quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

(In)dignidade humana


Muro (reconstruído) no qual se fuzilavam os prisioneiros políticos e os resistentes de Auschwitz


Nesta segunda parte[1] detemo-nos, além dos conceitos e realidades, na evolução dos Direitos Humanos: dos valores da liberdade aos de solidariedade (última geração) - caso da petição por um 31º artigo sobre o acesso a água potável. Perguntamos se, nestes 60 anos, tem a educação cumprido o seu papel.




Texto e fotografia Fernando Sadio Ramos



Os Direitos do Homem aparecem como concretizações efectivas de algo que constitui a sua razão de ser: a Dignidade do Homem. A ideia fundamental que subjaz a qualquer referência a Direitos do Homem é a de que o Homem, por ser Homem, é dotado de Dignidade. Esta assume-se como sendo a fonte de todos os valores plasmados nos Códigos de Direitos do Homem, a fonte inexaurível de novas formas e criações da Liberdade no decurso da praxis constitutiva de uma sociedade regida por aqueles e respeitadora dos mesmos. Ter Dignidade significa que se transcende a mera factualidade do ser-objecto integrante da Natureza. Transcendente à factualidade, a Dignidade diz-se de muitas maneiras e concretiza-se de inúmeras formas. Nesse sentido, a História, a Cultura e a Civilização permitem-nos ver de que modo se vai dando conteúdo concreto a essa Dignidade fundamental, que varia temporal e espacialmente, assumindo sempre novas formas mediante a intervenção da praxis. Supondo que se vai progredindo – por muito pouco que seja e por mais retrocessos que se verifiquem – no advento da Dignidade humana, poderemos ver na História um crescendo de concretizações dessa fonte do valor do Homem. Os Códigos específicos e concretos em que se plasma a Dignidade do Homem, as culturas e respectivos valores informantes, são momentos num processo permanentemente in fieri de humanização do Homem.
Naturalidade


A noção de “Direitos do Homem” implica a afirmação de uma exigência que estou autorizado a fazer precisamente por ser membro da espécie humana, e que não necessita de qualquer referência a uma possível concessão por parte de terceiros. Nesse sentido, podemos dizer que os Direitos do Homem são naturais, isto é, fazem parte da natureza ou do ser do Homem. Como tal, não dependem de atribuição ou benesse da parte de quem quer que seja. A sua naturalidade (no sentido em que a definimos) não significa que estejam dados automaticamente, de uma vez por todas e que os seres humanos deles estejam conscientes. A alienação relativamente à Dignidade que nos constitui é possível; já a alienabilidade não é aceite em termos de Direitos do Homem, como veremos brevemente. A mesma naturalidade não implica, igualmente, que os Direitos do Homem não sejam históricos. Com efeito, foi através da praxis humana que os mesmos advieram à realidade, constituindo aquilo a que, em termos kantianos, se chama o Reino da Liberdade. Do mesmo modo que os Direitos do Homem se constituem historicamente pela intervenção da Liberdade, podem regredir ou ser anulados na sua realidade efectiva se a consciência do valor da Dignidade do Homem se perder ou se reduzir.


A naturalidade dos Direitos do Homem significa que ninguém pode outorgar o direito à dignidade e à integridade física e psíquica das vítimas da violação daqueles. É evidente que o dever de respeito desses direitos pode ser infringido por outrem – seja ele um indivíduo, o Estado ou uma corporação mercenária –, mas essa violação não anula o facto de que a condição humana implica, por si mesma, o direito ao respeito desses direitos.
Igualdade, Universalidade, Inalienabilidade e Interdependência


Da naturalidade dos Direitos do Homem, decorre que todos os seres humanos, por o serem, têm os mesmos direitos. Assim, surgem como características essenciais dos Direitos do Homem a Igualdade, a Universalidade, a Inalienabilidade e a Interdependência. Todos os seres humanos são iguais em dignidade, pelo que os Direitos do Homem são universais. Ninguém pode ser destituído deles, nem pode abdicar deles, mesmo que dê o seu consentimento, pelo que são absolutamente inalienáveis. A interdependência é outra das suas características fundamentais. Um Direito do Homem implica os outros de modo que não podemos retirar um sem colidir com os outros. O direito à vida não se pode exercer plenamente sem liberdade. O direito à liberdade não é pleno sem educação e sem segurança, por exemplo. A pobreza não permite a participação política na vida da sociedade, o acesso à justiça e assim sucessivamente. Destes valores e direitos decorrem outros, entre os quais destacamos a não-discriminação, a tolerância, a justiça, a responsabilidade.


Todos os Direitos do Homem são, consequentemente e como referimos anteriormente, uma declinação do valor essencial da Dignidade Humana. Assentam numa concepção antropológica e ontológica de raiz aristotélica e nominalista, que dá o primado ao ser individual, isto é, à Pessoa humana concreta, enquanto verdadeiro sujeito de valores, direitos e fonte dos mesmos. Só é possível falar em direitos dos Povos e das Colectividades, por exemplo, se se tiver em conta que o que realmente existe é a Pessoa humana individual e concreta, e que o termo geral com que se designa um qualquer colectivo humano tem apenas o estatuto de um vocábulo, de um instrumento de pensamento lógico e, por conseguinte, é dotado de uma existência meramente ideal. É importante sublinhar este ponto pois, em nome da “Humanidade”, milhões de pessoas têm sido mortas e torturadas pelos zelotas/ fariseus/ iluminados/ beatos e outras encarnações da pretensa superioridade moral de que o ser humano tende a padecer. Protejamo-nos dos zelosos defensores da “Humanidade” que, de tão ofuscados pelo seu brilho inteligível, a não conseguem reconhecer no seu Próximo.
Gerações Os Direitos do Homem definiram-se historicamente de modo sucessivo, ao longo de várias etapas marcadas pela predominância de uma certa dimensão dos mesmos. Ao resultado desse processo, convencionou-se designá-lo de “gerações”. A apresentação do processo segundo uma sequência de Gerações de Direitos do Homem tem o perigo de, por um lado, poder fazer-nos perder de vista a interdependência essencial dos Direitos do Homem e, por outro, de nos fazer esquecer do seu carácter de permanente conquista histórica e de realidade frágil e em risco constante. No entanto, se tivermos estas advertências em mente podemos, por uma questão pedagógica, utilizar essa ordenação.
1.ª Os Direitos da Liberdade – Civis e Políticos


Deste modo, podemos encontrar uma 1.ª Geração – os Direitos Civis e Políticos –, que são essencialmente os Direitos da Liberdade. Temos, assim e por exemplo, a liberdade de expressão e de associação, o direito à vida, a um julgamento justo, à participação na vida política da sociedade.


Estes direitos definiram-se sobretudo ao longo dos séculos XVII e XVIII e na origem da sua conquista estão sobretudo preocupações políticas que visavam limitar o poder do Estado relativamente ao indivíduo. Têm, consequentemente, como ideias centrais a defesa da liberdade pessoal e a protecção do indivíduo face à prepotência do Estado. A actualidade Portuguesa tem apresentado um conjunto de factos que mostram à saciedade o carácter precário das garantias da Pessoa face ao poder do Estado a propósito de um processo judicial muito mediático, que se arrasta há vários anos
[2], e quão errados andam aqueles que falam, em nome da segurança, em “excesso” de garantias legais de protecção dos direitos e liberdades fundamentais.

2.ª Os Direitos da Igualdade – Económicos, Sociais e Culturais


Existe uma 2.ª Geração de Direitos do Homem – a dos Direitos Económicos, Sociais e Culturais –, os “Direitos de Igualdade”. A título de exemplo, refiram-se os direitos ao trabalho, à saúde, à educação.



É ao longo dos séculos XIX e XX que estes direitos se conquistam. Têm como principal preocupação a vida em sociedade, o trabalho e a satisfação das necessidades básicas da vida. As ideias de base são a igualdade e a garantia de acesso aos bens essenciais (sociais, económicos, coisas, serviços e oportunidades).
3.ª Os Direitos da Solidariedade – Colectivos


Podemos falar de uma 3.ª Geração – a dos Direitos Colectivos (das Sociedades e dos Povos) – os “Direitos de Solidariedade” –. Chamam-se, também, “Direitos emergentes”, na medida em que estamos em pleno processo da sua definição e promulgação. Podemos dar como exemplos deles o direito ao desenvolvimento sustentável, à autodeterminação dos povos, à paz e ao ambiente saudável.


Estes direitos têm uma ideia central, a de solidariedade. Efectivamente, nas presentes circunstâncias do mundo, ninguém pode pretender ficar imune a questões como as da pobreza pelo facto de beneficiar de boas condições de vida na sua sociedade ou de viver num condomínio fechado numa cidade rodeada de favelas. Mais cedo ou mais tarde, o carácter precário desse bem-estar pode tornar-se bem patente com os excluídos a baterem-lhe à porta, para usar uma linguagem eufemística. Tudo se repercute em tudo, tudo está estreitamente inter-relacionado, globalizado e, nesse sentido, os problemas – onde quer que se situem, por mais distante que seja o local onde ocorram – são sempre assunto de todos e partilhados por todos, quer nas suas consequências, quer nas soluções a adoptar para os mesmos.


Esta Geração de Direitos do Homem tem um carácter particularmente problemático. Por um lado, como a sua definição é uma tarefa em curso, esses Direitos caracterizam-se por uma indefinição mais ou menos acentuada, o que nos permite ver como os Direitos do Homem não nos foram dados ou outorgados por nenhum benemérito ou filantropo, mas afirmados pela acção e luta da liberdade e da crítica. Por outro lado, a seu propósito coloca-se a questão de poderem ou não manter a designação de “Direitos do Homem” ao serem atribuídos a entidades colectivas, quando a essência destes é serem, primordialmente, direitos da Pessoa individual e concreta.


Dois exemplos podem ilustrar a dificuldade. Não é inconcebível a possibilidade de, em nome da segurança de uma comunidade ou de um povo, se instituir uma ditadura que prive os seus cidadãos dos direitos e liberdades fundamentais. Considerem-se os casos ocorridos historicamente ou, na actualidade, a embrionária incubação do ovo da serpente na actual Itália consular. Existe ainda a questão da responsabilidade – quem deve ser responsabilizado por uma violação dos Direitos do Homem é, à luz da doutrina que preside a estes, alguém individualmente tomado, e não povos ou comunidades. É Eichman quem responde por crimes contra a Humanidade, não o povo Alemão, e assim sucessivamente para qualquer exemplo que queiramos dar. Quem deverá ser responsabilizado pelo efeito de estufa e suas consequências?


Todavia, alguns direitos colectivos já foram definidos, nomeadamente o Direito à Autodeterminação dos Povos (em 1948, na DUDH) e o Direito ao Desenvolvimento, declarado em 1986 pela Assembleia-Geral da Organização das Nações Unidas. Em curso, está a definição de direitos em áreas particularmente relevantes nos nossos dias, nomeadamente no que diz respeito às questões colocadas pelo progresso científico e pela biotecnologia.


Fala-se também numa 4.ª geração de direitos – os “Direitos de Qualidade de Vida”, os quais implicam uma cidadania de qualidade (direito ao lazer e ao acesso a bens culturais, por exemplo) –, mas estes direitos podem ser considerados como estando já incluídos nos direitos de 2.ª geração e dependendo da realização do conteúdo puro e duro destes.
Alguns documentos fundamentais Os Direitos do Homem podem ser encontrados em inúmeros documentos de todo o tipo e em legislação da mais diversa. Por exemplo, na Constituição da República Portuguesa (CRP). Deixo, por isso, apenas as seguintes referências mais gerais:

· Carta Internacional dos Direitos Humanos, que é constituída pela Declaração Universal dos Direitos do Homem (1948, Organização da Nações Unidas), pelo Pacto Internacional sobre os Direitos Civis e Políticos (1966) e pelo Pacto Internacional sobre os Direitos Económicos, Sociais e Culturais (1966). · Convenção dos Direitos da Criança (1989). · Convenção Europeia sobre os Direitos do Homem (1950/1998).
Educação para os Direitos do Homem
Falámos por diversas vezes na importância de consciencializar as Pessoas para a sua Dignidade e respectivos direitos. O Conselho da Europa, organização à qual já nos referimos anteriormente, entende por Educação para os Direitos do Homem os “programas e actividades educacionais centrados na promoção da igualdade na dignidade humana, em conjunção com outros programas tais como os que promovem a aprendizagem intercultural, a participação e a capacitação das minorias.”[3]

Esta definição dá corpo ao que se diz da Educação na Declaração Universal dos Direitos do Homem: “A Educação deve estar dirigida para o desenvolvimento integral da pessoa humana e para o reforço do respeito pelos direitos e liberdades fundamentais. Deve promover a compreensão, a tolerância e a amizade entre todas as nações, grupos religiosos e raciais, e apoiar as actividades das Nações Unidas na manutenção da paz.”
[4]


A partir destes pressupostos fundamentais, podemos dizer que a finalidade essencial da Educação para os Direitos do Homem será a de contribuir para o advento de uma cultura onde eles sejam parte integrante da vivência e da acção dos seus membros, que os devem tomar como algo a ser preservado como condição primeira e essencial para a promoção da Dignidade Humana e de uma vida que valha a pena viver. Tal cultura implica que o respeito pela Dignidade Humana deve enformar profundamente a prática social e individual, quer no sentido da manutenção das conquistas entretanto efectuadas, quer no da promoção de novas dimensões de realização dessa Dignidade através da crítica às situações de facto e da inserção de novos valores na realidade.


A Educação é, pela sua própria natureza, um terreno particularmente relevante para este desiderato e tem, assim, um forte componente de cidadania política. Pelo facto de estarmos ligados a ela, estamos sempre a contribuir de uma ou outra forma para o respeito ou – esperemos que não – desrespeito pelos Direitos do Homem.


Os conteúdos fundamentais da Educação para os Direitos do Homem poderão ser, sem exclusão de outras propostas e formulações, os seguintes:


a) o conhecimento e a prática dos Direitos do Homem, do valor da Dignidade Humana e dos valores democráticos;
b) a consciencialização para a liberdade constitutiva da humanização do Homem, para a identidade e a diferença antropológica;
c) o desenvolvimento de competências interpessoais e intelectuais, bem como de competências pragmáticas da linguagem;
d) a capacitação para uma cidadania activa e participativa.


Nesta prática, ao agir localmente, nos grupos de cuja responsabilidade estamos incumbidos, introduzimos mudanças na realidade que, pelo seu concurso recíproco, acabam por ter implicações na mudança global.


Fundamental neste processo é a consciencialização dos agentes para esses valores e para reconhecerem as suas violações, bem como a sua capacitação para intervir na promoção do seu respeito nas diversas circunstâncias em que decorra a sua acção e intervenção na sociedade.
Responsabilidade actual


Chegado ao fim destas reflexões, gostaria de sublinhar a importância do exercício de uma cidadania crítica, activa e participativa que diga “não” às violações dos Direitos do Homem que, de uma forma inadmissível, continuam a pautar a nossa época e que se empenhe corajosamente em promover o seu respeito em toda e qualquer circunstância.


Assim, poderemos estar à altura do privilégio único do nosso tempo. Com efeito, as violações dos Direitos do Homem que se verificam actualmente resultam particularmente ultrajantes precisamente porque nunca época alguma da História da Humanidade teve ao seu alcance as possibilidades que a nossa tem de transformar o mundo para melhor. E, paradoxalmente, nenhuma terá feito tanto para desperdiçar a oportunidade de introduzir um verdadeiro progresso no mundo, a saber, o progresso na Dignidade, Igualdade e Liberdade.

A pior servidão é aquela em que não se tem consciência de que se é servo e não se consegue sonhar com a ideia de uma outra realidade possível além da que nos rodeia. Tem já muitos séculos esta advertência, tantos quantos os da escrita do Fédon platónico
[5]. Traço característico dos dias de hoje é o facto de muitas forças concorrerem para nos retirar a capacidade de conceber outros mundos possíveis além daquele em que nos encontramos mergulhados, assim como de os produzirmos mediante a praxis e a Liberdade.

À Educação compete – como sempre competiu e como ela sempre cumpriu – manter desperta essa não-aderência do Ser Humano ao imediato e promover o desenvolvimento da capacidade de, pela palavra interna e externa, pelo diálogo e pela dialéctica, desvelar o (ainda) não-existente que é condição do futuro que poderá vir a existir através da praxis transformadora do ser.


Esta é uma responsabilidade nossa, que não podemos alijar e pela qual devemos estar preparados para responder perante os nossos vindouros.

[1] Seguirei de perto o texto de Compass, que contém úteis indicações bibliográficas sobre a questão dos Direitos do Homem e da Educação para os Direitos do Homem. [2] Refiro-me ao Processo da Casa Pia. [3] Compass, p. 17. [4] Artigo 26.º [5] 83c.

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quarta-feira, 12 de setembro de 2007

Informação social I

Lançado na conferência sobre "Informação Solidária", dia 11 de Junho, o livro "Jornalismo Social - Por uma ética da comunicação", editado pela "Padrões Culturais", reúne a intervenção de dezasseis especialistas no 5º Congresso da Cais.

Texto Dina Cristo

Incluído no terceiro sector, consciente da sua função social, comprometido com a realidade, o apuramento da verdade e a humanidade, o Jornalismo Social "corre" pela audição da sociedade civil numa pluralidade de fontes tendo em vista atingir o interesse público. Esta informação "sabe" que os "media" são uma forma de consciência colectiva e que, apesar de todos os constrangimentos e pressões, o livre arbítrio do jornalista para escrever, seleccionar e influenciar o debate público está sempre disponível.
O Jornalismo Social caracteriza-se por (querer) ser voluntário, cooperativo, comunitário, solidário, de causas sociais, com o enfoque nos problemas mais graves a nível social, na denúncia das questões de fundo. Privilegia uma visão integral, panorâmica, processual, didáctica e explicativa. Esta corrente jornalística é sensível à (in)dignidade humana e ao (in)cumprimento dos direitos civis, políticos, económicos, sociais e culturais; neste sentido, considera a imparcialidade irresponsável. Não se condescende com os abusos e a violação de direitos básicos. Tem uma ideologia, baseia-se em valores para filtrar e avaliar a informação e usa cuidadosamente a linguagem. Os sem-abrigo, as prostitutas, os toxicodependentes e/ou os deficientes são pessoas com direitos.

O Bem Colectivo
O Jornalismo Social identifica-se com o interesse público (habitualmente competência do serviço público), as histórias com importância, que contribuem para o progresso e desenvolvimento da comunidade, objecto habitual de publicações de referência. Pretende vincular o social na actualidade, sem que tal signifique pobreza/marginalidade, por um lado, ou jornalismo cor-de-rosa, por outro, que, com apelo ao entretenimento, faz as delícias do interesse do público e (dos accionistas) da imprensa mais sensacionalista.
Além de facilitar o acesso (mais directo) às fontes de informação por parte dos leitores estas também são alargadas ao maior número possível de actores sociais; é a diferença que enriquece o espaço público, dando voz a quem nele habitualmente não a tem; adiciona as ideias alternativas de uma forma equitativa, fala de pessoas com experiência de vida real e tenta chegar à verdade, através da síntese.
É a importância de uma sociedade civil para uma democracia deliberativa, da acção da comunidade local. Este jornalismo tem vontade de exercer uma missão social, ser um alimento informativo que incentive a deliberação sobre problemas colectivos e suas soluções em forma de políticas públicas; crê que os cidadãos podem intervir em soluções e preocupa-se com a sua procura, incluindo-as na própria cobertura do problema social.

Alicia Cytrynblum, Augusto Santos silva, Carlos Andrade, Cristina Fangueiro, Eduardo de Miguel, Emídio Rangel, Guilherme d`Oliveira Martins, Joaquim Vieira, Henrique Pinto, Luís Osório, Mafalda Eiró-Gomes, Maria de Fátima Goulão, Óscar Mascarenhas, Pedro Coelho, Stefano Trasatti e Vicente Jorge Silva são as dezasseis vozes que foram ouvidas em Março de 2006, na Fundação Luso-Americana. Podem agora ser lidas também. Diferentes contribuições para um conceito de Jornalismo Social.

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quarta-feira, 16 de julho de 2008

Informação sustentável

Quase a completar um ano, publicamos a primeira parte de um artigo sobre a fonte inspiradora deste projecto: a informação solidária.

Texto e fotografia Dina Cristo

Ao encetar o terceiro milénio, eis uma nova proposta de concepção e prática informativa: solidária, profunda, cooperativa, diversificada, sintética, lenta e humana. Uma alternativa à dominação das técnicas de manipulação e propaganda, que poluem a imprensa e intoxicam os cidadãos; uma resposta ao nível da comunicação social da mudança para um paradigma pacífico, ecológico e responsável.
Numa sociedade de consumo, onde quase tudo está à venda, com um preço de acordo com o nível de procura, e num sistema capitalista, que privilegia o capital económico-financeiro em detrimento de valores de honradez ou nobreza de carácter, o público está facilmente exposto aos riscos da comunicação hiper-industrializada, fértil em manipulação, em doses massivas de propaganda, de terror informativo, de incitamento ao medo, à dependência, ao isolamento e à inacção, apesar de todos os discursos em prol da cidadania activa e participativa visando o aprofundamento de uma sociedade democrática.
A informação solidária (IS) pretende dar instrumentos e condições para libertar o ser humano, seja ele produtor ou consumidor de informação, da dependência de quem o manipula, abusando da sua boa-fé, da sua confiança e ingenuidade para, através do estimulo de desejos, o conduzir a adoptar os comportamentos estrategicamente previstos.
O seu meio privilegiado é o webjornalismo, campo mais propício ao desenvolvimento deste movimento informativo, onde a par de uma nova agenda para a paz, com todas as suas repercussões, ganham importância novas áreas como a da responsabilidade social e a defesa de um quinto poder.
Quando o argumento mais comum para o terror informativo é o de que o mundo precisa de saber o que se passa, e, na sociedade da imagem, mostrar é uma forma de esconder aquilo que não se pretende que se saiba, o jornalismo tradicional está ainda na razão inversa da “informação”.
Património informativo


O século XX foi uma centúria de opressão, censura, manipulação, propaganda, distracção, entretenimento, “infotainment”, de adormecimento, alienação, dependência, inconsciência, irresponsabilidade e impotência, como mostra o documentário “Zeitgeist”. A propaganda manipula o cidadão e controla-o através do medo e das emoções, mantendo-o quieto, como se faz às crianças quando se tira da cartola o “bicho papão”.
No início do século XX um elemento de uma tribo desenhava-nos o perfil de ocidentais no que têm de pior ao nível da comunicação em sociedade: a prisão - dos apartamentos, das salas de cinema, dos próprios jornais -, a falta de contacto com a realidade. A necessidade de mediação, a leitura e interpretação da realidade em substituição da experiência directa e a homogeneidade. “Papalagui” mostra como a superioridade das culturas se reduz a uma questão de perspectiva e mais ainda de etnocentrismo, egoísmo em termos colectivos, arrogância em alguns casos e incompreensão em muitos deles. Fala-nos do excesso de informação e da “indigestão” que tal causa; o princípio de que nem tudo o que ingerimos é assimilado, neste caso pelo organismo mental.
A evolução da consciência humana quanto à manipulação (dos “media”), por um lado, e à necessidade de auto-realização, por outro, através de uma vida pacífica e harmoniosa, interna e externamente, a nível individual e colectivo, repercutiu-se num novo paradigma civilizacional e mediático, representado pela informação solidária.
Este novo modelo de comunicação social valoriza a força da união e da liberdade em detrimento da fraqueza do isolamento, permeável ao abuso e à opressão. A proposta é de uma maior consciência, autonomia e responsabilidade do Emerec, que ofereça protecção ao cárcere da segregação, competição, egotismo e isolamento, condições propícias a que a indústria cultural manipule o público, fragilizado.
O “segredo” de gerar consenso social para que as entidades empresariais possam ter o apoio dos próprios cidadãos, frágeis, isolados e crédulos, aos interesses daqueles, de colocar a maioria da população ao lado, de acordo, ou pelo menos não se mostrar contra, e silenciá-la, sem proibi-la de falar, está na indústria das relações públicas, que convence o público a acreditar nas mensagens falsas ou ideias distorcidas. A massa, como uma criança, confia e acredita em quem tem legalmente o poder de a informar.
Perante este voto de confiança, por vezes às cegas, a indústria das relações públicas persuade o público acerca de quase tudo, necessidades, veracidade das informações, e transforma as suas crenças e convicções em equívocos mal compreendidos, numa dependência, vitimação e necessidade de aprovação que só aumenta em ciclo a sua falta de confiança. Um ciclo vicioso difícil de sair – um cativeiro, local óptimo para a escravização, onde os senhores da indústria da comunicação o dom(in)am.
Novo paradigma social
Após a destruição provocada pelas guerras mundiais, emerge um novo paradigma de paz e cooperação. Surge por um lado a revolta contra o autoritarismo e por outro o desejo da devolução do poder ao povo, a democracia, o respeito pelas minorias; desponta um paradigma ecologista, uma visão de solidariedade ao nível planetário. No fundo, os ideais da Revolução Francesa começam a expressar-se de forma notória.
Há mais de duzentos anos que foi necessária uma revolução para terminar o autoritarismo e o absolutismo. Aos poucos instituem-se, primeiro nos ideais depois na prática, os valores da liberdade, da igualdade perante a lei e em dignidade humana, a fraternidade, a solidariedade, a união que reforça o poder de cidadania. Numa visão mais ampla, cada parte integra um todo, ao qual pertence, e no âmbito do qual está inevitavelmente ligada às outras: a comunidade em rede, reticular de que nós hoje experimentamos; um modelo horizontal de comunicação, descentralizado e democratizado.
Desde a sequela da I e II Guerra Mundial, quer ao nível diplomático quer ao nível do direito internacional, os valores da cooperação e da paz têm estado na agenda política. O respeito pelos direitos humanos e a importância da pacificação dos territórios, evitando as mortes, atrocidades e crueldades, têm sido uma preocupação. Desde há décadas que os homens se juntam em conversações e diálogos para tentarem pela via verbal aquilo que anteriormente era resolvido militarmente.
Ao nível nacional e internacional foram criados vários organismos e instituições com estas preocupações (como a UNESCO, a Comissão Justiça e Paz, a Universidade da Paz). Na prática, há uma parte da comunidade que se agita face aos novos valores. Exige-se uma agenda para a paz, comemora-se o Dia dos Jornalistas pela Paz, há institutos que formam os jornalistas neste sentido (caso da Agência internacional pela Paz) e novos projectos no âmbito do jornalismo alternativo vão surgindo. Entretanto, o paradigma tem tido alguma expressão ao nível social, económico e científico.
Ao nível social, a globalização, processo de conhecimento, troca, partilha, integração e fusão cultural que vem, pelo menos, da era dos Descobrimentos, em cuja promoção o comércio tem sido pioneiro, tem provocado, juntamente com a venda de bens e serviços, o contacto humano e a troca de ideias, crenças, valores, formas de estar e conceber o universo. O processo de construção de um planeta numa aldeia global, antecipado por vários homens da ciência, é visivelmente sentido nos dias actuais. Ele visa, em última instância, a promoção da partilha humana, ao nível cultura e tem derrubado, por isso, várias fronteiras mentais, psicológicas e físicas, como foi o caso do muro de Berlim ou o fim do “apartheid”.
Ao nível económico, a economia e comércio solidários são hoje, perante a globalização económica internacional, uma alternativa humana, que tem em consideração a vida das pessoas, de quem trabalha, de quem consome, de quem vende e respeito por um padrão ético.
Ao nível científico, surge a teoria de Gaia, de James E. Lovelock, os campos mórficos de Rupert Sheldrake, a física quântica e a teoria das cordas, o paradigma holístico.
É, assim, na transição do século XX para o século XXI que mais se fazem sentir os efeitos da mudança de paradigma: ecológico, solidário, democrático que, ao influenciar vários sectores, não pôde deixar de ter efeito sobre os “media” e o jornalismo.
Nova concepção informativa
Os Estudos Culturais vêem os “media” como opressores mas também com a potencialidade de se transformarem em instituições de libertação. Se derem voz às minorias (étnicas, culturais, religiosas, políticas, sociais, económicas, sexuais entre outras) estarão a equilibrar a sua representação mediática com a sua existência efectiva. Ao variar as fontes a que recorrem, os “media” estarão a relatar a realidade sob diferentes ângulos contribuindo assim para o enriquecimento de olhares e um conhecimento mais completo. É a valorização das várias culturas, modos de fazer dissemelhantes, que podem ser úteis ao desenvolvimento humano em detrimento de predomínio de um só ponto, uniforme, politicamente correcto, convencional, de uma legitimidade construída.
O relatório McBride, escrito há cinco décadas, está ainda por cumprir, mas foi um marco desta nova etapa. O documento apontou as fragilidades de uma informação internacional desequilibrante, com o predomínio das fontes e relatos dos países do norte em relação aos do sul, e salientou a importância de reequilibrar o fluxo informativo para o progresso e desenvolvimento político e social dos países e continentes. Para que o retrocesso não suceda e o sistema social não bloqueie era - e é - urgente o livre fluxo de informação, o seu livre curso.
Estamos, pois, a usufruir dos primeiros resultados das alterações havidas no último quartel do século XX. Após a “era” do jornalismo de opinião, no séc. XIX, e do jornalismo industrial, no séc. XX, eis que emergiram no seu final novos meios, técnicas, ideias e condições de produção informativa. Depois dos “media” tradicionais, surge um novo, multimédia, que os converge.
A web permitiu nos últimos anos do século XX conjugar e conciliar a forma e a técnica. Além da passagem a um nível de informação virtual, numa dimensão desmaterializada, permitiu a integração dos meios de comunicação até então separados em imprensa, rádio e televisão, na sua dimensão escrita, oral e (audi)visual. A Internet possibilitou o multimédia, a síntese mediática, que no caso do webjornalismo conjuga todas as linguagens anteriores, promovendo a evolução da linguagem jornalística a um nível de hipertextualidade, "multimedialidade" e interactividade inovadoras.
A história da comunicação e do jornalismo tem sido um acumular de técnicas que têm permitido ultrapassar ou eliminar barreiras de tempo e de espaço. Por outro lado, a informação tem-se orientado, com alguns momentos históricos de censura e inquisição, para a descentralização, com tendência a ser democrática, de acesso cada menos restrito ao poder de saber. A web, flexível, ubíqua, é um instrumento técnico que tem permitido, desde a viragem do século, um impulso a esse desafio que é formar uma comunidade cada vez mais internacional, com uma opinião pública, e concretizar a utopia da comunicação, tornar como um, numa unidade o globo terrestre.

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quarta-feira, 25 de julho de 2012

Jornalismo social III


Hoje, precisamente, completamos cinco anos de actividade semanal contínua. Antes de interrompermos, em Agosto, regressamos às nossas origens.

Texto  Dina Cristo imagem Cais

Desde há quase 20 anos que o jornalismo público se propõe recuperar a ligação perdida com os leitores, manifestada numa crise de imprensa, após a aplicação dos valores da objectividade e falsa neutralidade e imparcialidade, decorrentes de uma má interpretação da razão iluminista, autónoma e independente, e que degenerou num distanciamento, alheamento e indiferença perante o universo do público.
Conscientes acerca do quanto se haviam afastado dos destinatários, os jornalistas cívicos apresentaram três principais objectivos: a comunidade, a cidadania e a deliberação. Pretendiam agora envolver o público, levá-lo a interessar-se pelos temas públicos, motivá-lo a informar-se sobre os assuntos mediáticos, políticos, económicos ou militares e conduzi-lo à discussão e ao debate dos mesmos.
A sua intenção – medida para o valor moral de uma acção, segundo Kant – era sobretudo comercial, a recuperação das tiragens, em queda. A proposta traduzia-se em aumentar ainda mais a presença das elites em detrimento da inclusão dos problemas das pessoas comuns na agenda mediática. Assim, se esculpiria ainda mais o fosso entre os sub-sistemas e a lifeworld - os anseios, as acções e os sofrimentos dos indivíduos na sua vida de todos os dias.
Entretanto, o desenvolvimento das ferramentas digitais e a multiplicação de possibilidades e facilidades de publicação on line pelos cidadãos elevou a desejada contribuição do público. Com a Web passou a ser possível recolher, seleccionar e publicar histórias, sem controlo por parte de qualquer profissional e “desalinhadas” dos critérios jornalísticos convencionais.
Em alguns casos as atitudes dos cidadãos ultrapassaram a pretendida participação, limitada à recolha e envio de material, nomeadamente fotográfico. Este caso - em que o trabalho voluntário do cidadão é estimulado e usado pelas empresas que mantêm o poder de seleccionar e publicar – vai um pouco mais além do que o jornalismo interactivo, em que o cidadão apenas pode intervir após a publicação dos artigos, mas fica um pouco aquém do jornalismo de cidadão, onde todo o processo de produção é realizado pelo autor, como defendia Walter Benjamin.
Nesta segunda fase do jornalismo público as acções dos cidadãos ultrapassaram as próprias empresas que se sentiram obrigadas a acolher, de uma forma mais generalizada, os materiais enviados pelo público, não sem, contudo, resistirem à perda do exclusivo de informação exacerbando ainda mais o seu controlo. Como refere Sparks(1) «o tipo de material que tem maior sucesso on line é o que remete para os problemas da elite, e a esfera pública on line encarna o mesmo tipo de exclusões que estão presentes off line, mas numa forma mais extrema».
A par do discurso propagandísticos e demagógico, que afirma estar ao serviço da igualdade, pluralidade ou democraticidade, na prática o que se verifica, como demonstrou Lincoln Dahlberg, é o aprofundamento das desigualdades - desde as mais básicas, como o desnível de acesso, às mais elaboradas, como a produção do próprio discurso -, as exclusões, do diferente e particular, e a supremacia das ideias, vozes e grupos que já são bem vistos e predominam, quer na vida quer nos sub-sistemas.
O jornalismo público, que também se afirma cívico, mais focado no utilitarismo do que nos princípios, arrastado pelo empirismo, vê, afinal, os seus proclamados objectivos, como os de religação à audiência ou de oportunidades de expressão, informação e deliberação, por exemplo, ser mais e melhor atingidos por novas formas de fazer jornalismo, resistindo perante a efectiva participação e envolvimento da audiência, o que nos leva a questionar se os seus verdadeiros interesses não são efectivamente corporativos, privados e particulares.
O jornalismo público responsabiliza a audiência pelo dever de se interessar pelos factos que habitualmente integram a agenda mediática em detrimento de assumir a recuperação de uma agenda social, a par da política e da económica, que privilegia, de se ligar, dedicar e preocupar com as pessoas, público e fontes, e seus anseios, problemas e sofrimentos, nomeadamente em relação a grandes sectores da população como pobres, mulheres, cuidadores, sofredores ou vítimas. Afinal, trata-se de temas públicos que merecem atenção e deliberação pública.

Jornalismo alternativo

Além do jornalismo de cidadão (com o caso exemplar do Indymedia), um dos três tipos ao serviço do jornalismo público, segundo Nip Joyce, existem novas formas de reportar a actualidade que dão resposta a, pelo menos, algumas das dúvidas levantadas por autores da Escola Crítica de Frankfurt, nomeadamente a segregação e discriminação de largas camadas da população inseridas na vida do dia-a-dia e ocultadas, invisíveis e silenciadas nos sub-sistemas, como a indústria cultural mediática.
As novas formas de exercício do jornalismo representam e reintegram, de forma mais atenta e cuidadosa, as partes marginalizadas pelos principais meios de comunicação social. No caso da imprensa alternativa, esta constitui mesmo uma esfera pública alternativa, onde se informam e debatem, não só em livrarias alternativas mas já em “infoshops” especializadas, assuntos preteridos pelos “media” convencionais, ligados a causas pontuais ou grupos de interesse.
Trata-se com novos canais de comunicação, com ênfase na actividade, movimento e troca, na qual experiências, críticas e especificidades se podem expor e desenvolver através do estímulo ao pensamento livre, autónomo e independente do Estado, numa relação vital com os movimentos sociais, que esta imprensa reporta, suporta e desenvolve, pela transmissão de ideias dissidentes e mesmo radicais.
A imprensa alternativa está, pois, associada a minorias, isto é, grupos sub-representados nos “media” tradicionais tendo em vista a sua expressão na vida real, como ambientalistas, anarquistas(2), feministas, jovens, operários, pacifistas, pobres ou socialistas. Introduz, portanto, novos actores sociais, oprimidos e/ou marginalizados e articula, pelo menos, a agenda política com a social, conforme defende Alicia Cytrynblum.
A imprensa alternativa não reduz o indivíduo a um mero objecto manipulado mas capacita-o para se realizar como ser humano total, preferindo integrar os seus escassos recursos na vida dos seus participantes. Não concebe o ser humano como um meio, mas com um fim em si mesmo, em sintonia com Immanuel Kant, para quem o ser humano era sagrado e, portanto, não podia ser usado por ninguém como mero meio.
Comprometida contra o capitalismo, a favor de uma vida humilde e da acção social e política tendo em vista uma mudança social, por um todo mais equitativo, tão ou mais importante do que a informação é, na imprensa alternativa, o modo de produção, em auto-gestão, em comunicação horizontal, do escritor ao leitor, a atitude e posição nas relações de produção.
Coerente com os seus valores, a participação aplica-se ao ponto de incluir os leitores nas suas decisões e ao tornar a audiência em produtora. A criação é mesmo um dos seus pontos fortes, próprio da alta cultura, com tensão e distinção, tal como explicado por Adorno, ao contrário da mera cultura de reprodução dos “media” mais reconhecidos, o mais vulgar.
Consequente, a imprensa alternativa defende a aplica os baixos níveis de finanças, direitos autorais, circulação ou distribuição ou mesmo de graus de abertura, liberdade e gratuitidade. Possui, normalmente (muito) pouca publicidade, embora seja receptiva a donativos e acções de beneficiência, nomeadamente ao nível de concertos, e realiza-se com base no voluntariado.
Actuando no âmbito descentralizado, de micro-empresa, não comercial, exerce uma organização colectiva e pugna pela diversidade, a sua essência e a sua força democrática, defende Chris Atton que cita o Oxford Institute of Social Disengineering: «uma centena de publicações com uma circulação de mil é cem vezes melhor do que uma publicação com uma circulação de centenas de milhar»(3).
Além de dar voz às partes colonizadas pelos sub-sistemas, esta imprensa permite igualmente aproximá-las quando, por exemplo, no caso das revistas de rua, como a “The Big Issue”, facilita a conversa entre compradores e vendedores (seis mil em Inglaterra), os mesmos indivíduos que ali são retratados. Nas conversas que se proporcionam, nomeadamente sobre o problema da falta de habitação, o bloqueio entre “nós”, os centrais e integrados, e “eles”, os periféricos do sistema, dissipa-se ou atenua-se.
Nestes casos as publicações promovem o trabalho, alguma remuneração e aumentam consideravelmente a auto-estima, ao contrário da imprensa regular que a diminui, instala complexos, desrespeito pela auto-imagem e adormece a identidade do público através da “chupeta electrónica” sedutora mas perigosamente alienante, manipuladora e escravizante. Ao contrário, a imprensa alternativa esforça-se por repor o princípio da justiça.
Criada e distribuída para os indivíduos para as quais existe, esta imprensa, ligada às necessidades comuns das pessoas e à vida de todos os dias, opta pela partilha de recursos, até como potencial educativo de ânimo à participação, em detrimento da determinação económica ou da competição directa com os mercados ou modos de produção da imprensa convencional.
Uma imprensa activa, motivada para o desenvolvimento, com participação directa e realização humana, comprometida com um estilo de vida simples, aberta ao confronto com o diferente, o divergente, o heterodoxo, assumindo a pluralidade e envolvimento defendidos pelo jornalismo público que, segundo Joyce Nip, pelo menos em relação ao segundo, já acontecia e com mais profundidade antes do jornalismo industrial e objectivo.

Jornalismo de paz

O jornalismo de paz é orientado para a paz, para as pessoas e para uma solução. Representa as partes em conflito com multiplicidade e variedade, perseguindo muitos objectivos e com diversas oportunidades de intervenção, reconhece que o problema do conflito pode parecer muito diferente quando examinado através de ângulos cruzados pelos que estão no terreno e está preparado para procurar e reportar iniciativas de paz, vindas de qualquer procedência.
Parte da imprensa alternativa, o jornalismo de paz, com uma implantação de sete décadas, é não só um contributo para melhor realizar os intuitos de justiça, inerentes à própria profissão, como para o seu próprio desenvolvimento ao possibilitar a correcção, desde logo, dos relatos, habitualmente mais conflituosos e agressivos do que são na realidade.
Mas não só. Este jornalismo permite rectificar o desequilíbrio de fontes sistematicamente usadas – o privilégio de informações procedentes de entidades oficiais, de elite (individual ou colectivamente) ou militares – e do predomínio da linguagem agressiva, conflituosa ou de vitimação.
O novo paradigma emergente dá mais atenção às fontes orientadas para o povo, a vida concreta e real. Jake Lynch cita John Paul Lederach, que afirma nunca ter experienciado nenhuma situação de conflito em que, frequentemente emergindo da sua experiência de sofrimento, não tenha encontrado uma pessoa com visão de paz.
Estas pessoas, as suas acções, pensamentos e sentimentos, não deixam de ser prezadas pelo jornalismo de paz pelo facto de não possuírem poder político ou influência económica. Aliás esta imprensa não ignora as tentativas, os esforços e as propostas no sentido da harmonização social, para a qual contribui através de uma linguagem cuidadosa e de critérios que não “inflamem” ainda mais os conflitos.
Mas o aperfeiçoamento propiciado pelo jornalismo de paz verifica-se igualmente no reequilíbrio dos fluxos de informação a nível internacional, tal como recomendado no relatório de MacBride, há cerca de 30 anos, bem como no melhor nivelamento entre o que mais tem sido omitido, o construtivo e benéfico, e o que é repetido, o destrutivo e maléfico para uma grande quantidade de pessoas e países na base da pirâmide do poder.
De igual modo o jornalismo de paz evita o erro de fazer equivaler ou substituir a parte, a citação oficial, pelo todo, o acontecimento no espaço e tempo físicos, com múltiplos ângulos, diversos intervenientes e várias motivações. Também não tenta dissipar, ocultar ou dissolver artificialmente eliminando os conflitos, que se estendem pelo mundo, do discurso mediático ou reduzindo-os à insistência dos que mais intimamente se relacionam com interesses restritos.
O apuramento da actividade informativa traduz-se ainda na estima e carinho quer pela audiência - a quem se evita os efeitos de stress, causados pelo jornalismo de guerra – quer pelas fontes civis, como as Organizações Não Governamentais (ONG), a quem se previne a discriminação e desconexão, pela subserviência do sub-sistema informativo em relação ao sistema capitalista.
Esta pesquisa e reportagem das propostas, respostas e acções não violentas constitui um desafio às relações de dominação e opressão, baseadas precisamente na violência sistémica, como lembra, entre outros autores, Theodor Adorno. Trata-se de uma abordagem mais profunda, completa e contextual, tal como também defendido por Alicia Cytrynblum.
Até aqui têm prevalecido critérios de noticiabilidade - como a negatividade, o conflito, a morte, a notoriedade, a amplitude, a frequência, o inesperado, a clareza, entre muitos outros - com consequências designadamente ao nível da preferência pela cobertura de guerras e acontecimentos extraordinários, que têm como protagonistas pessoas e países de elite, com um grande número de indivíduos ou que se adequam bem ao planeamento e agendamento de notícias.
Estes critérios - além dos valores da objectividade, neutralidade e imparcialidade, que têm conduzido ao afastamento e à indiferença, entre público e jornalistas - têm vindo a ser cada vez mais contestados pelos activistas mediáticos, fontes, jornalistas, audiência, investigadores, e a própria ONU, que pretende criar um Banco de “Media” como forma de fomentar o jornalismo de paz e uma ética mediática a nível global.
A discussão está presente na teoria, com a ética do cuidado a defender a expressão da subjectividade, até aqui (auto)censurada, incluindo tomadas de posição – diferentes da parcialidade - e na prática, através do jornalismo de paz, cujo fundador é precisamente Johan Galtung, que nos anos 60 sistematizou as escolhas de noticiário estrangeiro e nos anos 90 se orientou mais especifica e directamente para o jornalismo de paz.

Jornalismo social

No caso do jornalismo social - uma disciplina emergente, como afirma, no seu livro, a jornalista Alicia Cytrynblum - alguns critérios são usados para mostrar a relevância dos assuntos sociais, que têm impacto, proximidade, interesse humano e importância económica, social e cultural, além de representarem o poder das pessoas comuns face ao Estado e às empresas.
A agenda social faz parte de uma trilogia constituída pelas bem conhecidas agendas políticas e económicas. Ignorar o tecido social, seus líderes e acções sociais é um erro que decorre da dependência dos jornalistas face ao poder instituído (dos sub-sistemas da burocracia e do capital) e que os levou a afastarem-se do seu papel original de mediadores equidistantes entre governantes e governados, informando em ambos os sentidos e não apenas na direcção da elite governativa para a massa eleitora.
É motivação do jornalismo social a articulação entre as três agendas, o que significa fazer a necessária e sublinhada, pela análise crítica, ligação entre os sub-sistemas (políticos e económicos) e a lifeworld. É próprio do jornalismo social somar novas fontes, como as ONG, ouvir as vozes dos directamente atingidos – como adolescentes, crianças, deficientes, mulheres ou pobres – e relatar a sua perspectiva, contribuindo para o seu conhecimento e reconhecimento público com impacto ao nível da representação e do imaginário social.
Alicia Cytrynblum lembra que o jornalista é o guardião do vínculo entre o poder e os cidadãos e que deve ter presente não apenas o seu papel social mas igualmente a sua função pontifica, de religação, fundamental não só para a recuperação da crise de imprensa e um dos propósitos do jornalismo público, mas também para a própria organização sistémica, que se tem vindo a desagregar, a fragmentar e a distanciar cada vez mais.
Segundo sustenta o jornalismo social, é inerente à profissão tornar visível ao poder o que para este está invisível: «Se estes [os actores sociais] participam na notícia devem ser incluídos na cobertura. Se foram omitidos será tarefa do jornalista denunciá-lo claramente»(4). Não se trata de transformar o profissional em porta-voz das causas sociais, mas antes de ser de tal forma independente que não as abafa ou amputa da representação pública, quando estas possuem uma dimensão tão ou mais importante que as demais.
Na Argentina há mais de 460 mil empregados no terceiro sector e mais de 80 mil organizações sociais, entidades de bem público que constituem uma rede social, por todo o lado, que, entre outras coisas, gera emprego e defende os direitos das minorias representando o interesse social, repleto de pessoas que fazem coisas, às vezes heróicas, por outros, e que congrega o tecido social e a acção social da sociedade civil.
Ora a independência, para além das condições proporcionadas pela empresa na qual se exerce a profissão, é construída, é uma decisão pessoal que faz parte da responsabilidade individual de cada jornalista. Tal pode efectuar-se não apenas na soma de novas fontes mas também no uso mais atento, cuidadoso e adequado das palavras, em especial dos adjectivos, sobretudo quando relativos a pessoas já desfavorecidas ou estigmatizadas.
A dedicação dada às palavras, instrumentos de trabalho, não só eleva o nível de rigor com que se reporta a realidade como se traduz num esforço para espelhar a vida - em vez de a obscurecer, distorcer, manipular ou censurar, extirpando-a da percepção pública – e evitar a reprodução de pré-conceitos e estereótipos que reduzem o todo à parte assim redefinida, como explica Adorno.
A preocupação colocada na linguagem usada reflecte o respeito pelos indivíduos enquanto seres humanos, designadamente os noticiados, considerados na sua dimensão humana, integrando as suas possibilidades e potencialidades, em detrimento das suas condições pontuais de eventuais dificuldades ou incapacidades. Assim, não se trata de “pobres”, por exemplo, mas de “pessoas em situação de pobreza”.
Pode parecer um pormenor subtil mas altera o ângulo perspectivado: «São imensas legiões de pessoas a quem se prejudicou o acesso ao trabalho digno, à saúde, à educação e à habitação, entre outros direitos. Quer dizer, a pessoa pobre é uma vítima do sistema económico, nunca o vitimador. É a consequência, nunca a causa. Neste sentido os meios de comunicação e os jornalistas devem ser cuidados no enfoque ideológico das coberturas»(5).
Uma das características da imprensa social é precisamente a compreensão, explicação e contextualização dos fenómenos, a descrição das suas causas - frequentemente associadas a razões políticas e económicas - o seguimento das notícias e a pesquisa de soluções já empreendidas por alguma entidade nacional ou internacional, não se limitando à denúncia dos problemas sociais, ao relato isolado, fragmentado e objectivado, como acontece através da mera apresentação de números, taxas e estatísticas.
O jornalismo social prefere, pois, a profundidade, a abrangência, ao impacto imediato, estéril e paralisante. A informação sobre as alternativas disponíveis ou concretizadas para resolver o problema altera a percepção (da falta) de empenho das entidades responsáveis e mobiliza a audiência para a co-responsabilidade social, a acção concreta, a beneficiência, como defende a ética do cuidado.
Além do mais os problemas sociais não são um espectáculo. No jornalismo social vigora o princípio da prudência – um valor inerente à responsabilidade social e à máxima do amor de si que, segundo Kant, deve ser, de acordo com a lei moral, estendida ao outro – poupando não só o sofrimento gerado ao nível da audiência (como vimos ao nível do jornalismo de paz) mas também a quem é objecto de atenção mediática, nomeadamente em secções policiais.
Naqueles casos, Alicia Cytrynblum defende que o tratamento da informação deve ser baseado nos direitos humanos, evitando o seu uso estratégico para fins de controlo das massas - através do medo, do terror, da desestabilização, da insegurança, para assim melhor obter o consentimento para políticas mais agressivas, vigilantes e violentas - ou para gerar audiência, através do instinto da morbidez. Uma forma de actuação mais independente, activa e consciente que se nega a ser usada como meio para a construção de um sujeito vulnerável, amedrontado, controlado e subordinado.
Tal como o jornalismo de paz, o jornalismo social empreende um esforço no sentido do desenvolvimento do jornalismo, até aqui demasiado envolvido com os campos políticos e económicos, e da sua correcção - da distorção, do enviesamento, do deslocamento (que acompanhou o das próprias identidades) ou da exclusão de partes essenciais.
No caso da discriminação das ONG - quando estas são fontes percebidas pelo público pelo seu grau de independência, inovação e, fundamentalmente, confiança - em detrimento de outras, consultadas quase em exclusivo e nas quais a audiência não acredita, não só afasta os leitores, que não se revêem nos temas e ângulos tratados, como agrava a crise de imprensa. Além de poderem contribuir para a recuperação da credibilidade e pluralidade jornalística, as ONG são fontes de novos actores, líderes, ideias, temas, métodos e acções sociais, produzindo também informações relevantes.
Ao cumprir o seu papel social, ao comprometer-se com os processos sociais, o jornalismo social não só fortalece a democracia como colabora activamente na participação – uma reivindicação do jornalismo público e uma necessidade identificada pelas investigações teóricas de (re)tomar parte na representação pública, dada a sua importância e influência, nomeadamente em termos sociais.
O jornalismo social não negligencia a questão comercial, mas a verdade é que consegue aumentar as audiências sem prescindir dos princípios de cidadania e de serviço aos cidadãos – pelo que lhes fornece os dados necessários para poderem contactar directamente as fontes - capacitando-os, ao contrário do jornalismo público que, ao insistir nas obrigações da audiência e descuidando dos seus interesses, cada vez mais a perde.
O jornalismo social assume uma ideologia - como a democracia ou o desenvolvimento sustentável - promove a acção comunitária e tem a preocupação de compreender e de respeitar(6) a dignidade das pessoas envolvidas, difundindo os seus direitos e confirmando as informações transmitidas, atendendo e cuidando em relação às perguntas, aos enquadramentos ou ao uso de linguagem inclusiva e não violenta.
O jornalismo social (re)conhece a importância da agenda social sem, contudo, exacerbar a solidariedade nas notícias. Não se limita à mera informação, argumentativa e agressiva, à discussão de mente a mente, própria do hemisfério esquerdo, antes contribui para promover a comunicação, bidireccional, a comunhão - a constituição de comunidades fluentes, coesas, integradas e identificadas - e a inclusão da linguagem do amor, de coração a coração, própria do hemisfério direito.
A linguagem e acção amorosas, mesmo ao nível público e profissional, como defende a ética do cuidado, não deixam de corresponder às exigências de verdadeira liberdade, moralidade, autonomia e independência de uma razão esclarecida e não distorcida pelas inclinações, interesses ou necessidades empíricas. Equivale à acção virtuosa, o cumprimento da lei por amor dela - sendo que a lei das leis é precisamente o amor ao próximo - sem qualquer interesse pessoal, o que constitui, para Kant, o soberano bem.
Além de ajudar a implementar esta comunicação veramente racional – o que inclui a expressão da subjectividade, unificadora de todas as multiplicidades e, assim, verdadeiramente discernida, pura, genuína, livre e independente – a sua conduta concretiza diversas aspirações de outras tipologias de jornalismo, nomeadamente o jornalismo público, alternativo e de paz, que vimos, mas também realiza a própria natureza da profissão, presente desde logo na sua designação enquanto “meios de comunicação social”.
A dimensão social, presente na vida de todos os dias mas até aqui ocultada, silenciada e amputada da indústria cultural, é, agora, resgatada pelo jornalismo social que, assumindo a sua missão social e estando atento à nova ordem social e às reivindicações de expressão, representação e participação públicas das largas camadas de população colonizadas, não deixa de abordar questões como a política social, os valores sociais, a economia social ou o capital social.

(1) SPARKS, Colin – The Contribution of Online Newspapers to the Public Sphere: A United Kingdom Case Study in Trends in Communication 11(2), pág.111-126. citado por NIP, Joyce – Exploring the second phase of public journalism in Journalism Studies, vol.7, nº2, 2006, pág. 231. (2) No Reino Unido, os anarquistas são responsáveis por 25 publicações alternativas e 12 editores.  (3) ATTON, Cris – A reassessment of the alternative press in “Media, Culture & Society”, Sage Publications, London, 1999, vol.21, pág.64. (4) CYTRYNBLUM, Alicia – Periodismo social – Una nueva disciplina. La Crujía Ediciones. 2004, pág. 69. (5) Idem, pág.115. (6) Segundo Kant, este apenas se dirige a pessoas, sobretudo quando cumprem a lei moral, ao contrário da admiração e do amor.

Bibliografia: ATTON, Cris – A reassessment of the alternative press in “Media, Culture & Society”, Sage Publications, London, 1999, vol.21, pág.51-76. CYTRYNBLUM, Alicia – Periodismo social – Una nueva disciplina. La Crujía Ediciones. 2004. LYNCH, Jake – Peace journalism in ALLAN, Stuart (editor) - The Routledge Companion to News and Journalism. London and New York, 2010, p.541, p.543-553. NIP, Joyce – Exploring the second phase of public journalism in Journalism Studies, vol.7, nº2, 2006, pág.212-236.

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quarta-feira, 28 de março de 2012

A (des)colonização jornalística



Texto e fotografia Dina Cristo

Nas sociedades tradicionais a organização humana permitia a igualdade. Eram comunidades de carácter tribal, onde “reinava” o povo, a re(li)gião e o simbólico. Com a evolução, as nacionalizações, o êxodo rural, a industrialização e a modernidade, as sociedades complexificaram-se. A organização da vida colectiva burocratizou-se, distanciou-se da vida de todos os dias e introduziu a desigualdade.

A vida simples, com ligação ao passado e à Natureza, perdeu-se. O desejo de diferenciação e de liderança impôs-se. O entendimento da vida e a compreensão da natureza das coisas e do mundo transferiu-se para o campo dos especialistas. Aquilo que até então era objecto de entendimento partilhado foi relegado para o campo distante do pressuposto e a troca comunicativa, baseada nas diferenças humanas, geradora de vero consenso, substituída pela instituição de códigos.

Com a legalização e a oferta de soluções cada vez mais estandardizadas a necessidade de apresentar, ouvir e discutir argumentos – incluindo os subjectivos - desapareceu. Aos poucos, a normalização destruiu o processo comunicativo. A diferença que antes unia foi sendo exterminada num falso consenso cada vez mais separatista.

O todo - presumivelmente - passaria a integrar as partes. Mas, na verdade, as diferenças foram sendo excluídas. Ilusoriamente, o todo foi confundido com a parte e esta com a abstracção, vã. Uma correspondência que assegurava um sentido para o desconhecido e oferecia uma sensação de ordem e estabilidade mas redutora e superficial. O signo, não menos do que o mito, tornara-se também ele totalitário quando ao redefinir extirpava as particularidades.

Esta exclusão da representação, uma violência estrutural, fez-se sentir aquando da formação das Nações, pela imposição de uma língua vernácula sobre as demais como pela contenção das diferenças tribais e culturais pela força. Uma hegemonia que se aperfeiçoou aquando das vagas migratórias para as cidades, tirando partido do isolamento na multidão. Quando mais afastado da sua identidade cultural de origem, perdido no anonimato de uma sociedade massificada, maior a vulnerabilidade.

A técnica, cada vez mais desejada, naturalizada e facilitada, ao mesmo tempo que permite compensar as necessidades não satisfeitas ao nível social, vai agravando o afastamento do indivíduo de si próprio, dos outros seres (humanos) e dos objectos. Aos poucos, os mass media (primeiro a rádio, depois a televisão e agora a Internet) vão-se infiltrando na vida doméstica e familiar. Cada vez mais separados, os indivíduos vão-se ligar progressivamente a uma autoridade externa, que os conquista.

Socialmente desintegrado, o indivíduo torna-se cada vez mais vulnerável e dependente da emergente indústria cultural, à qual se submete. Sem dar por isso, o sub-sistema mediático vai dominando-o: diz-lhe quem é, ou melhor, quem pode ser, fazer e, sobretudo, comprar. Enquanto as suas motivações utilitaristas e empíricas são estimuladas, a sua natureza racional e humana, pelo contrário, vai sendo reprimida.

Com objectivos lucrativos, a indústria dos mass media encarna uma razão calculista, que sucumbe aos interesses (capitalistas), e embrutecida pelas inclinações (sensoriais), longe da razão pura, promotora da verdade, liberdade, autonomia e desenvolvimento humano e cujos conceitos universais, como o Bem, integravam efectiva e sinteticamente todas as partes.

No iluminismo, os diferentes “eus” eram coerentemente unificados numa identidade essencial, central e individual, auto-suficiente, permanente e soberana, verdadeiramente estável e segura, residente no seu núcleo interno e inato, (re)conhecido. Na modernidade, com a disseminação da faculdade intelectual da mente como meio e, também perversamente, dos meios tecnológicos como fim, a racionalidade instrumentaliza-se e degenera.

Mais desloc(aliz)ado e descentralizado, o indivíduo distancia-se de si próprio e abre-se ao estranho. É na relação social, no domínio público, com crescente importância, que a sua identidade se vai (re)formando, primeiro a nível nacional e, mais tarde, a nível internacional. O indivíduo torna-se um ser com uma personalidade cada vez mais fragmentada e (re)constituída heteronomamente.

Com as indústrias culturais globais e as migrações, a oferta de identificações possíveis alarga-se a tal ponto, que, apesar da resistência de algumas ao nível da tradição e da adaptação por outras no âmbito da transição (tal como categorizado por Stuart Hall), permite cruzadas maneiras de ser, incluindo algumas de forma descontinuada e mesmo contraditória, às vezes inconciliável. Apesar desta multiplicidade de possibilidades, muitas identidades são, contudo, assimiladas, homogeneizadas num relativismo cultural, e previsíveis, o que permite a antecipação industrial dos modos de se comportar, associados ao consumo.

A personalidade dos indivíduos é rebaixada, estigmatizada, amputada, sujeita à instalação de complexos enquanto são estimulados traços de competição, agressividade e brutalidade – um retrocesso ao nível da infantilidade, irracionalidade e mesmo barbaridade. A sua auto-imagem é depreciada, as suas características abafadas, com oferta prazerosa, que o mantém adormecido, seduzido e, acima de tudo, ‘convenienetemente’ passivo e satisfeito com a sua “chupeta electrónica”.

Ao mesmo tempo que a sua dimensão interna, da auto-regulação, é obscurecida, a externa, dos lugares objectivamente ocupados, é exaltada. Restringe-se a personalidade interior, autónoma, e sublima-se a exterior, heterónoma. Limita-se a realidade psíquica ao mesmo tempo que se alarga o leque de variedades sociais, aumentando a instabilidade, insegurança e impermanência de um “eu”, cada vez mais desagregado e dependente.

Com a falta de condições para a expressão de identidades, esta é substituída pela política da diferença. Se antes alguém era definido pela sua classe ou nacionalidade, agora pode sê-lo pelo género, raça ou ideologia. Caracterizações variáveis e incompletas, dado o continuo “bombardeamento” de novas propostas apresentadas pelos “media”, onde procura, compulsivamente, gratificação para a sua carência interna, universo do qual se desvincula cada vez mais.

Afastado se si mesmo e da relação presencial com outrem, em lugares familiares, o indivíduo é conduzido para outros cada vez mais distantes, representados pela mediação tecnológica, na qual acredita e, fascinado, abusa. Assim, o sub-sistema cultural e mediático, a par do político e do económico, intermedeia cada vez mais a realidade do dia-a-dia.

Embora com origem na vida orgânica, a burocracia, o dinheiro e a técnica evidenciaram-se e os seus líderes e especialistas destacaram-se. Aos poucos contribuíram para a autonomização do Sistema (capitalista) que reproduzem e com tanta eficácia que não apenas tem vindo a substituir a sua fonte, a lifeworld, como existe o perigo de a dissipar. De simulação do mundo real, o signo, converte-se num simulacro, sem referente.

O Sistema copiou tão credivelmente a realidade que gerou a confusão e se impôs ao original. Aquela que é a parte supre agora o todo. Uma equivalência perigosa e redutora, pois não integra todas as particularidades. Eis o problema da relação vicária entre o todo e as partes, em ambos os sentidos, tal como (pro)posto por Theodor Adorno, ilustrado pelas canções com os seus refrões ou as ideias críticas interpretadas segundo outras mais gerais.

A independência e poder do Sistema é tal que ele não só se reflecte na vida quotidiana como a coloniza, explora e domina. Os colonizadores infiltram-se nos campos comunitários, penetrando-o e viol(ent)ando os colonizados - uma agressão para a qual a indústria cultural, através do entretenimento, oferece não apenas ‘socialização’, através do desporto competitivo, por exemplo, mas também “alívio”, como através das séries de humor.

Os que se diferenciaram, as minorias, transformam-se através do Sistema, que as sobre-representa, maiorias poderosas. Pelo contrário, as maiorias - pobres, desfavorecidos ou cuidadores - por exemplo, são sub-representadas, nomeadamente nos órgãos de Comunicação Social. A parte, minoritária, ao ser, enganosamente, identificada com o todo, a maioria, faz alargar o fosso entre a lifeworld e o Sistema e gera uma falsa consonância.

Contudo, nem todos foram assimilados, como escreveu Stuar Hall, e hoje grupos sub-representados no espaço público simbólico reivindicam a sua participação pública. Trata-se de um sucedânea da luta de classes sociais, apoiada pelos sub-sistemas, tendo em vista interesses comerciais, que advêm da formação de grandes audiências, seja ao nível da política ou dos “media”, novos ou tradicionais.

São largas camadas da população que se sentem à parte dos sub-sistemas. Ignoradas, são conduzidas a um exílio forçado, a uma marginalização num sistema que conquista cada vez mais centralidade. São seres humanos silenciados e discriminados pelos “media”, com a supremacia dada a quem possui Know-how e se graduou.

Se por um lado o sistema acaba bloqueado em curto-circuito, por outro a própria vida real também, uma vez que a linguagem, agora usada para o criticar, não o atinge. Sinal da cisão são as expressões usadas no quotidiano, “Eles”, e no âmbito dos sub-sistemas a ideia de um “Outro”, para o qual são remetidas as partes, deste modo cada vez mais distanciadas.

A periferia, que é o mundo dos acontecimentos, das coisas e da co-presença, é, pois, desautorizada por um mundo artificial, planeado, de pseudo-acontecimentos, de signos e de seres ausentes. Uma realidade virtual, aparente, de (pré)conceitos, imagens e hiper-realidade, suficientemente atractiva, no entanto, para que seja o público a desejar a sua escravização. Uma condescendência possível dada a fabricação pela própria indústria cultural, não apenas dos produtos culturais mas também dos gostos da audiência.

Ao contrário da auto-propaganda, de que encarna a liberdade, democraticidade, tolerância e novidade, a indústria cultural elimina qualquer possibilidade de risco ao nível da alta cultura, inovadora, criativa, autónoma e diferente. Uma forma de arte heterogénea que preserva, livremente, a tensão (entre a parte e o todo, a forma e o conteúdo, as regras e a individualidade) mantém a complexidade dialéctica, a dissonância e a melodia.

Pelo contrário, na baixa cultura a tensão é substituída pela gratificação sensorial imediata, através de uma linguagem previamente formatada de acordo com as normas de sucesso comercial da indústria, rápida e facilmente reconhecida, em fórmulas repetidas em que o conflito é resolvido leve e harmoniosamente, prescindindo de qualquer esforço intelectual, próximo da banalidade e longe de qualquer “aura” de autor(idade).

A lógica do Sistema, conservadora, violenta e mercantilista, é exposta em doses residuais, como um veneno que, homeopaticamente, elimine a malignidade do organismo. É mostrada para que possa ser ocultada e ridicularizada, em pequenas doses (de humor) que, assim, a absorve, neutraliza ou anula e faz a alternativa, o heterogéneo, que ameaça o estabelecido, parecer irreal, impossível, indesejável ou impensável. Reitera, assim, a ideia de que o Sistema é a encarnação da liberdade e de que não pode ser alterado sem a perda da livre expressão.

Ao contrário do discurso retórico, os Golias reduzem as oportunidades de expressão, cuja igualdade e liberdade são inerentes aos sistemas democráticos, uma repressão dissimulada, enquanto os sujeitos, submetidos aos objectos e enfraquecidos na identidade e na razão, consomem os mesmos programas reduzindo cada vez mais a diferença.

A indústria, que é a mesma, cria, além dos produtos, os próprios meios de comunicação e as comunidades de audiências, como canais de distribuição para os seus produtos. É o exemplo da Web e das redes sociais. No caso mais concreto da Web 2.0, em que se difundiram promessas de ultrapassar as desigualdades mesmo no off line, com a celebração do acesso e participação, Lincoln Dahlberg verificou o contrário.

O cientista consolidou a ideia da sobreposição do sistema, neste caso, on line, em relação à vida real, off line. São os que possuem maior estatuto e capital (social, educacional, digital, etc.) os que mais vantagens retiram das oportunidades do novo medium. Enquanto isso, largas camadas da população nem sequer têm as condições mínimas para o acesso, como infra-estruturas, electricidade e equipamento, tempo ou competência.

Quanto à possibilidade de participação esta também não se verificou. Dos que têm acesso, a maioria limita-se a consumir, reproduzir ou imitar os conteúdos difundidos pelos media tradicionais. Mesmo no universo da blogosfera, tida como exemplar neste campo, são muito poucos os que se conseguem transformar em «vloggers», aqueles que não apenas disseminam as mensagens dos grupos do “mainstream”, mas, além de fazerem “uploads” e, portanto, produzirem efectivamente algo de novo e diferente, também são vistos por uma audiência significativa.

A falta destas duas condições básicas mostra o quanto a desigualdade é, antes de mais, estrutural e que a insistência na ideia de que a Web 2.0, com as suas potencialidades ao nível da interactividade, do trabalho em rede e da geração de conteúdo, iria permitir ultrapassar as barreiras é enganosa. Para o autor, ela não só não diminuiu a separação, como além de a manter a reforçou. Aqui, a exclusão, a invisibilidade ou silenciamento, agravam-se e as diferenças de poder acentuam-se.

Além do acesso e da participação, as disparidades verificam-se desde logo ao nível da propriedade dos -significativos - “domínios”, cujo valor da aquisição a torna impensável para um cidadão comum. Posse, que está, assim, cada vez mais concentrada nas mãos de poucas corporações de grandes dimensões e que determina, desde logo, o controlo do espaço digital, nomeadamente através dos termos de uso, das licenças e dos códigos.

Numa economia da atenção, como a digital, os proprietários dos domínios têm o poder de decidir se e quando pretendem ser vistos, usando estratégias como os «floggers», «bloggers» que são pagos, sem conhecimento do público, para publicitar produtos ou serviços de determinadas empresas, ao passo que os usuários estão a ser monotorizados, vigiados e policiados nas suas pesquisas, compras e perfis, sendo estes vendidos a empresas de publicidade para marketing cada vez mais dirigido.

Enquanto uns controlam, armazenando mesmo registos de informação privada, contidas nos – significativos – “cadastros”, outros são vistos e fiscalizados, mesmo pelos empregadores. Contudo, além deste desnível de poder no âmbito da atenção e vigilância também se verifica tal fosso ao nível da exploração já que todo o trabalho de publicação em rede, feito voluntariamente, é expropriado, pois pertence aos proprietários dos sistemas que, discretamente, parecem mudos e invisíveis.

Assim, são formadas, pois, as grandes audiências, baseadas nas mesmas fontes, repercutindo as vozes já dominantes – recorde-se que em canais como o Youtube, apesar da menor presença de conteúdos de meios profissionais comerciais são estes os mais vistos – que fazem o próprio trabalho de retransmissão e que, além de serem objecto de “outsourcing” e “crowdsourcing” - o que, segundo Lincoln, são mais novas linhas de montagem digital do que novas oportunidades de emprego, como é publicitado – se consomem, em última instância, a si próprios.

O poder de produzir audiências e de lhes dirigir os desejos, criando um pensamento homogéneo, como referia Adorno, está agora tão ou mais presente no sistema digital, onde se evidencia o fascínio pela (facilidade da linguagem) técnica. Lincoln Dahlberg mostra que os argumentos dos entusiastas, pouco críticos, não se têm verificado. No caso das escolhas, por exemplo, estas mostram ser, na verdade, falsas escolhas, além de irracionais e previsíveis.

Em vez do reequilíbrio, o particular e diferente, seja nas línguas seja nos grupos, foi relegado ao “enclave”, antecâmara do extermínio. As línguas nacionais, em vez de se expandirem, foram “eclipsadas” pelas dominantes no sistema. Ao nível grupal os já privilegiados adiantaram-se ainda mais: homens, jovens, ocidentais e móveis.

O desnível entre os especialistas, activos e produtores, e os ignorantes, passivos e consumidores, aumentou; o hiato entre o Sistema, agora digital, e a lifeworld expandiu-se, alastrando o controlo, o predomínio, a supremacia sobre os mais necessitados. Os pobres, que sustentam o sistema, mesmo em bairros de lata ou em campos de refugiados, são os que dele são afastados e ocultados. O diferente, genuína expressão da vida, é suprimido por uma suposta consonância irreal.

Ao discurso diverso e comum do dia-a-dia - alternativo, comunitário, cooperativo e pacifista – sobrepõe-se um discurso instituído, capitalista, neo-liberal e individualista, de líderes e especialistas. São estes que estruturam a agenda digital, dominada por significados consumistas, competitivos e agressivos que obscurecem o diverso.

O desejo de distinção, de identificação, forçada muitas vezes, com um “Nós” central em detrimento do “Outro” periférico, amplia a divisão, entre os adaptados ao Sistema e os que, apesar do desprezo, permanecem fiéis à sua identidade e práticas culturais. Erguendo barreiras, nomeadamente normativas e legais, que salientam ainda mais não só a desconexão mas também a coersão, bem longe da coesão dos tempos antigos.

O poder, ligado ao verbo, constitui mais uma questão política do que técnica. Contudo, Dahlberg defende que esta, ao contrário das outras áreas de divisão, é reversível. O autor acredita que o reequilíbrio se fará através de uma contestação radical ao nível do contra-discurso. Um activismo contra-hegemónico que desafie a divisão de poder-discurso, central na desconexão digital para que os David deixem de ser abusados.

As promessas de uma comunicação democrática, com igualdade de oportunidades e condições livres de expressão, estão ainda por cumprir. A wikipédia, apesar dos ataques a que é sujeita, é uma referência e uma esperança no trabalho colaborativo, cooperativo, voluntária, independente, de uma plataforma mais livre, aberta e disponível tendo em vista o Bem Comum. Mas existem outras que é preciso ocupar, no âmbito de um activismo digital.

Está em causa a equidade, ao nível legal e de dignidade, e a liberdade para expressar as identidades, diferenciadas como é próprio dos Seres Humanos, onde cada um possa ser a parte específica que contribui, com a riqueza da sua diferença, para o todo comum. Para tal, é necessário desbloquear os fluxos de informação, em curto-circuito, e fazê-la circular tanto do sistema para lifewold como do off line para o on line, reconciliando-os.

Aquilo que até ao momento tem servido, perversamente, para dividir, oprimir e destruir - a razão degenerada, a linguagem totalitária, a significação mediática distorcida – pode doravante servir para libertar, passando a reunir num todo, verdadeiramente sintético, integral, que represente e inclua cada uma das partes. Uma comunicação racional, pura, desinteressada, que una, autónoma e universalmente, e propicie, como defende Habermas, a emancipação social.

À semelhança da razão, também a ética degenerou. De uma ética universal e impessoal, independente, mal compreendida ou interpretada, resultou num distanciamento e separação, com repercussões também na área jornalística, dominando até aqui, motivado pela auto-defesa, um modelo de objectividade, neutralidade e imparcialidade, operacionalizado na mera observação, indiferente.

Uma ética racional e monológica, livre e autónoma, como a iluminista, transformou-se numa desvinculação, num afastamento. Os modernos não entenderam - ou não lhes foi conveniente por motivações mercadológicos de criação de audiências massivas, as grandes maiorias, através da desideologização - que a tomada de posição não significa parcialidade. Pelo contrário, a marca de um sujeito que, desinteressadamente, defende a Justiça, a Lei, o Bem, a Verdade, está ao serviço do geral, do todo, do comum e não dos interesses, conveniências ou inclinações de qualquer parte.

A ética do cuidado tem vindo a apresentar um modelo complementar, senão alternativo, ao dominante, propondo a expressão da subjectividade. Os sujeitos não apenas devem ter e manter como também explicitar as suas ligações, mesmo ao nível profissional. O desafio é, agora, reaproximar, o que, no âmbito da imprensa, se traduz pela reconexão entre jornalistas e audiência - uma das reivindicações mais fortes do jornalismo público, quase a completar 20 anos.

Este jornalismo, também designado de jornalismo cívico, defende ainda a participação pública, o envolvimento dos cidadãos nos temas colectivos. Embora seja difícil propor aos colonos, que ainda se estão a desenvolver, que se envolvam no processo de democratização, a ética do cuidado propõe que sejam estes jornalistas a dar o exemplo e a religarem-se às minorias excluídas da representação pública dominante.

Uma vez que o jornalismo público pugna pela deliberação, os defensores da ética do cuidado advogam que deve ser (re)examinado, discutido e decidido, afinal, quem mais necessita e merece de atenção pública – que histórias narrar, que fontes escutar, que ideias escolher, como relatar os acontecimentos. Os cuidadores são, sem dúvida, para as autoras Linda Steiner e Chad Okrusch, quem mais deve ser ouvido e tratado com atenção e cuidado. Cuidar de quem cuida é um tema público, sustentam.

Tal significa pesquisar, seleccionar e publicar de forma cuidadosa as pessoas, seja como fontes, como sujeitos centrais das notícias ou leitores, ouvintes, telespectadores ou usuários. Também o ouvir, dar atenção, escutar, zelosamente, implica retirar os que são habitualmente sub-representados do isolamento, torná-los audíveis e visíveis, promovendo uma verdadeira integração no sistema mediático.

Os mais discriminados pelos “media” são, por norma, quem trabalha na esfera privada, voluntariamente ou com uma baixa remuneração, embora com funções de grande exigência em termos de tempo e dedicação no cuidado e atenção dada a outros seres humanos, em sofrimento, ou na esfera pública, em profissões com grupos pequenos, como enfermagem ou docência, com relacionamento presencial. São habitualmente actividades mais generosas e em que se usa um vocabulário também mais afectuoso.

Tratar atenta, cuidada e correctamente as pessoas; restabelecer os laços afectivos; dar importância não apenas ao factual mas também às relações humanas; valorizar o vínculo ao colectivo, a responsabilidade social; o carinho, a preocupação, a compreensão pelo outro são algumas das propostas da ética do cuidado – valores que podem e devem ser aplicados não apenas à esfera íntima mas igualmente à esfera pública não só a nível nacional como igualmente a nível transnacional.

Numa altura em que o público está cada vez mais consciente do sofrimento humano, em que se constituem grupos, independentemente dos lugares, e se verifica mesmo entre os jornalistas uma vontade de harmonizar a sua identidade pessoal, ansiosa por cuidar do outro, com a profissional, no âmbito da qual tal tem sido impedido, a ética do cuidado apresenta a caridade ou compaixão como virtude, não a esconder mas a desenvolver, nomeadamente como forma de conhecimento e, mais especificamente, como rotina de produção informativa.

Está em causa a versão politizada da ética do cuidado, transitando da ênfase dos direitos para os deveres profissionais, do interesse, disfarçado de neutralidade, para o desinteresse puro, sem medo da aproximação, física ou psicológica, da barbaridade para a verdadeira civilização, humana. Um jornalismo que em vez de explorar o sofrimento, alheio, com intuitos lucrativos, prefira dar espaço e tempo a quem se ocupa em aliviá-lo e faça novas e mais perguntas sobre as propostas políticas para a sua resolução.

Desta forma poderá ter consequências positivas sobre jornalistas, fontes e público, incentivando a que a benevolência se transforme em efectiva beneficiência e acção social. Um contributo para a ajuda mútua a nível mundial, de forma a atingir uma política global de solidariedade colectiva, um estágio de desenvolvimento moral pós-convencional em que a preocupação pelo outro se expande a nível universal, num amor à humanidade - o estágio de maior desenvolvimento, de acordo com Kohlberg, atingido pelos jornalistas cívicos e de investigação.

Segundo as autoras, Linda Steiner e Chad Okrusch, a ética do cuidado já contém a da justiça, está integrada no jornalismo público e deve fazer parte da ética da virtude. Uma mudança de atitude tendo em vista uma unificação e agregação das partes até aqui subordinadas, marginalizadas e desautorizadas que restaure o equilíbrio, a igualdade, a unidade, a comunicação e a integração, verdadeira, autónoma, livre e racional, mais purificada, agora em tempos de pós-modernidade global, digital e interdependente.
 
Bibliografia:DAHLBERG, Lincoln – Web 2.0 divides: A critical political economy. University of Queensland. s/d. HALL, Stuart – A identidade cultural na pós-modernidade. D&A Ed. Pág. 7-97. LAYDER, Derek (1994) – “Habermas`s Lifeworld and System” in Understanding social theory. Sage. 2005. Pág. 213-238. STEINER, Linda; OKRUSCH, Chad – Care as a virtue for journalists in Journal of Mass Media Ethics, 2006, 21, pág. 102-122. TAYLOR, Paul; HARRIS, Jan – Critical theories of Mass Media: Then en Now Maidenhed. Open University Press. 2008. Pág. 62-84.

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