experiências.”[14]
A este propósito, vale a pena trazer aqui também algumas palavras escritas por um dos estudantes mais próximos de Blavatsky,
William Judge: [A Teosofia] não é uma crença, ou um dogma formulado ou inventado pelo homem, mas é o conhecimento das leis que governam a evolução dos factores físicos, astrais, psíquicos e intelectuais na natureza e no ser humano. A religião de hoje é apenas uma série de dogmas fabricados pelo homem, sem nenhuma fundamentação científica para a ética que divulga; enquanto nossa ciência ainda ignora o invisível e não admite a existência de um conjunto completo de faculdades perceptivas internas no homem, ficando apartada do campo de experiência imenso e real que existe dentro do mundo visível e tangível. Mas a Teosofia sabe que o todo é constituído do visível e do invisível, e ao perceber que as coisas e objectos externos são transitórios, compreende os fatos da natureza, tanto interna quanto externa. Ela é, portanto, completa em si mesma e não vê mistério insolúvel em lugar algum; ela risca a palavra ´coincidência` de seu vocabulário e saúda o reinado da lei em tudo e em todas as circunstâncias”.[15]
A ciência materialista, ao desconsiderar outros planos de Ser, de Substância e de Vida, limita-se a investigar o pequeno campo externo de actividade das Forças e
Inteligências internas e espirituais. A Teosofia ou Sabedoria Esotérica abrange todos os níveis, visíveis e invisíveis da realidade, e demostra que a matéria física é apenas o nível mais denso, a “casca externa”, de outros níveis mais internos da substância universal homogénea, progressivamente mais subtis – astral, mental e espiritual.
A Sabedoria Esotérica,
partindo da Causa Incausada, ensina que tudo tem a sua origem no espírito e que a evolução se processa do interior para o exterior, do subtil para o denso, e não ao contrário conforme afirma o darwinismo.
É preciso esclarecer que não se trata aqui de invocar a figura de um Deus Antropomórfico das religiões exotéricas, que nada mais é do que uma criação da mente humana. A
Filosofia Esotérica fundamenta-se na LEI UNIVERSAL , e não em nenhum deus.
Alguns princípios da Ciência Esotérica

Deixamos, em seguida, um breve apanhado de alguns ensinamentos essenciais da Ciência Esotérica.
Antes de tudo, a Doutrina Secreta estabelece
três proposições fundamentais: (a) “Um PRINCÍPIO Onipresente, Eterno, Ilimitado e Imutável, sobre o qual toda especulação é impossível, porque ele transcende o poder da concepção humana e só poderia ser distorcido por qualquer expressão ou comparação humanas. Está além dos limites e do alcance do pensamento – nas palavras do Mandukya, é “impensável e indescritível”; (…) (b) A Eternidade do Universo in toto [na sua totalidade] como um plano ilimitado; sendo periodicamente “cenário de inúmeros Universos que se manifestam e desaparecem incessantemente`”; (…) (c) A identidade fundamental de todas as Almas com a Alma-Superior Universal, sendo esta última, em si mesma, um aspecto da Raiz Desconhecida ; e a peregrinação obrigatória de cada Alma — uma centelha da Alma-Superior Universal — através do Ciclo da Encarnação (ou “da Necessidade”), de acordo com a lei Cíclica e Cármica, durante todo o período.”[16]
É também importante perceber que: "A primeira lição ensinada na Filosofia Esotérica é que a Causa incognoscível não leva adiante a evolução, nem consciente nem inconscientemente, limitando-se a exibir periodicamente diferentes aspectos de Si mesma para a percepção das mentes finitas. Ora, a Mente colectiva – a Mente Universal – composta de inumeráveis e variadas Legiões de Poderes Criadores, por mais infinita que seja no Tempo manifestado, é, ainda assim, finita quando em contraste com o Espaço não-nascido e inalterável no seu aspecto essencial supremo. Aquilo que é finito não pode ser perfeito."
[17]
O
Universo emanou a partir do seu arquétipo, ou plano ideal, mantido através da Eterna Duração em Parabrahman.
Nada existe de não-vivo no Universo
[18]. Toda a matéria é viva e consciente, variando apenas o grau dessa mesma consciência.
O Universo é constituído por Sete Planos de Manifestação, sete níveis da Substância Universal primordial, do mais subtil ou espiritual, ao mais denso ou material.
Da mesma forma, o
Homem reproduz em si o Cosmos e tem, por isso, também uma constituição septenária, ou Sete Princípios de Consciência, que em linguagem teosófica têm a seguinte designação: Sthûla Sharîra (Corpo Físico), Prâna (Princípio Vital), Linga-Sharîra (modelo ou corpo padrão), Kâma (sede das emoções, desejos e paixões), Manas (mente, inteligência), Buddhi (Inteligência Espiritual, Intuição), Atman (Espírito, o verdadeiro Eu).
No que se refere à evolução da humanidade, ensina também a Sabedoria Esotérica: “(a) a evolução simultânea de sete grupos humanos em sete diferentes partes do nosso globo; (b) o nascimento do astral, antes do corpo físico: sendo o primeiro um modelo para o último; e (c) que o homem, nesta Ronda, procedeu a todos os mamíferos – incluindo os antropóides – do reino animal.”
[19]
Decorre daqui que a Doutrina Secreta ensina a origem poligenética da humanidade, contrariando a teoria monogenética da Ciência, bem como, a ideia de que a humanidade descende de um par humano (Adão e Eva) conforme pretende o Cristianismo exotérico. Convém, no entanto, ter em consideração que uma interpretação esotérica do simbolismo presente no livro do Génesis permite perceber que o Adão ai mencionado não se refere a um homem mas a uma raça.
A
Humanidade vai progredindo através sete patamares evolutivos, chamados de Raças-Raízes. Assim como cada indivíduo passa necessariamente por diferentes fases de crescimento e desenvolvimento (infância, pré-adolescência, adolescência, fase adulta, velhice), assim as mónadas humanas vão percorrendo cada um dos diferentes conjuntos de características que se designam por Raça-Raíz (com a suas sete sub-raças). Um imenso número de personalidades, manifestações externas da mesma mónada, vai desfilando sucessivamente ao longo de idades incontáveis percorrendo as sucessivas Raças-Raízes e suas respectivas sub-raças. As diferenças externas nada mais significam do que “roupagens” diferentes que permitem aprendizagens distintas. Todas são necessárias de forma a proporcionarem a maior amplitude e adequação ao tipo de experiências necessárias ao desenvolvimento e exteriorização das potencialidades internas. Como alguém escreveu: “A onda de vida que habita o reino humano deve evoluir através de sete raças-raízes no ciclo actual. Cada raça-raiz inclui povos de características físicas bastante diferentes e nenhum é melhor do que outro. Igualmente, nenhuma raça-raiz é melhor ou pior que outra. Todas compartilham a mesma essência universal. As mónadas ou almas imortais são todas de um carácter sagrado do ponto de vista esotérico, independentemente do seu grau de evolução ser maior ou menor.
O Homem é o paradigma de todos os outros Reinos que o precedem (Animal, Vegetal, Mineral e Elemental). Isto tem como consequência que a cada Raça-Raiz implica não apenas um novo tipo humano mas também novas formas animais, vegetais, novas Eras Geológicas e novas massas terrestres.
Como já aqui foi referido, a evolução processa-se do interior para o exterior, de dentro para fora. Cada Reino começa nos Planos superiores até que, depois de um longo período evolutivo, acaba por atingir o Plano físico denso. Daí se compreende, tal como ensina a Doutrina Secreta, as duas primeiras Raças foram Raças Astrais (não tendo portanto manifestação no Plano Físico). Por isso também não haver nessa altura reencarnação, pois não existia qualquer corpo físico denso. Essas raças tinham como veículo mais inferior de manifestação o Corpo Astral. A isso se refere o simbolismo de “Adão e Eva” no paraíso, onde não “não conheciam a morte”. Tudo isto aconteceu ao longo de uma evolução de muitos milhões de anos.
Isto significa que a Humanidade está na Terra em corpos não-densos desde a “Era Primária”, isto é, antes das quatro Eras Geológicas enumeradas pela Ciência e com corpo físico-denso desde o Período Cretáceo da Era Secundária,
há cerca de 18 milhões de anos.
Faz parte da Tradição Universal dos Povos o conhecimento de que o Homem viveu entre os grandes monstros (dinossauros e outros seres tidos como fantasia), há milhões de anos atrás – durante o Cretácico e o Jurássico. Aliás, as próprias mitologias dos diferentes povos falam também de homens gigantes, capazes de lutar e viver entre esses seres já extintos.
A Ciência Espiritual permanece oculta sobre camadas de símbolos e adulterações efectuadas por mãos comprometidas. Um exemplo disso é a frase inicial do Génesis. Em vez de “No princípio Deus criou os céus e a terra”, o que estava escrito na língua original, o Hebraico, era “Os Elohins deram forma aos céus e ao mundo”, isto é os deuses deram forma, a partir da substância pré-existente, aos diversos globos da cadeia planetária e ao mundo físico.
Está assim no original do Génesis, ao contrário da ideia de um Deus criador, o profundo ensinamento de que os deuses, ou Legiões de Seres, a Colectividade de Inteligências, sob a acção da Lei Universal, despertam do Pralaya e passam a ser as Forças que constroem o(s) Universo(s) e coordenam, impulsionam e dirigem a evolução universal.
Voltando agora mais directamente a algumas das pretensões do darwinismo, a Doutrina Secreta afirma que a “causa que determina as variações fisiológicas das espécies – causa a que estão subordinados todas as outras leis, que são de carácter secundário – é uma inteligência subconsciente que penetra a matéria e que, em último termo, é um
REFLEXO da Sabedoria Divina e Dhyân-Chohânica."[20] Isto quer dizer que a evolução não é fruto de um acaso, mas é coordenada e dirigida por um agregado de Inteligências que, no seu conjunto, constituem a Inteligência da Natureza, a Mente Universal.
Um ramo bastardo da Linhagem Humana

O homem não descende do macaco ou de um qualquer antepassado comum. O antepassado comum do homem e do macaco é o próprio homem.
Ao contrário da teoria darwinista, a Ciência Esotérica afirma que é o macaco que descende do homem, sendo um ramo bastardo da linhagem humana, resultante do cruzamento entre os humanos sem auto-consciência da
3.ª Raça-Raiz (Lemúriana) e certos animais (na Doutrina Secreta este episódio é referido como “o pecado dos sem-mente”). Por outro lado, os grandes antropóides, gorilas, orangotangos, chimpanzés, etc., resultaram do cruzamento de seres humanos de sub-raças da 4.ª Raça-Raiz (Atlante) e os animais descendentes dos cruzamentos referidos anteriormente. É por isso que a ciência encontra uma grande similaridade genética entre o homem e grandes antropóides, o que não acontece com os outros símios.
Uma hipótese para explicar uma descoberta recente

É aqui, por hipótese, que poderemos enquadrar a
descoberta recentemente anunciada de um “hominídeo” que viveu há cerca de 4,5 milhões de anos.
A forma como esta informação é transmitida para o público deve ser olhada com bastante cautela. Apesar de se reconhecer agora uma maior antiguidade da linhagem dos hominídeos, não deixa de ser verdade que os cientistas continuam a insistir que descobriram mais um elo do antepassado do homem, isto é, persistem apegados à interpretação darwinista. Por isso, um dos investigadores faz notar: “Dois séculos depois do nascimento de Charles Darwin, podemos verificar que ele estava certo. Em ciência é preciso termos evidências e não especular.”
[21] Perguntamos: em que medida esta descoberta demonstra que Darwin estava certo? De facto, só se quisermos negar as evidências e, parafraseando Blavatsky, preferirmos “inventar mil e uma especulações contraditórias a confessar um facto embaraçoso mas evidente por si mesmo”.
A verdade é que não se descobriu um registo fóssil de um humano com 4,5 milhões de anos, mas antes de um “hominídeos” com 4,5 milhões de anos, o que é diferente.
O facto de os investigadores referirem que os restos fósseis parecem indicar que este hominídeo tem “características mais parecidas com os humanos do que com os chimpanzés”, podem levar-nos a considerar, como hipótese, que estejamos perante um exemplar mais antigo de um descendente dos cruzamentos entre humanos e símios referidos há pouco no texto.
Isto porquê? Porque, há medida que recuamos no tempo, mais esses antropóides guardam uma maior semelhança hereditária e fisionómica (esqueleto, dentição, etc.) com os seus (meios) progenitores humanos do que os seus descendentes actuais (os macacos e chimpanzés, que mostram a influência de longo de milhões de anos de afastamento dos seus ancestrais). Desta forma, não temos porque não concordar com o investigador citado há pouco, quando termina dizendo: “Valeu a pena esperar para sabermos mais sobre o hominídeo mais próximo do nosso ancestral comum com o chimpanzé até hoje.”
Nós também achamos que valeu a pena, fazendo notar que esse ancestral comum é o próprio homem!

Conciliando Religião e Ciência

Serão a religião, filosofia e ciência conciliáveis? Como afirmou um bom amigo nosso: “Já o foram no passado. Grandes pensadores da Grécia antiga, como Pitágoras e Platão, eram simultaneamente filósofos, cientistas e eminentes estudiosos do sagrado. Na altura não havia qualquer dicotomia, a busca de sophia - do conhecimento integral - estava sempre presente. O drama é que se perderam as chaves e os códigos interpretativos que estão na base da ciência e das formulações teogónicas e mitológicas do mundo antigo. E perderam-se devido ao fanatismo religioso, que no século IV e seguintes, desencadeou a mais terrível perseguição e destruição contra todo o património da sabedoria, da ciência e até da arte da antiguidade, consideradas demoníacas. Foram perseguidos e aniquilados pensadores genuínos, pilhados e queimados centenas de milhares de livros que reuniam o esforço de gerações sucessivas de investigadores... Em que patamar poderia estar hoje a humanidade se ao longo dos tempos não tivesse havido tanta intolerância e fanatismo? Certamente, estaríamos bem melhor."[22]
Só através da Sabedoria Esotérica será possível conciliar a Religião e a Ciência – tornando a Ciência Religiosa e a Religião Científica – libertando assim da Humanidade de um Deus antropomórfico, do Acaso e da luta desumana pela sobrevivência.

[1] “O Universo Inteligente” (3.ª Ed.), Fred Hoyle, Editorial Presença, Lisboa, 1993, p.8 [2] “The Human Species”, A. De Quatrefages, Kessinger Publishing (fac-simile da edição de 1893), p.128. A edição original em francês desta obra é amplamente citada por HPB em “A Doutrina Secreta”. [3] Cfr. “Helena Blavatsky – A Vida e a Influência Extraordinária da Fundadora do Movimento Teosófico Moderno”, Sylvia Craston, Editora Teosófica, Brasília, 1997. [4] “A Doutrina Secreta”, H.P.Blavatsky, Pensamento, São Paulo, Vol.III, p.335. [5] Na obra citada anteriormente, Vol. IV, p.218-219 [6] Na obra citada anteriormente. [7] Na obra citada anteriormente. [8] Na obra citada anteriormente, Vol.I, p.57. [9] Cfr. “Alexandria e o Conhecimento Sagrado”, José Manuel Anacleto, CLUC, Lisboa, 2008. [10] “A Doutrina Secreta”, H.P.Blavatsky, Pensamento, São Paulo, Vol.I, p. 67 [11] Na obra citada anteriormente. [12] Para não haver confusão relativamente ao que hoje se entende por vidente, esta palavra deve ser aqui entendida aqui como aquele que pelo intenso esforço, renúncia, disciplina, treinamento oculto, sujeição ao Eu Superior e serviço à grande Causa, desenvolveu os seus poderes internos latentes no mais elevado grau. [13] Em Teosofia o termo raça nada tem haver com o geralmente adoptado. Resumidamente, significa uma fase no processo evolutivo da Humanidade, de um conjunto específico de características ou qualidades espirituais, mentais e físicas. [14] “A Doutrina Secreta”, H.P.Blavatsky, Pensamento, São Paulo, Vol.I, p.304. [15] Retirado de http://www.filosofiaesoterica.com/ler.php?id=256 [16] Cfr “As Três Proposições Fundamentais”. [17] A Doutrina Secreta, H.P.Blavatsky, Pensamento, São Paulo, Vol.IV, p.54. [18] Cabe aqui citar uma ideia bastante acertada de uma das mais reconhecidas biólogas, Elisabet Sahtouris "... A crença fundamental da ciência ocidental é que este é um universo não-vivo. Ninguém nunca provou isso. Eu não acho que alguém poderia prová-lo. É uma suposição. Se eu disser que quero construir uma ciência baseada na hipótese de este é um universo vivo, os cientistas vão dizer – prove-o. Acontece que eles não têm que provar o seu pressuposto fundamental que este é universo não-vivo. A ciência ocidental desenvolveu a única cultura na história, eu acho, que desenvolveu o conceito de não-vida". [19] Obra citada anteriormente, Vol.III, p.15. [20] Obra citada anteriormente, Vol. IV, p.218-219 [21] Ver www.noticias.terra.com/ciencias/noticias [22] Trecho de entrevista a José Manuel Anacleto "Notícias Magazine", nº683 (suplemento do Diário de Notícias/Jornal de Notícias), 26-06-2005, págs.26-32.

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