quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Fazer gazetas


À Independência política nacional de há 370 anos, que hoje se comemora, esteve ligado o nascimento da imprensa portuguesa. Oportunidade para lembrar, além das folhas volantes e das "Relações", o papel das Gazetas da Restauração.

Texto Débora Cunha

No início do séc. XVII, depois de Portugal perder a sua independência, em 1580, e fundir-se no Império Espanhol, Manuel Serevim de Faria, conhecido por Francisco de Abreu (pseudónimo), mandara imprimir duas Relações extraídas de uma série de trinta e um. A primeira, impressa em Lisboa, em 1626, e reimpressa em Braga, em 1627. A segunda fora impressa em Évora em 1628, numa época onde a invenção de Gutenberg permitiu os primeiros passos noticiosos e multitemáticos portugueses impressos. São os registos documentais mais antigos de Portugal. Estas Relações muito contribuíram para a edificação da reportagem enquanto género jornalístico, pois baseavam-se no relato, de maior ou menor extensão, de um único acontecimento.

Folhas

No século XV e XVI começaram a surgir, um pouco por toda a Europa, folhas noticiosas ocasionais de diferentes tipos e formatos e com diversas denominações: folhas volantes, notícias, relação, mercúrios, carta, manifesto, cópia, etc.. Por vezes constituídas por uma ou várias folhas agrafadas, com ou sem frontispício. Outras foram publicadas sob a forma de livro. Legais ou clandestinas, elas podem ser vistas como uma forma de jornalismo de “reportagem” que antecipa o jornalismo moderno. As primeiras folhas volantes falavam apenas de um único acontecimento. Porém, a partir do final do século XVI, começaram a surgir as primeiras colectâneas de notícias, recolhidas nas folhas ocasionais. Essas colectâneas, que gradualmente adquiriram periodicidade regular, foram os antepassados dos actuais jornais.
As folhas noticiosas ocasionais terão surgido em Itália, concretamente em Bolonha, Veneza e Génova, espalhando-se rapidamente por toda a Europa, sendo vendidas em feiras e lugares concorridos. Em Portugal, tiveram o nome de Relações, no sentido de serem um relato de um acontecimento, como o caso dos naufrágios, por exemplo. Os temas das folhas ocasionais eram variados: política, comércio, fenómenos insólitos e curiosos, acontecimentos sociais, crimes e criminosos, calamidades, batalhas, etc. Tengarrinha fez um levantamento das relações portuguesas publicadas, entre 1555 e 1641, concluindo que as temáticas mais comuns eram expansões marítimas, naufrágios, relações com os povos e descrições de terras distantes e proselitismo religioso (43.7%); assuntos religiosos (18.8%); notícias da corte (18.8%); acontecimentos gerais do país e estrangeiro (9.4%); batalhas (6.2%) e descrição de Lisboa (3.1%). Tendo em conta a análise de José Manuel Tengarrinha, é possível dizer que as notícias das Relações já obedeciam a critérios de noticiabilidade idênticos aos contemporâneos, o que acentua a natureza cultural e histórica dos valores-notícia.
As folhas volantes tiveram o mérito de preparar o mercado e a audiência para o jornalismo industrial. Contribuíram para a democratização do acesso à informação, do conhecimento e da cultura e ajudaram a forjar uma consciência europeia.
As folhas ocasionais inicialmente construídas por uma única folha de pequena dimensão (15x20cm), transcreviam um única “notícia”. Esta amostragem não passava as oito folhas. As notícias eram classificadas como “notícias sérias”, “notícias populares”, “sensacionalistas” e “notícias” que, pelo seu conteúdo, tinham manifesto interesse público, apesar de se referirem a calamidades. As folhas volantes muito se assemelhavam a um pequeno livro, com frontispício ilustrado. Pouco tempo depois, apareceram folhas volantes de maior dimensão, com mais de 20 páginas, que abordavam aspectos da vida colectiva. Os relatos eram um misto de crónicas e reportagens, onde a narrativa tendia a ser cronológica. Podiam ser escritas em prosa ou em verso. Uma das principais características das folhas volantes era o facto de as notícias serem traduzidas em vários idiomas, o que ajudou a Europa a tornar-se num espaço de referência para os cidadãos do Velho Continente.

Gazetas

A Europa do século XVIII sujeita a transformações, instabilidades e mudanças, necessitava de informação. Por isso, havia não só receptividade para as notícias, mas também matéria-prima informativa suficiente para sustentar o aparecimento destes primeiros jornais. As Gazetas aparecem, pela primeira vez, em França com a publicação de “La Gazette François”, de Marçellin Allard e Pierre Chevalier, em 1604. A primeira gazeta portuguesa periódica surgiu em 1641, quinze anos depois da publicação da primeira Relação de Manuel Severim de Faria, e tinha o nome de “Gazeta em Que se Relatam as Novas Todas, Que Ouve nesta Corte, e Que Vieram de Várias Partes do Mês de Novembro de 1641” e foi publicada em Lisboa por Manuel de Galhegos (de 8 a 12 páginas com 20x14cm).
As gazetas apresentam uma perocidade definida e frequente, com notícias seleccionadas, escritas sob a forma de textos simples e escorreitos, datados e geograficamente localizados. Por vezes, com menção directa às fontes, a narrativa, geralmente, é desenvolvida de uma forma cronológica. A primeira página titulada e, nem sempre, ilustrada, refere a data e o local da impressão/edição e o nome do editor. Inclui várias notícias sobre diferentes assuntos, paginadas a uma coluna, sem qualquer ordem lógica. As notícias ora eram obtidas por tradução de gazetas estrangeiras ora por produção própria. A perocidade normalmente semanal e depois bi e tri-semanal, até chegar a diária. A gazeta permitiu a “especialização” de cargos, existindo profissionais dedicados em exclusivo à redacção, paginação e impressão, e a implementação de custo e lucro, incluindo anúncios pagos. As gazetas resumiam um conteúdo unicamente noticioso e neutral. Incluíam notícias orientadas e seleccionadas para servirem determinadas causas, excertos argumentativos, persuasivos e opinativos, por vezes simplesmente propagandísticos. Noutros casos as gazetas perseguiam objectivos religiosos e moralistas.

Relações

As Relações - impressas - apresentam-se em papel de linho e em formato A5, aproximadamente. Não possuem capa individualizada e dura. O design é simples e, em tudo, semelhante aos livros da época. Com frontispício onde surge o título, o nome do autor, uma gravura xilográfica ilustrativa, a data e local de impressão e o impressor. A segunda página insere as licenças e as taxas. A partir da terceira página surgem as notícias, impressas em uma só coluna, sem qualquer intervalo entre umas e outras. O texto noticioso começa com uma letra capitular (o tipo de letra predominante é o gótico) e em itálico as licenças, separando graficamente o texto “administrativo” do conteúdo noticioso. As citações directas, várias em latim, são apresentadas em itálico. Os parágrafos assinalam-se com uma tabulação de 2/3 espaços para a direita. A informação era segmentada por países, organização das secções do jornal moderno. Não há publicidade. As Relações eram de ordem racional, com clareza, repouso para o olhar e sobriedade gráfica. Destinavam-se a um público ponderado, com tempo para consumir a informação e reflectir racionalmente sobre ela.
Segundo Lanciani, as relações de naufrágios portuguesas dos séculos XVI e XVII sofreram a influência estrutural de crónicas de viagens medievais, seguindo cânones retóricos já existentes: exordium, proposito, narratio e conclusio. Os dois primeiros formam, na retórica clássica, a introdução a um discurso, o espaço apropriado para se explicar o respectivo tema e finalidade.
A noção de hierarquia social é vincada pelo facto de, nas Relações, apenas os homens “grandes” serem nomeados pelos nomes e cargos, a que ainda se adicionam adjectivos honrosos. Os outros diluem-se no anonimato, sendo que os nativos tendem a ser apresentados com enquadramentos negativos, contrastando com a adjectivação positiva com que são catalogados os portugueses, especialmente os nobres. Inclusive, quando se referem os nativos, os autores das Relações, tendem a vincar a oposição "nós" (portugueses, superiores) e "eles (inferiores, incivilizados). As histórias das Relações são marcadamente masculinas. As mulheres, nas poucas vezes que são mencionadas, são representadas como seres frágeis e dependentes dos homens, tal como as crianças. O discurso das Relações pode classificar-se como tendo uma dimensão, não apenas cultural, mas também ideológica, reforçando, simbolicamente, as relações sociais de poder e dominação.
As Relações podem considerar-se exemplos do jornalismo emergente. Sofrendo a influência das crónicas medievais, já elas “quase-reportagens”, as Relações constituem-se como reportagens de acontecimentos notáveis, recentes e dramáticos e foram elaboradas para terem ampla difusão pública. Os relatos jornalísticos, ontem como hoje, são histórias que indicam o mundo real e as circunstâncias de cada época, por vezes atentando mais no particular do que no geral, naquilo que afecta directa e quotidianamente as pessoas. “O jornalismo é uma história do mundo continuada, é um curriculum da humanidade”. Quando começa o jornalismo em Portugal? É uma questão difícil de responder, apesar de ser possível datar o aparecimento de algumas publicações, periódicas ou ocasionais. No entanto, as Relações de Manuel Severim de Faria são os primeiros indícios de práticas jornalísticas em Portugal.

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quarta-feira, 14 de julho de 2010

Como fazer IS


Em Junho de 2007, na preparação do A&A, realizámos uma (tele)conferência sobre Informação Solidária (IS). De Brasília, Carlos Cardoso Aveline orienta sobre que temas tratar e que meios usar. Conselhos sistematizados para todos aqueles que queiram seguir esta corrente, recuperados num mês em que se assinala o nosso terceiro ano de publicação regular.



Texto Carlos Cardoso Aveline fotografia Débora Cunha



Áreas temáticas típicas:

Notícias do dia, contextualizadas e vistas do ponto de vista de uma nova ética;
Auto-conhecimento e como chegar a ele;
O desdobramento diário e mensal da crise ecológica;
Ações práticas de economia solidária e a proposta solidária em seu conjunto;
Vida simples, simplicidade voluntária;
Ações de reflorestamento e preservação;
Mudança climática em escala global e local;
Ética em cada aspecto da vida diária;
Alimentação natural;

Cooperativismo;
Ética na política e na administração pública;
Democracia participativa;
Outros campos temáticos que reforcem o mesmo compromisso solidário.


Instrumentos e modos de ação:


Pequenos jornais e revistas, em papel;
Revistas eletrônicas;
Websites combinando temas cotidianos e notícias do dia, com questões perenes, com linha editorial aberta às questões planetárias;
Os websites podem ter apoio de boletins impressos e de boletins eletrônicos cuja função é levar seus temas de destaque para um universo significativo de pessoas, a que se pode chamar de “área de expansão da influência”.
Uma vez reconhecidos pela comunidade, os websites podem obter o patrocínio de empresas não poluentes e com um compromisso de ética social. Além disso, podem vender ou conceder espaços de anúncios e propaganda, especialmente para empresas e ações de economia solidária.
Na sequência de uma experiência em pequena escala, não é impossível organizar uma cooperativa de jornalistas e estudantes de comunicação social. Essa cooperativa pode reunir tanto produtores como consumidores de informação.
Nos meios convencionais de comunicação social, pode-se estimular políticas participativas como conselhos de redação - reunindo os jornalistas – e conselhos de leitores/ouvintes/telespectadores. Os conselhos de consumidores de informação podem opinar e discutir o rumo dos meios de comunicação.


Segredo da ação durável:


Desde o início, é preciso lembrar, ao organizar-se uma iniciativa prática de comunicação social solidária, que as relações solidárias de produção não significam necessariamente uma ausência de liderança. Ao contrário. Deve haver lideranças claras; mas elas devem responder pelo que fazem; devem atuar com transparência; devem saber ouvir; devem dar um exemplo de ética e de motivação nobre. Caso contrário, lutas psicológicas pelo poder criarão “relações neuróticas de produção”. Nessa situação, a competição destrutiva interna transforma a solidariedade em um mero jogo de aparências, em uma fachada para enganar o público e obter prestígio imerecido.
A qualidade interior da motivação das pessoas é, pois, um tema gerador que necessita ser observado e trabalhado individualmente, mas também pode ser estimulado e discutido (impessoalmente) em grupo. Cada um sabe de si. Ninguém é juiz dos outros. Mas ações erradas devem ser discutidas e avaliadas do ponto de vista ético.
O processo de motivação e a sua clareza e eficácia interior é determinante do êxito ou fracasso no mundo. Não basta uma motivação forte: ela deve ser elevada e legítima. Não basta uma motivação elevada: ela deve ser intensa, e capaz de contagiar no tempo adequado mais pessoas ― talvez em grande parte pelo exemplo.
É preciso plantar a boa semente e perseverar no plantio até que as sementes germinem em seu próprio ritmo. Não há germinação saudável que ocorra instantaneamente. O que está destinado a durar surge sem qualquer noção de pressa de curto prazo, embora possa ter grande intensidade, em algumas ocasiões.

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quarta-feira, 6 de maio de 2009

IS em curso


Texto Dina Cristo Fotografia Débora Cunha


Estão abertas as inscrições para o primeiro curso livre de Informação Solidária (IS). A acção de formação terá lugar dia 20 de Maio, entre as 16h e as 18h 30m, na sala nove da
ESE em Coimbra e será orientada pela editora do Aqui & Agora.
Próximo de assinalar os dois anos sobre a
I conferência sobre IS, o grupo de discussão In_discretos@hotmail.com, promotor da iniciativa, recebe até dia 12 (às 12h) as candidaturas sob a forma de um texto sobre IS.
Com uma vertente experimental, o módulo de iniciação - gratuito e limitado a 12 estudantes, sujeitos a selecção - contextualiza, caracteriza e exemplifica a IS. O objectivo é preparar alguns dos alunos com mais sensibilidade para um jornalismo de cariz humano, ético e colaborativo.

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